{"id":17380,"date":"2014-04-14T13:37:33","date_gmt":"2014-04-14T13:37:33","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111272"},"modified":"2014-04-14T13:37:33","modified_gmt":"2014-04-14T13:37:33","slug":"o-trauma-das-violacoes-do-genocidio-ruandes-continua-vivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/o-trauma-das-violacoes-do-genocidio-ruandes-continua-vivo\/","title":{"rendered":"O trauma das viola\u00e7\u00f5es do genoc\u00eddio ruand\u00eas continua vivo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_111273\" style=\"width: 529px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Clipboard01-519x472.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-111273 \" alt=\"Clipboard01 519x472 O trauma das viola\u00e7\u00f5es do genoc\u00eddio ruand\u00eas continua vivo\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Clipboard01-519x472.jpg\" width=\"519\" height=\"472\" title=\"O trauma das viola\u00e7\u00f5es do genoc\u00eddio ruand\u00eas continua vivo\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Claudine Umuhoza, sobrevivente do genoc\u00eddio ruand\u00eas, acredita que seu pa\u00eds tem um futuro positivo de unidade. Foto: Fab\u00edola Ortiz\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Kigali, Ruanda, 14\/4\/2014 \u2013 O filho de Claudine Umuhoza completou 19 anos no dia 1\u00ba deste m\u00eas. Ele \u00e9 uma das milhares e milhares de crian\u00e7as concebidas enquanto em Ruanda era cometido um genoc\u00eddio, mas n\u00e3o \u00e9 reconhecido oficialmente como um sobrevivente. Sua m\u00e3e \u00e9.Duas d\u00e9cadas depois do massacre de um milh\u00e3o de membros da etnia minorit\u00e1ria tutsi e de hutus moderados, a maior parte da popula\u00e7\u00e3o atual ainda faz malabarismos para suportar o peso daquela viol\u00eancia.<\/p>\n<p>As mais afetadas s\u00e3o as mulheres que pariram filhos concebidos em viola\u00e7\u00f5es em massa. Estima-se que nesses cem dias, entre 6 de abril e meados de julho de 1994, entre cem mil e 250 mil mulheres foram violadas. Umuhoza, que vive no distrito de Gasabo, perto da capital, tinha 23 anos em 6 de abril de 1994, quando foi derrubado o avi\u00e3o em que viajavam o ent\u00e3o presidente Juvenal Habyarimana e seu colega de Burundi, Cyprien Ntaryamira.<\/p>\n<p>No conflito armado que se seguiu ela foi violada por sete homens. Um deles a esfaqueou no ventre com um fac\u00e3o e a deixou morrendo jogada no ch\u00e3o. Mas Umuhoza sobreviveu porque um vizinho hutu lhe deu assist\u00eancia e a ajudou a fugir entregando-lhe um documento de identidade falso no qual constava que ela era hutu. \u201cEsse vizinho j\u00e1 n\u00e3o vive em Ruanda, mudou com a fam\u00edlia para Mo\u00e7ambique. Quero lhe agradecer por salvar minha vida. Se n\u00e3o fosse ele, eu estaria morta\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>No massacre essa mulher perdeu quatro irm\u00e3os e outros membros de sua fam\u00edlia. Agora, aos 43 anos, vive com o v\u00edrus HIV, causador da aids, e ainda n\u00e3o contou ao seu filho porque nasceu. \u201cN\u00e3o sou capaz. Ele n\u00e3o sabe. Me casei em setembro de 1994, depois do genoc\u00eddio\u201d, disse. \u201cJ\u00e1 estava gr\u00e1vida, e depois de dar \u00e0 luz meu marido entendeu que o filho n\u00e3o era seu. N\u00e3o o aceitou e foi embora\u201d, contou Umuhoza, que nunca voltou a se casar.<\/p>\n<p>A viola\u00e7\u00e3o sexual continua sendo um forte tabu na sociedade ruandesa. Segundo Jules Shell, diretor-executivo da Funda\u00e7\u00e3o Ruanda, embora esse pa\u00eds da \u00c1frica central tenha feito grandes progressos, as mulheres que contra\u00edram HIV ao serem violadas ainda sofrem uma intensa estigmatiza\u00e7\u00e3o. Essa organiza\u00e7\u00e3o, com sede nos Estados Unidos, foi criada em 2008 e no ano seguinte come\u00e7ou a apoiar a escolaridade de um primeiro grupo de 150 crian\u00e7as nascidas de viola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cUma quantidade desproporcional de mulheres violadas tamb\u00e9m contra\u00edram HIV\u201d, detalhou Shell \u00e0 IPS. Embora n\u00e3o existam dados exatos, estima-se que 25% da popula\u00e7\u00e3o feminina vive com o v\u00edrus. \u201cNunca saberemos o n\u00famero preciso de crian\u00e7as nascidas de viola\u00e7\u00f5es cometidas durante o genoc\u00eddio, pois muitas mulheres t\u00eam medo, n\u00e3o podem ou n\u00e3o querem reconhecer a circunst\u00e2ncia em que seus filhos foram concebidos\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Mas as consequ\u00eancias daquele pesadelo afetam os jovens que nasceram depois de terminado. \u201cMuitos experimentam um fen\u00f4meno comum entre filhos de sobreviventes de um holocausto, conhecido como transmiss\u00e3o do trauma intergera\u00e7\u00e3o\u201d, explicou Shell. \u201c\u00c9 resultado da impossibilidade das m\u00e3es de falarem abertamente aos filhos sobre suas experi\u00eancias e seu pr\u00f3prio trauma, o que acaba afetando-os\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Como Umuhoza, muitas mulheres guardam sil\u00eancio, mas seus filhos sabem que t\u00eam pais que s\u00e3o desconhecidos para suas m\u00e3es. Isso tamb\u00e9m cria problemas pr\u00e1ticos, por exemplo, quando os filhos v\u00e3o se registrar para tirar o documento de identidade e precisam dar nome e sobrenome dos pais. Gra\u00e7as \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Ruanda, o filho de Umuhoza est\u00e1 para se formar na escola secund\u00e1ria, algo que sua m\u00e3e n\u00e3o p\u00f4de fazer.<\/p>\n<p>Ela \u00e9 uma das 600 m\u00e3es que recebem apoio dessa organiza\u00e7\u00e3o, que tamb\u00e9m fornece material escolar e paga as matr\u00edculas. \u201cEstou muito feliz por ele estar no secund\u00e1rio. Rezava para isso acontecer, e tenho a esperan\u00e7a de que poder\u00e1 ir \u00e0 universidade. \u00c9 muito importante pra mim. Sei que \u00e9 caro, mas se nem mesmo imagin\u00e1vamos que iria \u00e0 escola secund\u00e1ria&#8230; As portas podem se abrir rapidamente, tenho esperan\u00e7a\u201d, opinou.<\/p>\n<p>Umuhoza sonha em ver seu filho advogado e dedicado a defender pobres e marginalizados. Mas ele tem seus pr\u00f3prios sonhos e quer ser m\u00e9dico. \u201cEle me v\u00ea sofrendo dores e indo ao m\u00e9dico, por isso sonha ser capaz de me curar\u201d, contou. Devido ao seu estado de sa\u00fade e \u00e0s sequelas deixadas pelo ferimento no ventre, Umuhoza s\u00f3 pode fazer trabalhos muito leves. Por ser sobrevivente, tem direito a assist\u00eancia m\u00e9dica paga por um fundo especial criado pelo governo e que conta com 2% do or\u00e7amento do Estado. No dia 15 deste m\u00eas, ela far\u00e1 uma cirurgia no hospital militar de Kigali.<\/p>\n<p>O estigma e a discrimina\u00e7\u00e3o dos tutsis n\u00e3o desapareceram, sobretudo nas zonas rurais, onde s\u00e3o muito minorit\u00e1rios. Segundo a Comiss\u00e3o de Unidade Nacional e Reconcilia\u00e7\u00e3o, criada em 1999, pelo menos 40% dos ruandeses ainda temem outro genoc\u00eddio. \u201cA desconfian\u00e7a est\u00e1 a\u00ed. O trauma ainda \u00e9 um problema. Temos prisioneiros que foram libertados h\u00e1 pouco, mas n\u00e3o se integraram \u00e0 sociedade\u201d, explicou \u00e0 IPS o diretor de manejo de conflitos e constru\u00e7\u00e3o da paz da Comiss\u00e3o, Richard Kananga.<\/p>\n<p>A reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 um processo cont\u00ednuo. \u201cN\u00e3o podemos dizer quanto demorar\u00e1. Temos pesquisadores que medem como a popula\u00e7\u00e3o percebe esse processo de seguran\u00e7a humana. N\u00e3o podemos dizer que em mais 20 anos teremos conseguido que 100% da popula\u00e7\u00e3o se sinta segura\u201d, acrescentou Kananga. As crian\u00e7as que nasceram depois do genoc\u00eddio podem representar uma etapa nefasta da hist\u00f3ria do pa\u00eds, mas tamb\u00e9m s\u00e3o \u201ca luz e a esperan\u00e7a de um futuro mais luminoso\u201d, afirmou Shell.<\/p>\n<p>Umuhoza tamb\u00e9m acredita nisso. \u201cCompare como era o pa\u00eds h\u00e1 20 anos e como \u00e9 agora. O futuro de Ruanda ser\u00e1 melhor, o povo estar\u00e1 unido. Isso n\u00e3o significa que as pessoas ter\u00e3o esquecido que s\u00e3o tutsi ou hutu. Os ruandeses continuar\u00e3o sabendo quem s\u00e3o\u201d, afirmou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Kigali, Ruanda, 14\/4\/2014 &ndash; O filho de Claudine Umuhoza completou 19 anos no dia 1&ordm; deste m&ecirc;s. Ele &eacute; uma das milhares e milhares de crian&ccedil;as concebidas enquanto em Ruanda era cometido um genoc&iacute;dio, mas n&atilde;o &eacute; reconhecido oficialmente como um sobrevivente. 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