{"id":1733,"date":"2006-05-02T00:00:00","date_gmt":"2006-05-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1733"},"modified":"2006-05-02T00:00:00","modified_gmt":"2006-05-02T00:00:00","slug":"artigo-o-esquivo-balanco-de-chernobyl","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/05\/mundo\/artigo-o-esquivo-balanco-de-chernobyl\/","title":{"rendered":"Artigo: O esquivo balan\u00e7o de Chernobyl"},"content":{"rendered":"<p>PARIS, 02\/05\/2006 &ndash; N\u00e3o se sabe quantas pessoas mais morrer\u00e3o pelos efeitos do acidente ocorrido na Ucr\u00e2nia, h\u00e1 20 anos. Alguns dizem que quatro mil, outro afirmam que ser\u00e3o quase cem mil. <!--more--> Vinte anos depois do acidente nuclear de Chernobyl, o mais grave na hist\u00f3ria da energia at\u00f4mica, governos, institui\u00e7\u00f5es internacionais, cientistas e ambientalistas continuam discutindo sobre as verdadeiras conseq\u00fc\u00eancias da cat\u00e1strofe sobre a sa\u00fade humana. No dia 26 de abril de 1986, uma s\u00e9rie de inc\u00eandios e explos\u00f5es nessa central de energia ucraniana fez com que material radioativo se espalhasse sobre a Europa oriental e ocidental, especialmente na pr\u00f3pria Ucr\u00e2nia, Bielor\u00fassia e R\u00fassia, na \u00e9poca rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas.<\/p>\n<p>Um estudo da organiza\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica Greenpeace afirma que, s\u00f3 em tr\u00eas pa\u00edses, entre 1986 e 2056, o acidente ter\u00e1 causado a morte de mais de 93 mil pessoas por c\u00e2ncer de tire\u00f3ide, leucemia, doen\u00e7as respirat\u00f3rias e hematol\u00f3gicas. O balan\u00e7o do Greenpeace se baseia em an\u00e1lises de cientistas das tr\u00eas na\u00e7\u00f5es e contradiz o relat\u00f3rio oficial da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade e da Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (AIEA), divulgado em setembro, que situa em apenas 56 os mortos at\u00e9 agora em virtude do acidente e estima que falecer\u00e3o apenas mais quatro mil pessoas. Investiga\u00e7\u00f5es de outros cientistas europeus tamb\u00e9m sugerem que o relat\u00f3rio da OMS-AIEA minimiza o n\u00famero de v\u00edtimas.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Elizabeth Cardis, radiologista da Ag\u00eancia Internacional para a Pesquisa sobre o C\u00e2ncer, com sede em Lyon, na Fran\u00e7a, e co-autora de um dos mais recentes estudos sobre o tema, que ser\u00e1 publicado em junho. &quot;At\u00e9 2065 haver\u00e1 cerca de 41 mil casos de c\u00e2ncer na Europa ocidental atribu\u00edveis a Chernobyl. Destes, 16 mil ser\u00e3o mortais&quot;, assegurou Cardis ao Terram\u00e9rica. A cientista explicou que estas estimativas est\u00e3o baseadas em an\u00e1lises estat\u00edsticas do n\u00famero de pessoas expostas \u00e0 nuvem radioativa em diversos pa\u00edses europeus, como Fran\u00e7a, \u00c1ustria, Alemanha e It\u00e1lia, das distintas doses de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 mesma e do n\u00famero de casos de c\u00e2ncer registrados desde 1986.<\/p>\n<p>Segundo este estudo, o acidente de Chernobyl matar\u00e1, pelo menos, 16 mil pessoas de c\u00e2ncer de tire\u00f3ide na Europa ocidental e mais 25 mil v\u00edtimas de outros tipos da doen\u00e7a. &quot;Os 20 anos passados desde o acidente de Chernobyl s\u00e3o um prazo muito curto para analisar de maneira conclusiva o desenvolvimento de doen\u00e7as cujos sintomas podem ser reconhecidos somente depois de d\u00e9cadas&quot;, explicou Cardis. A isto se acrescenta o fato de a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, sob cuja jurisdi\u00e7\u00e3o se encontrava a Ucr\u00e2nia em 1986, ter ocultado a informa\u00e7\u00e3o mais elementar sobre o acidente e suas conseq\u00fc\u00eancias.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe nenhum registro sobre o pessoal que trabalhou no reator depois da cat\u00e1strofe. Ignora-se identidade, paradeiro e estado de sa\u00fade atual de dezenas de milhares de pessoas que estiveram expostas diretamente \u00e0 radia\u00e7\u00e3o. Apesar de tudo, muitos governos e a ind\u00fastria nuclear da Europa continuam defendendo que \u00e9 uma fonte segura e limpa, argumentando que contribui na luta contra a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, por n\u00e3o emitir gases causadores do efeito estufa. Alguns pa\u00edses lan\u00e7aram novos programas de pesquisa e anunciaram a instala\u00e7\u00e3o de reatores nucleares para os pr\u00f3ximos cinco anos.<\/p>\n<p>O governo franc\u00eas, recentemente, aprovou a constru\u00e7\u00e3o de tr\u00eas novos reatores, o primeiro devendo entrar em funcionamento em 2012. Os outros come\u00e7ar\u00e3o a trabalhar em 2020. Com seus 58 reatores, que produzem 78,5% da eletricidade do pa\u00eds, a Fran\u00e7a \u00e9 a na\u00e7\u00e3o mais dependente da energia at\u00f4mica. Jena-Philippe Desbordes, autor do livro &quot;Atomic Parc &#8211; \u00e0 la recherche des victimes du nucl\u00e9aire&quot; (Parque at\u00f4mico: em busca das v\u00edtimas da energia nuclear), disse ao Terram\u00e9rica que &quot;s\u00f3 um acidente com a dimens\u00e3o de Chernobyl na Fran\u00e7a convenceria as autoridades de Paris a renunciar \u00e0 energia at\u00f4mica&quot;.<\/p>\n<p>Na Alemanha, l\u00edderes da Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Crist\u00e3, que governa em coaliz\u00e3o com o Partido Social Democrata, insistem em revisar a decis\u00e3o de desmantelar progressivamente, at\u00e9 2025, todos os reatores nucleares em funcionamento. Para Roland Koch, chefe de governo do Estado federal de Hesse, &quot;suspender o uso da energia at\u00f4mica na Alemanha \u00e9 uma estupidez&quot;. Por\u00e9m, ambientalistas reprovam Koch por n\u00e3o ter respostas v\u00e1lidas para perguntas sobre o manejo do lixo radioativo e a produ\u00e7\u00e3o de material utiliz\u00e1vel em bombas at\u00f4micas.<\/p>\n<p>&quot;O alto risco \u00e9 intr\u00ednseco \u00e0 energia at\u00f4mica e, apesar das afirma\u00e7\u00f5es sobre as melhorias nos sistemas de seguran\u00e7a, uma cat\u00e1strofe como a de Chernobyl pode ocorrer a qualquer momento e em qualquer reator do mundo&quot;, afirmou Gerd Leipold, diretor-executivo do Greenpeace Internacional. &quot;Devemos evitar a todo custo que um acidente semelhante ao de Chernobyl ocorra novamente e assegurar que a energia at\u00f4mica n\u00e3o tenha um futuro, investindo em alternativas renov\u00e1veis. O vig\u00e9simo anivers\u00e1rio do acidente \u00e9 uma boa oportunidade para que governos e institui\u00e7\u00f5es internacionais como a AIEA exer\u00e7am sua obriga\u00e7\u00e3o moral em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s gera\u00e7\u00f5es futuras, erradicando r\u00e1pida e definitivamente a energia at\u00f4mica&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>* O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n<p>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o dos Programas das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>PARIS, 02\/05\/2006 &ndash; N\u00e3o se sabe quantas pessoas mais morrer\u00e3o pelos efeitos do acidente ocorrido na Ucr\u00e2nia, h\u00e1 20 anos. 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