{"id":17496,"date":"2014-05-21T13:57:30","date_gmt":"2014-05-21T13:57:30","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=113412"},"modified":"2014-05-21T13:57:30","modified_gmt":"2014-05-21T13:57:30","slug":"a-grande-crise-do-oriente-medio-que-seguramente-e-ignorada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/05\/ultimas-noticias\/a-grande-crise-do-oriente-medio-que-seguramente-e-ignorada\/","title":{"rendered":"A grande crise do Oriente M\u00e9dio que seguramente \u00e9 ignorada"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_113414\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Nilo-chica-629x454.jpg\"><img class=\"wp-image-113414\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/Nilo-chica-629x454.jpg\" alt=\"Nilo chica 629x454 A grande crise do Oriente M\u00e9dio que seguramente \u00e9 ignorada\" width=\"529\" height=\"382\" title=\"A grande crise do Oriente M\u00e9dio que seguramente \u00e9 ignorada\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A recente disputa entre Egito e Eti\u00f3pia pela \u00e1gua do Nilo \u00e9 um exemplo dos conflitos que se avizinham no Oriente M\u00e9dio pelo direito a este recurso essencial. Foto: Cam McGrath\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Washington, Estados Unidos, 21\/5\/2014 \u2013 O conflito aparentemente sem fim do Oriente M\u00e9dio desvia a aten\u00e7\u00e3o e os recursos de uma amea\u00e7a mais grave que se forma sobre toda a regi\u00e3o no longo prazo, a crescente escassez de \u00e1gua. E a situa\u00e7\u00e3o vai piorar antes de melhorar, se em algum momento isso ocorrer.<\/p>\n<p>Anos de guerra, gest\u00e3o descuidada das reservas de \u00e1gua, crescimento demogr\u00e1fico descontrolado, pol\u00edticas agr\u00edcolas imprudentes e subs\u00eddios que fomentam o consumo transformaram uma zona basicamente \u00e1rida do mundo em uma voraz consumidora de \u00e1gua. A trajet\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Essas foram as conclus\u00f5es, sombrias embora n\u00e3o surpreendentes, de uma confer\u00eancia de tr\u00eas dias sobre o tema realizada este m\u00eas em Istambul, na Turquia. No territ\u00f3rio que vai da L\u00edbia at\u00e9 Iraque e I\u00eamen, muitas pessoas e muitos animais utilizam o recurso da \u00e1gua al\u00e9m de seus limites. Alguns pa\u00edses onde a insurg\u00eancia \u00e9 maior, como S\u00edria ou I\u00eamen, s\u00e3o os menos equipados para evitar uma grave crise.<\/p>\n<p>A Jord\u00e2nia, sempre com escassez de \u00e1gua, est\u00e1 sufocada pela avalanche de refugiados da S\u00edria. O Iraque, que no passado teve recursos mais do que suficientes, perdeu reservas fundamentais devido \u00e0 guerra e \u00e0s represas que a Turquia construiu nos rios Tigre e Eufrates. O Egito, com seus 86 milh\u00f5es de habitantes, tem uma popula\u00e7\u00e3o duas vezes maior do que h\u00e1 50 anos, mas sem recursos de \u00e1gua adicionais.<\/p>\n<p>A isolada Faixa de Gaza lida com uma crise h\u00eddrica h\u00e1 anos. E as escassas reservas do I\u00eamen s\u00e3o absorvidas pela produ\u00e7\u00e3o descontrolada de cat (<em>Catha edulis<\/em>), um cultivo especial da zona tropical africana e ar\u00e1bica que consome muita \u00e1gua e possui valor nutricional nulo. Mastigar a folha ligeiramente narc\u00f3tica de cat \u00e9 o passatempo nacional no I\u00eamen. \u201cSe tiverem mais \u00e1gua, cultivar\u00e3o mais cat\u201d, lamentou um participante da confer\u00eancia.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, nem todas as not\u00edcias s\u00e3o ruins. Pa\u00edses est\u00e1veis com muito dinheiro, liderados pela Ar\u00e1bia Saudita, exibem avan\u00e7os not\u00e1veis em suas reservas, na gest\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o do consumidor. Em outros lugares, entretanto, o progn\u00f3stico \u00e9 pouco animador. Ningu\u00e9m prev\u00ea que se desencadear\u00e3o \u201cguerras pela \u00e1gua\u201d ou conflitos armados pelas reservas, um fantasma que se evoca com frequ\u00eancia, mas que nunca se materializou.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em algum momento do futuro n\u00e3o muito distante, a escassez de \u00e1gua poder\u00e1 provocar grandes migra\u00e7\u00f5es, pen\u00farias, m\u00e1s colheitas e uma sele\u00e7\u00e3o de prioridades nas popula\u00e7\u00f5es, na medida em que os governos forem obrigados a destinar as reservas de \u00e1gua, disseram os conferencistas, cujas identifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o permitidas pelas normas da confer\u00eancia.<\/p>\n<p>Tudo isso n\u00e3o passou despercebido. O problema da \u00e1gua no Oriente M\u00e9dio \u00e9 objeto de not\u00edcias, an\u00e1lises de \u00f3rg\u00e3os como a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO) e de estudos feitos por centros de pesquisa e grupos humanit\u00e1rios durante anos.<\/p>\n<p>No encontro mais recente, cientistas, analistas pol\u00edticos e acad\u00eamicos de oito pa\u00edses se reuniram em uma ilha do Mar de M\u00e1rmara para a confer\u00eancia de Istambul intitulada Secas: Como Abordar o Desafio da \u00c1gua no Oriente M\u00e9dio, organizada pelo Centro Hollings e pelo Programa de Estudos Estrat\u00e9gicos Pr\u00edncipe Muhammad Bin Fahd da Universidade de Fl\u00f3rida Central, nos Estados Unidos. Mas esse tipo de encontro conseguiu pouco porque a regi\u00e3o n\u00e3o tem estabilidade suficiente para que uma solu\u00e7\u00e3o integral e multilateral seja poss\u00edvel.<\/p>\n<p>An\u00e1lises do Banco Mundial, Departamento de Estado norte-americano e outros, indicam que a maioria dos pa\u00edses definidos como \u201cpobres em \u00e1gua\u201d (com acesso inferior a mil metros c\u00fabicos por pessoa ao ano) est\u00e3o no Oriente M\u00e9dio e norte da \u00c1frica. O Departamento de Estado tamb\u00e9m prev\u00ea que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica agravar\u00e1 o problema ao provocar \u201cn\u00edveis consistentemente mais baixos de chuvas\u201d.<\/p>\n<p>Nenhum governo nem organismo internacional pode aumentar as precipita\u00e7\u00f5es. Mas os congressistas de Istambul disseram que o exemplo da Ar\u00e1bia Saudita, o maior pa\u00eds do mundo sem rios, mostra que os Estados com muito dinheiro e tempo suficiente para se dedicarem a um tema podem fazer muito.<\/p>\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita centralizou o planejamento e a gest\u00e3o da \u00e1gua na d\u00e9cada de 1990. A maior parte da \u00e1gua do pa\u00eds \u00e9 usada com fins pessoais e o abastecimento dom\u00e9stico \u00e9 feito por unidades de dessaliniza\u00e7\u00e3o cuja constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ou nos anos 1970. Mas a constru\u00e7\u00e3o e opera\u00e7\u00e3o dessas unidades t\u00eam um custo alto, o que as deixa fora do alcance econ\u00f4mico de pa\u00edses como o I\u00eamen.<\/p>\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita lidera a regi\u00e3o na recaptura e reutiliza\u00e7\u00e3o de \u00e1guas residuais. Uma lei do ano passado, por exemplo, exige que suas fazendas leiteiras funcionem com \u00e1gua reciclada adquirida da Companhia Nacional da \u00c1gua e n\u00e3o com as \u00e1guas subterr\u00e2neas como se fazia no passado.<\/p>\n<p>Esse pa\u00eds chegou a ser quinto ou sexto exportador mundial de trigo, cuja produ\u00e7\u00e3o exige grandes quantidades de \u00e1gua, mas agora esse cultivo estar\u00e1 proibido a partir de 2016 e o reino reorientar\u00e1 sua agricultura para a produ\u00e7\u00e3o em estufas de frutas e verduras. Tamb\u00e9m foram proibidos os cultivos de forragem para gado, como a alfafa. Os produtores pecu\u00e1rios devem comprar forragem importada, disseram os participantes da confer\u00eancia.<\/p>\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita perdia at\u00e9 25% de sua \u00e1gua por vazamentos nas tubula\u00e7\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o. Para resolver o problema privatizou sua rede de distribui\u00e7\u00e3o e incentivou a participa\u00e7\u00e3o de empresas de engenharia e de gest\u00e3o estrangeiras. O reino aumentou o pre\u00e7o da \u00e1gua para empresas e institui\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o deixa de subsidiar a \u00e1gua destinada \u00e0s fam\u00edlias. Assim, o elemento vital \u00e9 barato \u00e9 h\u00e1 poucos incentivos para limitar seu consumo. Acabar com os subs\u00eddios seria politicamente arriscado em um pa\u00eds onde os subs\u00eddios da \u00e1gua, gasolina e eletricidade s\u00e3o esperados pela popula\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o tem voto nem outro tipo de influ\u00eancia sobre o governo.<\/p>\n<p>O Egito, de longe o pa\u00eds mais povoado da regi\u00e3o, tem um problema diferente de atitude dos consumidores. Os eg\u00edpcios d\u00e3o por assentada a disponibilidade de \u00e1gua desde que foi constru\u00edda a represa de Assu\u00e3, em 1970. Assim, a utilizam com sensatez em casa e bombeiam mais para a irriga\u00e7\u00e3o de seus campos.<\/p>\n<p>Mas a maior preocupa\u00e7\u00e3o atual do Egito \u00e9 o plano da Eti\u00f3pia de construir uma grande represa hidrel\u00e9trica na cabeceira do rio Nilo, o que reduzir\u00e1 a corrente e a quantidade de \u00e1gua armazenada no lago Nasser, atr\u00e1s da represa de Assu\u00e3. Quando recentemente perguntado ao chanceler eg\u00edpcio, Nabil Fahmy, se seu pa\u00eds estava em negocia\u00e7\u00f5es sobre a distribui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua do Nilo com os pa\u00edses rio acima, respondeu que \u201cn\u00e3o, mas gostaria que estivesse\u201d.<\/p>\n<p>Os participantes em Istambul concordaram que n\u00e3o h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o \u00fanica para a crise da \u00e1gua. As respostas existentes v\u00e3o desde o simples e evidente, como educa\u00e7\u00e3o dos consumidores e instala\u00e7\u00e3o de acess\u00f3rios de banho de baixo caudal, ao desenvolvimento de unidades dessalinizadoras que funcionem com energia solar.<\/p>\n<p>Como \u00e9 habitual nesse tipo de evento, os organizadores preparar\u00e3o um documento com suas recomenda\u00e7\u00f5es. Mas ser\u00e1 dif\u00edcil aplicar as solu\u00e7\u00f5es at\u00e9 que cessem os tiroteios, os refugiados tenham um lar e os governos tenham uma estabilidade suficiente para coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica. E isso n\u00e3o acontecer\u00e1 logo. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Thomas W. Lippman <\/strong>\u00e9 pesquisador-adjunto do Middle East Institute e autor de <\/em>Saudi Arabia on the Edge<em> (Ar\u00e1bia Saudita no Limite).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Washington, Estados Unidos, 21\/5\/2014 &ndash; O conflito aparentemente sem fim do Oriente M&eacute;dio desvia a aten&ccedil;&atilde;o e os recursos de uma amea&ccedil;a mais grave que se forma sobre toda a regi&atilde;o no longo prazo, a crescente escassez de &aacute;gua. E a situa&ccedil;&atilde;o vai piorar antes de melhorar, se em algum momento isso ocorrer. 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