{"id":17515,"date":"2014-05-27T13:57:00","date_gmt":"2014-05-27T13:57:00","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=113807"},"modified":"2014-05-27T13:57:00","modified_gmt":"2014-05-27T13:57:00","slug":"ponto-de-inflexao-entre-turquia-e-armenia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/05\/ultimas-noticias\/ponto-de-inflexao-entre-turquia-e-armenia\/","title":{"rendered":"Ponto de inflex\u00e3o entre Turquia e Arm\u00eania?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_113809\" style=\"width: 639px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/212.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-113809\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/212.jpg\" alt=\"212 Ponto de inflex\u00e3o entre Turquia e Arm\u00eania?\" width=\"629\" height=\"420\" title=\"Ponto de inflex\u00e3o entre Turquia e Arm\u00eania?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Ativistas turco-arm\u00eanios mostram fotos de seus ancestrais assassinados durante os massacres de 1915, em uma vig\u00edlia realizada em abril deste ano. Foto: Joshua Kucera\/EurasiaNet<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Istambul, Turquia, 27\/5\/2014 \u2013 Os turcos de origem arm\u00eania receberam bem as condol\u00eancias do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan pelos massacres que come\u00e7aram h\u00e1 99 anos, quando o Imp\u00e9rio Otomano (1299-1923) ingressava em seus \u00faltimos anos. Mas n\u00e3o h\u00e1 unanimidade de opini\u00f5es quanto a que as palavras de Erdogan conduzir\u00e3o a a\u00e7\u00f5es de reconcilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os coment\u00e1rios do primeiro-ministro turco, feitas no dia 23 de abril, estiveram longe de admitir que a morte de 600 mil a 1,5 milh\u00e3o de arm\u00eanios constituiu um genoc\u00eddio, reconhecimento que o governo da Arm\u00eania busca, desde que ficou independente da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1991. Como costumam fazer as autoridades turcas, Erdogan colocou a trag\u00e9dia entre o caos da Primeira Guerra Mundial (1915-1919), quando os s\u00faditos otomanos de qualquer nacionalidade morriam em grandes quantidades. Por\u00e9m, tanto o conte\u00fado como o momento de suas declara\u00e7\u00f5es pegaram muitos turcos de surpresa.<\/p>\n<p>Os arm\u00eanios celebram 24 de abril com o dia da Recorda\u00e7\u00e3o do Genoc\u00eddio. \u201c\u00c9 um ponto de inflex\u00e3o na hist\u00f3ria\u201d, disse o ativista arm\u00eanio Yildiz Onen, um dos oradores de uma pequena cerim\u00f4nia realizada nesse dia na esta\u00e7\u00e3o de trem de Heydarpasa, em Istambul. Foi por essa esta\u00e7\u00e3o que as autoridades otomanas expulsaram da cidade mais de 200 intelectuais arm\u00eanios no dia 24 de abril de 1915, momento que marca o come\u00e7o do genoc\u00eddio.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma grande mudan\u00e7a\u201d, disse Garo Pali\u00e1n, integrante do comit\u00ea central do Partido Democr\u00e1tico Popular da Turquia. \u201cDisseram que lamentam o que aconteceu, isso \u00e9 o mais importante da declara\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. Mas nem todos os oradores da cerim\u00f4nia se mostraram impressionados. A Turquia deve \u201cpassar das condol\u00eancias vazias para medidas de reconhecimento e restitui\u00e7\u00e3o\u201d, disse Raffi Hovannisian, pol\u00edtico e ex-candidato presidencial arm\u00eanio. Contudo, o fato de Hovannisian poder protestar em p\u00fablico, em um ato recordando a trag\u00e9dia \u00e9 em si um sinal de mudan\u00e7as significativas na Turquia.<\/p>\n<p>Em 2005, o escritor Orhan Pamuk foi acusado por supostamente \u201cinsultar a nacionalidade turca\u201d, sob o Artigo 301 do C\u00f3digo Penal, por ter afirmado em uma entrevista que \u201cum milh\u00e3o de arm\u00eanios foram assassinados\u201d. Um ano depois, outro escritor, Elif Shafak, foi acusado por violar o mesmo artigo por tratar do genoc\u00eddio em seu livro <em>O Bastardo de Istambul<\/em>. Nenhum dos dois foi condenado.<\/p>\n<p>Os turcos come\u00e7am a assumir a responsabilidade, e o governo os segue, apontou Onen. \u201cA sociedade turca est\u00e1 mudando, est\u00e1 pressionando o governo sobre o genoc\u00eddio\u201d, acrescentou. Nos \u00faltimos anos o governo de Erdogan reprimiu a livre express\u00e3o e os meios de comunica\u00e7\u00e3o, em especial os cr\u00edticos de seu regime. Mas, ao mesmo tempo, abriu certo espa\u00e7o para o debate de quest\u00f5es muito delicadas para o nacionalismo turco, com o <em>status<\/em> das minorias arm\u00eania e curda.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas as autoridades turcas \u201capresentavam uma narra\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria que determinou toda uma vis\u00e3o da Primeira Guerra Mundial, de perigo e trai\u00e7\u00f5es estrangeiras e conspiradores internos, como os arm\u00eanios\u201d, disse em uma entrevista por correio eletr\u00f4nico Jenny White, professora visitante do Instituto de Estudos Turcos da Universidade de Estocolmo.<\/p>\n<p>\u201cO Partido da Justi\u00e7a e do Desenvolvimento, de Erdogan, abandonou esse relato hist\u00f3rico a favor de uma vis\u00e3o mais ampla e global da Turquia como herdeira de um imp\u00e9rio mundial, de vastas fronteiras m\u00f3veis, que abra\u00e7ou suas antigas inimigas, Gr\u00e9cia e Arm\u00eania, e, por extens\u00e3o, suas minorias dentro da Turquia\u201d, pontuou White.<\/p>\n<p>Essa nova vis\u00e3o de Erdogan, por\u00e9m, passou a ser questionada pela m\u00e3o dura que o primeiro-ministro aplicou aos meios de comunica\u00e7\u00e3o e pelo retorno da \u201cret\u00f3rica do medo e da trai\u00e7\u00e3o dos estrangeiros e a deslealdade interna\u201d, acrescentou a especialista. Suas afirma\u00e7\u00f5es sobre os fatos de 1915 talvez se devam a uma tentativa de readequar o discurso de uma Turquia mais globalizada. \u201c\u00c9 um grande passo \u00e0 frente\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>O primeiro-ministro afirmou que, \u201cna Turquia, expressar livremente opini\u00f5es e reflex\u00f5es diferentes sobre os fatos de 1915 \u00e9 exig\u00eancia de uma perspectiva pluralista, bem como de uma cultura de democracia e modernidade\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Erdogan, \u201calguns podem ver nesse clima de liberdade uma oportunidade para expressar afirma\u00e7\u00f5es acusat\u00f3rias, ofensivas e inclusive provocadoras. Ainda assim, se essa vontade nos permitir entender melhor problemas hist\u00f3ricos com suas implica\u00e7\u00f5es legais e transformar o ressentimento em amizade, \u00e9 l\u00f3gico abordar diferentes discursos com empatia e toler\u00e2ncia e esperar uma atitude semelhante de todas as partes\u201d.<\/p>\n<p>Um acontecimento que marcou o degelo do tema arm\u00eanio foi o assassinato em 2007 do editor de um jornal arm\u00eanio, Hrant Dink, cometido por um adolescente nacionalista, contou Onen. Do funeral de Dink participaram 200 mil pessoas que marcharam gritando a frase \u201cTodos somos arm\u00eanios\u201d. Mas o julgamento por esse assassinato foi uma farsa tanto para os arm\u00eanios como para os observadores internacionais.<\/p>\n<p>Ativistas arm\u00eanios agora dizem que Erdogan deveria apoiar suas palavras com medidas para que compare\u00e7am \u00e0 justi\u00e7a os agentes de seguran\u00e7a suspeitos de cumplicidade com esse assassinato. \u201cSe o fizer, veremos que seu discurso \u00e9 sincero\u201d, pontuou Pali\u00e1n. Falta um ano para o centen\u00e1rio do genoc\u00eddio de 1915. E cresce a press\u00e3o para que a Turquia construa uma boa campanha. Mas Ancara n\u00e3o est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de ir muito longe diante de uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica complicada tanto interna quanto externamente.<\/p>\n<p>As pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es gerais devem ser realizadas em junho de 2015. Com isso o centen\u00e1rio cair\u00e1 na metade da campanha eleitoral. Reconhecer o genoc\u00eddio arm\u00eanio pode enfurecer os nacionalistas turcos que constituem um grupo de eleitores estrat\u00e9gicos. As circunst\u00e2ncias internacionais tampouco s\u00e3o prop\u00edcias para dar passos dram\u00e1ticos de reconcilia\u00e7\u00e3o com os arm\u00eanios.<\/p>\n<p>Em 2010, a Turquia abandonou uma tentativa de aproxima\u00e7\u00e3o afirmando que as rela\u00e7\u00f5es n\u00e3o podiam ser reiniciadas enquanto a Arm\u00eania n\u00e3o resolvesse seu conflito com o Azerbaij\u00e3o, um aliado turco. A Turquia depende dos investimentos do Azerbaij\u00e3o, e a crise na Ucr\u00e2nia fez crescer a import\u00e2ncia do g\u00e1s natural que passa pelo Azerbaij\u00e3o rumo \u00e0 Europa, o que eleva a capacidade de press\u00e3o desse pa\u00eds sobre Ancara.<\/p>\n<p>Por fim, os coment\u00e1rios de Erdogan n\u00e3o parecem ter causado grande impress\u00e3o na Arm\u00eania. \u201cO sucessor da Turquia otomana insiste em sua pol\u00edtica de total nega\u00e7\u00e3o\u201d, disse o presidente desse pa\u00eds, Serzh Sargsyan. Por sua vez, o presidente do Museu e Instituto do Genoc\u00eddio Arm\u00eanio em Erevan, Hayk Demoi\u00e1n, afirmou em um comunicado no site da institui\u00e7\u00e3o que \u201cdevo confessar que esse \u00e9 um passo importante, mas, lamentavelmente, n\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de revelar a verdade, enfrentar a hist\u00f3ria e permitir a reconcilia\u00e7\u00e3o dos dois povos\u201d. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Joshua Kucera <\/strong>\u00e9 jornalista residente em Istambul e editor do blog Bug Pit da EurasiaNet.org.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Istambul, Turquia, 27\/5\/2014 &ndash; Os turcos de origem arm&ecirc;nia receberam bem as condol&ecirc;ncias do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan pelos massacres que come&ccedil;aram h&aacute; 99 anos, quando o Imp&eacute;rio Otomano (1299-1923) ingressava em seus &uacute;ltimos anos. Mas n&atilde;o h&aacute; unanimidade de opini&otilde;es quanto a que as palavras de Erdogan conduzir&atilde;o a a&ccedil;&otilde;es de reconcilia&ccedil;&atilde;o. 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