{"id":17438,"date":"2014-05-05T13:54:32","date_gmt":"2014-05-05T13:54:32","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=112316"},"modified":"2014-05-05T13:54:32","modified_gmt":"2014-05-05T13:54:32","slug":"terramerica-aguas-do-sul-para-matar-a-sede-do-norte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/05\/ultimas-noticias\/terramerica-aguas-do-sul-para-matar-a-sede-do-norte\/","title":{"rendered":"Terram\u00e9rica \u2013 \u00c1guas do sul para matar a sede do norte"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_112317\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/AguasRioFuy.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-112317\" alt=\"AguasRioFuy Terram\u00e9rica   \u00c1guas do sul para matar a sede do norte\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/AguasRioFuy.jpg\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"Terram\u00e9rica   \u00c1guas do sul para matar a sede do norte\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">O Fuy, na Regi\u00e3o de Los R\u00edos, 750 quil\u00f4metros ao sul de Santiago, \u00e9 um dos rios do sul dos quais se poderia extrair \u00e1gua para o seco norte mineiro. Foto: Marianella Jarroud\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Santiago, Chile, 5 de maio de 2014 (Terram\u00e9rica).- Tr\u00eas iniciativas privadas prop\u00f5em levar \u00e1gua dos rios do sul do Chile para o \u00e1rido norte por navios e tubula\u00e7\u00f5es submarinas e subterr\u00e2neas. O objetivo: aplacar a sede mineira deste pa\u00eds, primeiro produtor de cobre do mundo. Os projetos Aquatacama, Via H\u00eddrica do Norte e Sirius superaram a etapa da viabilidade como obras de engenharia, mas n\u00e3o est\u00e3o aprovados pelas autoridades nem contam com estudos ambientais.<\/p>\n<p>As empresas que os promovem buscam clientes, especialmente na ind\u00fastria mineira, e fazem lobby junto ao governo para que declare os projetos de interesse social. Seu argumento \u00e9 poderoso: a crescente escassez h\u00eddrica do norte mineiro limita o desenvolvimento e pode derivar em conflitos sociais. A minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um setor a ser ignorado: contribui com 13% do produto interno bruto e 36% do emprego nacional.<\/p>\n<p>O Chile, um pa\u00eds estreito e comprido, tem abundantes recursos h\u00eddricos, mas com divis\u00e3o desigual: enquanto ao sul de Santiago a disponibilidade m\u00e9dia anual \u00e9 superior a dez mil metros c\u00fabicos por pessoa, ao norte da capital n\u00e3o chega aos 800 metros c\u00fabicos por pessoa, segundo estudo realizado em 2011 pelo Banco Mundial. S\u00f3 a extra\u00e7\u00e3o de cobre consome 12.615 litros por segundo de \u00e1gua doce, segundo o Conselho Mineiro.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas projetos s\u00e3o apresentados como solu\u00e7\u00e3o para essa brecha entre demanda e oferta, que aumentar\u00e1 at\u00e9 2020.<\/p>\n<p>O Aquatacama, da empresa V\u00eda Marina e do grupo franc\u00eas Vinci, entre outros, gastou US$ 1,4 milh\u00e3o em um estudo que prop\u00f5e transportar \u00e1gua desde a desembocadura dos rios do sul at\u00e9 Arica, no extremo norte, numa extens\u00e3o de 2.500 quil\u00f4metros, atrav\u00e9s de um duto sob o Oceano Pac\u00edfico. A rota foi analisada por t\u00e9cnicos da Marinha e das capitanias de portos. A proposta \u00e9 captar \u00e1gua dos rios Rapel, Maule e B\u00edo B\u00edo, na regi\u00e3o centro-sul.<\/p>\n<p>Segundo o Aquatacama, a demanda potencial da cidade central de Valpara\u00edso at\u00e9 Arica (separadas por dois mil quil\u00f4metros) \u00e9 de 30 a cem metros c\u00fabicos por segundo, e \u00e9 poss\u00edvel instalar pontos de distribui\u00e7\u00e3o a cada cem quil\u00f4metros.<\/p>\n<p>O projeto prop\u00f5e inicialmente retirar \u00e1gua do Rapel e lev\u00e1-la at\u00e9 Coquimbo, a 400 quil\u00f4metros, para servir distribuidoras de \u00e1gua, a mineradora Andina da estatal Corpora\u00e7\u00e3o do Cobre do Chile, e povoados da regi\u00e3o. O consumo de energia chegaria a 0,9 quilowatts\/hora por metro c\u00fabico, quatro vezes menos do que retirar o sal da \u00e1gua do mar, afirmam seus defensores.<\/p>\n<p>O Via H\u00eddrica do Norte, do cons\u00f3rcio chileno-espanhol Euro Engineering Group, pretende transportar 25 metros c\u00fabicos por segundo, em tubula\u00e7\u00f5es de a\u00e7o subterr\u00e2neas de tr\u00eas a quatro metros de di\u00e2metro e ao longo de 2.400 quil\u00f4metros. A meta \u00e9 abastecer a minera\u00e7\u00e3o mediante um tra\u00e7ado que vai do n\u00edvel do mar at\u00e9 os 4.300 metros de altitude.<\/p>\n<p>As principais jazidas de cobre est\u00e3o no norte, frente ao deserto de Atacama, o mais \u00e1rido do mundo. Ali a falta de \u00e1gua tamb\u00e9m afeta a agricultura e o consumo humano. A \u00e1gua \u00e9 entregue em caminh\u00f5es-pipa e as fam\u00edlias mais ricas compram o l\u00edquido engarrafado para cozinhar.<\/p>\n<p>O Sirius, de capitais nacionais, pretende uma complementa\u00e7\u00e3o com outros projetos e requer investimento inicial entre US$ 50 milh\u00f5es e US$ 60 milh\u00f5es. Tem como objetivo a zona de Copiap\u00f3, 800 quil\u00f4metros ao norte de Santiago, para onde dois navios levariam por m\u00eas at\u00e9 3,5 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de \u00e1gua para consumo humano. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio extrair 1.500 metros c\u00fabicos por segundo de um rio da austral Patag\u00f4nia. A empresa afirma que essa extra\u00e7\u00e3o seria inferior a 10% do caudal de origem, com base em dados da Dire\u00e7\u00e3o Nacional de \u00c1guas.<\/p>\n<p>\u201cO d\u00e9ficit de \u00e1gua limita as op\u00e7\u00f5es de desenvolvimento das regi\u00f5es do norte que precisam ser abastecidas com produtos e servi\u00e7os de outras regi\u00f5es\u201d, disse ao Terram\u00e9rica o diretor do Centro de Gera\u00e7\u00e3o de Neg\u00f3cios, Nicol\u00e1s Jadue, da privada Universidade Mayor.<\/p>\n<p>\u201cAumentar a oferta sem d\u00favida geraria benef\u00edcios importantes\u201d, pontuou Jadue, mas esses projetos devem ser analisados \u201cdo ponto de vista da rentabilidade social\u201d, acrescentou. \u201cO impacto de introduzir recursos h\u00eddricos em territ\u00f3rios de escassez e com forte potencial econ\u00f4mico \u00e9 bem maior no \u00e2mbito privado, por efeitos dos fortes encadeamentos produtivos e sociais que induzem as principais atividades que competem pela \u00e1gua: agr\u00edcola e mineira\u201d, ressaltou o especialista.<\/p>\n<p>Todo mundo concorda que falta \u00e1gua para o norte. Mas as solu\u00e7\u00f5es s\u00e3o inclusive contrapostas. Cristian Silva, mentor do projeto Sirius, acredita que a escassez reflete a falta de regulamenta\u00e7\u00e3o. \u201cA \u00e1gua tem de aumentar de pre\u00e7o. A d\u00favida \u00e9 quem pagar\u00e1\u201d, afirmou. Alguns parlamentares prop\u00f5em voltar a nacionalizar esse recurso, privatizado na ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990), enquanto organiza\u00e7\u00f5es sociais querem uma mobiliza\u00e7\u00e3o para exigir uma estrat\u00e9gia h\u00eddrica nacional.<\/p>\n<p>\u201cO bom uso da \u00e1gua \u00e9 melhor do que dezenas de projetos locais\u201d, disse o especialista Axel Dourojeanni, consultor de ag\u00eancias da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) e ex-diretor nacional de \u00c1guas e Solos do Peru, na Confer\u00eancia Mundial do Cobre, realizada em Santiago no come\u00e7o de abril.<\/p>\n<p>\u201cAinda n\u00e3o h\u00e1 estudos do n\u00edvel de profundidade necess\u00e1rio para determinar a viabilidade social, econ\u00f4mica e ambiental da transposi\u00e7\u00e3o do sul para o norte, nem esta op\u00e7\u00e3o deve ser estudada em separado de outras para melhorar a efici\u00eancia, o bom uso e o reordenamento do territ\u00f3rio\u201d, apontou Dourojeanni \u00e0 IPS. \u201cAs transposi\u00e7\u00f5es s\u00e3o necess\u00e1rias, mas tamb\u00e9m criam depend\u00eancia e t\u00eam um alto custo. E mais, \u00e9 essencial determinar os efeitos no lugar de onde se extrai a \u00e1gua\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Para Lucio Cuenca, diretor do Observat\u00f3rio Latino-Americano de Conflitos Ambientais, a interpreta\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s destes projetos, que a \u00e1gua doce dos rios se perde no mar, \u201c\u00e9 inspirada em uma l\u00f3gica economicista e vai contra a que se vincula aos ecossistemas\u201d. Cuenca destacou ao Terram\u00e9rica que se trata de \u201cfalsas solu\u00e7\u00f5es que ocultam a realidade, principalmente do norte, onde se permitiu que a expans\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o ultrapassasse todos os limites ecossist\u00eamicos que esses territ\u00f3rios s\u00e3o capazes de suportar\u201d.<\/p>\n<p>Rodrigo Villablanca, dirigente da Comunidade Diaguita do central Vale do Huasco, que luta contra a aprova\u00e7\u00e3o do projeto aur\u00edfero Pascua Lama, disse ao Terram\u00e9rica que \u201cas mineradoras n\u00e3o s\u00f3 consomem grandes quantidades de \u00e1gua, como destroem geleiras nas partes altas das bacias, inclusive muito antes de estarem produzindo. Agora pretende tirar \u00e1gua de outro sistema ecol\u00f3gico que tamb\u00e9m ser\u00e1 prejudicado\u201d.<\/p>\n<p>Para Cuenca, a solu\u00e7\u00e3o para a crise h\u00eddrica passa por reduzir a intensidade do investimento em minera\u00e7\u00e3o e \u201crever a pol\u00edtica de gest\u00e3o dos recursos naturais\u201d. Segundo Dourojeanni, \u201co mais urgente \u00e9 melhorar a governan\u00e7a da \u00e1gua com base em uma compara\u00e7\u00e3o entre a situa\u00e7\u00e3o atual e a situa\u00e7\u00e3o desejada, que deve ser claramente definida\u201d.<\/p>\n<p>Dourojeanni enfatizou que \u201cpara isso se deve seguir um protocolo rigoroso, como est\u00e1 desenvolvendo a OCDE (Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e o Desenvolvimento Econ\u00f4micos) que tem o objetivo de melhorar a gest\u00e3o da \u00e1gua, desprovido de ideologias ou ideias pr\u00e9-estabelecidas sobre privatizar ou nacionalizar\u201d. Envolverde\/Terram\u00e9rica<\/p>\n<p><em>* Os autores s\u00e3o correspondentes da IPS.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Artigos relacionados da IPS<\/b><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ambiente\/terramerica-agua-do-mar-para-mineracao\/\" >\u00c1gua do mar para minera\u00e7\u00e3o \u2013 2013<\/a><\/p>\n<p><a style=\"font-size: 14px; line-height: 1.5em;\" href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ambiente\/terramerica-sol-mineracao\/\" >Sol na minera\u00e7\u00e3o \u2013 2013<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/um-carnaval-em-defesa-da-agua-na-capital-chilena\/\" >Um carnaval em defesa da \u00e1gua na capital chilena \u2013 2013<\/a><\/p>\n<p><b>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Santiago, Chile, 5 de maio de 2014 (Terram&eacute;rica).- Tr&ecirc;s iniciativas privadas prop&otilde;em levar &aacute;gua dos rios do sul do Chile para o &aacute;rido norte por navios e tubula&ccedil;&otilde;es submarinas e subterr&acirc;neas. 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