{"id":17581,"date":"2014-06-13T11:55:15","date_gmt":"2014-06-13T11:55:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=17581"},"modified":"2014-06-13T11:55:15","modified_gmt":"2014-06-13T11:55:15","slug":"criancas-seropositivas-zimbabwe-mas-noticias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/06\/africa\/criancas-seropositivas-zimbabwe-mas-noticias\/","title":{"rendered":"Crian\u00e7as Seropositivas do Zimbabwe, M\u00e1s Not\u00edcias"},"content":{"rendered":"<p>BULAWAYO, 13 de junho de 2014\u00a0(IPS) \u2013 H\u00e1 tr\u00eas anos, Robert Ngwenya* e o pai tiveram uma acalorada discuss\u00e3o sobre medicamentos. Ngewenya, que tinha 15 anos na altura, recusou-se a continuar a tomar os comprimidos causadores de n\u00e1useas que tinha tomado desde os 12 anos, e decidiu deit\u00e1-los pela sanita abaixo.<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<div id=\"attachment_17582\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Zim-children-port..jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-17582\" class=\"size-medium wp-image-17582\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Zim-children-port.-300x199.jpg\" alt=\"Com receio de perderem os companheiros de brincadeira, as crian\u00e7as escondem dos colegas o facto de serem seropositivas.  Cr\u00e9dito: Busani Bafana\/IPS\" width=\"300\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Zim-children-port.-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/Zim-children-port..jpg 629w\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-17582\" class=\"wp-caption-text\">Com receio de perderem os companheiros de brincadeira, as crian\u00e7as escondem dos colegas o facto de serem seropositivas. Cr\u00e9dito: Busani Bafana\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Durante a discuss\u00e3o, Ngwenya compreendeu que tinha nascido seropositivo e que tinha estado a tomar medicamentos anti-retrov\u00edricos (ARV) e n\u00e3o vitaminas ou anti-al\u00e9rgicos, e que o pai vivia tamb\u00e9m com o v\u00edrus e com a culpa de o ter infectado.<\/p>\n<p>\u201cIsto \u00e9 injusto, o que fiz para merecer isto?\u201d lamenta-se Ngwenya.<\/p>\n<p>Ngwenya vive no bairro de alta densidade de Pumula em Bulawayo, a segunda cidade do Zimbabwe, com o pai, mec\u00e2nico de autom\u00f3veis, e o irm\u00e3o mais novo, que \u00e9 seronegativo. A m\u00e3e morreu quando Nwengya tinha 10 anos e o pai n\u00e3o voltou a casar.<\/p>\n<p>A vida de Ngwenya estava planeada: acabar o liceu, formar-se em tecnologia de informa\u00e7\u00e3o, encontrar um emprego e comprar um carro. Mas agora esses planos deixaram de existir. Depois da revela\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o mesmo adolescente descontra\u00eddo cuja companhia trazia sorrisos aos amigos e \u00e0 fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cComo \u00e9 que explico aos meus amigos? Como \u00e9 que come\u00e7o uma rela\u00e7\u00e3o sabendo que algu\u00e9m tem de carregar o meu fardo?\u201d pergunta.<\/p>\n<p>Tal como acontece com o pai de Ngwenya, outros pais seropositivos que se sentem culpados t\u00eam dificuldade em revelar aos filhos que ficaram infectados na altura do nascimento.<\/p>\n<p>Como \u00e9 que se diz a um filho ou a um adolescente que ter\u00e1 de viver com o v\u00edrus para o resto da sua vida?<\/p>\n<p><strong>Escolhas dif\u00edceis<\/strong><\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0 terapia ARV, um crescente n\u00famero de crian\u00e7as infectadas com o VIH est\u00e1 a chegar \u00e0 adolesc\u00eancia. Em 2012, o Zimbabwe tinha 180.000 crian\u00e7as entre os 0-15 anos e 1.2 milh\u00f5es de pessoas com mais de 15 anos a viver com o VIH, segundo o Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o VIH\/SIDA (ONUSIDA).<\/p>\n<p>\u201c\u00c0 medida que estas crian\u00e7as crescem e ulrapassam a amea\u00e7a imediata da morte, coloca-se a quest\u00e3o de as informar da sua condi\u00e7\u00e3o de seropositivas,\u201d explica um estudo sobre adolescentes que nasceram com o v\u00edrus no Zimbabwe.<\/p>\n<p>A divulga\u00e7\u00e3o a adolescentes \u00e9 diferente de explicar \u00e0s crian\u00e7as mais novas e exige diretrizes adequadas adaptadas \u00e0 idade, segundo o estudo.<\/p>\n<p>Os adolescentes com idades compreendidas entre os 16-20 anos entrevistados durante estudo preferiam que lhes fosse revelado por profissionais de cuidados de sa\u00fade em cl\u00ednicas e com a fam\u00edlia presente.<\/p>\n<p>\u201cA divulga\u00e7\u00e3o nesta faixa et\u00e1ria num ambiente de cuidados de sa\u00fade pode ajudar a ultrapassar algumas das barreiras associadas \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o feita em casa por prestadores de cuidados e fazer com que a condi\u00e7\u00e3o de seropositividade seja mais cred\u00edvel para os adolescentes,\u201d refere o estudo.<\/p>\n<p><strong>Sil\u00eancio e mentiras <\/strong><\/p>\n<p>Zivai Mupambireyi, investigador no Centro de Sa\u00fade Sexual e Pesquisa sobre VIH\/SIDA (CeSHHAR) e co-autor de um estudo de 2013 sobre crian\u00e7as seropositivas no Zimbabwe com idades compreendidas entre os 11-13 anos, disse \u00e0 IPS que as crian\u00e7as preferem saber o seu estatuto serol\u00f3gico na cl\u00ednica porque os profissionais de sa\u00fade lhe proporcionam melhores e mais informa\u00e7\u00f5es do que as pessoas que por eles s\u00e3o respons\u00e1veis.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as explicaram que os seus familiares faziam a divulga\u00e7\u00e3o tardiamente, escondiam a informa\u00e7\u00e3o e diziam mentiras sobre os medicamentos.<\/p>\n<p>\u201cOs respons\u00e1veis n\u00e3o biol\u00f3gicos das crian\u00e7as cuidavam da maior parte destas crian\u00e7as, uma vez que os pais foram a primeira gera\u00e7\u00e3o de pacientes com SIDA e morreram antes do aparecimento dos medicamentos anti-retrov\u00edricos,\u201d explicou Mupambireyi.<\/p>\n<p>Quer se trate de pais sobrecarregados por um grande sentimento de culpa ou respons\u00e1veis angustiados com a enormidade da revela\u00e7\u00e3o, a divulga\u00e7\u00e3o aos adolescentes seropositivos est\u00e1 carregada de dor e ambival\u00eancia.<\/p>\n<p>Mupambireyi constatou que as crian\u00e7as seropositivas acreditam que a divulga\u00e7\u00e3o aos colegas vai exp\u00f4-las \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o. Embora isto n\u00e3o aconte\u00e7a na maioria das vezes, as crian\u00e7as escondem o facto de serem seropositivas porque receiam perder a interac\u00e7\u00e3o social e amizades.<\/p>\n<p>\u201cApesar da divulga\u00e7\u00e3o do estatuto de seropositividade ser algo nobre e recomendado, as preocupa\u00e7\u00f5es e os receios das crian\u00e7as com respeito \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 algo que tem de ser resolvido antes de elas serem encorajadas a divulgar,\u201d afirma Mupambireyi.<\/p>\n<p>Os profissionais de sa\u00fade, pais e encarregados de educa\u00e7\u00e3o ficam mudos quanto \u00e0 altura certa e ao melhor m\u00e9todo de divulga\u00e7\u00e3o do estatuto serol\u00f3gico aos mais jovens.<\/p>\n<p><strong>Inspirar confian\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Definate Nhamo \u00e9 a coordenadora do Moldar a Sa\u00fade dos Adolescentes no Zimbabwe (SHAZ), um projecto baseado na interven\u00e7\u00e3o e investiga\u00e7\u00e3o. O SHAZ para Seropositivos, que chega a mais de 700 jovens que vivem com o VIH em Chitungwiza, um bairro da capital, Harare, \u00e9 uma extens\u00e3o deste programa.<\/p>\n<p>Nhamo disse \u00e0 IPS que a melhor idade para se divulgar a condi\u00e7\u00e3o de seropositivo \u00e9 provavelmente entre os nove ou dez anos, antes da puberdade, e preferivelmente na presen\u00e7a dos pais, encarregados de educa\u00e7\u00e3o ou um conselheiro.<\/p>\n<p>\u201cQuando a crian\u00e7a \u00e9 mais nova, confia mais, e vai crescer sabendo que tem de tomar os medicamentos ARV religiosamente,\u201d afirmou Nhamo.<\/p>\n<p>Os membros do SHAZ para Seropositivos concordam que o conhecimento precoce da sua condi\u00e7\u00e3o ajuda as crian\u00e7as a aceitarem-na e a serem mais abertas quanto a esta quest\u00e3o, afirmou Nhamo \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Alguns adultos dizem \u00e0s crian\u00e7as que os medicamentos ARV s\u00e3o para a tuberculose, sem terem a no\u00e7\u00e3o que as crian\u00e7as podem procurar essa informa\u00e7\u00e3o no google. \u201cOs adolescentes simplesmente param de tomar os seus medicamentos ARV sem dizer nada aos pais porque acreditam que t\u00eam mais informa\u00e7\u00e3o uma vez que t\u00eam acesso \u00e0 Internet,\u201d diss Nhamo.<\/p>\n<p>Uma rapariga no estudo da SHAZ, que n\u00e3o quis ser identificada, contou \u00e0 IPS que a m\u00e3e, angustiada por lhe ter passado a doen\u00e7a, nunca lhe dissera a verdade. Aos 17 anos, a adolescente fez um teste de VIH de rotina e descobriu ent\u00e3o que era seropositiva. Uma vez que nunca tinha tido rela\u00e7\u00f5es sexuais, confrontou a m\u00e3e e descobriu que os dois irm\u00e3os eram seronegativos mas que ela era seropositiva.<\/p>\n<p>\u201cSenti-me zangada e frustrada. Se a minha m\u00e3e me tivesse dito mais cedo, se calhar teria aceite melhor a minha condi\u00e7\u00e3o,\u201d asseverou.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.africaid-zvandiri.org\/\">Zvandiri<\/a>, que quer dizer \u201cO que sou\u201d na l\u00edngua Shona, \u00e9 um grupo de apoio que ajuda os adolescentes a lidarem com o VIH.<\/p>\n<p>Em 2013, Zvandiri criou uma can\u00e7\u00e3o cativante e um DVD intitulado \u2018Como Dan\u00e7ar\u2019, com jovens fixes a vocalizarem as suas esperan\u00e7as e receios de forma animada: \u201cEu tamb\u00e9m tenho sonhos de uma vida melhor, e que algu\u00e9m me ame da maneira como sou.\u201d<\/p>\n<p>Eles cantam, \u201ccomo dan\u00e7ar na tempestade\u201d.<\/p>\n<p>* Nome fict\u00edcio<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Como Dan\u00e7ar <\/strong><br \/>\n&#8220;Na pr\u00f3xima vez que me vires a andar na rua<br \/>\nSabes que existe uma hist\u00f3ria escondida em mim<\/p>\n<p>N\u00e3o olhes para o lado a fingir que n\u00e3o estou a\u00ed<br \/>\nTudo o que quero \u00e9 algu\u00e9m que tome conta de mim<\/p>\n<p>Eu tamb\u00e9m tenho sonhos de uma vida melhor<br \/>\nQue algu\u00e9m goste de mim como sou<\/p>\n<p>De segurar um filho nos bra\u00e7os<\/p>\n<p>E ter a certeza que est\u00e1 livre do perigo<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que eu queria \u00e9 algum do teu afecto<\/p>\n<p>N\u00e3o a tua piedade, s\u00f3 alguma aten\u00e7\u00e3o<br \/>\nPensas que eu n\u00e3o tenho valor<br \/>\nNem sequer me conheces<br \/>\nN\u00e3o tenho culpa que este<br \/>\nSangue corra nas minhas veias.<\/p>\n<p>Quero que saibas que n\u00f3s s\u00f3 somos crian\u00e7as<\/p>\n<p>Apesar de termos nascido com o VIH<\/p>\n<p>Contrac\u00e7\u00e3o pr\u00e9-natal, virgem,<\/p>\n<p>A primeira de uma gera\u00e7\u00e3o que luta,<\/p>\n<p>Lutamos contra a SIDA e a discrimina\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Fomos feitos por Deus, e aqui colocados por uma raz\u00e3o<\/p>\n<p>\u00c9 altura de mudar e agora a raz\u00e3o<\/p>\n<p>Sim, somos especiais mas n\u00e3o somos diferentes<br \/>\nMas na tempestade<\/p>\n<p>Aprendemos a maneira de dan\u00e7ar\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BULAWAYO, 13 de junho de 2014\u00a0(IPS) \u2013 H\u00e1 tr\u00eas anos, Robert Ngwenya* e o pai tiveram uma acalorada discuss\u00e3o sobre medicamentos. 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