{"id":17606,"date":"2014-06-20T16:15:54","date_gmt":"2014-06-20T16:15:54","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=115161"},"modified":"2014-06-20T16:15:54","modified_gmt":"2014-06-20T16:15:54","slug":"fistula-obstetrica-persegue-mulheres-paquistanesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/06\/ultimas-noticias\/fistula-obstetrica-persegue-mulheres-paquistanesas\/","title":{"rendered":"F\u00edstula obst\u00e9trica persegue mulheres paquistanesas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_115163\" style=\"width: 575px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/1142.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-115163\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/06\/1142.jpg\" alt=\"1142 F\u00edstula obst\u00e9trica persegue mulheres paquistanesas\" width=\"565\" height=\"472\" title=\"F\u00edstula obst\u00e9trica persegue mulheres paquistanesas\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Naz Bibi espera a cirurgia que vai curar sua f\u00edstula obst\u00e9trica no Hospital para Mulheres Koohi Goth, no Paquist\u00e3o. Foto: Zofeen Ebrahim\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Karachi, Paquist\u00e3o, 20\/6\/2014 \u2013 Mohammad Lalu, de 50 anos, procedente da remota aldeia de Dera Bugti, na prov\u00edncia do Balochist\u00e3o, no Paquist\u00e3o, que trabalha em uma pedreira, h\u00e1 30 anos procura um lugar onde curar sua mulher, Naz Bibi, de uma f\u00edstula obst\u00e9trica. Sentada ereta sobre um len\u00e7ol de pl\u00e1stico que cobre uma cama do hospital, Bibi contou \u00e0 IPS que \u201cviajamos dois dias sem descanso para chegarmos aqui e gastamos 12 mil r\u00fapias (US$ 120) s\u00f3 em \u00f4nibus\u201d. \u00c9 uma quantia enorme para uma fam\u00edlia com recursos extremamente modestos em um pa\u00eds onde a renda m\u00e9dia \u00e9 inferior a US$ 1,2 mil por ano.<\/p>\n<p>Mas para Lalu e sua mulher vale a pena o gasto se Bibi puder ser curada do terr\u00edvel mal que a afeta. A f\u00edstula obst\u00e9trica \u00e9 um problema quase inexistente nos pa\u00edses de renda m\u00e9dia e alta, mas \u00e9 comum em muitos lugares da \u00c1frica e \u00c1sia. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) estima que quase tr\u00eas milh\u00f5es de mulheres a sofrem a cada ano no mundo. N\u00e3o h\u00e1 dados oficiais, mas os especialistas estimam que entre quatro mil e cinco mil mulheres t\u00eam esse problema no Paquist\u00e3o.<\/p>\n<p>A f\u00edstula aparece ap\u00f3s um trabalho de parto prolongado, quando a cabe\u00e7a do beb\u00ea pressiona o canal de parto e dilacera as paredes do reto e da bexiga, o que gera incontin\u00eancia urin\u00e1ria e fecal. Os m\u00e9dicos explicam que as jovens, cujos corpos n\u00e3o alcan\u00e7aram a maturidade suficiente para suportar o trabalho de parto s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis, bem como as que n\u00e3o est\u00e3o bem alimentadas ou vivem longe de um centro de sa\u00fade equipado para atend\u00ea-las.<\/p>\n<p>Esse problema de sa\u00fade faz com que as mulheres percam o controle do esf\u00edncter, acarretando enorme estigma devido ao permanente odor de mat\u00e9ria fecal que emana de seus corpos, que as marginaliza de suas comunidades e fam\u00edlias e as obriga a sofrer em sil\u00eancio. Isso \u00e9 especialmente traum\u00e1tico para as m\u00e3es jovens que acabam passando a melhor parte de suas vidas com pouco ou nenhum contato com o mundo exterior.<\/p>\n<p>Lalu contou \u00e0 IPS que os problemas de Bibi come\u00e7aram pouco depois de dar \u00e0 luz um beb\u00ea sem vida na adolesc\u00eancia, quando estava casada com seu primeiro marido. \u201cSou seu segundo esposo. Seus pais a casaram comigo depois que o primeiro a abandonou, mas n\u00e3o revelaram que sofria desse problema espantoso\u201d, afirmou. Ao contr\u00e1rio de muitos homens, Lalu n\u00e3o a abandonou, e se esfor\u00e7ou para encontrar o tratamento necess\u00e1rio. N\u00e3o foi f\u00e1cil, pois a f\u00edstula obst\u00e9trica s\u00f3 \u00e9 tratada mediante cirurgia de reconstru\u00e7\u00e3o, cujo custo \u00e9 proibitivo para milhares de mulheres.<\/p>\n<p>Koohi Goth \u00e9 um dos 12 centros criados no contexto do Projeto F\u00edstula, do Fundo de Popula\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (UNFPA), que trata o problema gratuitamente. Ap\u00f3s oito anos, e com a colabora\u00e7\u00e3o do F\u00f3rum Nacional do Paquist\u00e3o para a Sa\u00fade das Mulheres (PNFWH), foram capacitados 38 m\u00e9dicos para realizar a interven\u00e7\u00e3o cir\u00fargica. \u00c9 um n\u00famero \u00ednfimo comparado com a dimens\u00e3o da crise que atravessa a sa\u00fade materna nesse pa\u00eds, lamentam os especialistas.<\/p>\n<p>Segundo a \u00faltima pesquisa de Demografia e Sa\u00fade, 276 em cada cem mil mulheres morrem durante o parto nesse pa\u00eds de 183 milh\u00f5es de habitantes. \u201cTodas essas mortes s\u00e3o 100% evit\u00e1veis se pudermos oferecer atendimento de qualidade e deter o casamento infantil\u201d, argumentou \u00e0 IPS Sajjad Ahmed, diretor do Projeto F\u00edstula. Ele afirmou que, se se conseguir atrasar a idade com a qual as mulheres engravidam pela primeira vez, ser\u00e1 um enorme avan\u00e7o para evitar problemas de sa\u00fade como a f\u00edstula obst\u00e9trica.<\/p>\n<p>Segundo o UNFPA, \u201ctanto por raz\u00f5es fisiol\u00f3gicas como sociais, as m\u00e3es entre 15 e 19 anos t\u00eam o dobro de probabilidades do que as da faixa et\u00e1ria dos 20 anos de morrer durante o parto. O trabalho de parto obstru\u00eddo \u00e9 especialmente comum entre as que parem pela primeira vez sem ter alcan\u00e7ado a maturidade\u201d. Mas ser\u00e1 muito dif\u00edcil mudar essa mentalidade que n\u00e3o v\u00ea nada de errado no casamento infantil, especialmente nas zonas rurais do Paquist\u00e3o.<\/p>\n<p>Shahbano, de 13 anos, da aldeia de Sanghar, na prov\u00edncia de Sindh, ocupa a cama ao lado da de Bibi. Ela contou \u00e0 IPS que a casaram aos 11 anos e sofreu f\u00edstula obst\u00e9trica h\u00e1 tr\u00eas semanas, ap\u00f3s seu primeiro parto, que foi prolongado. Felizmente, ela e o beb\u00ea sobreviveram ao calv\u00e1rio e ela espera que tudo corra bem na cirurgia para n\u00e3o sofrer incontin\u00eancia para o resto de sua vida. \u201cEm nossa cultura, quando a menina menstrua pela primeira vez, seus pais s\u00e3o obrigados a cas\u00e1-la\u201d, explicou \u00e0 IPS o marido de Shahbano, Abid Hussain.<\/p>\n<p>Nem ele nem sua mulher adolescente sabiam que em maio a assembl\u00e9ia provincial de Sindh aprovou a Lei para Deter o Casamento Infantil, que pro\u00edbe o matrim\u00f4nio de menores de 18 anos. A infra\u00e7\u00e3o \u00e0 lei \u00e9 punida com tr\u00eas anos de pris\u00e3o ou multa de US$ 450. Em 1929, a idade legal para casar era de 14 anos, e em 1965 subiu para 16. Atualmente, Sindh \u00e9 a \u00fanica prov\u00edncia paquistanesa que estabelece os 18 anos como idade m\u00ednima para se casar, o que gerou forte oposi\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p>Maulana Muhammad Jan Sherani, assessor parlamentar e presidente do Conselho de Ideologia Isl\u00e2mica, declarou que \u201ch\u00e1 pessoas que querem agradar a comunidade internacional indo contra as pr\u00e1ticas e os preceitos isl\u00e2micos\u201d. Para ele, \u201cesse tipo de coment\u00e1rio \u00e9 obst\u00e1culo em nossa luta contra o casamento infantil e a gravidez precoce\u201d.<\/p>\n<p>Se pudesse dar um conselho a meninas como Shahbano lhes diria que eduquem seus filhos, e especialmente suas filhas, pontuou Ahmed. Para ele, \u201cdemorar\u00e1 uma gera\u00e7\u00e3o para reverter essa situa\u00e7\u00e3o, mas a educa\u00e7\u00e3o automaticamente produzir\u00e1 uma mudan\u00e7a cultural capaz de retardar os casamentos. \u00c9 a \u00fanica forma que vejo para erradicar esse problema\u201d.<\/p>\n<p>Atualmente, esse pa\u00eds tem capacidade para atender apenas dois mil casos de f\u00edstula obst\u00e9trica, mas os m\u00e9dicos acabam operando somente entre 500 e 600 mulheres por ano. A baixa quantidade de interven\u00e7\u00f5es, segundo Ahmed, ocorre porque as pessoas n\u00e3o sabem que podem se tratar e n\u00e3o buscam ajuda. Muitas mulheres vivem em zonas rurais sem televis\u00e3o, nem r\u00e1dio, nem telefone celular, o que dificulta as possibilidades de conscientizar sobre o problema.<\/p>\n<p>Para atender a essa dificuldade, os hospitais criaram as \u201ctrabalhadoras da sa\u00fade\u201d, mulheres que v\u00e3o de casa em casa nas zonas rurais oferecendo informa\u00e7\u00e3o sobre direitos e sa\u00fade sexual e reprodutiva. \u201cTemos uma enorme brigada de quase cem mil trabalhadoras da sa\u00fade\u201d, contou Ahmed. Elas s\u00f3 cobrem 60% do pa\u00eds, mas funcionam como ponte entre as popula\u00e7\u00f5es rurais e os provedores de sa\u00fade nas cidades. Com esse esfor\u00e7o sustentado, talvez algum dia no Paquist\u00e3o problemas como a f\u00edstula obst\u00e9trica sejam apenas uma lembran\u00e7a ruim. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Karachi, Paquist&atilde;o, 20\/6\/2014 &ndash; Mohammad Lalu, de 50 anos, procedente da remota aldeia de Dera Bugti, na prov&iacute;ncia do Balochist&atilde;o, no Paquist&atilde;o, que trabalha em uma pedreira, h&aacute; 30 anos procura um lugar onde curar sua mulher, Naz Bibi, de uma f&iacute;stula obst&eacute;trica. 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