{"id":17466,"date":"2014-05-13T14:03:13","date_gmt":"2014-05-13T14:03:13","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=112738"},"modified":"2014-05-13T14:03:13","modified_gmt":"2014-05-13T14:03:13","slug":"por-que-estamos-entrando-novamente-na-guerra-fria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/05\/ultimas-noticias\/por-que-estamos-entrando-novamente-na-guerra-fria\/","title":{"rendered":"Por que estamos entrando novamente na Guerra Fria?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_112739\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/savio-629x417.jpg\"><img class=\" wp-image-112739 \" alt=\"savio 629x417 Por que estamos entrando novamente na Guerra Fria?\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/savio-629x417.jpg\" width=\"529\" height=\"317\" title=\"Por que estamos entrando novamente na Guerra Fria?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Roberto Savio. Foto: IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Roma, It\u00e1lia, maio\/2014 \u2013 H\u00e1 v\u00e1rias semanas os meios de comunica\u00e7\u00e3o dominantes se dedicam unanimemente a denunciar as a\u00e7\u00f5es de Vladimir Putin, primeiro na Crimeia e agora na Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>A primeira p\u00e1gina do jornal <em>The Economist<\/em> mostrava, no final de abril, um urso tragando a Ucr\u00e2nia, sob o t\u00edtulo \u201cInsaci\u00e1vel\u201d. A unanimidade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o sempre \u00e9 preocupante, porque revela algum reflexo instintivo. \u00c9 poss\u00edvel que se esteja manifestando a in\u00e9rcia de 40 anos de Guerra Fria?<\/p>\n<p>Essa in\u00e9rcia, na realidade, n\u00e3o desapareceu. Se for dito, ou escrito: \u201co presidente comunista Ra\u00fal Castro\u201d, ningu\u00e9m se surpreender\u00e1. Mas causar\u00e1 surpresa chamar o presidente Barack Obama de capitalista, embora se aplique a mesma l\u00f3gica.<\/p>\n<p>Existem ao menos quatro pontos de an\u00e1lise ausentes no coro midi\u00e1tico.<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 que nunca se refere \u00e0s responsabilidades do Ocidente nesse assunto.<\/p>\n<p>Recordemos que o \u00faltimo l\u00edder sovi\u00e9tico, Mikhail Gorbatchov (1985-1991) concordou com George Bush pai, Margaret Thatcher, Helmut K\u00f6hl e Fran\u00e7ois Mitterrand em aceitar a reunifica\u00e7\u00e3o da Alemanha, mas tamb\u00e9m se acordou que o Ocidente n\u00e3o deveria tentar invadir a zona de influ\u00eancia da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Um vez que Gorbatchov foi eliminado, o jogo foi reiniciado. E a docilidade total de Boris Yeltsin (1991-1999) em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos \u00e9 bem conhecida.<\/p>\n<p>Muito menos conhecido \u00e9 que o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) concedeu um empr\u00e9stimo de US$ 3,5 bilh\u00f5es para apoiar o rublo. O cr\u00e9dito foi parar no Banco da Am\u00e9rica, evitando o Banco Central da R\u00fassia e acabou nos bolsos dos oligarcas que compraram todas as empresas p\u00fablicas russas.<\/p>\n<p>Depois de Yeltsin, Vlatimir Putin apoiou a invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o pelos Estados Unidos de uma forma impens\u00e1vel durante a Guerra Fria: permitiu que os avi\u00f5es norte-americanos voassem pelo espa\u00e7o a\u00e9reo russo.<\/p>\n<p>Em novembro de 2011, Putin visitou George W. Bush em seu rancho no Texas, mas algumas semanas depois este anunciou que os Estados Unidos se retiravam do Tratado sobre M\u00edsseis Bal\u00edsticos, simplesmente para desenvolver um sistema na Europa Oriental supostamente para proteger os membros da Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) da amea\u00e7a do Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Com realismo, essa estrat\u00e9gia foi interpretada como dirigida \u00e0 R\u00fassia.<\/p>\n<p>A isso se seguiu o convite de Bush, em 2002, a sete pa\u00edses da extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica (inclu\u00eddos Est\u00f4nia, Litu\u00e2nia e Let\u00f4nia) a se unirem \u00e0 Otan, o que fizeram em 2004.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o das Rosas de 2003 na Ge\u00f3rgia levou ao poder Mikhail Saakashvili, um presidente pr\u00f3-ocidental. Quatro meses depois, os protestos de rua na Ucr\u00e2nia, a Revolu\u00e7\u00e3o Laranja, conduziram \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de outro mandat\u00e1rio favor\u00e1vel ao Ocidente, Viktor Yushchenko.<\/p>\n<p>Sucessivamente, Bush apoiou a ades\u00e3o da Ucr\u00e2nia e da Ge\u00f3rgia \u00e0 Otan, uma bofetada em Moscou. Assim, n\u00e3o foi surpresa quando, em 2008, Putin respondeu militarmente \u00e0 tentativa da Ge\u00f3rgia de ocupar a regi\u00e3o pr\u00f3-russa de Osetia do Sul, junto com outra regi\u00e3o separatista, Abjasia. Entretanto, para os meios de comunica\u00e7\u00e3o se tratou de uma a\u00e7\u00e3o irracional.<\/p>\n<p>O presidente Barack Obama tentou reparar os danos causados \u00e0s rela\u00e7\u00f5es internacionais pelo governo de Bush.<\/p>\n<p>Pediu um \u201crein\u00edcio\u201d das rela\u00e7\u00f5es com Moscou e, no princ\u00edpio, tudo saiu bem.<\/p>\n<p>A R\u00fassia concordou com o uso de seu espa\u00e7o a\u00e9reo para fornecimentos militares ao Afeganist\u00e3o. Em abril de 2010, Estados Unidos e R\u00fassia assinaram um novo Tratado de Redu\u00e7\u00e3o de Armas Estrat\u00e9gicas (Start), reduzindo seus arsenais nucleares. E Moscou apoiou as san\u00e7\u00f5es das Na\u00e7\u00f5es Unidas contra o Ir\u00e3 e desistiu de vender aos iranianos seus m\u00edsseis antia\u00e9reos S-300.<\/p>\n<p>Mas, em 2011, em vista das elei\u00e7\u00f5es parlamentares na R\u00fassia, era claro que os Estados Unidos estavam apoiando a oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o ocidentais estavam contra Putin, que acusou Washington de injetar centenas de milh\u00f5es de d\u00f3lares a favor da oposi\u00e7\u00e3o. O ent\u00e3o embaixador norte-americano em Moscou, Michael McFaul, respondeu que era um grande exagero e que \u201capenas\u201d algumas dezenas de milh\u00f5es foram entregues a organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil.<\/p>\n<p>Putin foi reeleito em 2012, j\u00e1 obcecado pela amea\u00e7a ocidental ao seu poder, e em 2013 asilou Edward Snowden, que denunciou a espionagem da norte-americana Ag\u00eancia Nacional de Seguran\u00e7a (NSA) e Obama cancelou uma reuni\u00e3o bilateral.<\/p>\n<p>Em 2011, ocorreu a Primavera \u00c1rabe. A R\u00fassia consentiu na a\u00e7\u00e3o militar na L\u00edbia, mas s\u00f3 para fornecer ajuda humanit\u00e1ria. Como de fato se utilizou para uma mudan\u00e7a de regime, Moscou se sentiu enganado e protestou em v\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante da guerra civil na S\u00edria, o Ocidente tentou novamente obter o apoio russo para uma mudan\u00e7a de regime, e ficou descontente quando Putin o negou.<\/p>\n<p>Agora o conflito se estendeu \u00e0 Ucr\u00e2nia com a tentativa de associar este pa\u00eds \u00e0 Uni\u00e3o Europeia (UE) e separ\u00e1-lo do bloco econ\u00f4mico que a R\u00fassia tentava criar com esse pa\u00eds e a Bielor\u00fassia.<\/p>\n<p>O segundo ponto \u00e9 que a R\u00fassia tem os recursos e a vontade para resistir \u00e0s tentativas externas de reduzi-la a uma pot\u00eancia local.<\/p>\n<p>De seu ponto de vista, qualquer esfor\u00e7o para cerc\u00e1-la ou enfraquec\u00ea-la, agora que os enfrentamentos ideol\u00f3gicos desapareceram, \u00e9 visto como parte da velha pol\u00edtica imperialista, j\u00e1 que, ao contr\u00e1rio da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a R\u00fassia n\u00e3o pode ser considerada uma amea\u00e7a.<\/p>\n<p>O terceiro ponto \u00e9 que a quest\u00e3o da Ucr\u00e2nia deve ser tomada com uma pitada de sal.<\/p>\n<p>\u00c9 um Estado muito fr\u00e1gil, onde a corrup\u00e7\u00e3o controla a pol\u00edtica e tem problemas econ\u00f4micos estruturais. Sua regi\u00e3o oriental \u00e9 a mais industrializada, e, portanto, sua popula\u00e7\u00e3o teme que a entrada da Ucr\u00e2nia na UE represente a elimina\u00e7\u00e3o gradual de muitas f\u00e1bricas.<\/p>\n<p>Na parte ocidental, durante a Segunda Guerra Mundial, muitos ucranianos ficaram do lado dos nazistas, e atualmente existe um forte movimento nacionalista, pr\u00f3ximo do fascismo.<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia \u00e9 um assunto muito complicado e caro. \u00c9 razo\u00e1vel mudar os crit\u00e9rios da UE, aceitando um pa\u00eds totalmente fora de sintonia com o bloco e assumir uma carga enorme, s\u00f3 para parecer que triunfou contra um homem forte?<\/p>\n<p>O que nos leva ao \u00faltimo ponto.<\/p>\n<p>Putin \u00e9 um ex-oficial da KGB, que sente que a R\u00fassia recebeu tratamento injusto depois do colapso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Todos os esfor\u00e7os para chegar a um entendimento com o Ocidente s\u00e3o recha\u00e7ados, com a progressiva amplia\u00e7\u00e3o da Otan, a rede de bases militares que cercam a R\u00fassia, o constante apoio aos seus oponentes e o tratamento restritivo em seu com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Putin sabe que seus sentimentos sobre o declive russo s\u00e3o compartilhados por uma grande maioria de seus concidad\u00e3os. Mas ele \u00e9 um autocrata arrogante, para dizer o m\u00ednimo, que nada faz para incentivar a moderniza\u00e7\u00e3o da economia, j\u00e1 que mantendo em suas m\u00e3os a produ\u00e7\u00e3o e o com\u00e9rcio pode conservar o controle sobre a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Viktor Yanukovich, presidente da Ucr\u00e2nia desde fevereiro de 2010 at\u00e9 fevereiro deste ano, tamb\u00e9m \u00e9 um autocrata ao estilo de Putin. Foi deposto por protestos em massa nas ruas, patrocinados e apoiados pelo Ocidente. Para o presidente russo, qualquer poss\u00edvel cont\u00e1gio deve ser detido de pronto.<\/p>\n<p>Portanto, Putin est\u00e1 desempenhando o papel de salvador da na\u00e7\u00e3o russa, que pode intervir onde quer que haja minorias russas amea\u00e7adas.<\/p>\n<p>A pergunta \u00e9: se Putin, partir, ser\u00e1 sucedido por uma sociedade democr\u00e1tica participativa, limpa e n\u00e3o corrupta? Os que conhecem bem a R\u00fassia pensam que n\u00e3o.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria ensina que a elimina\u00e7\u00e3o de autocratas n\u00e3o necessariamente leva \u00e0 democracia. Assim, a pol\u00edtica de hostilizar Putin em nome da democracia pode conduzir a jogar seu jogo, ao convert\u00ea-lo no defensor do povo russo.<\/p>\n<p>Como escreve Naomi Klein, os \u00fanicos ganhadores nesse conflito s\u00e3o as corpora\u00e7\u00f5es petroleiras, empenhadas em uma campanha mundial para conquistar mercados que abastecem os hidrocarbonos russos.<\/p>\n<p>Isso implica acelerar a produ\u00e7\u00e3o de hidrocarbonos nos Estados Unidos, sem considerar o que acontecer com o meio ambiente, e, para os europeus, substituir o g\u00e1s russo pelo norte-americano.<\/p>\n<p>O jornalista Tarzie Vittachi, do Sri Lanka, disse certa vez: \u201cTudo \u00e9 sempre sobre outra coisa\u201d. E a hist\u00f3ria n\u00e3o mostra muitos exemplos de petr\u00f3leo e democracia marchando na mesma dire\u00e7\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><i>* <b>Roberto Savio <\/b>\u00e9 fundador e presidente em\u00e9rito da ag\u00eancia de not\u00edcias IPS e editor de Other News.<\/i><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Roma, It&aacute;lia, maio\/2014 &ndash; H&aacute; v&aacute;rias semanas os meios de comunica&ccedil;&atilde;o dominantes se dedicam unanimemente a denunciar as a&ccedil;&otilde;es de Vladimir Putin, primeiro na Crimeia e agora na Ucr&acirc;nia. A primeira p&aacute;gina do jornal The Economist mostrava, no final de abril, um urso tragando a Ucr&acirc;nia, sob o t&iacute;tulo &ldquo;Insaci&aacute;vel&rdquo;. 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