{"id":1734,"date":"2006-05-02T00:00:00","date_gmt":"2006-05-02T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1734"},"modified":"2006-05-02T00:00:00","modified_gmt":"2006-05-02T00:00:00","slug":"populacao-muro-de-objecoes-contra-represas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/05\/mundo\/populacao-muro-de-objecoes-contra-represas\/","title":{"rendered":"Popula\u00e7\u00e3o: Muro de obje\u00e7\u00f5es contra represas"},"content":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 02\/05\/2006 &ndash; Moradores tentam paralisar projetos hidrel\u00e9tricos em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, desde o Rio Papagayo, no M\u00e9xico, at\u00e9 o Rio Baker, na Patag\u00f4nia. <!--more--> Um muro de obje\u00e7\u00f5es se levanta na Am\u00e9rica Latina contra a constru\u00e7\u00e3o de centrais hidrel\u00e9tricas. Na Guatemala, ativistas e moradores acabam de paralisar um milion\u00e1rio projeto, enquanto no Brasil, El Salvador, Chile, Honduras e M\u00e9xico, o pavio do conflito est\u00e1 aceso. Na regi\u00e3o h\u00e1 mais de mil grandes represas de 15 metros de altura, ou mais, que geram 10% da eletricidade consumida na \u00e1rea. Os governos, apoiados por multinacionais, projetam construir outras para, assim, dependerem menos do oneroso petr\u00f3leo, at\u00e9 agora seu principal insumo energ\u00e9tico.<\/p>\n<p>O debate sobre a hidroenergia \u00e9 grande. Embora seja valorizada como fonte renov\u00e1vel e limpa, que permite regular o uso da \u00e1gua, tamb\u00e9m \u00e9 criticada por seus graves impactos sociais e ambientais, derivados do for\u00e7ado deslocamento populacional e das inunda\u00e7\u00f5es que gera. Na Guatemala, uma consulta popular conseguiu paralisar, em abril, a constru\u00e7\u00e3o de tr\u00eas hidrel\u00e9tricas, pelo governo, empresas locais e por empresas italianas e canadenses, a um custo estimado em US$ 100 milh\u00f5es, na comunidade de Rio Hondo, localizada em uma reserva natural no oeste do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O Tribunal Constitucional da Guatemala validou, no dia 4 de abril, os resultados do referendo, pelo qual os moradores rejeitaram o projeto alegando que inundaria seis mil hectares e prejudicaria economicamente cerca de 20 mil pessoas. Depois da decis\u00e3o judicial, as empresas foram obrigadas a refazer o projeto, com novos estudos de impacto ambiental e socioecon\u00f4mico, e submet\u00ea-lo a nova consulta popular. &quot;A decis\u00e3o do Tribunal devolve \u00e0 cidadania a f\u00e9 nas institui\u00e7\u00f5es e demonstra que ainda h\u00e1 gente decente neste pa\u00eds&quot;, disse ao Terram\u00e9rica Magali Rey, diretora do grupo ambientalista Madre Selva.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, o governo do presidente Vicente Fox tenta, sem \u00eaxito, h\u00e1 dois anos, concretizar o projeto La Parota, uma gigantesca represa de US$ 850 milh\u00f5es, no Estado de Guerrero, que for\u00e7aria a retirada de aproximadamente 25 mil pessoas, segundo camponeses pobres da regi\u00e3o, que mant\u00eam bloqueados os acessos \u00e0s suas comunidades para evitar o avan\u00e7o da obra. O n\u00e3o-governamental Tribunal Latino-Americano da \u00c1gua decidiu, em mar\u00e7o, que o projeto mexicano sobre o caudaloso Rio Papagayo &quot;deve ser suspenso, j\u00e1 que n\u00e3o demonstra os benef\u00edcios \u00e0 popula\u00e7\u00e3o local nem sua contribui\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento regional e nem a prote\u00e7\u00e3o do meio ambiente e dos recursos naturais&quot;. A senten\u00e7a, que n\u00e3o \u00e9 vinculante, diz que autoridades mexicanas, em seu af\u00e3 de construir a hidrel\u00e9trica, incorreram em atos deliberados para dividir as comunidades camponesas.<\/p>\n<p>O Brasil, um dos pa\u00edses com maior quantidade de represas no mundo, cerca de 600, tampouco est\u00e1 livre de conflitos. Ambientalistas e ativistas questionam a inten\u00e7\u00e3o do governo federal de colocar em opera\u00e7\u00e3o duas centrais hidrel\u00e9tricas no Rio Madeira, um dos principais afluentes do Amazonas. O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva afirma que seus planos consideram de forma r\u00edgida os problemas ambientais e sociais. Por\u00e9m, cerca de cem organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais, reunidas no movimento Rio Madeira Vivo, o desmentem e prometem lutar.<\/p>\n<p>&quot;Acreditamos que as duas centrais n\u00e3o ser\u00e3o constru\u00eddas, pois n\u00e3o foi comprovada a viabilidade econ\u00f4mica das mesmas&quot;, disse ao Terram\u00e9rica Glenn Switkes, diretor para a Am\u00e9rica Latina da Rede Internacional de Rios, com sede na Calif\u00f3rnia, Estados Unidos. Al\u00e9m disso, o represamento da \u00e1gua para as hidrel\u00e9tricas afetar\u00e1 &quot;uma \u00e1rea de alta biodiversidade, com 600 esp\u00e9cies de peixes e mais de 700 aves, e o impacto para os pescadores seria enorme porque os bagres, esp\u00e9cie de maior valor comercial, migram por quatro mil quil\u00f4metros, do Rio Amazonas at\u00e9 o Madeira, para reprodu\u00e7\u00e3o, e as represas impediriam este ciclo&quot;, segundo Switkes. O projeto tamb\u00e9m afetaria os agricultores que plantam em &quot;plan\u00edcies temporariamente inundadas, pois as represas reduziriam a chegada dos nutrientes \u00e0s suas terras&quot;, acrescentou.<\/p>\n<p>Luiz Pereira, secret\u00e1rio-executivo do Instituto para o Desenvolvimento Estrat\u00e9gico do Setor El\u00e9trico (privado), disse ao Terram\u00e9rica que as represas s\u00e3o prefer\u00edveis a fontes contaminadoras com as termoel\u00e9tricas, e advertiu que o Brasil tem urg\u00eancia em aumentar sua oferta energ\u00e9tica, pois a partir de 2008 ela n\u00e3o est\u00e1 garantida. Entretanto, disse que se deve levar &quot;a s\u00e9rio&quot; os impactos ambientais, balancear as necessidades energ\u00e9ticas e os efeitos negativos desses projetos. &quot;\u00c9 preciso ouvir as popula\u00e7\u00f5es afetadas&quot;, disse Pereira.<\/p>\n<p>At\u00e9 os anos 70, a constru\u00e7\u00e3o de represas n\u00e3o representou maiores problemas. Entretanto, atualmente, inclusive o Banco Mundial, um dos principais financiadores da hidroenergia, reconhece que a qualidade de vida da maioria das pessoas for\u00e7adas a deixar o lugar onde moram n\u00e3o melhora com sua realoca\u00e7\u00e3o. Calcula-se que cerca de quatro milh\u00f5es de pessoas por ano no mundo devem abandonar suas terras por causa das represas. Na Am\u00e9rica Latina, a onda de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s hidrel\u00e9tricas n\u00e3o \u00e9 nova, mas agora h\u00e1 algo mais de virul\u00eancia nos conflitos e os potenciais prejudicados advertem, como acontece no projeto de La Parota, no M\u00e9xico, que est\u00e3o dispostos a morrer para evitar a inunda\u00e7\u00e3o de suas terras e seu deslocamento.<\/p>\n<p>No Chile, outro milion\u00e1rio projeto est\u00e1 em xeque. V\u00e1rios grupos ambientalistas criaram uma coaliz\u00e3o para opor-se ao plano de constru\u00e7\u00e3o de quatro centrais na regi\u00e3o da Patag\u00f4nia, por parte da multinacional espanhola Endesa, com investimento de US$ 3 bilh\u00f5es. Pretende-se construir estas represas a partir de 2008 nos rios Baker, o mais caudaloso do Chile, e Pascua, inundando cerca de dez mil hectares, o que resultar\u00e1 na destrui\u00e7\u00e3o de manguezais, provocando impacto no h\u00e1bitat de esp\u00e9cies em risco de extin\u00e7\u00e3o, afirmam.<\/p>\n<p>Em Honduras e El Salvador, um acordo, anunciado em abril por seus respectivos governos, para construir a represa El Tigre, nos afluentes do Rio Lempa, em uma bacia compartilhada, causou alarme. O projeto custar\u00e1 US$ 600 milh\u00f5es, gerar\u00e1 mil megawatts e criar\u00e1 cerca de 1,5 mil empregos, segundo as autoridades. E tamb\u00e9m promete ser uma intensa fonte de conflito social. Ind\u00edgenas e ambientalistas come\u00e7aram a expressar sua desaprova\u00e7\u00e3o ao projeto, bem como v\u00e1rios deputados que esgrimiram o argumento de soberania territorial. O plano binacional emergiu depois que esses dois vizinhos centro-americanos demarcaram de maneira definitiva sua fronteira, pondo fim a velhas disputas.<\/p>\n<p>&quot;O projeto deve ser analisado com extrema reserva. A informa\u00e7\u00e3o inicial \u00e9 muito difusa&quot;, disse ao Terram\u00e9rica Juan Almendares, diretor do grupo ecologista Madre Tierra. &quot;Informes preliminares indicam que pelo menos 82 aldeias ser\u00e3o inundadas e sinto que estamos n\u00e3o s\u00f3 emprestando nosso territ\u00f3rio, mas cedendo soberania em um projeto que n\u00e3o se sabe ainda a quem beneficiar\u00e1 mais&quot;, afirmou ao Terram\u00e9rica Marvin Ponce, deputado pelo esquerdista Partido de Unifica\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica de Honduras.<\/p>\n<p>* O autor \u00e9 correspondente da IPS. Com colabora\u00e7\u00f5es de Mario Osava (Brasil), Thelma Mej\u00eda (Honduras) e Jorge Grochembake (Guatemala).<\/p>\n<p>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o dos Programas das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) e para o Desenvolvimento (Pnud), realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 02\/05\/2006 &ndash; Moradores tentam paralisar projetos hidrel\u00e9tricos em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, desde o Rio Papagayo, no M\u00e9xico, at\u00e9 o Rio Baker, na Patag\u00f4nia. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/05\/mundo\/populacao-muro-de-objecoes-contra-represas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":437,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,10,4],"tags":[21],"class_list":["post-1734","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-energia","category-mundo","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/437"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1734"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1734\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}