{"id":17660,"date":"2014-07-03T13:29:59","date_gmt":"2014-07-03T13:29:59","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=116002"},"modified":"2014-07-03T13:29:59","modified_gmt":"2014-07-03T13:29:59","slug":"inundacoes-levam-historias-e-sonhos-no-paraguai","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/07\/ultimas-noticias\/inundacoes-levam-historias-e-sonhos-no-paraguai\/","title":{"rendered":"Inunda\u00e7\u00f5es levam hist\u00f3rias e sonhos no Paraguai"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_116004\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Paraguay-chica-2-629x420.jpg\"><img class=\"wp-image-116004\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/Paraguay-chica-2-629x420.jpg\" alt=\"Paraguay chica 2 629x420 Inunda\u00e7\u00f5es levam hist\u00f3rias e sonhos no Paraguai\" width=\"529\" height=\"353\" title=\"Inunda\u00e7\u00f5es levam hist\u00f3rias e sonhos no Paraguai\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Em meio ao desespero, v\u00edtimas das inunda\u00e7\u00f5es em Assun\u00e7\u00e3o se instalam em espa\u00e7os p\u00fablicos. Alguns levantaram um improvisado acampamento diante da sede do Congresso. Foto: Natalia Ruiz Diaz\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assun\u00e7\u00e3o, Paraguai, 3\/7\/2014 \u2013 As mais impactantes inunda\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria do Paraguai deixaram a conta de mais de 300 mil evacuados. Assun\u00e7\u00e3o, a \u00e1rea mais afetada, e outras zonas urbanas e rurais ficaram sob as \u00e1guas dos rio Paraguai e Paran\u00e1, em uma antecipa\u00e7\u00e3o do que poder\u00e1 ocorrer quando come\u00e7ar a atuar o fen\u00f4meno El Ni\u00f1o.<\/p>\n<p>\u201cPerdi tudo, tinha minha pequena oficina e nada restou, s\u00f3 salvei minhas ferramentas\u201d, contou \u00e0 IPS uma das v\u00edtimas, Antonio Esteban Michal, enquanto procurava sintonizar um televisor junto \u00e0s quatro paredes de madeira e zinco que levantou como abrigo para sua fam\u00edlia, em frente ao Congresso, ap\u00f3s conseguir sair do bairro Chacarita. \u201cO principal problema \u00e9 a \u00e1gua para beber, cozinhar e tomar banho\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>E o pior \u00e9 que as \u00e1guas do rio Paraguai poder\u00e3o subir de novo em breve, ap\u00f3s atingirem seu n\u00edvel hist\u00f3rico de 7,19 metros no porto de Assun\u00e7\u00e3o, o que empurrou as \u00e1guas para dentro da cidade ap\u00f3s alagarem completamente os bairros baixos das margens, onde os botes eram a \u00fanica forma poss\u00edvel de transporte.<\/p>\n<p>As intensas precipita\u00e7\u00f5es n\u00e3o inundaram apenas o Paraguai, mas tamb\u00e9m regi\u00f5es da bacia do Paran\u00e1 na Argentina e no Brasil. Na Argentina os evacuados chegam a pelo menos 12 mil, enquanto no Brasil s\u00e3o em torno de 50 mil, e as autoridades dos dois pa\u00edses alertam que a situa\u00e7\u00e3o vai piorar porque s\u00e3o previstas mais chuvas para breve.<\/p>\n<p>No Paraguai os dados oficiais, inferiores aos de organiza\u00e7\u00f5es locais e internacionais, situam em mais de 15 mil fam\u00edlias os deslocados pelas inunda\u00e7\u00f5es. Nesta capital de 514 mil habitantes, mais de 60 mil pessoas tiveram de abandonar suas casas e se instalar em acampamentos, pr\u00e9dios das for\u00e7as militares ou em espa\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Alejandro Max Pastene, do departamento de Climatologia da Dire\u00e7\u00e3o Nacional de Meteorologia de Hidr\u00e1ulica, disse \u00e0 IPS que junho, quando come\u00e7aram as chuvas intensas, julho e agosto s\u00e3o habitualmente meses secos no pa\u00eds. Por isso, quando chegar a \u00e9poca normal de chuvas, entre outubro e mar\u00e7o, \u201cn\u00e3o ter\u00e1 dado para baixar o n\u00edvel do rio\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, recordou que, este ano, \u201cas chuvas a partir de outubro ser\u00e3o especialmente intensas devido ao fen\u00f4meno meteorol\u00f3gico El Ni\u00f1o\/Oscila\u00e7\u00e3o do Sul\u201d, que ocorre quando aumenta a temperatura superficial da \u00e1gua nas \u00e1reas oriental e central do Pac\u00edfico equatorial. Pastene explicou que o n\u00edvel cr\u00edtico de inunda\u00e7\u00e3o do rio Paraguai \u00e9 de 5,5 metros, quase dois a menos do que sua atual cota de 7,19 metros. \u201cEm apenas um dia, 27 de julho, choveu o equivalente a um m\u00eas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>As pessoas que moravam em bairros prec\u00e1rios, como Ba\u00f1ado Sur, Tacumb\u00fa e Chacarita, tiveram de abandon\u00e1-los praticamente sem nenhuma ajuda. Nos improvisados abrigos em \u00e1reas publicas, as v\u00edtimas sobrevivem amontoadas entre constru\u00e7\u00f5es levantadas com madeira, pl\u00e1sticos e folhas de zinco. A \u00e1gua pot\u00e1vel e os servi\u00e7os sanit\u00e1rios s\u00e3o sua repetida maior car\u00eancia.<\/p>\n<p>O diretor de Opera\u00e7\u00f5es da Secretaria de Emerg\u00eancia Nacional (SEM), Aldo Zald\u00edvar, reconheceu \u00e0 IPS que a situa\u00e7\u00e3o ultrapassou todas as previs\u00f5es e que a ajuda n\u00e3o chegou com a rapidez exigida pela situa\u00e7\u00e3o. Garantiu que o \u00f3rg\u00e3o forneceu v\u00edveres, materiais e log\u00edstica para cerca de 75 mil pessoas em Assun\u00e7\u00e3o, e para mais de 150 mil em \u00e1reas afetadas no resto do pa\u00eds.<\/p>\n<p>As mais prejudicadas ficam no departamento de Presidente Hayes, na regi\u00e3o de El Chaco (ocidente), no departamento de \u00d1eembuc\u00fa (sudoeste), e no de Alto Paran\u00e1 (norte). \u201cTemos ordem para fazer todo o que for poss\u00edvel para atender a popula\u00e7\u00e3o. E estamos fazendo, mas \u00e0s vezes n\u00e3o chegamos no tempo que as pessoas esperam\u201d, argumentou Zald\u00edvar sobre a situa\u00e7\u00e3o que se vive desde junho.<\/p>\n<p>Mas multiplicam-se as cr\u00edticas sobre a lenta e insuficiente rea\u00e7\u00e3o das autoridades diante da maior cheia em 30 anos, especialmente as procedentes das organiza\u00e7\u00f5es sociais que operam nas \u00e1reas afetadas. O governo do direitista Horacio Cartes \u00e9 especialmente criticado pela falta de apoio aos bairros da zona baixa, segundo denunciaram inicialmente moradores e ativistas. Depois, come\u00e7aram a circular imagens mostrando representantes do partido governante fazendo proselitismo com a assist\u00eancia estatal \u00e0s v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Parte dessas defici\u00eancias foram amenizadas por campanhas solid\u00e1rias promovidas por organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais, clubes e grupos de jovens e de moradores, que arrecadaram dinheiro, roupas, comida, materiais, para o traslado e reassentamento das fam\u00edlias que devem deixar suas casas. Atualmente h\u00e1 86 abrigos abertos pelas autoridades para receber as fam\u00edlias que precisaram abandonar suas casas em Assun\u00e7\u00e3o. Apenas tr\u00eas instala\u00e7\u00f5es militares recebem mais de duas mil fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o nos abrigos n\u00e3o \u00e9 melhor. O principal problema \u00e9 o relacionado com os servi\u00e7os sanit\u00e1rios: j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 disponibilidade de banheiros qu\u00edmicos. A SEM encomendou a fabrica\u00e7\u00e3o de banheiros e duchas em cont\u00eaineres, esperando amenizar o d\u00e9ficit dessas instala\u00e7\u00f5es nos acampamentos.<\/p>\n<p>Miguel Barrios \u00e9 ferreiro, assim como Esteban, e n\u00e3o p\u00f4de resgatar muita coisa quando a \u00e1gua chegou \u00e0 casa da sua fam\u00edlia. Considera incr\u00edvel que Chacarita continue sofrendo inunda\u00e7\u00f5es apesar das obras da avenida Costeira, que deveriam funcionar como muro de conten\u00e7\u00e3o do rio. \u201cO bairro ficou na bacia formada pela avenida e o muro de Assun\u00e7\u00e3o\u201d, explicou Juan Ram\u00f3n Mart\u00ednez, outro morador de Chacarita, que viveu a grande inunda\u00e7\u00e3o de 1983, a maior registrada at\u00e9 ent\u00e3o em Assun\u00e7\u00e3o, e segundo disse, a de agora \u00e9 muito pior.<\/p>\n<p>Em todo o acampamento diante da sede do Poder Legislativo h\u00e1 gente trabalhando com p\u00e1s, cortando madeira, limpando telhados, inclusive mulheres e crian\u00e7as. Por todo lado se v\u00ea roupa estendida ao sol.<\/p>\n<p>Em outro ponto da cidade, n\u00e3o muito longe do microcentro onde ficam os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos e o centro hist\u00f3rico, no bairro Yta Pyta Punta, Myriam Ag\u00fcero organiza sua partida com o marido e seus quatro filhos. \u201cA \u00e1gua chegou, e n\u00e3o h\u00e1 outra solu\u00e7\u00e3o, nem mesmo no segundo andar de nossa casa podemos ficar\u201d, contou \u00e0 IPS esta mulher de 33 anos, dirigente do Sindicato de Trabalhadoras Dom\u00e9sticas do Paraguai.<\/p>\n<p>Ag\u00fcero nasceu na zona baixa de Assun\u00e7\u00e3o, conhecida como cintur\u00e3o de bairros pobres em terras inund\u00e1veis ou vizinhas ao curso do rio Paraguai, onde muitas moradoras se dedicam ao trabalho dom\u00e9stico. \u201cS\u00f3 tenho vontade de chorar, mas vou aguentando, tenho de ser forte e continuar trabalhando porque esta cheia deixou meu marido sem trabalho\u201d, disse, com os olhos umedecidos.<\/p>\n<p>Teodosina Duarte, outra v\u00edtima da enchente, est\u00e1 resignada. \u201cDizem que vamos ficar por aqui muitos meses\u201d. As previs\u00f5es s\u00e3o de que as \u00e1guas do rio n\u00e3o baixar\u00e3o totalmente at\u00e9 2015. A ideia do que encontrar\u00e1 quando finalmente voltar para sua casa e seu bairro angustia Teodosina. Ela aperta as m\u00e3os contra o peito e diz em guarani, a l\u00edngua materna dos paraguaios: \u201c\u00d1andejara tuicha ohecha kua\u00e1 va\u2019era \u00f1andeve\u201d (Deus \u00e9 grande, vai nos ajudar). Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Assun&ccedil;&atilde;o, Paraguai, 3\/7\/2014 &ndash; As mais impactantes inunda&ccedil;&otilde;es da hist&oacute;ria do Paraguai deixaram a conta de mais de 300 mil evacuados. 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