{"id":17445,"date":"2014-05-06T14:44:17","date_gmt":"2014-05-06T14:44:17","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=112393"},"modified":"2014-05-06T14:44:17","modified_gmt":"2014-05-06T14:44:17","slug":"a-cascavel-e-o-gato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/05\/ultimas-noticias\/a-cascavel-e-o-gato\/","title":{"rendered":"A cascavel e o gato"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_112394\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Padura2233-629x414.jpg\"><img class=\"size-medium wp-image-112394\" alt=\"Padura2233 629x414 300x197 A cascavel e o gato\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Padura2233-629x414-300x197.jpg\" width=\"300\" height=\"197\" title=\"A cascavel e o gato\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Leonardo Padura. Foto: Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p>Havana, Cuba, abril\/2014 \u2013 H\u00e1 anos os cubanos formularam uma m\u00e1xima para descrever sua rela\u00e7\u00e3o trabalhista com o Estado: voc\u00ea (o Estado) faz de conta que me paga, e eu (o cidad\u00e3o) fa\u00e7o de conta que trabalho.<\/p>\n<p>Dessa forma t\u00e3o sint\u00e9tica e precisa se resume a reciprocidade dos trabalhadores com os sal\u00e1rios irris\u00f3rios, totalmente insuficientes, que recebem por sua condi\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios, t\u00e9cnicos e profissionais dependentes do principal empregador existente no pa\u00eds, ou seja, o Estado.<\/p>\n<p>Mas, al\u00e9m disso, o ditado popular reflete algo mais profundo e grave do que uma quest\u00e3o de sobreviv\u00eancia ou de defesa.<\/p>\n<p>Seus resultados repercutem em assuntos t\u00e3o vitais para a economia nacional como a baixa produtividade e a inefici\u00eancia trabalhista, o \u00eaxodo de determinados setores e do pa\u00eds, a baixa qualidade da produ\u00e7\u00e3o e dos servi\u00e7os, e at\u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o e o \u201cdesvio\u201d de recursos por muitos dos que podem levar algo (tempo, dinheiro, materiais) de seus locais de trabalho e melhorar com isso suas condi\u00e7\u00f5es de vida.<\/p>\n<p>Contudo, seguindo com a l\u00f3gica das consequ\u00eancias do enunciado, haveria inclusive que ir um pouco mais al\u00e9m, porque as posi\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas, na senten\u00e7a famosa, aos empregados e ao Estado tamb\u00e9m s\u00e3o o reflexo de uma forma de viver dos primeiros e de governar do segundo, na qual parece ter se imposto uma quebra da comunica\u00e7\u00e3o em um e outro sentido. Como se jogassem uma partida de futebol com duas bolas&#8230; ou com nenhuma.<\/p>\n<p>Essa ruptura de comunica\u00e7\u00e3o, ou de falta de c\u00f3digos de entendimento, n\u00e3o significa, naturalmente, falta de controle.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio: o Estado continua sendo todo poderoso enquanto forma um s\u00f3lida trindade com o governo e o partido \u00fanico e, por fim, tem em seu arb\u00edtrio quase todas as decis\u00f5es, n\u00e3o s\u00f3 macro, mas inclusive muitas que afetam a vida pessoal dos indiv\u00edduos, entre elas sua capacidade econ\u00f4mica de consumo e seu n\u00edvel de vida.<\/p>\n<p>Para a maioria das pessoas que dependem de sal\u00e1rios estatais, os valores fixados para a venda \u201cliberada\u201d de autom\u00f3veis s\u00e3o como ver o filme <i>Guerra <\/i><i>nas Estrelas<\/i>, em que seres estranhos falam de coisas incompreens\u00edveis.<\/p>\n<p>O Estado decide em Cuba quais atividades podem ser realizadas \u00e0 margem de sua tutela e, com uma lei tribut\u00e1ria de elevadas porcentagens, quase at\u00e9 o que pode ganhar os que n\u00e3o trabalham diretamente para ele, ou seja, os trabalhadores por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os pre\u00e7os de todos os produtos (inclu\u00eddos os que n\u00e3o s\u00e3o vendidos na rede comercial oficial, que tomam como refer\u00eancia os pre\u00e7os oficiais) t\u00eam cotas fixadas pela dire\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do pa\u00eds nos n\u00edveis que eles decidem ou necessitam, que em muitas ocasi\u00f5es (\u00e0s vezes at\u00e9 justificadas por pre\u00e7os internacionais de certos produtos) est\u00e3o divorciados da realidade econ\u00f4mica do cidad\u00e3o.<\/p>\n<p>Nesse jogo estranho, que se converteu em alarmante e quase que permanente desde os anos da crise profunda da d\u00e9cada de 1990, o n\u00edvel de vida da maioria dos cidad\u00e3os do pa\u00eds caiu em queda livre toda vez que, mesmo com os sal\u00e1rios em certas ocasi\u00f5es duplicando ou triplicando, o custo de vida aumentava dez, vinte e at\u00e9 mais vezes.<\/p>\n<p>Basta, como medida de todas as coisas, recordar que, enquanto o sal\u00e1rio m\u00e9dio gira em torno de 500 pesos, o pre\u00e7o que um trabalhador deve pagar por uma libra de carne de porco (em certas ocasi\u00f5es a \u00fanica prote\u00edna animal \u00e0 qual tem acesso) subiu de cinco pesos no mercado paralelo dos anos 1980, para os 30, 35, 40 em que \u00e9 cotada hoje em dia, segundo sua qualidade. Algo como a d\u00e9cima parte de um sal\u00e1rio apenas por meio quilo de carne de porco&#8230;<\/p>\n<p>Tudo o que o Estado ou os mercados alternativos ofertam \u00e0 popula\u00e7\u00e3o vem gravado com essas elevadas tarifas.<\/p>\n<p>Por isso, para a maioria das pessoas que depende de sal\u00e1rios estatais, a simples alta dos pre\u00e7os dos produtos de higiene pode se converter em uma trag\u00e9dia mensal, enquanto os n\u00fameros fixados para a venda \u201cliberada\u201d de autom\u00f3veis s\u00e3o como ver o filme o <i>Guerra nas Estrelas<\/i>, em que seres estranhos falam de coisas incompreens\u00edveis.<\/p>\n<p>O Estado cubano reconhece que os sal\u00e1rios s\u00e3o insuficientes para pagar o custo de vida. Tamb\u00e9m repete que enquanto a produtividade e a efici\u00eancia da economia dom\u00e9stica n\u00e3o aumentarem ser\u00e1 imposs\u00edvel elevar as cifras salariais para toda a massa de empregados p\u00fablicos e oper\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas a realidade dos dois reconhecimentos segue em carros opostos na circunfer\u00eancia da estrela do parque de divers\u00f5es (que para nada resulta divertido): \u00e9 imposs\u00edvel que um alcance o outro, a menos que se mude muito a estrutura fixada.<\/p>\n<p>E, enquanto isso n\u00e3o ocorre, enquanto n\u00e3o houver a correspond\u00eancia e o entendimento necess\u00e1rios, continuar\u00e3o se manifestando a inefici\u00eancia, a baixa produtividade, a displic\u00eancia e a indol\u00eancia que se nota em diversas esferas da atividade trabalhista estatal cubana.<\/p>\n<p>Muitos continuar\u00e3o fingindo que trabalham sem trabalhar, roubando o que puderem ou emigrando atr\u00e1s do dinheiro que lhes possa pagar outras tarefas&#8230; ou outros empregadores, dentro ou fora do pa\u00eds. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* <b><i>Leonardo Padura<\/i><\/b><i> \u00e9 escritor e jornalista cubano, ganhador do Pr\u00eamio Nacional de Literatura 2012. Suas obras foram traduzidas para mais de 15 idiomas e seu mais recente romance, <\/i>Herejes<i>, \u00e9 uma reflex\u00e3o sobre a liberdade individual.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, abril\/2014 &ndash; H&aacute; anos os cubanos formularam uma m&aacute;xima para descrever sua rela&ccedil;&atilde;o trabalhista com o Estado: voc&ecirc; (o Estado) faz de conta que me paga, e eu (o cidad&atilde;o) fa&ccedil;o de conta que trabalho. 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