{"id":17308,"date":"2014-03-26T15:20:46","date_gmt":"2014-03-26T15:20:46","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=110165"},"modified":"2014-03-26T15:20:46","modified_gmt":"2014-03-26T15:20:46","slug":"um-paraiso-hondurenho-que-nao-quer-irritar-o-mar-novamente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/03\/ultimas-noticias\/um-paraiso-hondurenho-que-nao-quer-irritar-o-mar-novamente\/","title":{"rendered":"Um para\u00edso hondurenho que n\u00e3o quer irritar o mar novamente"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_110166\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Honduras-barandales-chica-629x419.jpg\"><img class=\" wp-image-110166 \" alt=\"Honduras barandales chica 629x419 Um para\u00edso hondurenho que n\u00e3o quer irritar o mar novamente\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Honduras-barandales-chica-629x419.jpg\" width=\"529\" height=\"319\" title=\"Um para\u00edso hondurenho que n\u00e3o quer irritar o mar novamente\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um dos caminhos de madeira constru\u00eddos pela comunidade de Santa Rosa de Agu\u00e1n, que comunicam as casas com a praia, para preservar as dunas da atividade humana. Foto: Thelma Mej\u00eda\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">Santa Rosa de Agu\u00e1n, Honduras, 26\/3\/2014 \u2013 Na desembocadura do rio Agu\u00e1n, no Caribe hondurenho, uma comunidade gar\u00edfuna, assentada em um para\u00edso natural e a\u00e7oitada h\u00e1 mais de 15 anos pelo furac\u00e3o Mitch, agora d\u00e1 exemplo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. \u201cN\u00e3o queremos irritar novamente o mar, n\u00e3o queremos que aconte\u00e7a de novo o que passamos com o Mitch, que levou muitas casas do povoado, quase todas as que estavam \u00e0 beira-mar\u201d, contou \u00e0 IPS a l\u00edder comunit\u00e1ria Claudina Gamboa, de 35 anos.<\/span><\/p>\n<p>Com locais indescrit\u00edveis, quase como quando chegaram a Honduras os primeiros gar\u00edfunas, vindos da ilha caribenha de S\u00e3o Vicente, o munic\u00edpio de Santa Rosa de Agu\u00e1n, no departamento de Col\u00f3n, foi fundado em 1886 e sua popula\u00e7\u00e3o atual pouco supera os tr\u00eas mil habitantes. Para chegar a este ponto do Caribe central do pa\u00eds, a partir de Tegucigalpa, a IPS atravessou por 12 horas, total ou parcialmente, cinco dos 18 departamentos de Honduras, at\u00e9 chegar a Dos Bocas, 567 quil\u00f4metros a nordeste da capital.<\/p>\n<p>Dessa aldeia em terra firme, uma pequena embarca\u00e7\u00e3o faz a liga\u00e7\u00e3o com Santa Rosa de Agu\u00e1n, assentada sobre a areia, entre o mar e a desembocadura do Agu\u00e1n, cujo nome em gar\u00edfuna significa \u201c\u00e1guas caudalosas\u201d. A metade do caminho em autom\u00f3vel transcorre atrav\u00e9s de p\u00e9ssimas estradas, que se tornam amea\u00e7adoras quando escurece. Mas, ao atravessar o rio, j\u00e1 adentrada a noite, sob um c\u00e9u estrelado e uma brisa marinha acariciando o povo, a travessia chega ao fim e deixa de pesar.<\/p>\n<p>Aqui culminou em 2013 um projeto de recupera\u00e7\u00e3o de dunas, impulsionado pelo Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Desenvolvimento, por interm\u00e9dio do Programa de Pequenas Doa\u00e7\u00f5es (PPD) do Fundo para o Meio Ambiente (GEF), bem como pela Coopera\u00e7\u00e3o Su\u00ed\u00e7a para o Desenvolvimento.<\/p>\n<p>\u00c0 frente do projeto estiveram 40 volunt\u00e1rios da comunidade, na grande maioria mulheres, que visitavam cada morador para conscientizar sobre a import\u00e2ncia de proteger o ambiente e sobre os riscos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica. \u201cEram chamadas de loucas, porque as pessoas acreditavam que quem trabalhava nisso era bobo, mas eu lhes pedia para n\u00e3o fazerem caso e seguirem em frente. Agora temos mais consci\u00eancia e se viu que os ventos j\u00e1 n\u00e3o pegam t\u00e3o forte\u201d, disse \u00e0 IPS Atanasia Ru\u00edz, que foi vice-prefeita do povoado (2008-2014) e sobreviveu ao Mitch.<\/p>\n<p>Ela e Gamboa consideram que as mulheres foram fundamentais em criar consci\u00eancia sobre a mudan\u00e7a clim\u00e1tica e, gra\u00e7as ao seu trabalho, o projeto deixou marcas sobre as areias brancas e nas pessoas do lugar. Agora seus habitantes entendem a import\u00e2ncia de proteger seus sistemas costeiros e conservar as dunas, e aprenderam a se organizar coletivamente para isso, detalhou a l\u00edder comunit\u00e1ria, afirmando que \u201c\u00e9 comovente ver nossas idosas recolhendo lixo para reciclagem\u201d. As dunas atuam como barreiras naturais de prote\u00e7\u00e3o, que impedem que o vento e a \u00e1gua das ondas do mar penetrem com for\u00e7a no povoado quando h\u00e1 eventos naturais.<\/p>\n<p>\u201cQuando o incomodamos, o mar nos mandou a conta. E com o Mitch isto ficou pelado, ficou horr\u00edvel\u201d, recordou Gamboa. Ela disse que alguns foram embora, \u201cdizendo que n\u00e3o poderiam viver aqui, que era muito vulner\u00e1vel e que o mar sempre ia entrar porque j\u00e1 n\u00e3o havia como evitar\u201d. Enquanto mostrava orgulhosa como a vegeta\u00e7\u00e3o come\u00e7a a crescer nas dunas, acrescentou que \u201cn\u00f3s ficamos e, com os conhecimentos que nos deram, sabemos como nos proteger e ao povoado\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_110167\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Honduras-mural-chica.jpg\"><img class=\" wp-image-110167 \" alt=\"Honduras mural chica Um para\u00edso hondurenho que n\u00e3o quer irritar o mar novamente\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/Honduras-mural-chica.jpg\" width=\"540\" height=\"327\" title=\"Um para\u00edso hondurenho que n\u00e3o quer irritar o mar novamente\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O mural de elementos reciclados com os quais os moradores de Santa Rosa de Agu\u00e1n moldaram sua forma de vida e a beleza da mulher gar\u00edfuna, em uma parede do centro comunit\u00e1rio. Foto: Thelma Mej\u00eda\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos dias de outubro de 1998, o ciclone deixou em sua passagem por Honduras cerca de 11 mil mortos e oito mil desaparecidos, junto com enormes danos econ\u00f4micos e de infraestrutura. Santa Rosa de Agu\u00e1n foi especialmente atingida, com ondas de cinco metros de altura. Pelo menos 40 pessoas morreram na comunidade e outras nunca foram encontradas.<\/p>\n<p>A reabilita\u00e7\u00e3o das dunas costeiras incluiu a constru\u00e7\u00e3o de caminhos de madeira sobre a areia para proteg\u00ea-las. Tamb\u00e9m foram demolidas casas de concreto destru\u00eddas pelo Mitch, para que n\u00e3o impedissem a forma\u00e7\u00e3o de dunas. O projeto somou a reciclagem, para limpar o lixo jogado na beira-mar e o que se encontrava nas ruas de areia do munic\u00edpio, cujos habitantes se autodenominam aguane\u00f1os e sa\u00fadam os visitantes com um buiti achuluruni, bem-vindos em gar\u00edfuna.<\/p>\n<p>L\u00edcida Nicolasa G\u00f3mez, uma jovem gar\u00edfuna de 18 anos, prefere ser chamada de Alondra, nome pelo qual \u00e9 conhecida desde crian\u00e7a. \u201cGostei quando me convidaram para o projeto das dunas e da reciclagem, porque est\u00e1vamos desmatando, pisoteando, destruindo a vegeta\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 n\u00e3o fazemos mais isso\u201d, afirmou. \u201cFizemos at\u00e9 um mural em uma das paredes do centro comunit\u00e1rio para registrar o povoado que queremos\u201d, acrescentou com um largo sorriso.<\/p>\n<p>A obra foi feita com restos de pl\u00e1stico, chapas ou tampas de refrigerantes, telas e outros materiais. Nele se v\u00ea a beleza das gar\u00edfunas, a pesca, os cultivos de mandioca e banana, e o mar e o sol radiante que caracterizam o povoado. Tamb\u00e9m est\u00e1 ali o desejo de viver em harmonia com o ambiente, onde as eleva\u00e7\u00f5es de at\u00e9 cinco metros de dep\u00f3sitos de sedimentos do mar se juntam com a desembocadura de um rio cuja bacia faz parte da selva \u00famida tropical hondurenha.<\/p>\n<p>Hugo Galeano, do PPD, contou \u00e0 IPS que a vulnerabilidade em Santa Rosa de Agu\u00e1n se agravou ap\u00f3s a passagem do Mitch, afetando seus meios de vida: pesca, agricultura, pecu\u00e1ria. Para esta comunidade entre duas \u00e1guas, as inunda\u00e7\u00f5es s\u00e3o uma das principais amea\u00e7as para a sobreviv\u00eancia da comunidade, explicou o representante do programa do GEF.<\/p>\n<p>Ricardo Norales, de 80 anos, tem consci\u00eancia disso e assegurou \u00e0 IPS que, embora as dunas e sua vegeta\u00e7\u00e3o cres\u00e7am, \u201ca localiza\u00e7\u00e3o de nossa comunidade continua exposta \u00e0s inclem\u00eancias do tempo\u201d. \u201cCom o projeto vimos que agora o vento n\u00e3o entra t\u00e3o forte em nossas casas, e tampouco o mar como antes. Mas precisamos de maior sustentabilidade nesse tipo de ajuda\u201d, alertou.<\/p>\n<p>De fato, a hist\u00f3ria de Santa Rosa de Agu\u00e1n est\u00e1 marcada pelo impacto dos fen\u00f4menos naturais, e entre 1870 e 2010 v\u00e1rios furac\u00f5es e tempestades tropicais a atingiram direta ou indiretamente.<\/p>\n<p>Enquanto os cord\u00f5es de dunas ganham novamente forma ao longo da praia e dos arredores, a comunidade tamb\u00e9m colocou caminhos de madeira para chegar ao mar. Dessa forma buscam evitar a destrui\u00e7\u00e3o de mont\u00edculos de areia e querem ser um exemplo de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica, construindo alternativas de sobreviv\u00eancia. Seus moradores repetem que n\u00e3o querem para sua comunidade um ay\u00f3, adeus, em gar\u00edfuna.<\/p>\n<p><b>Os gar\u00edfunas chegados do mar<\/b><\/p>\n<p>Os gar\u00edfunas representam atualmente 10% dos 8,5 milh\u00f5es de habitantes de Honduras, aonde chegaram h\u00e1 mais de dois s\u00e9culos. Herdeiros da mesti\u00e7agem dos povos caribenhos, arawakas e africanos capturados e trazidos para a regi\u00e3o por barcos escravagistas europeus no s\u00e9culo 17, que naufragaram diante da ilha de Iarumei, atualmente S\u00e3o Vicente, onde se assentaram.<\/p>\n<p>Dali, ent\u00e3o sob dom\u00ednio brit\u00e2nico, foram deportados em 1797 para a ilha hondurenha de Roat\u00e1n. Depois, os colonizadores espanh\u00f3is permitiram que se assentassem em terra firme e se espalharam pela costa atl\u00e2ntica de Honduras e de outros pa\u00edses centro-americanos. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Santa Rosa de Agu&aacute;n, Honduras, 26\/3\/2014 &ndash; Na desembocadura do rio Agu&aacute;n, no Caribe hondurenho, uma comunidade gar&iacute;funa, assentada em um para&iacute;so natural e a&ccedil;oitada h&aacute; mais de 15 anos pelo furac&atilde;o Mitch, agora d&aacute; exemplo de adapta&ccedil;&atilde;o &agrave; mudan&ccedil;a clim&aacute;tica. &ldquo;N&atilde;o queremos irritar novamente o mar, n&atilde;o queremos que aconte&ccedil;a de novo o [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/03\/ultimas-noticias\/um-paraiso-hondurenho-que-nao-quer-irritar-o-mar-novamente\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":203,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[1861,989,3178,983],"class_list":["post-17308","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-honduras","tag-inter-press-service-reportagens","tag-ips","tag-mudancas-climaticas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/203"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17308"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17308\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}