{"id":17292,"date":"2014-03-07T14:58:03","date_gmt":"2014-03-07T14:58:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=17292"},"modified":"2014-03-25T15:09:49","modified_gmt":"2014-03-25T15:09:49","slug":"combinacao-perigosa-violencia-na-gravidez-e-vih-na-africa-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/03\/ultimas-noticias\/combinacao-perigosa-violencia-na-gravidez-e-vih-na-africa-sul\/","title":{"rendered":"Combina\u00e7\u00e3o Perigosa: Viol\u00eancia na Gravidez e VIH na \u00c1frica do Sul"},"content":{"rendered":"<p>JOANESBURGO, 7 de Mar\u00e7o de 2014 (IPS) &#8211; Quando Phumzile Khoza* chegou \u00e0 cl\u00ednica de cuidados pr\u00e9-natais num dia gelado em Agosto de 2013 sentia-se apreensiva. N\u00e3o sobre os procedimentos m\u00e9dicos \u2013 j\u00e1 tinha dois filhos \u2013 mas devido ao facto de ter que falar com a enfermeira.<\/p>\n<p><!--more-->Era a sua terceira gravidez a viver com o VIH, mas a primeira com um novo parceiro de quem escondeu o seu estado de seropositiva nos \u00faltimos dois anos.<\/p>\n<p>Esta gravidez tinha sido dif\u00edcil desde o princ\u00edpio. Khoza tinha tentado convencer o parceiro a ir com ela fazer o teste de VIH mas ele recusara. Sem o aconselhamento que \u00e9 facultado aos casais, Khoza ficou com medo de revelar a sua condi\u00e7\u00e3o, e era cada vez mais dif\u00edcil tomar os medicamentos di\u00e1rios antiretrov\u00edricos (ARV) \u00e0s escondidas.<\/p>\n<p>O parceiro de Khosa esbofoteava-a repetidamente, dava-lhe murros no est\u00f4mago e pontap\u00e9s durante as discuss\u00f5es. Khoza tinha receio que a situa\u00e7\u00e3o poderia piorar se ele soubesse que ela<i> <\/i>era seropositiva.<\/p>\n<p>Embora precisasse de ajuda, Khoza imaginava que as enfermeiras n\u00e3o teriam tempo para conversar com ela sobre a sua situa\u00e7\u00e3o complicada. Ainda por cima, tinha visto como as enfermeiras ficavam zangadas com as mulheres que n\u00e3o completavam o tratamento anti-retrov\u00edrico.<\/p>\n<p>Ao olhar para essa visita pr\u00e9-natal, Khoza considerou: \u201cEstava num grande <i>stress<\/i> devido \u00e0 forma como vivia a minha vida, preocupada com o meu passado e com a minha gravidez. E n\u00e3o tinha ningu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p><b>N\u00fameros chocantes <\/b><\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Khoza \u00e9 cada vez mais comum. Estima-se que uma em cada quatro mulheres sul-africanas conhecem a viol\u00eancia \u00edntima cometida pelo parceiro nos 12 meses que precedem o nascimento de um filho.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia durante a gravidez est\u00e1 associada \u00e0 perda de gravidez, aborto espont\u00e2neo e morte neonatal, taxas de depress\u00e3o p\u00f3s-parto mais elevadas e poucos benef\u00edcios para os beb\u00e9s.<\/p>\n<p>Durante uma revis\u00e3o sistem\u00e1tica da literatura, o Dr Simukai Shamu, um especialista em viol\u00eancia junto do Conselho de Investiga\u00e7\u00e3o M\u00e9dica, constatou que a preval\u00eancia da viol\u00eancia entre as mulheres gr\u00e1vidas em \u00c1frica \u00e9 das mais altas registadas globalmente, e que um dos principais factores de risco desta viol\u00eancia \u00e9 a infec\u00e7\u00e3o pelo VIH.<\/p>\n<p>\u201cUma vez que a maior parte dos estudos \u00e9 transversal, \u00e9 dif\u00edcil dizer se a viol\u00eancia \u00e9 resultado de exig\u00eancias ou da mudan\u00e7a de vida devido \u00e0 gravidez, ou se a gravidez \u00e9 o resultado da viol\u00eancia,\u201d disse Shamu \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio de 2013, uma equipa do Instituto de Sa\u00fade Reprodutiva e VIH da Wits (Wits RHI) tem estado a entrevistar mulheres que vivem numa situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia em Joanesburgo.<\/p>\n<p>Nataly Woollett, a investigadora principal, afirmou que muitas mulheres descreviam a gravidez como um per\u00edodo de maior viol\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cEm parte devido ao facto de terem de divulgar a sua condi\u00e7\u00e3o de seropositiva, e em parte em resultado dos homens utilizarem a consulta pr\u00e9-natal \u2013 onde \u00e9 praticamente obrigat\u00f3rio fazerem o teste \u2013 como substituto para a sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao VIH, ficam com curiosidade para conhecer os resultados,\u201d explicou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Na mesma cl\u00ednica, a IPS falou com Martha Rampele*, que descreveu a r\u00e1pida escalada de viol\u00eancia que a deixou no hospital aos seis meses da gravidez. \u201cCome\u00e7ou por dizer que eu era idiota e est\u00fapida. Depois estrangulou-me e deixou que o primo me espancasse .\u201d<\/p>\n<p>Ramphele apresentou queixa na pol\u00edcia, mas mais tarde retirou as acusa\u00e7\u00f5es para salvaguardar a sua seguran\u00e7a e estabilidade financeira. Ela suspeitou que a divulga\u00e7\u00e3o da sua condi\u00e7\u00e3o de seropositiva tivesse causado o abuso f\u00edsico, mas n\u00e3o teve a certeza.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m consegue dizer precisamente o que \u00e9 que desencadeia a viol\u00eancia, mas muitas vezes a mistura do <i>stress<\/i> associado \u00e0 gravidez, a din\u00e2mica da altera\u00e7\u00e3o da rela\u00e7\u00e3o de poder e de controlo, aliada a um novo diagn\u00f3stico do VIH, s\u00e3o suficientes para aumentar a tens\u00e3o.<\/p>\n<p><b>A resposta das enfermeiras<\/b><\/p>\n<p>A viol\u00eancia durante a gravidez tem um impacto negativo na sa\u00fade das mulheres seropositivas.<\/p>\n<p>Marieta Booysen, enfermeira s\u00e9nior do Instituto Aurum, uma organiza\u00e7\u00e3o de investiga\u00e7\u00e3o sediada em Joanesburgo, explica que as mulheres gr\u00e1vidas em rela\u00e7\u00f5es violentas s\u00e3o as mais suscept\u00edveis a abandonar o tratamento. \u201cQuando se diz a uma paciente que ela \u00e9 seropositiva mas ela tem medo de revelar a sua condi\u00e7\u00e3o ao parceiro, \u00e9 precisamente essa paciente que vai deixar de tomar os medicamentos mais tarde.\u201d<\/p>\n<p>A equipa da Wits RHI constatou que a maior parte das enfermeiras nos cuidados pr\u00e9-natais que foi entrevistada reconhece que a viol\u00eancia dificulta a ades\u00e3o ao tratamento anti-retrov\u00edrico mas poucas sabem como lidar com esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta resposta inadequada dos cuidados de sa\u00fade pode ser parcialmente atribu\u00edda \u00e0 falta de forma\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m pode reflectir o facto de muitas enfermeiras sofrerem viol\u00eancia em casa e terem medo de responder.<\/p>\n<p>Uma especialista em viol\u00eancia e em VIH sediada na Universidade da Wits, a Dr\u00aa Nicola Christofides, explicou que \u201cas enfermeiras que s\u00e3o afectadas pala viol\u00eancia nas suas pr\u00f3prias vidas [\u2026] ou s\u00e3o muito sens\u00edveis em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da viol\u00eancia na vida das suas pacientes e muito receptivas, ou o oposto, quando efectivamente se encontram num estado de nega\u00e7\u00e3o e n\u00e3o t\u00eam capacidade para ouvir.\u201d<\/p>\n<p>Segundo o projecto Wits RHI, as enfermeiras que prestam cuidados pr\u00e9-natais querem receber forma\u00e7\u00e3o para lidar com a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>A IPS falou com Khoza na cl\u00ednica de cuidados pr\u00e9-natais cinco meses depois de ela ter consultado uma enfermeira do Wits RHI junto do projecto Segura &amp; S\u00e3, que identifica a viol\u00eancia durante a gravidez e faculta aconselhamento individual e referenciamento em tr\u00eas cl\u00ednicas de cuidados pr\u00e9-natais em Joanesburgo.<\/p>\n<p>A enfermeira encaminhou Khoza para o hospital mais pr\u00f3ximo onde s\u00e3o oferecidos cuidados psicol\u00f3gicos e aconselhamento. \u201c\u00c9 bom poder falar sobre coisas dif\u00edceis se houver algu\u00e9m que compreenda a situa\u00e7\u00e3o e forne\u00e7a pistas,\u201d disse Khoza.<\/p>\n<p>Khoza nunca tinha falado acerca da viol\u00eancia na sua vida at\u00e9 \u00e0s visitas pr\u00e9-natais. Uns meses mais tarde separou-se do parceiro agressivo e tenta agora\u00a0 encontar formas de sustentar os filhos.<\/p>\n<p>\u201cAinda sinto <i>stress<\/i> mas isso n\u00e3o est\u00e1 no meu corac\u00e3o. Digo a mim pr\u00f3pria que tudo vai acabar bem, apesar de ser dif\u00edcil,\u201d afirmou Khoza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* O nome foi alterado para proteger a sua seguran\u00e7a<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Factos breves sobre o VIH na \u00c1frica do Sul <\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p>\u2022 18% de preval\u00eancia de VIH em pessoas com idades compreendidas entre os 15-49<\/p>\n<p>\u2022 150.000 mulheres com novos casos de infec\u00e7\u00e3o em 2012<\/p>\n<p>\u2022 14.000 novos casos de infec\u00e7\u00e3o em crian\u00e7as que nasceram em 2012<\/p>\n<p>\u2022 3 milh\u00f5es de mulheres vivem com o HIV<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Fonte: ONUSIDA 2013<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOANESBURGO, 7 de Mar\u00e7o de 2014 (IPS) &#8211; Quando Phumzile Khoza* chegou \u00e0 cl\u00ednica de cuidados pr\u00e9-natais num dia gelado em Agosto de 2013 sentia-se apreensiva. 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