{"id":17417,"date":"2014-04-25T13:23:56","date_gmt":"2014-04-25T13:23:56","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=111916"},"modified":"2014-04-25T13:23:56","modified_gmt":"2014-04-25T13:23:56","slug":"traducoes-que-matam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/traducoes-que-matam\/","title":{"rendered":"Tradu\u00e7\u00f5es que matam"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_111917\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/soldado.jpeg\"><img class=\" wp-image-111917 \" alt=\" Tradu\u00e7\u00f5es que matam\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/soldado.jpeg\" width=\"529\" height=\"318\" title=\"Tradu\u00e7\u00f5es que matam\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um soldado alem\u00e3o e um int\u00e9rprete afeg\u00e3o em uma cena do filme de guerra Zwischen Welten (Entre Dois Mundos). Foto: Wolfgang Ennenbach\/Majestic<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Berlim, Alemanha, 25\/4\/2014 \u2013 As tropas estrangeiras se retiram lentamente do Afeganist\u00e3o, deixando para tr\u00e1s um coro de pessoas que foram seus ouvidos e seus guias no terreno: tradutores e int\u00e9rpretes agora ficam jogados a uma vida de incertezas e amea\u00e7as, ou de morte. Linguistas, profissionais dos meios de comunica\u00e7\u00e3o e organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais reclamam reconhecimento internacional para os direitos dos int\u00e9rpretes a seguran\u00e7a e prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cAbandon\u00e1-los equivale a uma senten\u00e7a de morte\u201d afirmou \u00e0 IPS a linguista forense Maya Hess, diretora da organiza\u00e7\u00e3o Red-T, que apoia tradutores e int\u00e9rpretes. Para ela, os pa\u00edses que os empregam devem conceder-lhes a prote\u00e7\u00e3o do asilo. A Red-T publicou em 2002 o primeiro guia multil\u00edngue internacional sobre zonas de conflito, que \u00e9 atualizado continuamente com novas tradu\u00e7\u00f5es. Em mar\u00e7o deste ano apresentou uma nova vers\u00e3o.<\/p>\n<p>Trata-se de uma fonte de refer\u00eancia da publica\u00e7\u00e3o <i>Apoio Lingu\u00edstico \u00e0s Opera\u00e7\u00f5es<\/i>, do Minist\u00e9rio da Defesa da Gr\u00e3-Bretanha, que detalha boas pr\u00e1ticas das obriga\u00e7\u00f5es contratuais entre os linguistas das na\u00e7\u00f5es anfitri\u00e3s e os que pagam por seus servi\u00e7os. Formalizar os direitos \u00e0 seguran\u00e7a dos civis que trabalham como int\u00e9rpretes e tradutores em zonas de guerra \u00e9 um antigo caso pendente.<\/p>\n<p>Entre 2007 e 2009, a empresa terceirizada norte-americana Military Essential Personnel confirmou a morte de 30 int\u00e9rpretes em 30 meses, apontou Hess. No Iraque, as for\u00e7as brit\u00e2nicas perderam 21 int\u00e9rpretes no per\u00edodo de 21 dias. Muitos outros ficaram feridos e sofreram amea\u00e7as de morte e persegui\u00e7\u00f5es. As for\u00e7as armadas alem\u00e3s receberam mais de 700 den\u00fancias de empregados locais.<\/p>\n<p>Noor Ahmad Noori, um int\u00e9rprete afeg\u00e3o de 29 anos que trabalhou para o jornal <i>The New York Times<\/i>, est\u00e1 entre as v\u00edtimas mais recentes. Ap\u00f3s seu sequestro, seu corpo foi encontrado com sinais de espancamento e apunhalado, em janeiro deste ano, perto de Lashkar Gah, um reduto do movimento extremista Talib\u00e3.<\/p>\n<p>Jawad Wafa, outro int\u00e9rprete, de 25 anos, que trabalhava para o grupo de tarefas Kunduz dentro da For\u00e7a Internacional de Assist\u00eancia para a Seguran\u00e7a (Isaf), foi encontrado estrangulado no porta-malas de um ve\u00edculo, no dia 24 de novembro de 2013. Sua morte aconteceu um m\u00eas depois da retirada das for\u00e7as armadas alem\u00e3s. Apesar de ter recebido reiteradas amea\u00e7as e de ter direito de asilo, seus pap\u00e9is n\u00e3o chegaram a tempo. \u201cA burocracia custa vidas\u201d, destacou Hess.<\/p>\n<p>Wafa havia sido convidado \u00e0 sede das for\u00e7as alem\u00e3s em Mazar-e-Sharif e seu nome estava na lista de 182 pessoas asiladas anunciada em outubro de 2013 pelo ministro federal do Interior, Hans Peter Friedrich. Seus pap\u00e9is se perderam em um labirinto burocr\u00e1tico entre o Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, o Escrit\u00f3rio Federal para as Migra\u00e7\u00f5es e os Refugiados \u2013 que concede as autoriza\u00e7\u00f5es de asilo \u2013 e a embaixada alem\u00e3 em Cabul.<\/p>\n<p>Em 2008, Matt Zeller, um capit\u00e3o do ex\u00e9rcito dos Estados Unidos, foi salvo <i>in extremis<\/i> por Janis Shinwari, seu int\u00e9rprete, que matou dois franco-atiradores talib\u00e3s logo antes que disparassem contra o oficial. Quando seu nome apareceu na lista de \u201ccondenados \u00e0 morte\u201d pelo Talib\u00e3, obteve rapidamente um visto norte-americano gra\u00e7as aos esfor\u00e7os de Zeller. Um ano depois, em 2009, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a lei de Prote\u00e7\u00e3o de Aliados Afeg\u00e3os, pela qual foram emitidos 7.500 vistos para pessoal desse pa\u00eds, principalmente tradutores e int\u00e9rpretes.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a morte de Wafa, a Red-T e outras organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, como a Pro Asyl, enviaram uma carta aberta \u00e0 chanceler da Alemanha, Angela Merkel, citando a Se\u00e7\u00e3o 22 da lei de resid\u00eancia que permite expedir autoriza\u00e7\u00f5es por \u201cmotivos humanit\u00e1rios urgentes\u201d. Em outubro do ano passado, o governo alem\u00e3o reconheceu que os tradutores e int\u00e9rpretes s\u00e3o uma \u201ccategoria de alto risco\u201d por sua particular \u201cvisibilidade\u201d como mediadores de comunica\u00e7\u00e3o para as for\u00e7as armadas e a pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Esse foi um passo importante, mas insuficiente. \u201cEmbora a inten\u00e7\u00e3o das autoridades alem\u00e3s em mudar sua pol\u00edtica de vistos e conceder autoriza\u00e7\u00f5es a int\u00e9rpretes afeg\u00e3os e pessoal auxiliar seja louv\u00e1vel, o fato de apenas uns poucos int\u00e9rpretes conseguirem entrar na Alemanha \u00e9 terr\u00edvel\u201d, ressaltou Hess. Em fevereiro, os int\u00e9rpretes Aliullah Nazary, de 26 anos, e Qyamuddin Shukury, de 25, aterrissaram aliviados e euf\u00f3ricos em Hamburgo ap\u00f3s enfrentarem meses de amea\u00e7as de morte. Encontravam mensagens arrepiantes nas portas de suas casas: \u201cVoc\u00ea, espi\u00e3o alem\u00e3o, agora espere sua morte\u201d, dizia uma delas.<\/p>\n<p>As tropas e outras institui\u00e7\u00f5es oficiais alem\u00e3s no Afeganist\u00e3o empregam cerca de 500 tradutores e int\u00e9rpretes. Os n\u00fameros mais recentes do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores obtidos pela IPS confirmam que foram emitidos 296 permiss\u00f5es e 131 vistos de imigra\u00e7\u00e3o, e que 107 solicitantes afeg\u00e3os chegaram \u00e0 Alemanha. O baixo n\u00famero de entrada pode ser por causa da transi\u00e7\u00e3o no Afeganist\u00e3o. Em alguns casos, os candidatos recebem uma indeniza\u00e7\u00e3o quando seus contratos expiram.<\/p>\n<p>Bernd Mesovic, porta-voz da Pro Asyl, disse que pode haver muitos que n\u00e3o tenham usado suas permiss\u00f5es para entrar na Alemanha, \u00e0 espera de uma melhora na seguran\u00e7a no Afeganist\u00e3o e que as amea\u00e7as do Talib\u00e3 cedam. \u201cRecomendamos que o processo seja acelerado\u201d, acrescentou. \u201cPrecisamos com urg\u00eancia de uma mudan\u00e7a de modelo no tratamento dado a tradutores e int\u00e9rpretes\u201d, disse Hess. \u201cEspero que as pot\u00eancias sejam mais conscientes do quanto s\u00e3o perigosas essas profiss\u00f5es e proporcionem casas seguras e cust\u00f3dia aos linguistas at\u00e9 que possam partir\u201d, acrescentou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Berlim, Alemanha, 25\/4\/2014 &ndash; As tropas estrangeiras se retiram lentamente do Afeganist&atilde;o, deixando para tr&aacute;s um coro de pessoas que foram seus ouvidos e seus guias no terreno: tradutores e int&eacute;rpretes agora ficam jogados a uma vida de incertezas e amea&ccedil;as, ou de morte. 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