{"id":17381,"date":"2014-04-14T14:35:12","date_gmt":"2014-04-14T14:35:12","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111264"},"modified":"2014-04-14T14:35:12","modified_gmt":"2014-04-14T14:35:12","slug":"a-copa-mundial-da-fifa-conta-seus-mortos-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/a-copa-mundial-da-fifa-conta-seus-mortos-no-brasil\/","title":{"rendered":"A Copa Mundial da Fifa conta seus mortos no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_111270\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Copa.jpg\"><img class=\" wp-image-111270 \" alt=\"Copa A Copa Mundial da Fifa conta seus mortos no Brasil\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Copa.jpg\" width=\"529\" height=\"319\" title=\"A Copa Mundial da Fifa conta seus mortos no Brasil\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A construtora Andrade Gutierrez \u00e9 respons\u00e1vel pelas obras do est\u00e1dio Arena da Amaz\u00f4nia, em Manaus, onde morreram quatro oper\u00e1rios. Foto: Portal da Copa, governo do Brasil\/Glauber Queiroz<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 14\/4\/2014 \u2013 A press\u00e3o para aprontar a tempo os 12 est\u00e1dios brasileiros, onde ser\u00e1 disputada a partir de junho a Copa Mundial da Fifa, imp\u00f5e jornadas extenuantes, de at\u00e9 18 horas, e amplia o risco de acidentes e mortes. Nove trabalhadores j\u00e1 morreram nas obras, sete por acidentes e dois por parada card\u00edaca.<\/p>\n<p>O \u00faltimo caso fatal ocorreu no dia 29 de mar\u00e7o na Arena Corinthians (Itaquer\u00e3o), em S\u00e3o Paulo. F\u00e1bio Hamilton da Cruz, de 23 anos, morreu ao cair de uma altura de oito metros, quando trabalhava na montagem das arquibancadas. Sua morte causou a paralisa\u00e7\u00e3o parcial das obras pela justi\u00e7a, que exigia que a empresa demonstrasse ter corrigido as falhas de seguran\u00e7a. Mas, no dia 7, o Minist\u00e9rio do Trabalho autorizou o rein\u00edcio dos trabalhos, pois o est\u00e1dio deve estar pronto para a abertura do Mundial, no dia 12 de junho.<\/p>\n<p>No dia 7 de fevereiro, o portugu\u00eas Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Pita Martins, de 55 anos, morreu quando uma pe\u00e7a que desmontava em um guindaste caiu sobre sua cabe\u00e7a, no est\u00e1dio Arena da Amaz\u00f4nia, na cidade de Manaus. Nessa obra j\u00e1 havia falecido Marcleudo de Melo Ferreira, de 22 anos, no dia 14 de dezembro, ao cair de uma altura de 35 metros, quando rompeu uma corda, isso \u00e0s quatro horas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>Nesse mesmo dia, ao lado do est\u00e1dio, morreu de infarto Jos\u00e9 Ant\u00f4nio da Silva Nascimento, de 49 anos, enquanto trabalhava na constru\u00e7\u00e3o do Centro de Conven\u00e7\u00f5es do Amazonas, que integra o complexo preparado para o Mundial. Sua fam\u00edlia se queixou das condi\u00e7\u00f5es de trabalho e das jornadas \u201cde domingo a domingo\u201d. No dia 28 de mar\u00e7o de 2013, havia falecido um quarto oper\u00e1rio na Arena da Amaz\u00f4nia, Raimundo Nonato Lima da Costa, de 49 anos, por traumatismo craniano ap\u00f3s cair de uma altura de cinco metros.<\/p>\n<p>Em S\u00e3o Paulo, no dia 27 de novembro do ano passado, morreram outros dois oper\u00e1rios, F\u00e1bio Luiz Pereira, de 42 anos, e Ronaldo Oliveira dos Santos, de 44, quando caiu um guindaste no Itaquer\u00e3o. Uma parada cardiorrespirat\u00f3ria acabou com a vida de Abel de Oliveira, de 55 anos, dia 19 de julho de 2012. Ele se sentiu mal enquanto trabalhava na constru\u00e7\u00e3o do Minas Arena (Mineir\u00e3o). O primeiro acidente fatal das obras para a Copa Fifa (Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Futebol) ocorreu em 11 de junho de 2012, quando Jos\u00e9 Afonso de Oliveira Rodrigues, de 21 anos, caiu de uma estrutura de 30 metros de altura no Est\u00e1dio Nacional de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cO governo pressiona as empresas e essas descarregam nos oper\u00e1rios que est\u00e3o pagando com suas vidas\u201d, disse \u00e0 IPS Antonio de Souza Ramalho, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Ind\u00fastrias da Constru\u00e7\u00e3o Civil de S\u00e3o Paulo (Sintracon-SP) e deputado estadual pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Foi uma \u201cirresponsabilidade\u201d atrasar as obras para depois, \u201ccom a data em cima, matar os trabalhadores com jornadas extenuantes de at\u00e9 18 horas por dia\u201d, afirmou Ramalho.<\/p>\n<p>\u201cOs males da Copa deixar\u00e3o sequelas por muitos anos. N\u00e3o podemos aceitar acidentes, s\u00e3o algo criminoso\u201d, acrescentou Ramalho. Segundo o sindicalista, a queda do guindaste que matou dois oper\u00e1rios em S\u00e3o Paulo foi antecipada pelos trabalhadores. Na \u00e1rea onde se constr\u00f3i o Itaquer\u00e3o se preencheu um canteiro apressadamente para sustentar o guindaste que transporta as pe\u00e7as da estrutura que cobre o est\u00e1dio, quando era necess\u00e1rio construir uma base de cimento armado, explicou.<\/p>\n<p>\u201cOs pr\u00f3prios trabalhadores e os engenheiros de seguran\u00e7a alertaram que isso era inseguro. Sabemos que foi a pressa, pois fazer a base de cimento exigiria 60 dias e tinha seu custo. Preferiram improvisar\u201d, ressaltou Ramalho. V\u00e1rios meses depois dessas mortes, se desconhece o resultado da per\u00edcia t\u00e9cnica. Em dezembro, o Minist\u00e9rio do Trabalho e a construtora Odebrecht assinaram um compromisso de ajuste de conduta que impede os oper\u00e1rios dos guindastes de fazerem hora extra ou trabalhar de noite. A jornada dos demais trabalhadores deve ser de sete horas e meia, mais uma hora de almo\u00e7o, e s\u00f3 podem fazer duas horas extras por dia.<\/p>\n<p>Segundo Ramalho, o acordo \u201cn\u00e3o \u00e9 cumprido\u201d. O sindicalista informou que \u201capresentei uma den\u00fancia para que a pol\u00edcia investigue. Estamos vivendo uma enorme inseguran\u00e7a jur\u00eddica\u201d. Uma das principais irregularidades das obras em S\u00e3o Paulo est\u00e1 nos contratos chave na m\u00e3o, pelos quais se paga ao trabalhador por um servi\u00e7o espec\u00edfico feito em um determinado prazo. \u201cAo se pagar por tarefa realizada, evita-se as leis trabalhistas que preveem encargos sociais. Todos sabem, mas n\u00e3o h\u00e1 como provar\u201d, lamentou Ramalho.<\/p>\n<p>O presidente do Sindicato da Ind\u00fastria da Constru\u00e7\u00e3o Civil do Estado do Amazonas (Sinduscon-AM), Eduardo Lopes, disse \u00e0 IPS que \u201co risco \u00e9 inerente \u00e0 constru\u00e7\u00e3o, mas a corrida para entregar as obras gera um perigo muito maior, sem d\u00favida\u201d. Por\u00e9m, \u201cnos dois acidentes fatais na Arena da Amaz\u00f4nia as v\u00edtimas usavam o equipamento de seguran\u00e7a. Foi imprud\u00eancia dos trabalhadores que descumpriram as normas e entraram em \u00e1reas restritas\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que, quando o cronograma aperta, a preven\u00e7\u00e3o passa a segundo plano, admitiu o engenheiro mec\u00e2nico e de seguran\u00e7a no trabalho Jaques Sherique, do Conselho de Engenharia do Rio de Janeiro. Na remodela\u00e7\u00e3o do Maracan\u00e3, conclu\u00edda em abril de 2013, n\u00e3o houve mortos, mas v\u00e1rios feridos, a maioria por descarte inadequado de materiais e cortes por manipula\u00e7\u00e3o e sobrecarga, sem contar as longas jornadas de trabalho, inclusive noturnas. \u201cA obra termina e o trabalhador fica doente depois. Quando o est\u00e1dio fica pronto e bonito, a popula\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios sai esmagada, esgotada e estressada\u201d, apontou.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o civil \u00e9 o setor que mais gera empregos no Brasil, com 3,12 milh\u00f5es de novos postos em 2013, mas tamb\u00e9m \u00e9 onde mais aumentam os acidentes. Em 2010, foram registrados 55 mil e, em 2012, 62 mil, aumento de 12%, segundo o Minist\u00e9rio do Trabalho. Segundo dados recopilados pelo Sintracon-SP, s\u00f3 em S\u00e3o Paulo quintuplicaram os acidentes de trabalho na constru\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos dois anos. Em 2012, foram 1.386 e 7.133 no ano seguinte.<\/p>\n<p>Nas obras para os Jogos Ol\u00edmpicos de Inverno de Sochi, na R\u00fassia, morreram mais de 60 oper\u00e1rios, segundo a Internacional de Trabalhadores da Constru\u00e7\u00e3o e da Madeira. Nas das Olimp\u00edadas de Londres 2012 n\u00e3o houve mortes. \u201cMuitas vezes os oper\u00e1rios se alegram quando sofrem um acidente porque v\u00e3o para casa descansar. E os que resistem desenvolver\u00e3o doen\u00e7as mais tarde\u201d, observou o engenheiro Sherique.<\/p>\n<p>\u00c9 um paradoxo, mas as doen\u00e7as trabalhistas que ganham protagonismo nesse setor s\u00e3o os dist\u00farbios mentais ou psicossociais, destacou Sherique. \u201c\u00c9 um legado perverso e sub-registrado\u201d, a parte submersa do <i>iceberg<\/i> da seguran\u00e7a do trabalho: as doen\u00e7as adquiridas no trabalho. Isso n\u00e3o preocupa a ind\u00fastria, especialmente nas obras esportivas que apresentam um ritmo intenso, press\u00e3o e prazos.<\/p>\n<p>A lei prev\u00ea indeniza\u00e7\u00e3o de 6% do sal\u00e1rio de um trabalhador por periculosidade durante o per\u00edodo em que est\u00e1 exposto a atividades perigosas, insalubres ou nocivas. \u201cIsso n\u00e3o \u00e9 razo\u00e1vel\u201d, opinou Sherique, porque \u201cna maioria das vezes essas doen\u00e7as nem s\u00e3o notificadas\u201d. Em 2011, o Tribunal Superior do Trabalho lan\u00e7ou um programa nacional de preven\u00e7\u00e3o de acidentes que, no entanto, \u201cn\u00e3o teve resultados reais\u201d, pontuou.<\/p>\n<p><b>Mais mortes<\/b><\/p>\n<p>As m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de trabalho tamb\u00e9m causaram mortes em instala\u00e7\u00f5es esportivas que n\u00e3o figuram na lista oficial da Fifa.<\/p>\n<p>Em 15 de abril de 2013, parte das grades do est\u00e1dio Arena Palestra, do clube Sociedade Esportiva Palmeiras, caiu e causou a morte do trabalhador Carlos de Jesus, de 34 anos. Outro oper\u00e1rio ficou ferido pela queda de uma viga. No momento do acidente trabalhavam cerca de 500 oper\u00e1rios, cinco deles no local da queda. Tr\u00eas escaparam ilesos.<\/p>\n<p>Araci da Silva Bernardes, de 40 anos, estava colocando uma lumin\u00e1ria na Arena do Gr\u00eamio, em Porto Alegre, quando uma descarga el\u00e9trica o matou, em 23 de janeiro de 2013. Esse est\u00e1dio foi inaugurado em dezembro de 2012, mas n\u00e3o receber\u00e1 jogos do Mundial. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 14\/4\/2014 &ndash; A press&atilde;o para aprontar a tempo os 12 est&aacute;dios brasileiros, onde ser&aacute; disputada a partir de junho a Copa Mundial da Fifa, imp&otilde;e jornadas extenuantes, de at&eacute; 18 horas, e amplia o risco de acidentes e mortes. 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