{"id":17398,"date":"2014-04-21T14:20:33","date_gmt":"2014-04-21T14:20:33","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111610"},"modified":"2014-04-21T14:20:33","modified_gmt":"2014-04-21T14:20:33","slug":"garcia-marquez-o-genio-do-pais-da-guerra-sem-fim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/garcia-marquez-o-genio-do-pais-da-guerra-sem-fim\/","title":{"rendered":"Garc\u00eda M\u00e1rquez, o g\u00eanio do pa\u00eds da guerra sem fim"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_111612\" style=\"width: 306px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Clipboard011-396x472.jpg\"><img class=\" wp-image-111612 \" alt=\"Clipboard011 396x472 Garc\u00eda M\u00e1rquez, o g\u00eanio do pa\u00eds da guerra sem fim\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Clipboard011-396x472.jpg\" width=\"296\" height=\"372\" title=\"Garc\u00eda M\u00e1rquez, o g\u00eanio do pa\u00eds da guerra sem fim\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Garc\u00eda M\u00e1rquez fotografado em 1984. Foto: F3rn4nd0, editado por Mangostar C BY-SA 3.0<\/p><\/div>\n<p>Montevid\u00e9u, Uruguai, abril\/2014 \u2013 A primeira vez que li Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez (1927-2014) foi diante das provas de linotipo de <em>Relato de um N\u00e1ufrago<\/em> que a Editorial Sudamericana se preparava para reeditar na Argentina.<\/p>\n<p>Estava na gr\u00e1fica da Sudamericana, no bairro portenho de San Telmo, onde me cabia corrigir tanto uma novelinha g\u00f3tica quanto um cl\u00e1ssico da literatura ou uma obra da poeta Alejandra Pizarnik, de t\u00e3o variado que era o card\u00e1pio.<\/p>\n<p>Eu tinha 17 anos e fiquei fascinada por esse relato breve, uma reportagem que Garc\u00eda M\u00e1rquez havia publicado em v\u00e1rias cap\u00edtulos no jornal El Espectador de Bogot\u00e1, em 1955, e que em 1970 foi publicada em livro.<\/p>\n<p>O nome completo era <i>Relato de um n\u00e1ufrago que esteve dez dias \u00e0 deriva em uma balsa sem comer nem beber, que foi proclamado her\u00f3i da p\u00e1tria, beijado pelas rainhas da beleza e ficou rico pela publicidade, e depois molestado pelo governo e esquecido para sempre<\/i>.<\/p>\n<p>Por tr\u00e1s da per\u00edcia pessoal do sobrevivente, na primeira pessoa, Garc\u00eda M\u00e1rquez denunciava que o naufr\u00e1gio do marinheiro e de outros sete companheiros que morreram se deveu ao excessivo contrabando que transportava o destroier Caldas, da marinha colombiana.<\/p>\n<p>O pa\u00eds estava na \u00e9poca sob uma ditadura militar, por isso a den\u00fancia levou ao fechamento do jornal e ao primeiro dos v\u00e1rios ex\u00edlios do jornalista. O \u00faltimo foi em 1997. Garc\u00eda M\u00e1rquez nunca voltou a viver na Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>Dali, naturalmente, saltei para <i>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/i>, a obra-mestra que a mesma Editorial Sudamericana publicou em 1967 e que iria revolucionar a literatura em espanhol e influir na imagem e na configura\u00e7\u00e3o cultural que o resto do mundo teria da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>N\u00f3s, latino-americanos, ca\u00edmos rendidos de amor, e de espanto, pela Col\u00f4mbia que Garc\u00eda M\u00e1rquez descreveu nessa e em outras grandes fic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A crueldade de suas guerras, a solid\u00e3o de seus her\u00f3is, as pat\u00e9ticas piruetas de seus pol\u00edticos e militares, a eternidade de seus ditadores, a execr\u00e1vel presen\u00e7a estrangeira, o abandono de seus povoados rurais, tudo tinha o realismo do sentido na pr\u00f3pria carne e, sendo \u00fanico, se parecia tamb\u00e9m ao que ocorria em tantos rinc\u00f5es da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas na voz de Garc\u00eda M\u00e1rquez adquiria outra dimens\u00e3o, on\u00edrica, exuberante e humor\u00edstica, que nos transportava como leitores e nos permitia refletir sobre nossos males at\u00e9 com certa alegria.<\/p>\n<p>Como outros grandes escritores, Garc\u00eda M\u00e1rquez construiu um universo pr\u00f3prio, feito de lugares reais e inventados, de personagens inveross\u00edmeis e de linhagens e genealogias.<\/p>\n<p>Seus nomes, como Macondo ou Aureliano Buend\u00eda, j\u00e1 fazem parte da mem\u00f3ria coletiva da Am\u00e9rica Latina, tal como aconteceu s\u00e9culos antes com Dom Quixote.<\/p>\n<p>Devorei todos seus contos e novelas, desde <i>La Hojarasca <\/i>(1955) at\u00e9 <i>Mem\u00f3rias de Minhas Putas Tristes <\/i>(2004), passando pelas formid\u00e1veis e muito distintas <i>O Outono do Patriarca<\/i> (1975) e <i>O Amor nos Tempos do C\u00f3lera<\/i> (1985).<\/p>\n<p>Quando corrigia as provas de <i>Relato de um N\u00e1ufrago<\/i> eu ainda n\u00e3o sabia que seria jornalista.<\/p>\n<p>Muitos anos depois, em 2007, viajei \u00e0 Col\u00f4mbia como tal e tive oportunidade de conhecer a terra que vislumbrara pelos livros de Garc\u00eda M\u00e1rquez, que em 1982 recebeu o pr\u00eamio Nobel de Literatura.<\/p>\n<p>Pude ver que a guerra continuava, sem medo, mudando de protagonistas e de centros nevr\u00e1lgicos, mas com igual rio de sangue e a mesma constante do despojo e do abandono.<\/p>\n<p>Desde 2012, as autoridades da Col\u00f4mbia e a principal guerrilha esquerdista do pa\u00eds discutem em Havana como p\u00f4r fim ao \u00faltimo meio s\u00e9culo de guerra.<\/p>\n<p>Garc\u00eda M\u00e1rquez, morto de c\u00e2ncer no dia 17, no M\u00e9xico, n\u00e3o chegou a ver seu pa\u00eds em paz. Tomara que os colombianos n\u00e3o tenham que esperar outros 50 anos. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* <b>Diana Cariboni<\/b><\/i><i> \u00e9 editora chefe associada da IPS, chefe de reda\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o mundial de not\u00edcias em espanhol e da Am\u00e9rica Latina, e editora do Terram\u00e9rica, premiado servi\u00e7o quinzenal sobre ambiente e desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, Uruguai, abril\/2014 &ndash; A primeira vez que li Gabriel Garc&iacute;a M&aacute;rquez (1927-2014) foi diante das provas de linotipo de Relato de um N&aacute;ufrago que a Editorial Sudamericana se preparava para reeditar na Argentina. 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