{"id":17553,"date":"2014-06-06T13:35:29","date_gmt":"2014-06-06T13:35:29","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=114461"},"modified":"2014-06-06T13:35:29","modified_gmt":"2014-06-06T13:35:29","slug":"no-brasil-a-copa-pela-culatra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/06\/ultimas-noticias\/no-brasil-a-copa-pela-culatra\/","title":{"rendered":"No Brasil, a Copa pela culatra?"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_114463\" style=\"width: 639px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/213.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-114463\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/213.jpg\" alt=\"213 No Brasil, a Copa pela culatra?\" width=\"629\" height=\"472\" title=\"No Brasil, a Copa pela culatra?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">A \u201csele\u00e7\u00e3o\u201d de futebol da favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, compartilha jogos em um campo improvisado. Para as crian\u00e7as pobres do Brasil, os luxos da Copa da Fifa ficam muito longe. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Rio de Janeiro, Brasil, 6\/6\/2014 \u2013 \u201cEra um bom neg\u00f3cio\u201d quando foi tomada a decis\u00e3o, mas a situa\u00e7\u00e3o mudou. A explica\u00e7\u00e3o para a compra de uma refinaria norte-americana em 2006, um dos esc\u00e2ndalos petroleiros que atormentam o governo brasileiro, tamb\u00e9m serve para o Mundial da Fifa. Em 2007, a escolha do Brasil como sede da Copa 2014 da Fifa gerou euforia nacional. O megaevento coroaria a ascens\u00e3o econ\u00f4mica desta pot\u00eancia emergente que foi mais vezes campe\u00e3 mundial de futebol, com cinco conquistas em 18 edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Agora, em lugar de festas de boas-vindas ao torneio que acontecer\u00e1 de 12 deste m\u00eas a 13 de julho, pipocam protestos que paralisam metr\u00f3poles, greves por aumento salarial, den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o e de direitos violados nas obras para o Mundial. O pa\u00eds do futebol e da alegria nega seu estere\u00f3tipo. No Rio de Janeiro, pouqu\u00edssimas ruas enfeitadas nas cores verde e amarela, as cores do selecionado nacional, contrastam com as maci\u00e7as mobiliza\u00e7\u00f5es de outros mundiais.<\/p>\n<p>O entusiasmo baixou justamente quando o Brasil \u00e9 anfitri\u00e3o do maior acontecimento esportivo do mundo. A indigna\u00e7\u00e3o dos brasileiros irrompeu em junho de 2013, com surpreendentes e violentos protestos contra os maus servi\u00e7os de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o, o caos urbano, a corrup\u00e7\u00e3o e os gastos com a Copa. Temendo novos atos de rua, o governo ordenou o envio de 157 mil militares e policiais para cuidarem da seguran\u00e7a dos jogos que acontecer\u00e3o em 12 cidades neste pa\u00eds de dimens\u00f5es continentais e quase 200 milh\u00f5es de habitantes.<\/p>\n<p>Mas a m\u00e1 vontade com o futebol \u201c\u00e9 uma tend\u00eancia que vem das tr\u00eas \u00faltimas Copas\u201d, afirmou Paulo Santos, cabeleireiro que h\u00e1 40 anos trabalha em um bairro tradicional do Rio de Janeiro, que ouve a opini\u00e3o de centenas de clientes, em uma pesquisa informal permanente. A Copa em casa deveria reavivar a paix\u00e3o dos torcedores. \u201cFazem a festa com dinheiro alheio, o nosso\u201d, resumiu Santos, corroborando a percep\u00e7\u00e3o generalizada de corrup\u00e7\u00e3o, desperd\u00edcio de recursos p\u00fablicos e ambi\u00e7\u00e3o da Fifa.<\/p>\n<p>As pesquisas tamb\u00e9m captaram a desmobiliza\u00e7\u00e3o. Em fevereiro, apenas 52% dos entrevistados pelo Instituto Datafolha eram favor\u00e1veis a organizar a Copa, contra 79% em 2008. Uma pesquisa mais recente, limitada \u00e0 cidade de S\u00e3o Paulo, aponta 45% dos entrevistados a favor e 43% contra. O restante disse ser indiferente. O pior \u00e9 que uma esmagadora maioria, 76%, considerou o pa\u00eds n\u00e3o preparado para receber a maratona de 64 jogos entre 32 selecionados nacionais.<\/p>\n<p>Muitos dos projetos previstos, especialmente de mobilidade urbana, n\u00e3o foram cumpridos ou ficaram incompletos. Alguns dos 12 est\u00e1dios tiveram sua constru\u00e7\u00e3o ou reforma conclu\u00edda na \u00faltima hora, sem alguns acabamentos e sem testes. A metade n\u00e3o tem conex\u00e3o sem fio \u00e0 internet.<\/p>\n<div id=\"attachment_114464\" style=\"width: 650px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/214.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-114464\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/214.jpg\" alt=\"214 No Brasil, a Copa pela culatra?\" width=\"640\" height=\"480\" title=\"No Brasil, a Copa pela culatra?\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Parte interna do est\u00e1dio do Maracan\u00e3, no Rio de Janeiro, remodelado para a Copa da Fifa. Os gastos excessivos nas instala\u00e7\u00f5es \u00e9 um dos alvos das cr\u00edticas da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Foto: Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Atrasar obras \u00e9 uma tradi\u00e7\u00e3o no pa\u00eds. Isso tamb\u00e9m aconteceu no Primeiro Mundial disputado no Brasil, em 1950, quando o principal est\u00e1dio, o Maracan\u00e3, foi inaugurado dias antes, entre a lama e o entulho da obra. Era o maior est\u00e1dio do mundo. Projetado para 155.250 espectadores, estima-se que recebeu mais de 200 mil na partida final. Agora, reformado e luxuoso, pode receber apenas 74.689 pessoas.<\/p>\n<p>A megalomania atual \u00e9 diferente. O Brasil est\u00e1 enredado desde a d\u00e9cada passada na constru\u00e7\u00e3o de numerosos portos, hidrel\u00e9tricas, ferrovias e estradas, em uma tentativa de superar o d\u00e9ficit de infraestrutura acumulado nas duas d\u00e9cadas perdidas precedentes. A maioria dos grandes projetos conta com anos de atraso. A principal ferrovia, um eixo norte-sul de 4.155 quil\u00f4metros, est\u00e1 em constru\u00e7\u00e3o h\u00e1 27 anos, com apenas um ter\u00e7o dos trilhos instalados.<\/p>\n<p>A esse atraso somaram-se as obras para a Copa em 12 cidades e para os Jogos Ol\u00edmpicos de 2016 no Rio de Janeiro, que n\u00e3o admitem adiamentos. A press\u00e3o do prazo pode ser uma causa dos acidentes que provocaram a morte de nove oper\u00e1rios nos est\u00e1dios para o Mundial, sete deles empregados de empresas subcontratadas. A multiplica\u00e7\u00e3o e concentra\u00e7\u00e3o de trabalhadores em grandes obras espalhadas pelo pa\u00eds empoderou os oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s numerosas greves, obtiveram aumentos salariais e benef\u00edcios como visitas familiares mais frequentes para os que est\u00e3o longe de casa.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, as condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a seguem prec\u00e1rias e os acidentes se repetem, quase sempre por falta de medidas de prote\u00e7\u00e3o coletiva, com as ambientais e andaimes seguros, apontou Vitor Filgueiras, economista que pesquisa o assunto para sua tese de doutorado. A terceiriza\u00e7\u00e3o, \u201cuma forma de transferir riscos\u201d, agrava o quadro de trabalho inseguro e inclusive an\u00e1logo ao da escravid\u00e3o, acrescentou.<\/p>\n<p>A Copa foi foco comum de todos os protestos e greves recentes, de estudantes, professores e motoristas de \u00f4nibus. Mas o apoio popular \u00e0s marchas e batalhas nas ruas diminuiu notavelmente, segundo as pesquisas, para sorte do governo de Dilma Rousseff. H\u00e1 um ano, 54% dos entrevistados pelo Instituto Vox Populi aprovavam os protestos, agora s\u00e3o apenas 18%. Isso diminui o risco de atos maci\u00e7os, mas grupos de dezenas de ativistas paralisam atualmente cidades, em uma esp\u00e9cie de guerrilha favorecida pelo congestionamento urbano permanente.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as elei\u00e7\u00f5es de outubro politizam o futebol. Para a opini\u00e3o p\u00fablica, a Copa e o governo est\u00e3o vinculados. Um fracasso brasileiro, nos gramados ou na organiza\u00e7\u00e3o, fabricaria votos opositores. A presidente continua como favorita \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, mas o futebol ganhou peso, somando-se a outras iniciativas governamentais que tamb\u00e9m pareciam boas quando foram adotadas, e agora n\u00e3o mais.<\/p>\n<p>Por exemplo, a compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, impulsionaria a expans\u00e3o internacional da Petrobras e lhe permitiria refinar seu petr\u00f3leo pesado. Mas a compra custou o triplo do contrato inicial de US$ 360 milh\u00f5es e perdeu import\u00e2ncia porque o Brasil aumentou sua produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo leve. O caso, sob investiga\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de controle, amplificou outros esc\u00e2ndalos da Petrobras.<\/p>\n<p>Medidas para baratear a eletricidade em 2012 e beneficiar a ind\u00fastria e a popula\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m se revelaram um desastre, pois estimularam o consumo quando uma prolongada seca reduziu a gera\u00e7\u00e3o hidrel\u00e9trica, desencadeando uma crise energ\u00e9tica, com amea\u00e7a de apag\u00f5es.<\/p>\n<p>O descontentamento, tamb\u00e9m alimentado pela infla\u00e7\u00e3o elevada e baixo dinamismo econ\u00f4mico, contagiou a Copa, j\u00e1 afetada por fatores pr\u00f3prios. As exig\u00eancias da Fifa criaram \u201cum estado de Exce\u00e7\u00e3o\u201d, escreveu Lygia Cavalcanti, ju\u00edza do Trabalho, na revista da Associa\u00e7\u00e3o Ju\u00edzes para a Democracia. O Brasil aceitou \u201ca suspens\u00e3o tempor\u00e1ria\u201d de seu ordenamento jur\u00eddico para receber o Mundial, pontuou.<\/p>\n<p>Est\u00e1 proibido o com\u00e9rcio num raio de dois quil\u00f4metros em volta dos est\u00e1dios, moradores foram deslocados de suas casas e se recorre ao trabalho de 18 mil volunt\u00e1rios, quando a lei s\u00f3 admite o voluntariado para institui\u00e7\u00f5es culturais, c\u00edvicas ou assistenciais, sem fins lucrativos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Fifa conseguiu registrar excepcionalmente como sendo marcas suas exclusivas, durante este ano, cerca de 200 palavras, express\u00f5es e s\u00edmbolos de uso comum. Muitos nomes com o n\u00famero deste ano, como \u201cBrasil 2014\u201d ou \u201cNatal 2014\u201d, s\u00f3 podem ser usados comercialmente pagando direitos \u00e0 Fifa.<\/p>\n<p>A excessiva mercantiliza\u00e7\u00e3o levou a Fifa a cobrar R$ 28 mil (US$ 12,5 mil) da Associa\u00e7\u00e3o Recreativa e Cultural do Alzir\u00e3o, que desde 1978 promove uma festa de rua no Rio de Janeiro, exibindo em uma gigante tela as partidas da sele\u00e7\u00e3o brasileira na Copa. A Alzir\u00e3o deveria pagar pelos direitos de imagem, j\u00e1 que seu evento se converteu em um espet\u00e1culo com mais de 30 mil pessoas por dia.<\/p>\n<p>Um pedido do prefeito Eduardo Paes convenceu a Fifa de eximir a Associa\u00e7\u00e3o, informou Ricardo Ferreira, presidente da entidade. A mobiliza\u00e7\u00e3o para a Copa \u201cesteve fraca, mas come\u00e7a a esquentar\u201d, afirmou. Uma vit\u00f3ria do Brasil na abertura do Mundial, na Arena Corinthians, em S\u00e3o Paulo, poder\u00e1 incentivar a popula\u00e7\u00e3o e restabelecer a alegria do futebol, ressaltou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Rio de Janeiro, Brasil, 6\/6\/2014 &ndash; &ldquo;Era um bom neg&oacute;cio&rdquo; quando foi tomada a decis&atilde;o, mas a situa&ccedil;&atilde;o mudou. A explica&ccedil;&atilde;o para a compra de uma refinaria norte-americana em 2006, um dos esc&acirc;ndalos petroleiros que atormentam o governo brasileiro, tamb&eacute;m serve para o Mundial da Fifa. 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