{"id":17317,"date":"2014-03-28T15:43:50","date_gmt":"2014-03-28T15:43:50","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=110338"},"modified":"2014-03-28T15:43:50","modified_gmt":"2014-03-28T15:43:50","slug":"classe-media-da-costa-do-marfim-cresce-ou-desaparece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/03\/ultimas-noticias\/classe-media-da-costa-do-marfim-cresce-ou-desaparece\/","title":{"rendered":"Classe m\u00e9dia da Costa do Marfim: cresce ou desaparece?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_110339\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/CostadoMarfim.jpg\"><img class=\" wp-image-110339 \" alt=\"CostadoMarfim Classe m\u00e9dia da Costa do Marfim: cresce ou desaparece?\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/CostadoMarfim.jpg\" width=\"529\" height=\"369\" title=\"Classe m\u00e9dia da Costa do Marfim: cresce ou desaparece?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um centro comercial na Costa do Marfim. Muitos neg\u00f3cios do pa\u00eds come\u00e7am a visar a classe m\u00e9dia. Foto: Marc-Andre Boisvert\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Abidjan, Costa do Marfim, 28\/3\/2014 \u2013 \u201cSou da classe m\u00e9dia, definitivamente\u201d, afirmou com seguran\u00e7a Sonia Anoh, uma jovem de 30 anos, que tem mestrado, trabalha no setor de marketing, ganha US$ 1,47 mil mensais, vive sozinha, possui um autom\u00f3vel e tenta comprar uma casa. Mas nesse pa\u00eds nem todos podem identificar t\u00e3o facilmente seu status socioecon\u00f4mico como Anoh fez \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Definir a \u201cclasse m\u00e9dia\u201d africana \u00e9 um grande desafio. Segundo o Banco Mundial, \u00e9 formada por todos os que ganham entre US$ 2 e US$ 20 por dia. Trata-se de uma faixa muito ampla e, embora o Banco Africano de Desenvolvimento tamb\u00e9m a use, destaca a necessidade de subdividir o setor em dois grupos. A classe m\u00e9dia alta, segundo essa defini\u00e7\u00e3o, ganha entre US$ 10 e US$ 20 por dia, e a classe m\u00e9dia baixa \u00e9 a que obt\u00e9m entre US$ 2 e US$ 4 di\u00e1rios. Esta \u00faltima est\u00e1 pouco acima da linha de pobreza, de US$ 1,5 por dia.<\/p>\n<p>A Costa do Marfim costumava ter a classe m\u00e9dia mais s\u00f3lida da regi\u00e3o, at\u00e9 que foi sacudida pela crise econ\u00f4mica dos anos 1980 e voltou a ser afetada pelo caos p\u00f3s-eleitoral de 2010 e 2011. Mais de tr\u00eas mil pessoas morreram na viol\u00eancia desatada depois que o ex-presidente Laurent Gbagbo se negou a reconhecer a vit\u00f3ria nas urnas de Alassane Ouattara, atualmente no cargo.<\/p>\n<p>Agora a classe m\u00e9dia \u00e9 formada por mais de dois milh\u00f5es dos 23 milh\u00f5es de marfinenses, segundo dados do governo. Embora este grupo socioecon\u00f4mico possa ter diminu\u00eddo no passado, h\u00e1 sinais de que estaria se recuperando lentamente. Segundo o Instituto para Estudos de Mercados Emergentes, com sede em Moscou, a classe m\u00e9dia africana triplicar\u00e1, ao passar de 32 milh\u00f5es em 2009 para 107 milh\u00f5es em 2030, o maior crescimento do mundo. O Banco Mundial prev\u00ea que a economia marfinense aumentar\u00e1 \u00e0 taxa de 8,2% este ano, o que traz a esperan\u00e7a de que muitos saiam da pobreza.<\/p>\n<p>\u201cConstruir uma classe m\u00e9dia forte era uma importante preocupa\u00e7\u00e3o do ex-presidente F\u00e9lix Houphouet-Boigny\u201d (1905-1993), disse \u00e0 IPS o decano da Faculdade de Economia da Universidade Privada de Abidjan, Marcel Benie Kouadio. \u201cNaquela ocasi\u00e3o, a classe m\u00e9dia era constitu\u00edda principalmente por funcion\u00e1rios p\u00fablicos, m\u00e9dicos, ju\u00edzes e outros profissionais liberais\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cHouphouet-Boigny implantou v\u00e1rias pol\u00edticas para transformar uma casse m\u00e9dia dependente do Estado em um setor empreendedor. O Estado estimulou a classe m\u00e9dia a investir em planta\u00e7\u00f5es de cacau ou palma, como forma de faz\u00ea-la produzir bens\u201d, explicou Kouadio.<\/p>\n<p>Jean Coffie \u00e9 um funcion\u00e1rio p\u00fablico aposentado e um exemplo do que sonhou Houphouet-Boigny. Agora sobrevive gra\u00e7as a alguns investimentos. \u201cMinha aposentadoria n\u00e3o d\u00e1 para viver. Mas investi em borracha. A renda \u00e9 irregular, mas ainda assim ganho mais do que com a pens\u00e3o do governo\u201d, contou \u00e0 IPS. Com esse dinheiro extra tamb\u00e9m pode ajudar a pagar os estudos de seu neto na Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Entretanto, Coffie esclareceu que a vida da classe m\u00e9dia marfinense j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o que era. Durante o governo de Houphouet-Boigny, \u201creceb\u00edamos muito apoio para nos desenvolvermos. A universidade e a aten\u00e7\u00e3o m\u00e9dica eram mais acess\u00edveis. Talvez sejamos ainda classe m\u00e9dia, mas perdemos muitos privil\u00e9gios\u201d, lamentou. Com ele concorda Benie Kouadio. \u201cA classe m\u00e9dia diminuiu. H\u00e1 20 anos, professores e m\u00e9dicos eram de classe m\u00e9dia. Agora n\u00e3o podem comprar um carro. O setor perdeu poder de compra\u201d, apontou o economista.<\/p>\n<p>Poder aquisitivo \u00e9 um conceito estrat\u00e9gico. Na hora de definir a classe m\u00e9dia, os especialistas preferem analisar a capacidade de compra em lugar da renda. Ser de classe m\u00e9dia \u00e9 chegar a um \u201cponto ideal\u201d em que se \u00e9 capaz de gastar dinheiro em coisas que n\u00e3o s\u00e3o para sobreviver, diz um informe da empresa de auditoria Ernst &amp; Young.<\/p>\n<p>Marcel Ann\u00e9 \u00e9 diretor-gerente da rede de supermercados Jour de March\u00e9, localizada no centro de Abidjan, capital econ\u00f4mica do pa\u00eds. Por isso, tem um conhecimento direto da emergente classe consumidora marfinense. \u201cPara dizer a verdade, este supermercado agora \u00e9 menos visitado do que antes, mas isso se deve mais a uma mudan\u00e7a dos h\u00e1bitos de consumo. Este costumava ser um lugar da classe m\u00e9dia. Os funcion\u00e1rios p\u00fablicos compravam aqui e iam para suas casas\u201d, detalhou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>A classe m\u00e9dia na Costa do Marfim se diversificou. Agora j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 formada apenas por funcion\u00e1rios p\u00fablicos. A privatiza\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias empresas p\u00fablicas, a necessidade de trabalhadores qualificados em tecnologias da informa\u00e7\u00e3o e nos novos campos de petr\u00f3leo e g\u00e1s transformaram a composi\u00e7\u00e3o no setor. Diante disso, o Jour de March\u00e9 decidiu abrir \u201cmais e menores supermercados nas \u00e1reas onde vive a classe m\u00e9dia\u201d.<\/p>\n<p>Por outro lado, o auge imobili\u00e1rio em torno de Abidjan tamb\u00e9m sugere o crescimento desse setor econ\u00f4mico. A antiga planta\u00e7\u00e3o de palma de Riviera Palmeraie foi eliminada para dar lugar a pequenos bangal\u00f4s, um dos primeiros projetos imobili\u00e1rios na cidade para oferecer moradia acess\u00edvel. Projetos semelhantes est\u00e3o em andamento em toda a cidade e em outros lugares do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ousmane Bah \u00e9 diretor da Alliance Cote d\u2019Ivoire, uma das construtoras de moradias para a classe m\u00e9dia. Sua empresa ergueu o Residencial Akwaba, um dos v\u00e1rios projetos de desenvolvimento imobili\u00e1rio nos arredores de Abidjan. Os pre\u00e7os das casas variam de US$ 21 mil, com um quarto, at\u00e9 US$ 36,1 mil, com quatro quartos. \u201cEst\u00e1 voltado principalmente para jovens profissionais que come\u00e7am a vida, bem como para funcion\u00e1rios p\u00fablicos\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Seu projeto, como muitos outros, tem apoio do governo e \u00e9 parte de uma iniciativa para impulsionar as moradias sociais para a classe m\u00e9dia. O governo se preocupa em particular com as fam\u00edlias com renda inferior a US$ 840 por m\u00eas. Os compradores s\u00f3 precisam apresentar um dep\u00f3sito de 10% e com isso receber um empr\u00e9stimo com juros baixos.<\/p>\n<p>Essas iniciativas procuram resolver o problema que mais entorpece o crescimento da classe m\u00e9dia marfinense: a falta de cr\u00e9dito. \u201cAs pessoas aqui n\u00e3o est\u00e3o acostumadas a comprar apartamentos. Elas alugam. As institui\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito n\u00e3o costumam oferecer empr\u00e9stimos habitacionais. Isso \u00e9 um grande problema. N\u00e3o podemos simplesmente construir e esperar que as pessoas comprem\u201d, enfatizou Bah.<\/p>\n<p>Amohamed Diabat\u00e9 \u00e9 o primeiro a concordar. \u201cIsso \u00e9 rid\u00edculo. Quero um cr\u00e9dito para minha casa. \u00c9 mais f\u00e1cil obter um empr\u00e9stimo para comprar uma cabra em uma festividade mu\u00e7ulmana do que apresentando um projeto realmente sustent\u00e1vel. Nem mesmo viram minha carteira\u201d, protestou \u00e0 IPS esse especialista em tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, de 40 anos. Ele contou que, mesmo tendo \u201cuma renda c\u00f4moda\u201d e emprego h\u00e1 12 anos, n\u00e3o consegue empr\u00e9stimo para comprar sua casa.<\/p>\n<p>Benie Kouadio destacou que o problema de cr\u00e9dito significa \u201cuma clara limita\u00e7\u00e3o para o crescimento da classe m\u00e9dia. Os bancos n\u00e3o d\u00e3o empr\u00e9stimos para moradias nem para autom\u00f3veis\u201d, afirmou. 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