{"id":17665,"date":"2014-07-07T13:39:43","date_gmt":"2014-07-07T13:39:43","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=116242"},"modified":"2014-07-07T13:39:43","modified_gmt":"2014-07-07T13:39:43","slug":"escravas-do-templo-lutam-para-se-libertar-na-india","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/07\/ultimas-noticias\/escravas-do-templo-lutam-para-se-libertar-na-india\/","title":{"rendered":"\u201cEscravas do templo\u201d lutam para se libertar na \u00cdndia"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_116244\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/india2.jpg\"><img class=\"wp-image-116244\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/india2.jpg\" alt=\"india2 \u201cEscravas do templo\u201d lutam para se libertar na \u00cdndia\" width=\"529\" height=\"397\" title=\"\u201cEscravas do templo\u201d lutam para se libertar na \u00cdndia\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Mulheres joginis dan\u00e7am do lado de fora de um templo durante um festival religioso na \u00cdndia. Foto: Stella Paul\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nizamabad, \u00cdndia, 7\/7\/2014 \u2013 \u201cEstou enjoada. O tabaco me d\u00e1 dor de cabe\u00e7a e n\u00e1useas\u201d, disse Nalluri Poshani, de apenas 32 anos mas que aparenta ser bem mais velha. A IPS a entrevistou enquanto fabricava, com destreza, um \u201cbeedis\u201d, cigarro local, ajoelhada no ch\u00e3o junto a uma pilha de tabaco e folhas.<\/p>\n<p>Poshani n\u00e3o \u00e9 uma mulher comum, \u00e9 uma jogini, que pode ser traduzido como \u201cescrava do templo\u201d. \u00c9 uma das milhares de jovens dalits (a mais baixa das castas hindu). Desde muito pequenas s\u00e3o dedicadas \u00e0 deusa do povo Yellamma, porque acredita-se que sua presen\u00e7a no templo afastar\u00e1 os maus esp\u00edritos e trar\u00e1 prosperidade a todos.<\/p>\n<p>Atualmente, n\u00e3o pode fazer outra coisa que n\u00e3o seja cigarros, que vende a US$ 2 cada mil unidades, o que lhe rende cerca de US$ 36 por m\u00eas. \u201cTomara pudesse ter outro trabalho\u201d, afirmou esta mulher que, com apenas cinco anos, protagonizou o ritual de dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Primeiro a banharam, a vestiram de noiva e a levaram ao templo onde um sacerdote colocou um \u201cthali\u201d \u2013 cord\u00e3o sagrado que simboliza o casamento \u2013 em volta de seu pesco\u00e7o. Depois foi levada para fora onde havia uma multid\u00e3o reunida que a examinou e a proclamou nova jogini.<\/p>\n<p>Durante v\u00e1rios anos viveu e trabalhou no tempo, mas, ao chegar \u00e0 puberdade, os homens do povoado, em geral de castas altas que em outro contexto a considerariam \u201cintoc\u00e1vel\u201d, como a todos os dalits, a visitavam \u00e0 noite e mantinham rela\u00e7\u00f5es sexuais com ela. Poshani nunca foi uma trabalhadora sexual porque nunca cobrou ou lhe pagaram para manter essas rela\u00e7\u00f5es. Mas estava presa ao templo, mediante rituais e \u00e0 firme cren\u00e7a dos moradores locais em seus poderes sobrenaturais.<\/p>\n<p>S\u00f3 a consideravam mais do que uma prostituta durante os festivais religiosos, quando dan\u00e7ava em transe funcionando como m\u00e9dium por meio do qual se expressava a deusa Yellamma. Fora isso, a maior parte de suas quase tr\u00eas d\u00e9cadas de servid\u00e3o foi cheia de viol\u00eancia e falta de respeito. Atualmente, h\u00e1 uma forte campanha contra as joginis no povoado de Vellpoor, na regi\u00e3o de Nizamabad, sul do Estado de Telangana, para proibir esta pr\u00e1tica centen\u00e1ria.<\/p>\n<p>Mas as mulheres como Poshani ainda n\u00e3o t\u00eam muito para comemorar. Embora esteja contente por n\u00e3o ter mais grilh\u00f5es sexuais, ela n\u00e3o tem como se manter sem casa e terras, e com d\u00edvida de 200 mil r\u00fapias (US$ 3 mil) que pediu emprestadas a um agiota. Visivelmente desnutrida, Poshani representa a situa\u00e7\u00e3o de muitas mulheres joginis adultas que se encontram exploradas sexualmente, na pobreza, doentes e sozinhas.<\/p>\n<p>Segundo dados oficiais, h\u00e1 cerca de 30 mil joginis, tamb\u00e9m chamadas devdasis ou matammas, em Telangana. Outras 20 mil vivem no vizinho Estado de Andhra Pradesh. Nos dois Estados, 90% das joginis s\u00e3o dalits. A prostitui\u00e7\u00e3o nos templos est\u00e1 proibida em Andhra Pradesh desde 1988.<\/p>\n<p>A Lei para a Aboli\u00e7\u00e3o das Jogini castiga a inicia\u00e7\u00e3o de uma mulher no sistema com penas de dois a tr\u00eas anos de pris\u00e3o e multa de tr\u00eas mil r\u00fapias (US$ 33). Mas \u00e9 um castigo muito suave para um crime t\u00e3o atroz, disse Grace Nirmala, ativista de Hyderabad, capital compartilhada pelos dois Estados.<\/p>\n<p>\u201cAs joginis vivem afastadas de suas fam\u00edlias e n\u00e3o t\u00eam direitos\u201d, explicou Nirmala, que dirige a organiza\u00e7\u00e3o Ahsray (abrigo) e h\u00e1 20 anos se dedica a resgatar e reabilitar estas mulheres. \u201cSuas vidas ficam totalmente arruinada e o castigo s\u00e3o dois anos de pris\u00e3o ou multa de algumas poucas r\u00fapias\u201d, destacou. A maioria dos agentes nem mesmo conhece a lei, o que dificulta a aboli\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica, acrescentou.<\/p>\n<p>As supersti\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m contribuem para manter a tradi\u00e7\u00e3o, pois muitos moradores do lugar acreditam que as joginis t\u00eam poderes divinos. \u201cDeitar com uma jogini \u00e9 uma forma de invocar o poder sobrenatural e agradar a deusa\u201d, disse Nirmala. \u201cEm muitas fam\u00edlias, quando h\u00e1 algo que os afeta negativamente, a mulher pede ao seu marido para manter rela\u00e7\u00f5es com a jogini que o problema acaba\u201d, acrescentou. Mas h\u00e1 quem atribua esta pr\u00e1tica ao arraigado sistema de castas.<\/p>\n<p>\u201cO sistema jogini n\u00e3o viola apenas os direitos das mulheres, mas tamb\u00e9m os direitos humanos porque sempre \u00e9 uma mulher dalit que se converte em jogini, bem como sempre s\u00e3o das castas dominantes os servidos por elas\u201d, afirmou Jytoti Neelaiah, defensora dos direitos dos dalits em Hyderabad. Todo o sistema \u00e9 \u201cum jogo de poder\u201d no qual os grupos sociais dominantes oprimem os mais fracos e marginalizados da sociedade, acrescentou.<\/p>\n<p>A ativista Kolamaddi Parijatam questiona a explica\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es, e inclusive de acad\u00eamicos, sobre esta pr\u00e1tica ter profundas ra\u00edzes culturais e que deve ser preservada. A comunidade dalit constitui 17% da popula\u00e7\u00e3o do novo Estado de Telangana, por isso muitas ativistas acreditam que Vellpoor \u00e9 um bom lugar para encabe\u00e7ar o movimento a favor de uma reforma legal. Parijatam h\u00e1 seis anos mobiliza as mulheres rurais contra este sistema. Trabalhou inclusive em Vellpoor, onde h\u00e1 cerca de 30 joginis.<\/p>\n<p>Descontentes com a incapacidade das autoridades para frear esta pr\u00e1tica, as mulheres se converteram em vigilantes, numa tentativa de resgatar suas cong\u00eaneres durante a cerim\u00f4nia de dedica\u00e7\u00e3o. A pol\u00edcia aos poucos toma consci\u00eancia da lei gra\u00e7as \u00e0 press\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es civis. Mas o processo \u00e9 muito lento e a maior responsabilidade recai sobre as ativistas que denunciam as viola\u00e7\u00f5es e asseguram que os respons\u00e1veis sejam detidos.<\/p>\n<p>As ativistas pedem que o governo destine recursos ao Plano para o Componente Especial \u2013 que oferece apoio econ\u00f4mico e social \u00e0s comunidades marginalizadas \u2013 para a reabilita\u00e7\u00e3o das joginis, que permanecem exclu\u00eddas dos programas assistenciais. Neelaiah insistiu que os filhos e as filhas das joginis correm o risco de sofrerem abusos verbais e ass\u00e9dio se for conhecida a identidade de suas m\u00e3es.<\/p>\n<p>As meninas est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o particularmente vulner\u00e1vel porque podem ser v\u00edtimas de tr\u00e1fico ou for\u00e7adas a substituir suas m\u00e3es no templo. Tanto Neelaiah como Nirmala trabalham para que filhos e filhas das joginis frequentem a escola, o que, segundo elas, \u00e9 a melhor forma de proteg\u00ea-los. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Nizamabad, &Iacute;ndia, 7\/7\/2014 &ndash; &ldquo;Estou enjoada. O tabaco me d&aacute; dor de cabe&ccedil;a e n&aacute;useas&rdquo;, disse Nalluri Poshani, de apenas 32 anos mas que aparenta ser bem mais velha. A IPS a entrevistou enquanto fabricava, com destreza, um &ldquo;beedis&rdquo;, cigarro local, ajoelhada no ch&atilde;o junto a uma pilha de tabaco e folhas. 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