{"id":17484,"date":"2014-05-19T10:54:32","date_gmt":"2014-05-19T10:54:32","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=113136"},"modified":"2014-05-19T10:54:32","modified_gmt":"2014-05-19T10:54:32","slug":"terramerica-entre-pragmatismo-e-danos-colaterais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/05\/ultimas-noticias\/terramerica-entre-pragmatismo-e-danos-colaterais\/","title":{"rendered":"Terram\u00e9rica \u2013 Entre pragmatismo e danos colaterais"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_113138\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/ArgentinaProtestoContraMons.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-113138\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/ArgentinaProtestoContraMons.jpg\" alt=\"ArgentinaProtestoContraMons Terram\u00e9rica   Entre pragmatismo e danos colaterais\" width=\"340\" height=\"255\" title=\"Terram\u00e9rica   Entre pragmatismo e danos colaterais\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Um menino observa a marcha de protesto contra a Monsanto, na localidade de Malvinas Argentinas, na prov\u00edncia de C\u00f3rdoba. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Buenos Aires, Argentina, 19 de maio de 2014 (Terram\u00e9rica).- Os publicit\u00e1rios da corpora\u00e7\u00e3o su\u00ed\u00e7a Syngenta estavam inspirados em 2003, quando batizaram o Cone Sul americano (Argentina, Bol\u00edvia, Brasil, Paraguai e Uruguai) como a \u201cRep\u00fablica Unida da Soja\u201d. Nessa \u201crep\u00fablica\u201d, h\u00e1 mais de 46 milh\u00f5es de hectares de monoculturas de soja transg\u00eanica, fumigadas com 600 milh\u00f5es de litros de glifosato e respons\u00e1veis em grande parte por um desmatamento anual de 500 mil hectares na \u00faltima d\u00e9cada, segundo estimativas da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Grain.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o da biotecnologia agr\u00edcola privada na Am\u00e9rica do Sul acontece em governos catalogados como progressistas e aviva um debate entre os que a veem como um avan\u00e7o cient\u00edfico e econ\u00f4mico e os que ressaltam seus danos sociais, ambientais e pol\u00edticos. A grande decolagem das empresas mundiais do setor come\u00e7ou em 2003 e se reafirmou em 2012, quando grande parte dos pa\u00edses do Cone Sul tinham governos formalmente cr\u00edticos do neoliberalismo e promotores da inger\u00eancia do Estado em aspectos sociais, educativos, sanit\u00e1rios e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Mas nas duas pot\u00eancias agr\u00edcolas da regi\u00e3o, Argentina e Brasil, h\u00e1 uma implanta\u00e7\u00e3o maci\u00e7a de cultivos transg\u00eanicos, com alto uso de pesticidas. Isso se relaciona \u201ccom a cren\u00e7a cega de setores progressistas nos avan\u00e7os da ci\u00eancia e da tecnologia como provedores de bem-estar e progresso\u201d, apontou ao Terram\u00e9rica o porta-voz da Grain Latino-Americana, Carlos Vicente. \u201cN\u00e3o \u00e9 questionado o poder corporativo que as impulsiona, nem s\u00e3o analisados os impactos socioambientais\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Soma-se um fator \u201cpragm\u00e1tico\u201d, isto \u00e9, \u201ca alian\u00e7a com o agroneg\u00f3cio para manter a governabilidade\u201d, especialmente na Argentina, onde os impostos sobre as suculentas \u201cexporta\u00e7\u00f5es de soja s\u00e3o uma importante fonte de dinheiro para o Estado\u201d, destacou Vicente. Paradoxalmente, essa renda \u00e9 em parte usada em \u201cplanos sociais com os quais se d\u00e1 assist\u00eancia aos expulsos do modelo\u201d do agroneg\u00f3cio, acrescentou o porta-voz da Grain, uma organiza\u00e7\u00e3o internacional que promove a seguran\u00e7a alimentar mediante a biodiversidade e o controle comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na Argentina, a norte-americana Monsanto controla 86% do mercado de sementes transg\u00eanicas e \u00e9 a que mais barulho provoca. Mas outras avan\u00e7am em sigilo, como Syngenta, assegurou ao Terram\u00e9rica o presidente da Funda\u00e7\u00e3o para a Defesa do Ambiente, Ra\u00fal Montenegro. Em sua opini\u00e3o, a luta contra a instala\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica de sementes de milho da Monsanto em Malvinas Argentinas, na prov\u00edncia de C\u00f3rdoba, levou outras transnacionais a manterem um perfil baixo e \u201comitir o lugar de suas futuras localiza\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p>Vicente inclui na lista outras empresas que criam agrupa\u00e7\u00f5es de semeadura e controlam milh\u00f5es de hectares, como as alem\u00e3s Bayer e Basf, a norte-americana Cargill, a su\u00ed\u00e7a Nestl\u00e9, e a Bunge, de ra\u00edzes argentinas. A Syngenta n\u00e3o respondeu o pedido de entrevista do Terram\u00e9rica. Mas seus comunicados s\u00e3o claros.<\/p>\n<p>Na declara\u00e7\u00e3o <em>Am\u00e9rica Latina Ponta de Lan\u00e7a do Crescimento da Syngenta<\/em>, sobre seus resultados financeiros em 2013, a companhia destacou que seu faturamento de US$ 14,688 bilh\u00f5es foi impulsionado pelo crescimento de 7% na regi\u00e3o e de 6% na Europa, \u00c1frica e Oriente M\u00e9dio, e outro tanto na \u00c1sia Pac\u00edfico. Entretanto, as vendas na Am\u00e9rica do Norte ca\u00edram 2%.<\/p>\n<p>O bom desempenho na Am\u00e9rica Latina aconteceu gra\u00e7as ao Brasil, onde \u201co portf\u00f3lio em expans\u00e3o de sementes de soja registrou avan\u00e7os significativos com o lan\u00e7amento de novas variedades\u201d, destacou Mike Mack, seu diretor-executivo mundial.<\/p>\n<p>Os grandes plantadores nacionais de soja, como Gustavo Grobocopatel, do Grupo Los Grobo, defendem essa forma de agroneg\u00f3cio com corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras das quais se sentem aliados, afirmaram fontes consultadas pelo Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>O bom desempenho dessas empresas se d\u00e1 \u00e0 custa do aumento de problemas sanit\u00e1rios e ambientais causados pelos pesticidas, pelo deslocamento de pequenas produ\u00e7\u00f5es e de povos origin\u00e1rios e pela concentra\u00e7\u00e3o da propriedade da terra. Contudo, esses s\u00e3o apenas \u201cefeitos colaterais\u201d para os governos da Rep\u00fablica Unida da Soja, explicou Vicente. Na Argentina, a presidente Cristina Fern\u00e1ndez e seus ministros \u201crepetem ao m\u00e1ximo que \u2018produzimos alimentos para 400 milh\u00f5es de pessoas\u2019 quando o que produzimos s\u00e3o 55 milh\u00f5es de toneladas de soja forrageira\u201d,\u00a0 pontuou.<\/p>\n<p>Enrique Mart\u00ednez, ex-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia Industrial, recordou ao Terram\u00e9rica os esfor\u00e7os da Monsanto para que seja aprovada uma lei sobre sementes, \u201cque valide n\u00e3o s\u00f3 as patentes de esp\u00e9cies, mas a cobran\u00e7a de <em>royalties<\/em> e a regulamenta\u00e7\u00e3o da posse de sementes a partir do pr\u00f3prio gr\u00e3o colhido\u201d. Mart\u00ednez, coordenador do Instituto para a Produ\u00e7\u00e3o Popular do Movimento Evita, considera que a press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica antecipa que a norma n\u00e3o ir\u00e1 adiante. Para ele, Buenos Aires n\u00e3o defende o modelo agr\u00edcola baseado nos transg\u00eanicos.<\/p>\n<p>\u201cO que faz \u00e9 admitir que o mercado funcione em termos autom\u00e1ticos, partindo do suposto de que a produtividade melhorar de modo sistem\u00e1tico e isso beneficia a comunidade\u201d, afirmou Mart\u00ednez. Mas essa l\u00f3gica \u201cn\u00e3o \u00e9 correta. N\u00e3o foram feitos estudos que permitam perceber a apropria\u00e7\u00e3o pela Monsanto da maioria dos benef\u00edcios econ\u00f4micos imediatos, convertendo os agricultores em simples ref\u00e9ns do esquema\u201d, acrescentou. No entanto, ressaltou, \u201ca biotecnologia n\u00e3o deve ser apontada como a causa de nossos problemas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cEsse \u00e9 um olhar sect\u00e1rio, reflexo do modelo Monsanto\u201d, afirmou Mart\u00ednez. O que se necessita \u00e9 \u201cdemocratizar o conhecimento, permitindo que os atores aumentem e a produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o se concentre cada vez mais em menos m\u00e3os\u201d, enfatizou. A quest\u00e3o ambiental \u00e9 \u201cs\u00f3 um aspecto. O fato central \u00e9 a constru\u00e7\u00e3o de cadeias de valor que dependem das decis\u00f5es de uma corpora\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso que deve ser corrigido\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O economista Jo\u00e3o Pedro St\u00e9dile, dirigente da Via Camponesa e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), negou que esse fen\u00f4meno traga consigo uma contradi\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica de governos supostamente progressistas. \u201cO movimento do capital sobre a agricultura, para impor seu modelo de domina\u00e7\u00e3o baseado na monocultura, nas sementes transg\u00eanicas e nos agrot\u00f3xicos, tem uma l\u00f3gica pr\u00f3pria que n\u00e3o depende dos governos\u201d, opinou St\u00e9dile ao Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>Os governos \u201cse enganam\u201d com o volume de produ\u00e7\u00e3o e a boa balan\u00e7a comercial que proporcionam. Mas n\u00e3o se produz desenvolvimento nem se distribui riqueza, argumentou. Nos 70 milh\u00f5es de hectares plantados no Brasil, 88% s\u00e3o dedicados \u00e0 soja, ao milho, \u00e0 cana-de-a\u00e7\u00facar e ao eucalipto, detalhou St\u00e9dile. \u201cAssim, naturalmente aumentar\u00e3o os problemas sociais e os protestos contra esse modelo sem futuro\u201d, alertou.<\/p>\n<p>As empresas biotecnol\u00f3gicas sabem disso. O vice-presidente da Monsanto Argentina, Pablo Vaquero, alertou em mar\u00e7o que o conflito que mant\u00e9m paralisada a constru\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica em C\u00f3rdoba \u201c\u00e9 uma amea\u00e7a para todo o modelo produtivo. Hoje est\u00e3o contra a Monsanto, mas \u00e9 uma desculpa para atacar todo o setor\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Vicente considerou que ainda n\u00e3o se conseguiu uma discuss\u00e3o ampla sobre esses assuntos. Mas destacou \u00eaxitos como a paralisa\u00e7\u00e3o da lei de sementes na Argentina, a limita\u00e7\u00e3o das fumiga\u00e7\u00f5es em alguns munic\u00edpios e a Campanha Contra os Agrot\u00f3xicos e pela Vida, que ajudou o Brasil a tomar consci\u00eancia de que \u00e9 o maior consumidor de pesticidas. Envolverde\/Terram\u00e9rica<\/p>\n<p><strong>Soja concentrada<\/strong><\/p>\n<p>* Argentina \u2013 2010: 3% dos produtores controlaram mais da metade da soja.<\/p>\n<p>* Brasil \u2013 2006: 5% dos produtores controlaram 59% da \u00e1rea cultivada.<\/p>\n<p>* Paraguai \u2013 2005: 4% dos produtores manejaram 60% da superf\u00edcie de soja.<\/p>\n<p>* Uruguai \u2013 2010: 26% dos produtores detinham 85% das terras de soja.<\/p>\n<p><em>Fonte: Grain<\/em><\/p>\n<p><strong>Expulsos <\/strong><\/p>\n<p>* Argentina: at\u00e9 2007 o \u00eaxodo do campo foi superior a 200 mil pequenos agricultores e trabalhadores rurais com suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p>* Brasil: desde a d\u00e9cada de 1970, a soja deslocou 2,5 milh\u00f5es de pessoas no Estado do Paran\u00e1 e 300 mil no Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p>* Paraguai: o avan\u00e7o para a meta de destinar \u00e0 soja quatro milh\u00f5es de hectares expulsou 143 mil fam\u00edlias camponesas que, segundo o censo de 1991, tinham metade das propriedades registradas com menos de 20 hectares.<\/p>\n<p><em>Fonte: Grain<\/em><\/p>\n<p><em>* A autora \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigos relacionados da IPS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/povo-argentino-ganha-batalha-contra-monsanto-mas-resta-guerra\/\" >Povo argentino ganha batalha contra a Monsanto, mas resta a guerra<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/noticias\/agricultura-camponesa-se-debate-em-um-mar-de-soja\/\" >Agricultura camponesa se debate em um mar de soja \u2013 2011<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2009\/04\/salud-argentina-cientificos-exponen-efectos-del-glifosato\/\" >Cientistas exp\u00f5em efeitos do glifosato \u2013 2009, em espanhol<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2004\/08\/agricultura-argentina-soja-depredadora\/\" >Soja depredadora \u2013 2004, em espanhol<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 19 de maio de 2014 (Terram&eacute;rica).- Os publicit&aacute;rios da corpora&ccedil;&atilde;o su&iacute;&ccedil;a Syngenta estavam inspirados em 2003, quando batizaram o Cone Sul americano (Argentina, Bol&iacute;via, Brasil, Paraguai e Uruguai) como a &ldquo;Rep&uacute;blica Unida da Soja&rdquo;. 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