{"id":17689,"date":"2014-07-14T15:08:14","date_gmt":"2014-07-14T15:08:14","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=116666"},"modified":"2014-07-14T15:08:14","modified_gmt":"2014-07-14T15:08:14","slug":"macau-coloca-seu-futuro-em-jogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/07\/ultimas-noticias\/macau-coloca-seu-futuro-em-jogo\/","title":{"rendered":"Macau coloca seu futuro em jogo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_116668\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/trabalhador.jpg\"><img class=\"wp-image-116668\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/trabalhador.jpg\" alt=\"trabalhador Macau coloca seu futuro em jogo\" width=\"529\" height=\"355\" title=\"Macau coloca seu futuro em jogo\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Trabalhador passa em frente ao cassino Lisbo, um dos maiores de Macau. Foto: Damon Garrett\/CC-BY-2.0<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Hong Kong, China, 14\/7\/2014 \u2013 O auge dos jogos de azar n\u00e3o para de gerar dinheiro em Macau: os ganhos derivados do setor dispararam para US$ 45 bilh\u00f5es no ano passado, com aumento de 18,6% em rela\u00e7\u00e3o a 2012. Foi o sexto ano consecutivo de ganhos sem precedentes no setor. Os cassinos da ex-col\u00f4nia portuguesa, devolvida \u00e0 China em 1999, agora ganham sete vezes mais do que os de Las Vegas, nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m empregam quase um quarto da for\u00e7a de trabalho, \u00e0 qual pagam entre 30% e 40% a mais do que os outros. E se forem somadas outras atividades relacionadas aos cassinos, como as vendas no varejo e a hospitalidade, cerca de metade da popula\u00e7\u00e3o que trabalha nesta cidade de 600 mil habitantes est\u00e1 vinculada \u00e0 ind\u00fastria do jogo.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 um desemprego invej\u00e1vel, de apenas 1,8%. Ent\u00e3o, por que n\u00e3o deixar que a bonan\u00e7a continue? A monoeconomia dos jogos de azar est\u00e1 criando em Macau uma gera\u00e7\u00e3o de empregados sumidos em tarefas t\u00e3o mon\u00f3tonas como fazer girar roletas, mas com poucas das habilidades exigidas na globalizada economia do conhecimento.<\/p>\n<p>Mas, como a economia e a for\u00e7a de trabalho dependem cada vez mais dos apostadores da China continental, h\u00e1 pouca press\u00e3o para uma mudan\u00e7a, situa\u00e7\u00e3o que pode se ajustar aos desejos de Pequim. N\u00e3o surpreende que o auge dos jogos de azar, que representam 50% do produto interno bruto de Macau, tamb\u00e9m tenha gerado um lado obscuro. Prostitui\u00e7\u00e3o, crime organizado e lavagem de dinheiro s\u00e3o realidades cotidianas.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o \u00f3bvias as m\u00faltiplas tens\u00f5es que agora afetam uma sociedade tradicional que tenta enfrentar um desenvolvimento urbano descontrolado, a perda de espa\u00e7os verdes, o aumento do v\u00edcio de jogar e a deteriora\u00e7\u00e3o geral da qualidade de vida. Para o habitante m\u00e9dio da cidade, os inconvenientes criados pelo auge da ind\u00fastria do azar passaram a superar suas vantagens.<\/p>\n<p>O transporte \u00e9 de m\u00e1 qualidade, o que piora a contamina\u00e7\u00e3o do ar causada apelos ve\u00edculos dos cassinos que levam e trazem 29 milh\u00f5es de visitantes que chegam \u00e0 cidade. Isto e a carestia dos bens de raiz s\u00e3o apenas uma mostra dos efeitos derivados do setor. As pequenas e m\u00e9dias empresas de Macau, que representam 95% de todos seus neg\u00f3cios, tamb\u00e9m sofrem as consequ\u00eancias, pagando aluguel elevado e perdendo tanto pessoal quanto clientes dos cassinos. A isto acrescenta-se a alta criminalidade em quase todas as \u00e1reas.<\/p>\n<p>Apesar das desvantagens, investidores e executivos dos cassinos locais, entre eles as grandes firmas norte-americanas do setor, veem possibilidades ilimitadas de maior crescimento e expans\u00e3o. Seu principal motivo de queixa, no entanto, \u00e9 a escassez de m\u00e3o de obra qualificada. Com a inaugura\u00e7\u00e3o programada de mais megacassinos at\u00e9 2016, Macau necessitar\u00e1 de pelo menos mais 75 mil trabalhadores em suas casas de jogos e hot\u00e9is, segundo funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>Como as pequenas e m\u00e9dias empresas da cidade j\u00e1 se esfor\u00e7am para competir com os cassinos, que pagam melhor por talento limitado, a cidade ter\u00e1 de importar n\u00e3o s\u00f3 trabalhadores para os cassinos, mas tamb\u00e9m profissionais de todo tipo. Mesmo assim, nem Macau nem o governo chin\u00eas parecem ter um plano para abordar o crescente d\u00e9ficit de m\u00e3o de obra na cidade, e tampouco h\u00e1 vontade de p\u00f4r fim ao que se converteu em um trem irreverente de crescimento irregular.<\/p>\n<p>E, pior, Macau est\u00e1 dando as costas para as pol\u00edticas destinadas a preparar suas futuras gera\u00e7\u00f5es para uma economia mais globalizada e pautada pelo conhecimento. Se continuar essa tend\u00eancia, corre o risco de se converter em uma sociedade de ignorantes, cujo futuro estaria privado de profissionais qualificados, porque sua for\u00e7a de trabalho \u00e9 atra\u00edda cada vez mais pelo dinheiro f\u00e1cil que ganha nos cassinos.<\/p>\n<p>Em curtos espa\u00e7os de tempo, novos informes d\u00e3o o alerta. Em dezembro de 2013, um estudo mostrava que quase metade das empresas ouvidas \u201cencontraram dificuldades para recrutar profissionais de tecnologia da informa\u00e7\u00e3o\u201d e previa que a escassez \u201cpode piorar mais\u201d.<\/p>\n<p>Em abril desse ano, um informe da ind\u00fastria citava a falta de profissionais cont\u00e1beis, com \u201cpoucos aumentos fracionados\u201d desde 2007. Outro se queixou da \u201cfalta de engenheiros\u201d, entre outros. Tudo isto aponta para uma sociedade em um ponto de inflex\u00e3o, que est\u00e1 hipotecando suas gera\u00e7\u00f5es futuras em troca de ganhos no curto prazo. Mesmo os parlamentares de Macau agora lamentam que o auge dos cassinos est\u00e1 construindo castelos no ar.<\/p>\n<p>No ano passado, o legislador Jos\u00e9 Coutinho disse \u00e0 imprensa: \u201cMacau \u00e9 uma total ilus\u00e3o de prosperidade, porque o que estamos construindo \u00e9 apenas cassinos, quartos e algumas lojas de marcas famosas\u201d. Ele e outros cr\u00edticos s\u00e3o minoria no corpo legislativo, onde 12 dos 33 membros s\u00e3o eleitos indiretamente por entidades da ind\u00fastria e outros sete s\u00e3o designados pelo chefe executivo de Macau, designado pelo governo central chin\u00eas.<\/p>\n<p>Embora os funcion\u00e1rios de Macau ocasionalmente deem declara\u00e7\u00f5es sobre a necessidade de reequilibrar a economia e apresentem v\u00e1rias propostas, at\u00e9 agora nenhuma teve um efeito transformador para a cidade. Uma das mais comentadas recomenda que Macau atraia mais \u201creuni\u00f5es, incentivos, confer\u00eancias e mostras\u201d da regi\u00e3o. Mas demora para decolar e depende desproporcionadamente do setor dos cassinos. Por exemplo, a maior mostra de com\u00e9rcio da cidade \u00e9 a Expo Mundial do Jogo da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Um plano para desenvolver a vizinha ilha de Hengqin como zona de livre com\u00e9rcio tamb\u00e9m far\u00e1 pouco para ajudar a maioria das pequenas empresas de Macau, devido \u00e0 sua \u00eanfase nos projetos de grande escala. Mas o principal obst\u00e1culo a um modelo econ\u00f4mico mais sustent\u00e1vel \u00e9 que Macau continua crescendo gra\u00e7as aos apostadores da China, cujos l\u00edderes ainda veem a cidade como importante centro para as classes m\u00e9dia e rica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>O resultado \u00e9 que ningu\u00e9m do governo sequer contempla a possibilidade de a economia chinesa parar, que os jogadores deixem de chegar e que o auge dos cassinos termine, embora a hist\u00f3ria j\u00e1 tenha mostrado que, quanto maior \u00e9 o <em>boom<\/em> de uma monoeconomia, maior \u00e9 seu potencial de cair estrepitosamente.<\/p>\n<p>Embora Pequim diga querer que Macau reequilibre sua economia, n\u00e3o surpreende que resista a impor medidas pol\u00edticas ou a oferecer incentivos par ajud\u00e1-la a se diversificar. \u00c9 por isso que, talvez, Macau esteja justamente onde Pequim a quer, bem como suas outras seis regi\u00f5es perif\u00e9ricas: sociedades cuja prosperidade depende cada vez mais da China continental e, portanto, menos dispostas a pedir democracia e maior autonomia. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* <strong><em>Martin Murphy <\/em><\/strong><em>\u00e9 ex-diplomata norte-americano. Esteve \u00e0 frente da Se\u00e7\u00e3o Pol\u00edtico-Econ\u00f4mica do Consulado dos Estados Unidos em Hong Kong e Macau entre 2009 e 2012. Pode ser lido em <\/em><em><a href=\"http:\/\/hongkongreporting.com\/\">http:\/\/hongkongreporting.com\/<\/a>.<\/em><em> A vers\u00e3o original deste artigo encontra-se no Foreign Policy In Focus.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Hong Kong, China, 14\/7\/2014 &ndash; O auge dos jogos de azar n&atilde;o para de gerar dinheiro em Macau: os ganhos derivados do setor dispararam para US$ 45 bilh&otilde;es no ano passado, com aumento de 18,6% em rela&ccedil;&atilde;o a 2012. Foi o sexto ano consecutivo de ganhos sem precedentes no setor. 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