{"id":17431,"date":"2014-04-30T12:50:03","date_gmt":"2014-04-30T12:50:03","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=112166"},"modified":"2014-04-30T12:50:03","modified_gmt":"2014-04-30T12:50:03","slug":"o-lead-tecnica-de-garcia-marquez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/04\/ultimas-noticias\/o-lead-tecnica-de-garcia-marquez\/","title":{"rendered":"O \u201clead\u201d, t\u00e9cnica de Garc\u00eda M\u00e1rquez"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"attachment_112167\" style=\"width: 215px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/JoaquinRoy-photo3042.jpg\"><img class=\"size-medium wp-image-112167\" alt=\"JoaquinRoy photo3042 205x300 O \u201clead\u201d, t\u00e9cnica de Garc\u00eda M\u00e1rquez\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/04\/JoaquinRoy-photo3042-205x300.jpg\" width=\"205\" height=\"300\" title=\"O \u201clead\u201d, t\u00e9cnica de Garc\u00eda M\u00e1rquez\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Joaqu\u00edn Roy. Foto: Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p><span style=\"line-height: 1.5em;\">Miami, Estados Unidos, abril\/2014 \u2013 \u201cMuitos anos depois, diante do pelot\u00e3o de fuzilamento, o coronel Aureliano Buend\u00eda recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo. Macondo era ent\u00e3o uma aldeia de 20 casas de barro e cana-brava constru\u00eddas \u00e0 margem de um rio de \u00e1guas di\u00e1fanas, que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e grandes como ovos pr\u00e9-hist\u00f3ricos. O mundo era t\u00e3o recente que muitas coisas careciam de nomes. E para mencion\u00e1-las era preciso apont\u00e1-las com o dedo.\u201d<\/span><\/p>\n<p>Os leitores experientes sabem que essas linhas s\u00e3o as introdut\u00f3rias de <i>Cem Anos de Solid\u00e3o<\/i>.<\/p>\n<p>Com tais amostras de anz\u00f3is liter\u00e1rios, a tenta\u00e7\u00e3o de deixar a leitura de p\u00e1ginas de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez acaba inexoravelmente em fracasso. Milh\u00f5es tentaram, sem \u00eaxito. O leitor fica preso e quer mais fatos e detalhes.<\/p>\n<p>\u00c9 o resultado da adapta\u00e7\u00e3o enriquecida e personal\u00edssima de Gabo de um mecanismo de reda\u00e7\u00e3o de arquitetura aparentemente muito elementar. A tradi\u00e7\u00e3o reconhece sua origem no jornalismo norte-americano: o <i>lead<\/i>, a abertura de uma mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>A armadilha pela qual o leitor \u00e9 capturado \u00e9 a estrutura e o conte\u00fado do par\u00e1grafo inicial, repetido e modificado de formas diversas em outros cap\u00edtulos desse escrito. Qualquer de seus livros tem passagens semelhantes.<\/p>\n<p>Do ponto de vista puramente redacional, consiste na localiza\u00e7\u00e3o, no in\u00edcio de um artigo essencialmente jornal\u00edstico, dos fatos b\u00e1sicos da mat\u00e9ria.<\/p>\n<p>Na estrutura da \u201cpir\u00e2mide invertida\u201d, a combina\u00e7\u00e3o de \u201co que\u201d, \u201cquem\u201d, \u201cquando\u201d, \u201conde\u201d, \u201ccomo\u201d e (talvez) \u201cpor que\u201d, \u00e9 o aperitivo com que o autor tenta prender a aten\u00e7\u00e3o do leitor. No resto do texto, o autor vai completando os detalhes satisfazendo com doses calculadas os diversos desejos ou expectativas do leitor.<\/p>\n<p>A variante do <i>lead<\/i> ortodoxo coloca os detalhes secund\u00e1rios no interior da narra\u00e7\u00e3o em sentido contr\u00e1rio \u00e0 sua import\u00e2ncia, deixando como op\u00e7\u00e3o suprema a decis\u00e3o individual de n\u00e3o terminar a leitura. Uma t\u00e9cnica alternativa precisamente opta por reservar o golpe de efeito para o final. Garc\u00eda M\u00e1rquez usa diversas modalidades.<\/p>\n<p>Segundo confiss\u00f5es do pr\u00f3prio Garc\u00eda M\u00e1rquez, contra as expectativas de sua fam\u00edlia, abandonou os estudos de direito para se dedicar ao jornalismo, que praticou em numerosos subg\u00eaneros.<\/p>\n<p>Contra o que se pudesse interpretar de um autor que ficou marcado com o r\u00f3tulo do \u201crealismo m\u00e1gico\u201d, sua prosa \u00e9 um exemplo muito distante da verbosidade barroca e da complexidade sint\u00e1tica. Sua simplicidade gramatical e a escolha l\u00e9xica surpreendem precisamente pela neutralidade com que s\u00e3o oferecidas.<\/p>\n<p>A aprendizagem dessa personal\u00edssima t\u00e9cnica \u00e9 o resultado da passagem de Garc\u00eda M\u00e1rquez por diversos jornais colombianos (<i>El Heraldo<\/i>, de Barranquilla, e <i>El Espectador<\/i>, de Bogot\u00e1, entre outros), seu trabalho como correspondente em v\u00e1rios pa\u00edses europeus e a funda\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento da ag\u00eancia Prensa Latina.<\/p>\n<p>Sua prova \u00e9 o resultado de recha\u00e7ar a t\u00f4nica grandiloquente de ar de discurso populista e o obscurantismo dos textos editoriais.<\/p>\n<p>Uma poss\u00edvel origem dessa contundente simplicidade, embora seja dif\u00edcil demonstrar e n\u00e3o haja confiss\u00f5es expl\u00edcitas do pr\u00f3prio autor a respeito, \u00e9 a profiss\u00e3o de seu pai, Gabriel Eligio Garc\u00eda.<\/p>\n<p>Telegrafista de Aracataca (transformada literalmente em Macondo), a aldeia natal, seu trabalho di\u00e1rio deve ter atra\u00eddo a aten\u00e7\u00e3o de seu filho. A natureza r\u00edgida dos textos que devia transmitir, com uma economia de palavras ditada pela necessidade de baratear os custos e os esfor\u00e7os t\u00e9cnicos, pode ter impactado o futuro escritor.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, a hist\u00f3ria do jornalismo n\u00e3o se coloca de acordo em assumir se a t\u00e9cnica do <i>lead<\/i> tem precisamente sua origem nessa tecnologia primitiva da comunica\u00e7\u00e3o no s\u00e9culo 19. Outra interpreta\u00e7\u00e3o situa seu desenvolvimento em uma \u00e9poca mais tardia, quando come\u00e7a a primar o jornalismo puramente informativo, deixando de lado o sustentado no coment\u00e1rio e na opini\u00e3o ensa\u00edsta.<\/p>\n<p>De maior influxo liter\u00e1rio deve ser a admira\u00e7\u00e3o de Gabo pelos escritores norte-americanos, entre eles se destacava Ernest Hemingway. O autor de <i>Adeus \u00e0s Armas<\/i> \u00e9 conhecido por ter confessado como aprendeu a escrever. Humildemente pagava sua d\u00edvida com o Manual de Estilo da ag\u00eancia Associated Press (AP).<\/p>\n<p>Esse c\u00f3digo de reda\u00e7\u00e3o, imposto com rigor aos jornalistas, reunia uma s\u00e9rie de normas que se resumiam em umas poucas l\u00f3gicas t\u00e9cnicas: ora\u00e7\u00f5es curtas, constru\u00e7\u00f5es afirmativas, absten\u00e7\u00e3o de frases subordinadas, palavras escolhidas corretamente e \u00f3rf\u00e3s de conota\u00e7\u00f5es obscuras.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a servid\u00e3o financeira presidia esses condicionamentos liter\u00e1rios: os textos longos eram mais caros de se transmitir do que os curtos.<\/p>\n<p>\u00c9 paradoxal e muito significativo que o mesmo autor que teve uma rela\u00e7\u00e3o tormentosa com os Estados Unidos, onde foi vetado durante anos por sua colabora\u00e7\u00e3o com o castrismo, tenha assim oferecido uma homenagem a algumas mostras da cultura desse pa\u00eds.<\/p>\n<p>O jornalismo e a literatura, refletidos em suas t\u00e9cnicas profissionais e a obra de seus mestres novelistas se revelam como as dimens\u00f5es essenciais de uma tradi\u00e7\u00e3o muito pr\u00f3xima das inclina\u00e7\u00f5es de Gabo. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* <b>Joaqu\u00edn Roy<\/b> \u00e9 catedr\u00e1tico Jean Monnet e diretor do Centro da Uni\u00e3o Europeia da Universidade de Miami (jroy@Miami.edu).\u00a0\u00a0<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Miami, Estados Unidos, abril\/2014 &ndash; &ldquo;Muitos anos depois, diante do pelot&atilde;o de fuzilamento, o coronel Aureliano Buend&iacute;a recordaria aquela tarde remota em que seu pai o levou a conhecer o gelo. 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