{"id":17370,"date":"2014-04-10T13:53:08","date_gmt":"2014-04-10T13:53:08","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111121"},"modified":"2014-04-10T13:53:08","modified_gmt":"2014-04-10T13:53:08","slug":"linchamento-na-argentina-coletivizacao-ou-privatizacao-da-justica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/linchamento-na-argentina-coletivizacao-ou-privatizacao-da-justica\/","title":{"rendered":"Linchamento na Argentina: coletiviza\u00e7\u00e3o ou privatiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_111122\" style=\"width: 531px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Argentina.jpg\"><img class=\" wp-image-111122 \" alt=\"Argentina Linchamento na Argentina: coletiviza\u00e7\u00e3o ou privatiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a?\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Argentina.jpg\" width=\"521\" height=\"245\" title=\"Linchamento na Argentina: coletiviza\u00e7\u00e3o ou privatiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">As amea\u00e7as de linchamentos se espalham pelas cidades e nas zonas rurais, em diferentes formas. Foto: Cortesia da rede Colheita Vermelha<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Buenos Aires, Argentina, 10\/4\/2014 \u2013 A palavra linchamento nasceu e se generalizou nos Estados Unidos, para designar \u201co castigo coletivo violento contra pessoas de cor diferente\u201d, e depois se consolidou em v\u00e1rios pa\u00edses latino-americanos. Seu ressurgimento surpreende agora na Argentina e remete ao universo simb\u00f3lico de sua origem: \u201ca privatiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a\u201d, contra os marginalizados de sempre.<\/p>\n<p>Em menos de duas semanas soube-se de uma dezena de linchamentos, ou tentativas, na Argentina, sendo que no primeiro, no dia 22 de mar\u00e7o, morreu David Moreyra, de 18 anos, depois de supostamente tentar roubar a bolsa de uma mulher na cidade de Ros\u00e1rio.<\/p>\n<p>O linchamento (lynching) tem sua origem na Guerra de Independ\u00eancia norte-americana, quando o juiz Charles Lynch decidiu castigar fora da lei um grupo de leais ao imp\u00e9rio brit\u00e2nico, apesar de j\u00e1 terem sido absolvidos por um j\u00fari oficial, recorda Leandro Gamallo, em um estudo da Faculdade Latino-Americana de Ci\u00eancias Sociais.<\/p>\n<p>Depois o termo foi usado para designar a pr\u00e1tica dos \u201cca\u00e7adores de homens (homens brancos do sul dos Estados Unidos) que organizavam \u201cpatrulhas\u201d civis para capturar supostos delinquentes. Essa \u201cjusti\u00e7a popular\u201d mais tarde daria lugar ao \u201cuso da for\u00e7a coletiva como m\u00e9todo de explora\u00e7\u00e3o e segrega\u00e7\u00e3o racial realizada pelos brancos contra os negros\u201d, afirma Gamallo.<\/p>\n<p>Os linchamentos voltaram ao debate latino-americano quando, instigados ou apenas refletidos pela m\u00eddia (segundo um inacabado debate), surgiram na Argentina, pa\u00eds onde n\u00e3o existe uma \u201cjusti\u00e7a comunit\u00e1ria tribal\u201d arraigada, com a de Bol\u00edvia, Equador ou Guatemala. Esses assassinatos j\u00e1 s\u00e3o bem conhecidos na Bol\u00edvia, onde a Defensoria do Povo registrou 53 casos entre 2005 e outubro de 2013. Tamb\u00e9m s\u00e3o cometidos no Brasil, M\u00e9xico, pa\u00edses andinos e centro-americanos.<\/p>\n<p>Na Guatemala, o especialista em pol\u00edtica Marcelo Colussi os vincula a um tecido social decomposto por mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de conflito armado interno (1960-1996). Entretanto, em todos os casos, o denominador comum parece ser o mesmo: v\u00edtimas pobres, ind\u00edgenas ou negras, e uma privatiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a diante da inseguran\u00e7a real ou aparente. Os mortos \u201ccontinuam sendo os mesmos que sofreram o pior da repress\u00e3o em anos passados, e que historicamente est\u00e3o afastados dos benef\u00edcios de um desenvolvimento equitativo\u201d na Guatemala: \u201cind\u00edgenas de origem maia, sempre pobres\u201d, destacou.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um processo de estigmatiza\u00e7\u00e3o de jovens pobres\u201d, afirmou \u00e0 IPS o historiador argentino Diego Galeano, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, embora considere prematuro garantir que existe uma onda de linchamentos em seu pa\u00eds. Por\u00e9m, esse pesquisador da hist\u00f3ria transnacional do crime na Am\u00e9rica do Sul, apontou a gravidade de um \u201cdeslocamento do modo como se regula a viol\u00eancia\u201d na Argentina.<\/p>\n<p>A soci\u00f3loga argentina Maristella Svampa recorreu aos saques do final de 2013, iniciados na prov\u00edncia de C\u00f3rdoba, para lembrar \u00e0 IPS que ali \u201cocorreram tentativas de linchamento contra supostos saqueadores cujo \u00fanico crime, al\u00e9m do tipo de rosto (jovens pobres e morenos), era atravessar o bairro Nueva C\u00f3rdoba, sede de setores da classe m\u00e9dia e endinheirados\u201d.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 outro \u00e2ngulo que, segundo Svampa, pesquisadora do estatal Conselho Nacional de Pesquisas Cient\u00edficas e T\u00e9cnicas, merece uma advert\u00eancia: o dos grupos armados dispostos a intervir contra saqueadores (em fotos divulgadas nas redes sociais) que ela interpreta como \u201cuma tenebrosa tentativa de privatiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>Svampa afirmou que \u201cos dois fatos (tentativa de linchamento e grupos de autodefesa), como resposta coletiva aos saques, deixaram claro um sintoma de profundo retrocesso da democracia e dos direitos humanos\u201d. Dessa forma, \u201cem um contexto marcado por novos conflitos sociais, maior desigualdade, crescente desorganiza\u00e7\u00e3o social e discursos punitivos, nosso pa\u00eds parece estar abrindo uma perigosa caixa de Pandora\u201d, alertou.<\/p>\n<p>Na Argentina, como disse \u00e0 IPS o especialista em pol\u00edticas de seguran\u00e7a Luis Somoza, os linchamentos ocorrem em um cen\u00e1rio de aumento da criminalidade. Por isso s\u00e3o o \u201creflexo de uma sociedade totalmente saturada do n\u00edvel de inseguran\u00e7a alcan\u00e7ado\u201d, explicou esse professor do Instituto Universit\u00e1rio da Pol\u00edcia Federal Argentina.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas t\u00eam a percep\u00e7\u00e3o, quando n\u00e3o o dado real, de que n\u00e3o s\u00e3o protegidas pelo Estado\u201d, afirmou Somoza. Mas esse \u201cretrocesso a um estado primitivo da sociedade\u201d vislumbra o risco adicional de uma \u201cprov\u00e1vel apari\u00e7\u00e3o de for\u00e7as n\u00e3o estatais que se apropriam do papel de defesa, que s\u00e3o as chamadas for\u00e7as de autodefesa, mil\u00edcias, paramilitares, esquadr\u00f5es da morte\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>O defensor penal juvenil da cidade de La Plata, Juli\u00e1n Axat, associa o fen\u00f4meno \u00e0 impunidade de outros linchamentos menos divulgados ou ignorados pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 milhares de casos de surras que antecedem as deten\u00e7\u00f5es de adolescentes pobres, \u201ccorretivos\u201d como chutes, empurr\u00f5es e cusparadas que parecem aceitos no \u201cimagin\u00e1rio policial\u201d. \u201cA impunidade dos linchamentos \u00e9 o que mais gera o clima de repeti\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 a m\u00eddia, \u00e9 a pol\u00edcia e a justi\u00e7a que n\u00e3o os det\u00eam\u201d, escreveu em um artigo que a IPS teve autoriza\u00e7\u00e3o para divulgar.<\/p>\n<p>\u201cComo disse Bertold Brecht, hoje s\u00e3o os negros de cabelo crespo, amanh\u00e3, possivelmente, seus captores, enquanto os poderosos de sempre e agradecer\u00e3o \u00e0s suas pol\u00edcias porque continuar\u00e3o fazendo maravilhosos neg\u00f3cios com a \u2018inseguran\u00e7a\u2019 e com uma sociedade na qual os pobres matam os menos pobres e a classe m\u00e9dia autorit\u00e1ria aplaude\u201d, resumiu para a IPS o advogado de direitos humanos Claudio Orosz.<\/p>\n<p>Em todo caso, a experi\u00eancia guatemalteca evidencia a inutilidade do linchamento como forma de dissuadir o crime. \u201cApesar de se ter \u2018justi\u00e7ado\u2019 numerosos delinquentes, o \u00edndice de criminalidade em todo pa\u00eds e tamb\u00e9m nas ex-zonas de guerra continua sendo alarmantemente alto\u201d, enfatizou Colussi. Na Argentina, a presidente Cristina Fern\u00e1ndez garantiu, no dia 31 de mar\u00e7o, que \u201ctudo o que gerar viol\u00eancia sempre engendrar\u00e1 mais viol\u00eancia\u201d, em refer\u00eancia a um fen\u00f4meno cuja nome, linchamento, evitou citar. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Buenos Aires, Argentina, 10\/4\/2014 &ndash; A palavra linchamento nasceu e se generalizou nos Estados Unidos, para designar &ldquo;o castigo coletivo violento contra pessoas de cor diferente&rdquo;, e depois se consolidou em v&aacute;rios pa&iacute;ses latino-americanos. 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