{"id":17364,"date":"2014-04-09T16:27:06","date_gmt":"2014-04-09T16:27:06","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111024"},"modified":"2014-04-09T16:27:06","modified_gmt":"2014-04-09T16:27:06","slug":"cuba-cresce-ou-nao-cresce","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/cuba-cresce-ou-nao-cresce\/","title":{"rendered":"Cuba cresce ou n\u00e3o cresce?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_111025\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/200px-Leonardo_Padura.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-111025\" alt=\"200px Leonardo Padura Cuba cresce ou n\u00e3o cresce?\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/200px-Leonardo_Padura.jpg\" width=\"200\" height=\"283\" title=\"Cuba cresce ou n\u00e3o cresce?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Leonardo Padura. Foto: http:\/\/pt.wikipedia.org\/<\/p><\/div>\n<p>Havana, Cuba, mar\u00e7o\/2014 \u2013 Os mais recentes vizinhos estabelecidos em meu bairro s\u00e3o benefici\u00e1rios de uma das mudan\u00e7as introduzidas pelo governo de Ra\u00fal Castro como parte da chamada \u201catualiza\u00e7\u00e3o do modelo econ\u00f4mico cubano\u201d.<\/p>\n<p>Eles eram uma das fam\u00edlias que, por uma raz\u00e3o ou outra, viveram durante anos em albergues coletivos e por fim tiveram a sorte de receber um dos milhares de locais, onde antes funcionavam escrit\u00f3rios governamentais, e que foram transformados em moradias, como forma de diminuir o d\u00e9ficit de casas.<\/p>\n<p>Esses vizinhos, que n\u00e3o pagaram, nem podiam pagar, nada pelo im\u00f3vel que lhes foi entregue, vivem de um dos of\u00edcios mais modestos que se pratica na ilha: coleta de papel, papel\u00e3o, vidro e alum\u00ednio, que depois vendem a centros coletores de mat\u00e9rias-primas recicl\u00e1veis.<\/p>\n<p>Como sua atividade trabalhista n\u00e3o \u00e9 suficiente para se manterem, esses vizinhos beneficiados com a destina\u00e7\u00e3o de uma moradia digna e gratuita, agora est\u00e3o dividindo a habita\u00e7\u00e3o para vender uma parte, amparados em outra mudan\u00e7a introduzida pelo governo: a da livre compra e venda de im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Dessas e de muitas outras maneiras os cubanos tentam melhorar sua vida, embora no fundo a estejam piorando, vendendo o pouco que t\u00eam ou realizando qualquer manejo econ\u00f4mico mais ou menos legal (ou ilegal) que lhes d\u00ea dividendos. A raiz mais vis\u00edvel do problema \u00e9 que os cubanos, sobretudo se trabalham para o Estado, n\u00e3o ganham o suficiente para sobreviver.<\/p>\n<p>Por isso, os que n\u00e3o t\u00eam um familiar no estrangeiro que os ajude com algum dinheiro, ou um membro do cl\u00e3 que de alguma forma tenha acesso a ganhos em moeda forte, cada dia de sua vida devem contar seus centavos para atender as necessidades b\u00e1sicas, como alimenta\u00e7\u00e3o e higiene.<\/p>\n<p>Mas o terreno no qual est\u00e1 incrustada a aparente raiz do problema n\u00e3o \u00e9, na realidade, o valor de mudan\u00e7a dos sal\u00e1rios, ou seja, sua capacidade aquisitiva.<\/p>\n<p>O mar de fundo est\u00e1 na macroeconomia que, apesar das mudan\u00e7as introduzidas, n\u00e3o consegue decolar e se mant\u00e9m em crescimentos anuais que se movem pouco acima dos 2%.<\/p>\n<p>\u00c9 um n\u00famero que est\u00e1 abaixo do que se esperava, ao p\u00f4r em movimento o paralisado sistema econ\u00f4mico cubano, e que tamb\u00e9m est\u00e1 abaixo dos n\u00edveis capazes de garantir um crescimento em condi\u00e7\u00f5es de reverter a tensa situa\u00e7\u00e3o em que vivem os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Nem em quantidade nem em qualidade seus sal\u00e1rios s\u00e3o suficientes para a satisfa\u00e7\u00e3o dessas necessidades b\u00e1sicas&#8230; para n\u00e3o falar de luxos inconceb\u00edveis para milh\u00f5es de cubanos: ir a um restaurante, por exemplo.<\/p>\n<p>A recente abertura da primeira fase da Zona Especial de Desenvolvimento de El Mariel, com seu terminal para supernavios e cont\u00eaineres, \u00e9 considerado o primeiro passo para se come\u00e7ar a sonhar com crescimentos que \u2013 segundo os economistas, s\u00f3 se ultrapassarem os 5% anuais \u2013 poder\u00e3o iniciar uma mudan\u00e7a substancial na situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A esperada nova lei de Investimento Estrangeiro, que talvez coloque essas atividades em n\u00edveis similares aos criados para El Mariel, poderia tamb\u00e9m contribuir para uma melhoria da macroeconomia com a entrada de capitais frescos e produtivos no pa\u00eds, se as condi\u00e7\u00f5es de investimento, seguran\u00e7a e propriedade, entre outras, realmente tornarem atraente montar em Cuba algum tipo de neg\u00f3cio, algo que hoje n\u00e3o ocorre.<\/p>\n<p>Em Mariel funciona, em ess\u00eancia, uma zona franca com facilidades para investimento, pagamento de impostos, comercializa\u00e7\u00e3o de produtos, etc.<\/p>\n<p>Um sinal estranho de para onde poderiam ir as quantidades e qualidades dos investimentos estrangeiros em Cuba foi enviado pelo pr\u00f3prio governo, quando, em janeiro deste ano, decidiu abrir o mercado de venda de ve\u00edculos automotores no pa\u00eds, fixando tarifas astron\u00f4micas e desproporcionais aos autom\u00f3veis novos e de segunda (ou quarta m\u00e3o) colocados no mercado.<\/p>\n<p>Modelos de Peugeot de 60 mil euros tarifados em mais de um quarto de milh\u00e3o de d\u00f3lares n\u00e3o \u00e9 precisamente uma demonstra\u00e7\u00e3o de boa vontade com os potenciais investidores, al\u00e9m de ser um desd\u00e9m pelos cubanos (quase sempre profissionais que com seu trabalho produzem importantes ganhos para o pa\u00eds), que por uma ou outra via haviam obtido o capital necess\u00e1rio para comprar carros que, antes da \u201cabertura\u201d do mercado, j\u00e1 eram suficientemente caros em compara\u00e7\u00e3o com os pre\u00e7os praticados em outras partes do mundo.<\/p>\n<p>E o fato de que pouco se tenha vendido carros, ou a indigna\u00e7\u00e3o expressa por muitas pessoas, n\u00e3o alterou seus pre\u00e7os, como se sup\u00f5e deve ocorrer em qualquer mercado ou pa\u00eds.<\/p>\n<p>Embora n\u00e3o seja economista nem pretenda s\u00ea-lo, creio que as contas econ\u00f4micas em Cuba s\u00e3o t\u00e3o obscuras que ao final conseguem ser muito claras: se n\u00e3o se encontra vias seguras e eficientes de crescimento, a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e de seus cidad\u00e3os n\u00e3o mudar\u00e1 no essencial.<\/p>\n<p>Ainda que uma pequena quantidade de cubanos convertidos em microempres\u00e1rios possa estar fazendo algum dinheiro, sua prosperidade \u00e9 muito relativa e apenas significativa se comparada com a forma em que vivem e resolvem os problemas meus vizinhos do bairro e outras milhares de fam\u00edlias como eles.<\/p>\n<p>E o problema que se apresenta com rela\u00e7\u00e3o ao futuro econ\u00f4mico e social do pa\u00eds seria saber como o capital estrangeiro atuar\u00e1 efetivamente no desenvolvimento do pa\u00eds e, sobretudo, o grande mist\u00e9rio: como os 11 milh\u00f5es de residentes da ilha poder\u00e3o se inserir em uma sociedade mais mercantilizada e competitiva.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 vendendo o \u00fanico que lhes resta, ou seja, sua for\u00e7a de trabalho, como alerta a filosofia marxista na qual se fundamenta a pol\u00edtica oficial cubana? Por enquanto essa obscura perspectiva tamb\u00e9m parece clara. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* <b>Leonardo Padura<\/b>, escritor e jornalista cubano, ganhador do Pr\u00eamio Nacional de Literatura 2012. Suas obras est\u00e3o traduzidas em mais de 15 idiomas e sua mais recente novela, <\/i>Herejes<i>, \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre a liberdade individual.\u00a0<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, mar&ccedil;o\/2014 &ndash; Os mais recentes vizinhos estabelecidos em meu bairro s&atilde;o benefici&aacute;rios de uma das mudan&ccedil;as introduzidas pelo governo de Ra&uacute;l Castro como parte da chamada &ldquo;atualiza&ccedil;&atilde;o do modelo econ&ocirc;mico cubano&rdquo;. 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