{"id":1760,"date":"2006-05-09T00:00:00","date_gmt":"2006-05-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=1760"},"modified":"2006-05-09T00:00:00","modified_gmt":"2006-05-09T00:00:00","slug":"trabalho-livre-comercio-com-os-eua-e-pago-com-escravidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2006\/05\/mundo\/trabalho-livre-comercio-com-os-eua-e-pago-com-escravidao\/","title":{"rendered":"Trabalho: Livre com\u00e9rcio com os EUA \u00e9 pago com escravid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Washington, 09\/05\/2006 &ndash; Grandes empresas dos Estados Unidos, como Wal-Mart, Gloria Vanderbilt, Target, Kohl,Victoria&#039;s Secret e L.L. Bean, compram roupa de f\u00e1bricas que escravizam trabalhadores na Jord\u00e2nia, advertiu em Nova York o n\u00e3o-governamental Comit\u00ea Nacional do Trabalho. <!--more--> Esta organiza\u00e7\u00e3o, dedicada a defender os direitos dos trabalhadores de todo o mundo, indica em um estudo que o Acordo de Livre Com\u00e9rcio Estados Unidos-Jord\u00e2nia promove o tr\u00e1fico humano e a &quot;servid\u00e3o involunt\u00e1ria&quot;.            <\/p>\n<p>O programa de Zonas Industriais Qualificadas, implementado em 1998 como recompensa \u00e0 Jord\u00e2nia por seu acordo de paz com Israel, d\u00e1 acesso ao mercado norte-americano, livre de tarifas e cotas, a produtos jordanianos com menos de 8% de componentes israelenses. Tanto Estados Unidos quanto Israel procuram replicar este modelo em acordos comerciais com outros pa\u00edses \u00e1rabes, no contexto do plano do presidente George W. Bush para criar uma \u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio do Oriente M\u00e9dio (Mefta, sigla em ingl\u00eas). Essa iniciativa, de destino incerto, vincularia 22 Estados \u00e1rabes com os Estados Unidos e Israel em um acordo comercial para 2013.<\/p>\n<p>V\u00e1rios l\u00edderes parlamentares dos Estados Unidos insistiram em que o modelo se aplique com todos os pa\u00edses \u00e1rabes que procurarem um acordo de livre com\u00e9rcio com Washington. O governo do Egito j\u00e1 subscreveu o modelo de Zonas Industriais Qualificadas em um acordo de 2004 que cria essas zonas nas cidades do Cairo e Alexandria e em seus arredores, bem como do Canal de Suez. O acordo aumentou a renda da ind\u00fastria jordaniana. O vestu\u00e1rio exportado por esse pa\u00eds que entra nos Estados Unidos livre de impostos aumentou 2000% entre 2000 e 2005, chegando a US$ 1,1 bilh\u00e3o.<\/p>\n<p>Os autores do informe se concentram nas condi\u00e7\u00f5es de trabalho de estrangeiros empregados como &quot;trabalhadores convidados&quot;. O auge industrial, advertiu o Comit\u00ea, foi conseguido \u00e0s custas de um enorme custo humano, com numerosos abusos e condi\u00e7\u00f5es trabalhistas miser\u00e1veis. O estudo, de 168 p\u00e1ginas, diz que a maioria dos trabalhadores convidados procede de Bangladesh, Sri Lanka, China, \u00cdndia e outros pa\u00edses e t\u00eam problemas de comunica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que n\u00e3o falam \u00e1rabe. O texto tamb\u00e9m detalha um contexto de baixos sal\u00e1rios, abusos f\u00edsicos &#8211; inclusive viola\u00e7\u00f5es sexuais &#8211; e virtual deten\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios. &quot;Os parques industriais fechados est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es que s\u00f3 podem ser descritas como de constante isolamento&quot;, diz.<\/p>\n<p>Na f\u00e1brica Al Shahaed, que produz para a rede Wal-Mart, principal cadeia comercial varejista dos Estados Unidos, foram registradas jornadas de 24, 38 e at\u00e9 72 horas de trabalho, segundo o documento. Os empregados receberam um sal\u00e1rio m\u00e9dio de dois centavos de d\u00f3lar por hora e muitos tamb\u00e9m receberam bofetadas, chutes, socos e golpes com paus e cintur\u00f5es. Em uma f\u00e1brica chamada Al Safa, onde os trabalhadores costuram pe\u00e7as para as grifes Gloria Vanderlbilt, Target e Kohl?s, uma mulher bengalesa de 20 anos se enforcou ap\u00f3s ter sido violada por um gerente. Nesse mesmo local de trabalho, 10 a 12 pessoas se amontoam em um quarto de pouco mais de 3&#215;4 metros. S\u00e3o obrigados a dormir no ch\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 mesas nem cadeiras, segundo o informe.<\/p>\n<p>A investiga\u00e7\u00e3o mostra que os comerciantes norte-americanos ainda desempenham importante papel na ind\u00fastria jordaniana do vestu\u00e1rio, no contexto do acordo comercial Estados Unidos-Israel. Wal-Mart, por exemplo, importa roupas da Athletic Works feita na Jord\u00e2nia por US$ 3,4 milh\u00f5es ao m\u00eas. &quot;Por tr\u00e1s das pechinchas do Wal-Mart est\u00e3o as mercadorias baratas fabricadas por milhares de trabalhadores mantidos em condi\u00e7\u00f5es de for\u00e7ada servid\u00e3o, obrigados a trabalhar cem horas por semana enquanto se despoja pelo menos a metade dos sal\u00e1rios que lhes correspondem legalmente&quot;, denuncia o relat\u00f3rio. &quot;O uso de m\u00e3o-de-obra escravizada na Jord\u00e2nia se complementa com os tecidos baratos da China. Este \u00e9 o segredo dos baixos pre\u00e7os da rede Wal-Mart&quot;, ressalta o informe.<\/p>\n<p>Beth Keck, porta-voz da Wal-Mart, disse \u00e0 IPS que a empresa investiga as acusa\u00e7\u00f5es e que se ficar provado que seus fornecedores realizam essas pr\u00e1ticas ir\u00e1 cortar rela\u00e7\u00f5es comerciais com eles. &quot;Quando sabemos de assuntos que envolvem nossos fornecedores somos ativos e trabalhamos com eles para ver os progressos obtidos&quot;, acrescentou. A IPS contatou encarregados de imprensa da Target e da Kohl?s, duas empresas mencionadas no documento, mas n\u00e3o estavam dispon\u00edveis para dar declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A Jord\u00e2nia, pequeno Estado de 5,7 milh\u00f5es de habitantes e governado pela dinastia hachemita, apoiada pelos Estados Unidos, se integrou \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio em abril de 2000. Como muitos outros pa\u00edses em desenvolvimento, antes de concretizar sua ades\u00e3o teve de aprovar leis para refor\u00e7ar a prote\u00e7\u00e3o dos direitos de propriedade intelectual e marcas registradas, demanda-chave dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia, que procuram maximizar os benef\u00edcios de suas corpora\u00e7\u00f5es internas. Entretanto, a Jord\u00e2nia n\u00e3o teve de demonstrar maiores prote\u00e7\u00f5es aos direitos dos trabalhadores nem seu compromisso para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>Organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil lamentam que os tratados de livre com\u00e9rcio no contexto da OMC ou em acordos bilaterais tendam a prejudicar o meio ambiente, os direitos trabalhistas e as condi\u00e7\u00f5es sociais, enquanto estimulam a renda das corpora\u00e7\u00f5es e de seus s\u00f3cios locais nos pa\u00edses do Sul. Se o modelo jordaniano for repetido em semelhantes tratados comerciais, poder\u00e1 desestabilizar ainda mais o Oriente M\u00e9dio, onde os jovens da regi\u00e3o lan\u00e7am fa\u00edscas de raiva e frustra\u00e7\u00e3o pelo apoio dos Estados Unidos a ditadores e oligarcas governantes, bem com a Israel.<\/p>\n<p>O Acordo de Livre Com\u00e9rcio Estados Unidos-Jord\u00e2nia entrou em vigor em dezembro de 2001, convertendo a Jord\u00e2nia no quarto pa\u00eds a ter um acordo desse tipo com Washington. Al\u00e9m da Jord\u00e2nia no Oriente M\u00e9dio, segundo o site do representante de Com\u00e9rcio norte-americano, agora os Estados Unidos t\u00eam tratados com Israel e Marrocos. Um acordo com o pequeno, mas rico, Estado de Bahrein entrar\u00e1 em vigor ainda este ano, enquanto um outro com Om\u00e3 foi conclu\u00eddo em setembro de 2005. E atualmente est\u00e1 em negocia\u00e7\u00e3o um com os Emirados \u00c1rabes Unidos. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Washington, 09\/05\/2006 &ndash; Grandes empresas dos Estados Unidos, como Wal-Mart, Gloria Vanderbilt, Target, Kohl,Victoria&#039;s Secret e L.L. 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