{"id":17410,"date":"2014-04-24T16:33:31","date_gmt":"2014-04-24T16:33:31","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111858"},"modified":"2014-04-24T16:33:31","modified_gmt":"2014-04-24T16:33:31","slug":"indigenas-dos-estados-unidos-exigem-limpeza-do-pior-lixao-nuclear-do-projeto-manhattan","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/indigenas-dos-estados-unidos-exigem-limpeza-do-pior-lixao-nuclear-do-projeto-manhattan\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas dos Estados Unidos exigem limpeza do pior lix\u00e3o nuclear do Projeto Manhattan"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_111859\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img class=\" wp-image-111859 \" alt=\"cartel Ind\u00edgenas dos Estados Unidos exigem limpeza do pior lix\u00e3o nuclear do Projeto Manhattan\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/cartel.jpg\" width=\"529\" height=\"319\" title=\"Ind\u00edgenas dos Estados Unidos exigem limpeza do pior lix\u00e3o nuclear do Projeto Manhattan\" \/><p class=\"wp-caption-text\">Cartaz proibindo a passagem na barreira perimetral da reserva nuclear de Hanford, no Estado de Washington. Foto: Jason E. Kaplan\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00e3o Yakama, Estados Unidos, 24\/4\/2014 \u2013 Executivos, pol\u00edticos e funcion\u00e1rios do Departamento de Energia dos Estados Unidos discutiam como alertar as gera\u00e7\u00f5es que viver\u00e3o dentro de 125 mil anos sobre o lixo radioativo de Hanford, o local mais contaminado do pa\u00eds, localizado no extremo noroeste. \u201cEu lhes direi como\u201d, interrompeu o nativo Russell Jim.<\/p>\n<p>\u201cOlharam entre si e depois para mim. Ent\u00e3o lhes disse: estamos aqui desde o come\u00e7o dos tempos, por isso tamb\u00e9m estaremos nessa oportunidade. A\u00ed se deram conta de que tinham um problema nas m\u00e3os\u201d, conta \u00e0 IPS este homem de 78 anos que faz parte do povo yakama. Com suas longas tran\u00e7as, Jim \u00e9 uma figura impactante. Dirige o Programa de Recupera\u00e7\u00e3o Ambiental e Manejo de Res\u00edduos (ERWM) das tribos yakama e permanece tranquilamente sentado em seu escrit\u00f3rio nas \u00e1ridas terras da Na\u00e7\u00e3o Yakama.<\/p>\n<p>A reserva, situada no sudeste do Estado de Washington, tem 486 mil hectares, dez mil integrantes de tribos reconhecidas federalmente e cerca de 12 mil cavalos selvagens vagando pelas desertas estepes. \u00c9 o que resta de um territ\u00f3rio de quase cinco milh\u00f5es de hectares que, em 1855, os yakamas tiveram que ceder pela for\u00e7a ao governo norte-americano, e est\u00e1 a apenas 32 quil\u00f4metros do complexo nuclear de Hanford.<\/p>\n<p>Embora a corrida armamentista nuclear tenha terminado em 1989, o lixo radioativo \u00e9 a heran\u00e7a deixada em diferentes lugares deste pa\u00eds pelo Projeto Manhattan. Hanford, em particular, come\u00e7ou a operar em 1943. Aqui foi produzido o plut\u00f4nio da bomba at\u00f4mica que os Estados Unidos lan\u00e7aram sobre a cidade japonesa de Nagasaki, em 1945. Chegou a ter nove reatores e cinco grandes complexos para processar esse metal pesado. Hoje est\u00e1 quase totalmente desmantelado. Mas segue contendo e vazando radioatividade muito prejudicial.<\/p>\n<p>Os yakamas conseguiram evitar que seus pesqueiros ancestrais se convertessem em dep\u00f3sitos de res\u00edduos procedentes de outros lugares, invocando o tratado de 1855 que lhes assegura acesso aos seus \u201clugares usuais e costumeiros\u201d. Mas Hanford est\u00e1 longe de ser um ambiente s\u00e3o, apesar da promessa de limpeza feita pelo Departamento de Energia. \u201cO governo est\u00e1 tentando reclassificar o lixo como de \u2018baixa radioatividade\u2019. Querem deix\u00e1-lo aqui e enterr\u00e1-lo em lix\u00f5es quase superficiais. Mas os cientistas dizem que \u00e9 preciso enterrar a grande profundidade\u201d, afirmou Jim.<\/p>\n<p>Tom Carpenter, da organiza\u00e7\u00e3o Hanford Challenge, explicou \u00e0 IPS que esta \u201c\u00e9 uma batalha para que os federais cumpram sua promessa de retirar o lixo pelo Estado de Washington e pelas tribos. H\u00e1 67,5 quil\u00f4metros de faixas cavadas de 4,5 metros de largura por seis metros de profundidade, sem revestimento e cheias de caixas e frascos de res\u00edduos\u201d. Al\u00e9m disso, h\u00e1 177 tanques subterr\u00e2neos de lixo radioativo e seis deles apresentam vazamentos. Sup\u00f5e-se que quando se detecta um vazamento os res\u00edduos devem ser retirados no prazo de 24 horas ou quando for \u201cpratic\u00e1vel\u201d. Mas as empresas contratadas dizem que n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o suficiente.<\/p>\n<p>Tr\u00eas denunciantes que trabalhavam nas tarefas de limpeza expressaram suas preocupa\u00e7\u00f5es e foram demitidos. A den\u00fancia foi divulgada por uma emissora local, mas os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o a ignoram, como fazem com a luta dos yakamas. \u201cAntes t\u00ednhamos um encarregado de imprensa, mas o Departamento de Energia disse que n\u00e3o precis\u00e1vamos dele porque est\u00e1 tudo bem\u201d, contou Jim. O ERWM \u00e9 financiado por esse Departamento, mas perdeu 80% dos fundos ap\u00f3s um corte federal.<\/p>\n<p>Naturalmente, n\u00e3o est\u00e1 tudo bem. Os sedimentos radioativos chegaram \u00e0s camadas subterr\u00e2neas e dali ao rio Col\u00fambia. Alguns vazamentos est\u00e3o a pouco mais de cem metros do curso de \u00e1gua, onde as tribos t\u00eam acesso ao monumento nacional Hanford Reach. Esta reserva natural, uma \u00e1rea de amortiza\u00e7\u00e3o do complexo nuclear, \u00e9 a maior \u00e1rea de desova do salm\u00e3o real no rio Col\u00fambia.<\/p>\n<p>O governo do Estado de Washington informa que a \u00e1gua subterr\u00e2nea contaminada com ur\u00e2nio, estr\u00f4ncio 90 e cromo j\u00e1 entrou no curso do rio. \u201cNo leito do rio h\u00e1 cerca de 150 fluxos de \u00e1gua subterr\u00e2nea de Hanford entre as quais nadam os salm\u00f5es jovens\u201d, pontuou Jim. \u201cHelen Caldicott (fundadora da organiza\u00e7\u00e3o M\u00e9dicos Pela Responsabilidade Social) nos disse, em 1997, que se com\u00eassemos pescado do Col\u00fambia morrer\u00edamos\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/lider.jpg\"><img class=\"alignright  wp-image-111860\" alt=\"lider Ind\u00edgenas dos Estados Unidos exigem limpeza do pior lix\u00e3o nuclear do Projeto Manhattan\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/lider.jpg\" width=\"320\" height=\"540\" title=\"Ind\u00edgenas dos Estados Unidos exigem limpeza do pior lix\u00e3o nuclear do Projeto Manhattan\" \/><\/a>A consultora ambiental dos yakamas, Callei Ridolfi, afirmou \u00e0 IPS que a dieta desses ind\u00edgenas cont\u00e9m entre 150 e 519 gramas de pescado por dia, quase o dobro do ingerido por outras tribos e muito mais do que a popula\u00e7\u00e3o geral. Por isso t\u00eam possibilidade de um em 50 contrair c\u00e2ncer pela ingest\u00e3o de pescado de esp\u00e9cies n\u00e3o migrat\u00f3rias. J\u00e1 o salm\u00e3o, que passa a maior parte de sua vida no oceano, \u00e9 menos afetado. Segundo um estudo publicado em 2002 pela Ag\u00eancia de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental sobre os contaminantes que afetam os peixes da regi\u00e3o, o esturj\u00e3o e o coregono-de-montanha eram os que apresentavam maiores concentra\u00e7\u00f5es de bifenil policlorado (PCB).<\/p>\n<p>No ano passado, os Estados de Washington e Oregon recomendaram limitar a uma vez na semana o consumo de peixes residentes em uma faixa do Col\u00fambia onde h\u00e1 v\u00e1rias represas, devido \u00e0 contamina\u00e7\u00e3o com PCB. \u201cOs lubrificantes com PCB foram usados durante anos nos transformadores, sobretudo em represas hidrel\u00e9tricas\u201d, disse \u00e0 IPS o administrador de pesca da Comiss\u00e3o Intertribal de Pesca do Rio Col\u00fambia, Mike Matylewich.<\/p>\n<p>Embora a recomenda\u00e7\u00e3o n\u00e3o inclu\u00edsse Hanford Reach, onde n\u00e3o h\u00e1 represas, Jim duvida de sua seguran\u00e7a. \u201cO Departamento de Energia disse ao Congresso que o corredor do rio est\u00e1 limpo. N\u00e3o est\u00e1, mas eles temem ser processados\u201d, afirmou este homem que sobreviveu a um c\u00e2ncer. Sua tribo nunca foi indenizada pelos vazamentos radioativos ocorridos entre 1944 e 1971 e que chegaram a 6,3 milh\u00f5es de curies de net\u00fanio-239. O toxicologista Steven G. Gilbert, da M\u00e9dicos Pela Responsabilidade Social, assegura que falta transpar\u00eancia e informa\u00e7\u00e3o sobre a limpeza de Hanford, que \u00e9 um \u201cenorme problema\u201d.<\/p>\n<p>Dos nove reatores nucleares, oito foram desativados. Mas a geradora el\u00e9trica da Energy Northwest, de 1.175 megawatts, ainda funciona. \u201cMuita gente n\u00e3o sabe que h\u00e1 um reator nuclear que continua funcionando. E \u00e9 do mesmo tipo que o de Fukushima, no Jap\u00e3o\u201d, pontuou Gilbert.<\/p>\n<p>Em meio a esta disputa est\u00e3o as tribos, que s\u00e3o na\u00e7\u00f5es soberanas. Russell Jim afirma que frequentemente se comete o erro de descrev\u00ea-las como \u201cpartes interessadas\u201d, quando s\u00e3o governos separados. \u201cFomos a \u00fanica tribo a denunciar a quest\u00e3o nuclear e testemunhar em um subcomit\u00ea do Senado em 1980. Em 1982, solicitamos o <i>status<\/i> de tribo afetada. Os umatillas e os nez perc\u00e9s nos seguiram mais tarde\u201d, observou.<\/p>\n<p>A cadeia montanhosa Yucca Mountain, no Estado de Nevada, foi designada pelo Congresso como lugar de armazenamento provis\u00f3rio dos res\u00edduos de Hanford e outros complexos nucleares, mas o presidente Barack Obama eliminou o plano. Duas tribos dessa regi\u00e3o, os paiutes do sul e os shoshones ocidentais, tamb\u00e9m se declararam afetadas. A Planta-Piloto de Isolamento de Res\u00edduos (WIPP) do Estado do Novo M\u00e9xico, foi ent\u00e3o destinada a receber o lixo de Hanford, mas depois de um inc\u00eandio em fevereiro isso j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O Boletim de Cientistas At\u00f4micos expressou, no dia 23 de mar\u00e7o, sua preocupa\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o h\u00e1 lugares onde armazenar esses perigosos dejetos. Os Estados Unidos t\u00eam as maiores exist\u00eancias do mundo de combust\u00edvel nuclear usado, cinco vezes mais do que a R\u00fassia. \u201cO melhor material para armazen\u00e1-lo \u00e9 o granito, abundante no nordeste. Um local ideal fica a 48 quil\u00f4metros da capital, mas isso est\u00e1 fora de considera\u00e7\u00e3o\u201d por sua proximidade com a Casa Branca, apontou Jim, com um sorriso mordaz. Mas esse veterano l\u00edder nativo n\u00e3o pensa em se render. \u201cN\u00f3s somos os \u00fanicos que n\u00e3o podemos sair daqui\u201d, enfatizou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Na&ccedil;&atilde;o Yakama, Estados Unidos, 24\/4\/2014 &ndash; Executivos, pol&iacute;ticos e funcion&aacute;rios do Departamento de Energia dos Estados Unidos discutiam como alertar as gera&ccedil;&otilde;es que viver&atilde;o dentro de 125 mil anos sobre o lixo radioativo de Hanford, o local mais contaminado do pa&iacute;s, localizado no extremo noroeste. &ldquo;Eu lhes direi como&rdquo;, interrompeu o nativo Russell Jim. 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