{"id":1755,"date":"2006-05-08T00:00:00","date_gmt":"2006-05-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1755"},"modified":"2006-05-08T00:00:00","modified_gmt":"2006-05-08T00:00:00","slug":"corrupcao-afeganistao-muito-dinheiro-por-um-mau-trabalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/05\/mundo\/corrupcao-afeganistao-muito-dinheiro-por-um-mau-trabalho\/","title":{"rendered":"Corrup\u00e7\u00e3o-Afeganist\u00e3o: Muito dinheiro por um mau trabalho"},"content":{"rendered":"<p>Nova York, 08\/05\/2006 &ndash; &quot;As empresas construtoras est\u00e3o fazendo muito dinheiro no Afeganist\u00e3o por um mau trabalho&quot;, afirma a jornalista afeg\u00e3 Fariba Nawa em um relat\u00f3rio para a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Corp Watch, que acompanha a a\u00e7\u00e3o das grandes companhias. <!--more--> O governo norte-americano &quot;vende&quot; suas opera\u00e7\u00f5es pelo desenvolvimento do Afeganist\u00e3o &quot;como se tudo fosse um sucesso&quot;, disse Nawa, que obteve sua forma\u00e7\u00e3o profissional nos Estados Unidos. <\/p>\n<p>&quot;As empresas, que contam com boas liga\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e realizam um trabalho semelhante no Iraque&quot;, jogaram por terra a reconstru\u00e7\u00e3o afeg\u00e3, mas ainda assim conseguem &quot;bons contratos por um prazo indeterminado&quot; e de maneira direta, sem competi\u00e7\u00e3o de outras companhias, afirmou. &quot;Estas corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o embolsando milh\u00f5es de d\u00f3lares e deixando a popula\u00e7\u00e3o cada vez mais frustrada e irritada com o resultado&quot; de seu trabalho, acrescentou. Os empregados estrangeiros contratados &quot;cobram US$ 1 mil por dia, enquanto os afeg\u00e3os recebem apenas US$ 5,00.<\/p>\n<p>O relat\u00f3rio menciona apenas alguns exemplos: &quot;Uma estrada que desmorona antes de ser constru\u00edda. Uma escola cujo teto cai. Uma cl\u00ednica com problemas no encanamento. Uma cooperativa de agricultores na qual agricultores n\u00e3o podem entrar. Policiais e militares afeg\u00e3os que depois do treinamento n\u00e3o podem fornecer nem a mais b\u00e1sica seguran\u00e7a&quot;. O estudo da jornalista &quot;confirma que o Afeganist\u00e3o foi &#039;enronizado? pelo governo Bush&quot;, disse \u00e0 IPS o professor Beau Grosscup, da Universidade da Calif\u00f3rnia, em Chico, numa refer\u00eancia \u00e0 empresa norte-americana Enron, que quebrou em 2001 em meio a um esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A Enron n\u00e3o pagou impostos nos 15 anos anteriores \u00e0 sua bancarrota, apesar de obter lucros anuais de milhares de milh\u00f5es de d\u00f3lares, e, ao quebrar, tinha uma d\u00edvida de US$ 30 bilh\u00f5es e numerosas acusa\u00e7\u00f5es de fraude cont\u00e1bil. &quot;Como no desaparecimento da Enron, no futuro do Afeganist\u00e3o haver\u00e1 uma classe superior que viveu um &#039;enriquecimento mete\u00f3rico? e que fugira com o botim, enquanto os pobres, levados a investir grandes quantidades de dinheiro na &#039;reconstru\u00e7\u00e3o? em troca de prosperidade, ficar\u00e3o na ru\u00edna&quot;, segundo Grosscup.<\/p>\n<p>Nawa detalhou alguns casos em seu relat\u00f3rio. &quot;Na cidade de Qalai Qazi, perto de Cabul, se constr\u00f3i uma nova cl\u00ednica, pintada de amarelo brilhante, constru\u00edda pela empresa norte-americana The Louis Berger Group&quot;, escreveu a jornalista. &quot;Esta cl\u00ednica deveria servir de modelo para a constru\u00e7\u00e3o de outros 81 centros semelhantes para os quais a Berger j\u00e1 foi contratada (bem como para construir estradas, represas e escolas, entre outras obras) em troca dos US$ 665 milh\u00f5es que j\u00e1 recebeu de Washington&quot;, explicou. &quot;O problema \u00e9 que esta &#039;cl\u00ednica-modelo? desabou. O teto apodreceu. Os encanamentos, quando funcionavam, pingavam e vibravam. A chamin\u00e9, feita de metal fino, pode causar um inc\u00eandio no teto. Os banheiros careciam de \u00e1gua corrente e emanavam cheiro de esgoto&quot;, diz o documento.<\/p>\n<p>A reconstru\u00e7\u00e3o dirigida pelos Estados Unidos inclui milion\u00e1rios projetos para a erradica\u00e7\u00e3o de cultivos ilegais de papoula, mat\u00e9ria-prima do \u00f3pio, da morfina e da hero\u00edna. Para isso, contratou por quatro anos uma empresa privada por US$ 120 milh\u00f5es para capacitar agricultores em cultivos alternativos. Parte do programa se concentrava na localidade de Parwan e na obten\u00e7\u00e3o de compradores dentro do pa\u00eds e no exterior. Os agricultores, acostumados a plantar gr\u00e3os, como feij\u00e3o e lentilha, foram incentivados a produzir verduras. Mas tiveram perdas. A verdura inundou o mercado e os pre\u00e7os baixaram, diz o relat\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os especialistas do programa determinaram que os agricultores &#8211; que com suas fam\u00edlias representam 80% da popula\u00e7\u00e3o &#8211; precisavam de canais e sistemas de irriga\u00e7\u00e3o e meios para melhorar a coloca\u00e7\u00e3o de seus produtos no mercado interno, a fim de minimizar as perdas com a colheita e restabelecer sua participa\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio internacional. A solu\u00e7\u00e3o da empresa contratada foi construir canais para a irriga\u00e7\u00e3o. Mas o relat\u00f3rio diz que a papoula precisa de pouqu\u00edssima \u00e1gua para crescer e por isso os agricultores acabaram usando a \u00e1gua dos canais para cultivar mais \u00f3pio ainda.<\/p>\n<p>Segundo o informe, o governo norte-americano contratou v\u00e1rias firmas de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para promover uma imagem positiva de seu trabalho de reconstru\u00e7\u00e3o. Entre elas o Rendon Group, empresa de Washington que &quot;goza de boas rela\u00e7\u00f5es com o governo Bush&quot;. O Departamento de Defesa concedeu a essa empresa mais de US$ 56 milh\u00f5es em contratos desde 11 de setembro de 2001 &quot;para divulgar informa\u00e7\u00e3o positiva sobre os Estados Unidos e seu ex\u00e9rcito no mundo em desenvolvimento&quot;, diz o relat\u00f3rio. Os contratos pedem que &quot;se rastreie jornalistas estrangeiros&quot; e &quot;se incentive (e, \u00e0s vezes, pague) a publica\u00e7\u00e3o de comunicados em favor dos interesses dos Estados Unidos em todo o mundo&quot;, diz o documento.<\/p>\n<p>A Rendon tamb\u00e9m se beneficiou em 2004 de um contrato para capacitar em rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas subalternos do presidente Hamid Karzai. Em seguida, &quot;recebeu outra importante concess\u00e3o de US$ 3,9 milh\u00f5es do Pent\u00e1gono para realizar campanhas contra o narcotr\u00e1fico junto com o Minist\u00e9rio do Interior afeg\u00e3o, apesar das obje\u00e7\u00f5es de Karzai e do Departamento de Estado&quot;. O informe qualifica de obsoleto este sistema de contratos utilizado pelos doadores internacionais.<\/p>\n<p>&quot;A Ag\u00eancia para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) outorga contratos a empresas norte-americanas&quot;, como o Banco Mundial e o Fundo Monet\u00e1rio Internacional fazem com companhias de outros pa\u00edses doadores, explicou a jornalista afeg\u00e3. Essas empresas &quot;levam boa parte do dinheiro, mas assinam muitos subcontratos, os quais, por sua vez, consomem boa parte dos fundos, com isso restando apenas o necess\u00e1rio para uma reconstru\u00e7\u00e3o que n\u00e3o chega ao n\u00edvel esperado. A garantia de qualidade \u00e9 m\u00ednima. As construtoras sabem que podem se precipitar, colocar uma nova camada de pintura sobre um edif\u00edcio antigo e apresentar a conta, sendo que raramente s\u00e3o questionadas&quot; por isso, acrescentou Nawa.<\/p>\n<p>&quot;Como conseq\u00fc\u00eancia, os hospitais desmoronam, as cl\u00ednicas e escolas caem aos peda\u00e7os e existem novas estradas perigosas, um sistema agr\u00edcola &#039;modernizado? que, na realidade, deixou os camponeses em piores condi\u00e7\u00f5es, al\u00e9m de mil\u00edcias encorajadas e senhores da guerra mais preparados para desatar a viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o do Afeganist\u00e3o&quot;, diz o relat\u00f3rio. Os afeg\u00e3os &quot;est\u00e3o perdendo a confian\u00e7a nos especialistas em desenvolvimento cujo trabalho \u00e9 reconstruir e reparar seu pa\u00eds. O que a popula\u00e7\u00e3o v\u00ea \u00e9 um punhado de companhias estrangeiras determinando as prioridades para tirarem o maior proveito e que, para o c\u00famulo, \u00e0s vezes s\u00e3o o contr\u00e1rio do que se necessita&quot;, ressalta o documento.<\/p>\n<p>Enquanto isso, &quot;a seguran\u00e7a no Afeganist\u00e3o continua se deteriorando, amea\u00e7ando diretamente a reconstru\u00e7\u00e3o. Alguns enfrentamentos s\u00e3o simplesmente o resultado da profunda frustra\u00e7\u00e3o e desconfian\u00e7a entre os afeg\u00e3os que j\u00e1 n\u00e3o acreditam que a comunidade internacional vele por seus interesses&quot;, revela o informe. O &quot;deliberado uso dos senhores da guerra e das mil\u00edcias na reconstru\u00e7\u00e3o s\u00f3 lhes deu maior credibilidade e poder, enfraquecendo ainda mais o governo eleito e avivando a insurg\u00eancia liderada pelo movimento fundamentalista Talib\u00e3, que continua ganhando poder&quot;, segundo Nawa.<\/p>\n<p>A infra-estrutura b\u00e1sica do pa\u00eds &quot;cai aos peda\u00e7os&quot; e &quot;o narcotr\u00e1fico vive um auge repentino. Estes resultados deveriam ser interpretados como um importante rev\u00e9s para &#039;guerra contra o terrorismo?. Isto \u00e9 um grande sofrimento para os afeg\u00e3os, que depois de d\u00e9cadas de guerra acreditaram que, finalmente, teriam um descanso&quot;, conclui o informe. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova York, 08\/05\/2006 &ndash; &quot;As empresas construtoras est\u00e3o fazendo muito dinheiro no Afeganist\u00e3o por um mau trabalho&quot;, afirma a jornalista afeg\u00e3 Fariba Nawa em um relat\u00f3rio para a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Corp Watch, que acompanha a a\u00e7\u00e3o das grandes companhias. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/05\/mundo\/corrupcao-afeganistao-muito-dinheiro-por-um-mau-trabalho\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":454,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12,5,9,4],"tags":[],"class_list":["post-1755","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-desenvolvimento","category-economia","category-globalizacao","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/454"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1755"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1755\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}