{"id":17409,"date":"2014-04-23T14:07:49","date_gmt":"2014-04-23T14:07:49","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111751"},"modified":"2014-04-23T14:07:49","modified_gmt":"2014-04-23T14:07:49","slug":"o-maior-matadouro-do-iraque","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/o-maior-matadouro-do-iraque\/","title":{"rendered":"O maior matadouro do Iraque"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_111752\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Iraque1.jpg\"><img class=\" wp-image-111752 \" alt=\"Iraque1 O maior matadouro do Iraque\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/Iraque1.jpg\" width=\"529\" height=\"372\" title=\"O maior matadouro do Iraque\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Policial monta guarda na entrada do bairro turcomano de Tuz Jormato, no distrito iraquiano de Saladino. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tuz Jormato, Iraque, 23\/4\/2014 \u2013 \u201cN\u00e3o me atrevo a dizer quem s\u00e3o os assassinos aqui, mas sei que o alvo somos n\u00f3s, os turcomanos\u201d, desabafa Ahmed Abdulah Muhtaroglu, junto ao retrato de seu irm\u00e3o assassinado em 2013, no Iraque. Muhtaroglu recebe a IPS em Tuz Jormato, distrito que fica 170 quil\u00f4metros ao norte de Bagd\u00e1 e onde a etnia turcomana \u00e9 maioria. Este povo descende majoritariamente das tropas do imp\u00e9rio otamano na Mesopot\u00e2mia.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s \u00e1rabes e curdos, os turcomanos s\u00e3o o terceiro grupo \u00e9tnico do Iraque, com uma popula\u00e7\u00e3o que oscila entre 500 mil pessoas, segundo fontes internacionais, e quase tr\u00eas milh\u00f5es, segundo a pr\u00f3pria comunidade. \u201cN\u00e3o h\u00e1 pior lugar no mundo para um turcomano do que Tuz\u201d, afirmou Muhtaroglu, l\u00edder local da Frente Turcomana, principal partido pol\u00edtico desse povo no Iraque. \u201cNos convertemos nas v\u00edtimas de uma agenda para deslocar nossa popula\u00e7\u00e3o. S\u00f3 no ano passado, cerca de 500 fam\u00edlias abandonaram o distrito\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Se os deslocamentos s\u00e3o uma triste moeda de troca em um pa\u00eds que se rasga pela viol\u00eancia sect\u00e1ria, nesta cidade de 60 mil habitantes ganham nova dimens\u00e3o. Segundo a base de dados Iraq Body Count, o \u00faltimo ataque em Tuz ocorreu em 8 de abril, quando quatro residentes morreram na explos\u00e3o de um carro-bomba. O ataque mais brutal ocorreu em janeiro de 2013, quando 42 membros da comunidade morreram em um ataque suicida durante a realiza\u00e7\u00e3o de um funeral.<\/p>\n<p>No mandato de Saddam Hussein (1979-2003), a localidade passou da \u00f3rbita de Kirkuk, de maioria curda, para a da vizinha Saladino, onde predominam os \u00e1rabes, no contexto de uma campanha de arabiza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o norte. Kirkuk e Tuz Jormato s\u00e3o dois de v\u00e1rios \u201cterrit\u00f3rios em disputa\u201d, cujo <i>status<\/i> seria definido em um referendo que vem sendo adiado desde 2007.<\/p>\n<p>Hanna Mohammad, \u00fanica candidata de Tuz \u00e0s elei\u00e7\u00f5es gerais programadas para o dia 30 deste m\u00eas, argumentou \u00e0 IPS que uma regi\u00e3o independente seria a solu\u00e7\u00e3o mais conveniente. Ela \u00e9 candidata \u201cporque \u00e9 mais f\u00e1cil para uma mulher ser eleita\u201d. Muitos de seus potenciais eleitores vivem no bairro turcomano de Tuz. \u201cSe voc\u00ea for l\u00e1, comprovar\u00e1 que constru\u00edmos nossa pr\u00f3pria pris\u00e3o como \u00fanica forma de sobreviver\u201d, lamentou esta candidata de 40 anos.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil chegar l\u00e1, porque \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ver os muros de concreto levantados no centro da localidade. Passar a pali\u00e7ada, com per\u00edmetro de um quil\u00f4metro, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel nos postos de controle com policiais locais como Samir D, que explicou que foram os moradores que come\u00e7aram a constru\u00ed-la h\u00e1 dois anos, para evitar carros-bomba como o que matou seu irm\u00e3o h\u00e1 tr\u00eas anos. Mas continua n\u00e3o sendo suficiente.<\/p>\n<p>A poucos metros dali Mohammad Hamid aponta o lugar em que perdeu sua filha em setembro. Hanna, de dez anos, morreu sepultada pelo muro que rodeia a entrada de sua casa, devido a uma explos\u00e3o ocorrida na resid\u00eancia em frente, que pertencia a uma fam\u00edlia turcomana que teve dois membros feridos.<\/p>\n<p>As ruas nesse distrito n\u00e3o s\u00e3o asfaltadas, por isso Ahmed B n\u00e3o tem dificuldades em cavar uma faixa na sua. O objetivo \u00e9 instalar um tubo para canalizar o esgoto e evitar o mau cheiro e, sobretudo, que seus dois sobrinhos n\u00e3o adoe\u00e7am ao brincarem ao ar livre. S\u00e3o os filhos de seu irm\u00e3o morto em uma explos\u00e3o h\u00e1 seis meses. Zohaila, m\u00e3e de Ahmed, continua desolada. \u201cOferecemos a Ahmed a vi\u00fava de seu irm\u00e3o, mas ela n\u00e3o aceitou, e eu carrego o encargo de tudo com os 150 mil dinares mensais (US$ 125) que recebo para revistar as mulheres na entrada da mesquita\u201d, contou a anci\u00e3 turcomana em rigoroso luto.<\/p>\n<p>Nos arredores da mesquita do im\u00e3 Ahmed, a iconografia xiita \u00e9 onipresente: desde os retratos do im\u00e3 Ali, descendente leg\u00edtimo de Maom\u00e9, segundo esse ramo do Isl\u00e3, at\u00e9 os de Moqtada al-Sadr, l\u00edder pol\u00edtico e religioso e uma das figuras mais importantes no Iraque p\u00f3s-Saddam Hussein. Tampouco faltam fotografias dos mortos em atentados. O policial Massud M culpa pelo desastre \u201cterroristas que n\u00e3o t\u00eam ra\u00e7a nem religi\u00e3o\u201d, uma resposta que parece frase feita entre muitos moradores.<\/p>\n<p>Durante uma reuni\u00e3o, em outubro, com o embaixador dos Estados Unidos no Iraque, Robert Stephen Beecroft, o ministro para os Direitos Humanos, Mohammad Shia al Sudani, admitiu que \u201ca defini\u00e7\u00e3o legal de genoc\u00eddio \u00e9 aplic\u00e1vel \u00e0s minorias iraquianas como os yajidies, turcomanos e chabaquies\u201d.<\/p>\n<p>Em seu informe de maio de 2013, o Instituto para o Direito Internacional e os Direitos Humanos se referiu a uma \u201cs\u00e9ria deteriora\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a na regi\u00e3o devido \u00e0s crescentes tens\u00f5es entre o governo curdo e o de Bagd\u00e1\u201d. A institui\u00e7\u00e3o com sedes em Bagd\u00e1, Washington e Bruxelas, falava de uma crescente atividade de grupos armados de variado cunho \u00e9tnico e religioso, e tamb\u00e9m de den\u00fancias de membros da comunidade turcomana supostamente intimidados pelas for\u00e7as de seguran\u00e7a curdas, dominantes na \u00e1rea.<\/p>\n<p>Arsad Salihi, um dos sete parlamentares turcomanos, concordou com essa an\u00e1lise. \u201cNosso sofrimento \u00e9 por estarmos entre \u00e1rabes e curdos; chegar a um acordo com uns significa enfrentar outros\u201d, afirmou \u00e0 IPS, em sua resid\u00eancia em Kirkuk. O dirigente pol\u00edtico turcomano culpa pelos assassinatos \u201cterroristas de todas as cores\u201d, e garante que n\u00e3o descartaria uma eventual integra\u00e7\u00e3o \u00e0 Regi\u00e3o Aut\u00f4noma Curda. Para isso, disse, \u201cse deveria acabar com as cont\u00ednuas arbitrariedades cometidas pelos curdos com a comunidade\u201d.<\/p>\n<p>Essas supostas irregularidades s\u00e3o terminantemente refutadas pelo legislador Jalid Schwani, da Uni\u00e3o Patri\u00f3tica do Curdist\u00e3o, que aposta em \u201cacordos diretos com \u00e1rabes e turcomanos\u201d. No \u201ccaso de Tuz Jormato, voltaria \u00e0 \u00f3rbita de Kirkuk, e Saladino poderia ficar com Hawiya\u201d, localidade de maioria \u00e1rabe no oeste de Kirkuk. Aconte\u00e7a o que acontecer, Ihmat Altun disse que n\u00e3o ver\u00e1. \u201cAmanh\u00e3 parto com minha fam\u00edlia para Istambul. N\u00e3o ficarei para que nos sacrifiquem nesse matadouro\u201d, afirmou este pe\u00e3o de obra em sua velha caminhonete, logo antes de o guarda liberar a passagem. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><!--[if gte mso 9]><xml><br \/>\n<o:OfficeDocumentSettings><br \/>\n<o:PixelsPerInch>72<\/o:PixelsPerInch><br \/>\n<\/o:OfficeDocumentSettings><br \/>\n<\/xml><![endif]--><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Tuz Jormato, Iraque, 23\/4\/2014 &ndash; &ldquo;N&atilde;o me atrevo a dizer quem s&atilde;o os assassinos aqui, mas sei que o alvo somos n&oacute;s, os turcomanos&rdquo;, desabafa Ahmed Abdulah Muhtaroglu, junto ao retrato de seu irm&atilde;o assassinado em 2013, no Iraque. 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