{"id":17377,"date":"2014-04-11T16:51:56","date_gmt":"2014-04-11T16:51:56","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111215"},"modified":"2014-04-11T16:51:56","modified_gmt":"2014-04-11T16:51:56","slug":"desmatamento-andino-provoca-tsunami-amazonico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/desmatamento-andino-provoca-tsunami-amazonico\/","title":{"rendered":"Desmatamento andino provoca \u201ctsunami\u201d amaz\u00f4nico"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_111217\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bolivia-chica-629x472.jpg\"><img class=\" wp-image-111217 \" alt=\"bolivia chica 629x472 Desmatamento andino provoca \u201ctsunami\u201d amaz\u00f4nico\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/bolivia-chica-629x472.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"Desmatamento andino provoca \u201ctsunami\u201d amaz\u00f4nico\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O rio Beni, afluente do Madeira, durante uma cheia em 2011, pouco acima de Cachuela Esperanza, onde o governo boliviano projeta construir uma hidrel\u00e9trica. Foto: Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 11\/4\/2014 \u2013 O desmatamento, especialmente nos Andes da Bol\u00edvia e do Peru, \u00e9 o que mais agrava as inunda\u00e7\u00f5es na bacia do rio Madeira, que este ano adquiriram status de cat\u00e1strofe na Amaz\u00f4nia boliviana e em seu desaguadouro brasileiro. Essa \u00e9 a an\u00e1lise de Marc Dourojeanni, professor em\u00e9rito da Universidade Nacional Agr\u00e1ria de Lima, em contraste com ambientalistas e autoridades bolivianas, que insistem em culpar as hidrel\u00e9tricas brasileiras de Jirau e Santo Ant\u00f4nio pelas inunda\u00e7\u00f5es sem precedentes que castigaram o departamento de Beni.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o tem l\u00f3gica\u201d, explicou Dourojeanni \u00e0 IPS. Seria necess\u00e1rio revogar a lei da gravidade e a topografia para ignorar que, nesse caso, os brasileiros sofrem mais os efeitos do que ocorre na Bol\u00edvia do que o contr\u00e1rio, sem descartar os muitos pecados das represas. O rio Madeira \u00e9 o maior afluente do Amazonas e recebe \u00e1guas de quatro grandes rios, cada um com mais de mil quil\u00f4metros de extens\u00e3o e bacias que formam uma \u00e1rea de drenagem de 903.500 quil\u00f4metros quadrados, a superf\u00edcie da Venezuela e quase o dobro da da Espanha.<\/p>\n<p>Com 80% dessa \u00e1rea, a Bol\u00edvia capta, em dois ter\u00e7os de seu territ\u00f3rio, \u00e1guas que escorrem at\u00e9 o Madeira por mais de 250 rios, em forma de funil, que des\u00e1guam no Brasil. Do Peru prov\u00e9m o rio Madre de Dios. A essa vastid\u00e3o se acrescenta o acentuado declive. Tr\u00eas de seus grandes afluentes \u2013 Beni, Mamor\u00e9 e Madre de Dios \u2013 nascem nos Andes, entre 5.500 e 2.800 metros de altitude, e caem abaixo dos 500 metros nas plan\u00edcies amaz\u00f4nicas bolivianas.<\/p>\n<p>Essas ladeiras \u201ch\u00e1 mil anos estavam cobertas por florestas e agora est\u00e3o peladas\u201d, em grande parte pelos inc\u00eandios para abrir espa\u00e7o para uma agricultura de subsist\u00eancia, afirmou Dourojeanni, agr\u00f4nomo e engenheiro florestal, respons\u00e1vel pela Divis\u00e3o Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento na d\u00e9cada de 1990. A consequ\u00eancia s\u00e3o as torrentes de \u00e1gua que chegam e param nas plan\u00edcies bolivianas, alagando-as, e seguem para o Brasil. Boa parte dessas plan\u00edcies s\u00e3o inund\u00e1veis at\u00e9 mesmo quando ocorrem chuvas normais.<\/p>\n<p>Este ano, morreram na Bol\u00edvia 60 pessoas e 68 mil fam\u00edlias ficaram desabrigadas pelas cheias, em uma repeti\u00e7\u00e3o acrescida de trag\u00e9dias semelhantes provocadas pelos fen\u00f4menos El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a, antes de serem constru\u00eddas as represas brasileiras. O desmatamento em ladeiras andinas entre os 3.800 metros de altitude, onde come\u00e7am as florestas, e os 500 metros \u00e9 enorme na Bol\u00edvia e no Peru, mas n\u00e3o aparece nas estat\u00edsticas oficiais, denunciou Dourojeanni, tamb\u00e9m criador da funda\u00e7\u00e3o peruana Pr\u00f3-Natureza.<\/p>\n<p>Sem barreiras para o declive, arma-se um \u201ctsunami\u201d em terra firme, que no primeiro trimestre atingiu seis departamentos bolivianos e o fronteiri\u00e7o Estado brasileiro de Rond\u00f4nia. As casas de mais de cinco mil fam\u00edlias brasileiras foram inundadas pela cheia incomum do Madeira, especialmente em Porto Velho, capital de Rond\u00f4nia, onde est\u00e3o as duas hidrel\u00e9tricas. A estrada BR-364 ficou intransit\u00e1vel desde fevereiro, isolou o vizinho Estado do Acre por terra e afetou o abastecimento de alimentos e combust\u00edveis. Doen\u00e7as como leptospirose e c\u00f3lera tamb\u00e9m fizeram v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A busca por culpados, tamb\u00e9m no Brasil, se voltou para as represas. A justi\u00e7a federal ordenou que as empresas propriet\u00e1rias das centrais apoiassem as v\u00edtimas com alojamento adequados, entre outras medidas. Al\u00e9m disso, as empresas ter\u00e3o que fazer novos estudos de impacto das represas, supostamente respons\u00e1veis por agravar a cheia do rio. As duas centrais ampliaram sua capacidade a respeito do projeto inicial sem fazer uma avalia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Empresas e autoridades tentam convencer a irada popula\u00e7\u00e3o local de que a cat\u00e1strofe n\u00e3o se agravou pelas duas represas rec\u00e9m-enchidas. Chuvas t\u00e3o intensas \u201cs\u00f3 ocorrem a cada 500 anos\u201d e, com uma bacia t\u00e3o extensa acumulando \u00e1gua, \u00e9 natural que as plan\u00edcies sejam inundadas, como ocorreu tamb\u00e9m em quase toda a Bol\u00edvia, pontuou Victor Paranhos, presidente do cons\u00f3rcio Energia Sustent\u00e1vel do Brasil, que opera Jirau, a central mais pr\u00f3xima da fronteira boliviana.<\/p>\n<p>Desde 1967, o fluxo do rio Madeira \u00e9 monitorado e o n\u00edvel m\u00e1ximo registrado em Porto Velho foi de 17,52 metros em 1997, destacou Francisco de Assis Barbosa, respons\u00e1vel estadual de hidrologia do Servi\u00e7o Geol\u00f3gico do Brasil. No final de mar\u00e7o esse n\u00edvel atingiu 19,68 metros, em um ano \u201ctotalmente at\u00edpico\u201d, acrescentou \u00e0 IPS. A pluviosidade extrema na bacia do Madeira teve como contraponto a forte seca em outras partes do Brasil, que gerou uma crise energ\u00e9tica e escassez de \u00e1gua em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Uma massa de ar seco e quente estacionou no centro-sul do pa\u00eds entre dezembro e mar\u00e7o, bloqueando ventos que transportam umidade da Amaz\u00f4nia, e, assim, a precipita\u00e7\u00e3o se concentrou na Bol\u00edvia e no Peru. Esses eventos clim\u00e1ticos tendem a se repetir com maior frequ\u00eancia devido \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica global, segundo climatologistas. O desmatamento afeta o clima e exacerba seus efeitos.<\/p>\n<p>Transformar uma floresta em pastagem multiplica por 26,7 a quantidade de \u00e1gua que escorre para os rios e por 10,8 a eros\u00e3o do solo, constatou em 1989 um estudo de Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amaz\u00f4nia. Isso significa que metade da chuva que cai em pastagens vai direto para os rios, aumentando as cheias e a sedimenta\u00e7\u00e3o. Essa perda diminui em propor\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a de vegeta\u00e7\u00e3o mais alta e de ra\u00edzes profundas, segundo medi\u00e7\u00f5es de Fearnside em terrenos com declive de 20% em Ouro Preto D\u2019Oeste, munic\u00edpio de Rond\u00f4nia.<\/p>\n<p>Cultivar a terra \u201c\u00e9 pior\u201d do que as pastagens, porque \u201climpa todo o solo\u201d, eliminando inclusive a erva que alimenta o gado e ret\u00e9m um pouco de \u00e1gua, apontou Dourojeanni. Mas a pecu\u00e1ria compacta o solo pelo pisotear do gado, acelerando o escorrimento, acrescentou esse bi\u00f3logo de origem norte-americana e nacionalidade brasileira que pesquisa a Amaz\u00f4nia desde 1974.<\/p>\n<p>Em sua opini\u00e3o, o desmatamento \u201ccontribui pouco para as inunda\u00e7\u00f5es bolivianas no momento, porque o grosso das florestas continua de p\u00e9\u201d. Isso tamb\u00e9m afirma o especialista em hidrologia boliviano Jorge Molina, da Universidade Mayor de San Andr\u00e9s. A Bol\u00edvia est\u00e1 entre os 12 pa\u00edses de maior desmatamento atual, revela um estudo de 15 centros de pesquisa divulgado pela revista norte-americana <i>Science<\/i>, em novembro. O pa\u00eds perdeu 29.867 quil\u00f4metros quadrados de florestas entre 2000 e 2012, indicam imagens obtidas via sat\u00e9lite e ferramentas do Google.<\/p>\n<p>A pecu\u00e1ria \u00e9 um grande fator e se expandiu principalmente em Beni, fronteiri\u00e7o com Rond\u00f4nia. Ali teriam morrido 290 mil bovinos entre janeiro e fevereiro, segundo a federa\u00e7\u00e3o local de pecuaristas. A avalanche h\u00eddrica amea\u00e7a inclusive a efici\u00eancia das usinas hidrel\u00e9tricas. Santo Ant\u00f4nio teve que interromper sua gera\u00e7\u00e3o em fevereiro. Isso explica o interesse brasileiro em construir outras centrais bacia acima, \u201cmais para regular o fluxo do Madeira do que pela energia\u201d, destacou Dourojeanni.<\/p>\n<p>Os planos incluem, al\u00e9m de um projeto fronteiri\u00e7o com a Bol\u00edvia e a central Cachuela Esperanza no baixo Beni boliviano, outra hidrel\u00e9trica peruana no distante rio Inambari, afluente do Madre de Dios, detalhou Dourojeanni. Os planos de Inambari e de outras quatro hidrel\u00e9tricas peruanas, cuja concess\u00e3o foram ganhas por empresas brasileiras, foram suspensos em 2011 pela resist\u00eancia popular \u00e0 sua constru\u00e7\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 11\/4\/2014 &ndash; O desmatamento, especialmente nos Andes da Bol&iacute;via e do Peru, &eacute; o que mais agrava as inunda&ccedil;&otilde;es na bacia do rio Madeira, que este ano adquiriram status de cat&aacute;strofe na Amaz&ocirc;nia boliviana e em seu desaguadouro brasileiro. 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