{"id":17528,"date":"2014-05-30T16:00:31","date_gmt":"2014-05-30T16:00:31","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=114088"},"modified":"2014-05-30T16:00:31","modified_gmt":"2014-05-30T16:00:31","slug":"porque-nao-se-pode-esperar-para-acabar-com-o-casamento-infantil-na-africa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/05\/ultimas-noticias\/porque-nao-se-pode-esperar-para-acabar-com-o-casamento-infantil-na-africa\/","title":{"rendered":"Porque n\u00e3o se pode esperar para acabar com o casamento infantil na \u00c1frica"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_114090\" style=\"width: 349px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/107.jpg\"><img class=\" wp-image-114090\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/107.jpg\" alt=\"107 Porque n\u00e3o se pode esperar para acabar com o casamento infantil na \u00c1frica\" width=\"339\" height=\"432\" title=\"Porque n\u00e3o se pode esperar para acabar com o casamento infantil na \u00c1frica\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Debritu, com 14 anos e sete meses de gravidez, fugiu de seu marido depois de meses de abusos. Agora est\u00e1 sem casa e n\u00e3o tem ideia de qual ser\u00e1 seu futuro nem o de seu filho. V\u00e1rias cren\u00e7as e normas sociais, culturais, religiosas e tradicionais apoiam a persist\u00eancia do casamento infantil na \u00c1frica. Foto: Cortesia de Stephanie Sinclair\/Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNFPA)<\/p><\/div>\n<p>Johannesburgo, \u00c1frica do Sul, maio\/2014 \u2013 Clarissa, de 17 anos, j\u00e1 tem dois filhos e vive junto com o seu marido e suas outras duas esposas na zona rural no sul do Chade. H\u00e1 tr\u00eas anos viu como sua m\u00e3e e suas irm\u00e3s preparavam comida para um dia de festa. No come\u00e7o comemorou como todo mundo, sem se dar conta de que se tratava de seu pr\u00f3prio casamento. Quando se deu conta, ficou desesperada.<\/p>\n<p>\u201cTentei fugir, mas me agarraram. Me vi com um marido tr\u00eas vezes mais velho do que eu. A escola acabou, sem mais nem menos. Dez meses depois eu estava com um beb\u00ea nos bra\u00e7os\u201d, contou. Clarissa \u00e9 uma das milh\u00f5es de meninas que em todo o mundo, e em especial na \u00c1frica, s\u00e3o entregues em casamento a cada ano. Muitas delas se tornam esposas ainda crian\u00e7as, como oito anos, frequentemente casadas com homens muito mais velhos.<\/p>\n<p>Uma em cada tr\u00eas meninas de pa\u00edses de renda m\u00e9dia e baixa se casam antes dos 18 anos. E uma em cada nove o faz antes dos 15. Estima-se que, se n\u00e3o for revertida essa tend\u00eancia, cerca de 15,1 milh\u00f5es de adolescentes se casar\u00e3o a cada ano. Dos 41 pa\u00edses com preval\u00eancia de casamento infantil de 30% ou mais est\u00e3o na \u00c1frica. A pr\u00e1tica est\u00e1 mais acentuada na \u00c1frica ocidental, onde duas em cada cinco mulheres se casam antes dos 18 anos, e uma em cada seis antes dos 15.<\/p>\n<p>Sabe-se que muitas cren\u00e7as e normas sociais, culturais, religiosas e tradicionais apoiam a persist\u00eancia do matrim\u00f4nio infantil na \u00c1frica. Al\u00e9m disso, a dimens\u00e3o econ\u00f4mica \u00e9 uma for\u00e7a que impulsiona a pr\u00e1tica. Para muitas fam\u00edlias pobres, o casamento infantil \u00e9 uma fonte de renda e, portanto, uma estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Independente dos fatores favor\u00e1veis e das justificativas mencionadas, o casamento infantil tem um severo e danoso impacto sobre as meninas e a sociedade em geral. Compromete sua sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e as oportunidades para desenvolverem seu potencial. Muitas \u201cmeninas-esposas\u201d ficam expostas a gravidezes e partos antes de estarem preparadas f\u00edsica e psicologicamente.<\/p>\n<p>No Sud\u00e3o, Awatif, agora com 24 anos, foi entregue em casamento aos 14, quando ainda estava na escola. Contra sua vontade, deixou de estudar na quinta s\u00e9rie e em seguida engravidou. \u201cEstive v\u00e1rios dias em casa com um trabalho de parto obstru\u00eddo, foi doloroso e pensei que morreria. Minha fam\u00edlia me levou ao hospital para ser atendida. Sobrevivi, mas meu filho n\u00e3o, e tive uma f\u00edstula obst\u00e9trica\u201d, contou. Em raz\u00e3o disso, seu marido a abandonou e pediu div\u00f3rcio.<\/p>\n<p>O diretor-executivo do Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNFPA), Babatunde Osotimehin, declarou que \u201cnenhum sociedade pode permitir-se oportunidades perdidas, talento desperdi\u00e7ado nem pessoas exploradas por causa do casamento infantil\u201d.<\/p>\n<div id=\"attachment_114091\" style=\"width: 620px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/108.jpg\"><img class=\" wp-image-114091\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/108.jpg\" alt=\"108 Porque n\u00e3o se pode esperar para acabar com o casamento infantil na \u00c1frica\" width=\"610\" height=\"406\" title=\"Porque n\u00e3o se pode esperar para acabar com o casamento infantil na \u00c1frica\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Alphonsine Zara, de 35 anos, foi entregue em matrim\u00f4nio aos 16 e sofre as severas consequ\u00eancias de ter se casado t\u00e3o jovem. Foto: Cortesia do Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNFPA)<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O casamento infantil pode ser um desafio<\/strong><\/p>\n<p>O casamento infantil \u00e9 um problema de sa\u00fade p\u00fablica e de direitos humanos, que n\u00e3o pode deixar de ser atendido. Em primeiro lugar, viola instrumentos de direitos humanos, como a Conven\u00e7\u00e3o sobre os Direitos da Crian\u00e7a e a Carta Africana sobre os Direitos e o Bem-Estar da Crian\u00e7a. Portanto, \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o das autoridades do continente proteger os direitos das meninas, os quais os governos se comprometeram defender. Isso inclui acabar com o casamento infantil.<\/p>\n<p>Para acabar com essa pr\u00e1tica \u00e9 preciso tomar medidas em todos os n\u00edveis para mudar normas sociais danosas e empoderar as meninas. Em especial, os governos, a sociedade civil, os l\u00edderes comunit\u00e1rios e as fam\u00edlias que levam a s\u00e9rio p\u00f4r fim ao matrim\u00f4nio infantil devem considerar promulgar, aplicar e reunir apoio comunit\u00e1rio para aprovar leis que determinem uma idade m\u00ednima para se casar.<\/p>\n<p>Terminar com o casamento infantil n\u00e3o s\u00f3 ajudar\u00e1 a proteger os direitos das meninas, mas tamb\u00e9m contribuir\u00e1 em grande parte para reduzir a preval\u00eancia de adolescentes gr\u00e1vidas. Nosso objetivo deve ser toler\u00e2ncia zero. Aprovar leis que pro\u00edbam o casamento infantil \u00e9 um bom primeiro passo, e o impacto ser\u00e1 m\u00ednimo forem cumpridas e se conte com apoio da comunidade.<\/p>\n<p>Existem grandes esfor\u00e7os com resultados promissores em todo o continente que desafiam o <em>status quo<\/em> dessa pr\u00e1tica. Vimos iniciativas boas como escolas de maridos, em N\u00edger, e as iniciativas para adolescentes, em muitos outros pa\u00edses africanos. Em Mo\u00e7ambique, a iniciativa F\u00f3rum de Meninas oferece uma plataforma para melhorar suas possibilidades de tomada de decis\u00f5es, para aumentar sua sensa\u00e7\u00e3o de empoderamento e para construir uma opini\u00e3o sobre quest\u00f5es como casamento e sa\u00fade sexual e reprodutiva.<\/p>\n<p>A educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica chave para desenvolver o potencial das meninas, mas contribui para adiar o casamento em todo o continente. V\u00e1rios estudos indicam que as que t\u00eam baixo n\u00edvel educacional possuem maior probabilidade de se casar cedo, enquanto as que est\u00e3o no ensino secund\u00e1rio t\u00eam seis vezes menos possibilidades de casar cedo. A educa\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria para todos, especialmente para as meninas, \u00e9 uma interven\u00e7\u00e3o fundamental que as autoridades podem colocar em pr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>A Uni\u00e3o Africana e a campanha para terminar com o casamento infantil<\/strong><\/p>\n<p>O continente tem sido testemunha de um renovado compromisso pol\u00edtico para atender esse problema, junto com a presidente da Comiss\u00e3o da Uni\u00e3o Africana (UA), Nkosazana Dlamini-Zuma. \u201cDevemos eliminar o casamento infantil. As meninas casadas precocemente sofrem a press\u00e3o de ter filhos quando ainda s\u00e3o crian\u00e7as\u201d, destacou. Esse compromisso se leva \u00e0 pr\u00e1tica por meio de uma nova campanha para acabar com o matrim\u00f4nio infantil.<\/p>\n<p>Os objetivos da campanha s\u00e3o:<\/p>\n<p>- terminar com o casamento infantil mediante a\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas que protejam e promovam os direitos humanos;<\/p>\n<p>- gerar consci\u00eancia sobre o casamento infantil;<\/p>\n<p>- eliminar barreiras e obst\u00e1culos para o cumprimento da lei;<\/p>\n<p>- determinar o impacto socioecon\u00f4mico do casamento infantil;<\/p>\n<p>- aumentar a capacidade dos atores n\u00e3o estatais para levar adiante um di\u00e1logo pol\u00edtico baseado na evid\u00eancia e nas atividades operacionais.<\/p>\n<p>O UNFPA acredita que a campanha da UA para acabar com o casamento infantil representa um ponto de inflex\u00e3o nessa luta. \u00c9 hora de n\u00e3o mais tolerarmos que as meninas se convertam em esposas. Chegou a hora de nos comprometermos em garantir a possibilidade de elas desenvolverem todo seu potencial.<\/p>\n<p>O continente africano tolerou o casamento infantil por muito tempo com v\u00e1rios argumentos e justificativas mal explicadas. Mas nossas meninas, que levam a carga dessa pr\u00e1tica prejudicial, n\u00e3o podem esperar mais por sua proibi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se deve permitir que continue o casamento infantil. Nem um dia mais. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Julita Onabanjo <\/strong>\u00e9 diretora regional do Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNFPA) para a \u00c1frica oriental e austral. <strong>Benoit Kalasa <\/strong>\u00e9 diretor regional do UNFPA para \u00c1frica ocidental e central. <strong>Mohamed Abdel-Ahad <\/strong>\u00e9 diretor regional do UNFPA para o norte da \u00c1frica e os pa\u00edses \u00e1rabes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Johannesburgo, &Aacute;frica do Sul, maio\/2014 &ndash; Clarissa, de 17 anos, j&aacute; tem dois filhos e vive junto com o seu marido e suas outras duas esposas na zona rural no sul do Chade. H&aacute; tr&ecirc;s anos viu como sua m&atilde;e e suas irm&atilde;s preparavam comida para um dia de festa. 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