{"id":17732,"date":"2014-07-28T13:07:32","date_gmt":"2014-07-28T13:07:32","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=117549"},"modified":"2014-07-28T13:07:32","modified_gmt":"2014-07-28T13:07:32","slug":"terramerica-o-duro-oficio-de-voltar-ao-campo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/07\/ultimas-noticias\/terramerica-o-duro-oficio-de-voltar-ao-campo\/","title":{"rendered":"Terram\u00e9rica \u2013 O duro of\u00edcio de voltar ao campo"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_117551\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/TA700_Cuba1.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-117551\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/TA700_Cuba1.jpg\" alt=\"TA700 Cuba1 Terram\u00e9rica   O duro of\u00edcio de voltar ao campo\" width=\"340\" height=\"227\" title=\"Terram\u00e9rica   O duro of\u00edcio de voltar ao campo\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Hortensia Mart\u00ednez, que decidiu se dedicar \u00e0 agricultura, junto com seu marido, Guillermo Garc\u00eda, na propriedade La China, em uma \u00e1rea suburbana de Havana, em Cuba, ap\u00f3s anos dedicada \u00e0 sua profiss\u00e3o de engenheira mec\u00e2nica. Foto: Jorge Luis Ba\u00f1os\/IPS<\/p><\/div>\n<p>Havana, Cuba, 28 de julho de 2014 (Terram\u00e9rica).- Casas distantes e pequenas planta\u00e7\u00f5es se misturam no caminho para a propriedade La China, na periferia da capital de Cuba. Ali trabalha Hortensia Mart\u00ednez, uma engenheira mec\u00e2nica que muitos chamam de louca por ter decidido se converter em camponesa. \u201cNossa hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 comum\u201d, disse ao Terram\u00e9rica esta mulher de 48 anos, na entrada da \u00e1rea de pouco mais de seis hectares, que foi entregue em maio de 2009 sob usufruto para seu marido, Guillermo Garc\u00eda, em Punta Brava, no munic\u00edpio de La Lisa, sub\u00farbio oeste de Havana.<\/p>\n<p>De um dos limites de La China, se v\u00ea terras ociosas at\u00e9 o horizonte. Segundo dados oficiais, em 2013 este pa\u00eds insular tinha 1.046.100 dos 6.342.400 hectares cultiv\u00e1veis nessa situa\u00e7\u00e3o. A falta de pessoas interessadas, com recursos e for\u00e7as para produzir mais alimentos, \u00e9 um dos obst\u00e1culos para o avan\u00e7o da reforma econ\u00f4mica iniciada em 2008 e que destaca o setor agropecu\u00e1rio em um pa\u00eds que necessita urgentemente aumentar a produ\u00e7\u00e3o e baratear os pre\u00e7os.<\/p>\n<p>Entre os fatores que atentam contra a evolu\u00e7\u00e3o agr\u00edcola h\u00e1 realidades das quais pouco se fala, como o abandono das \u00e1reas rurais h\u00e1 d\u00e9cadas, que esvaziou os campos cubanos. Dos 11,2 milh\u00f5es de habitantes, apenas 2,5 milh\u00f5es povoam as zonas rurais cubanas, segundo dados de 2013 fornecidos pelo estatal Escrit\u00f3rio Nacional de Estat\u00edstica e Informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Metade da popula\u00e7\u00e3o rural \u00e9 formada por mulheres, mas pela cultura machista n\u00e3o costumam trabalhar diretamente a terra. Para que isso mude, as autoridades refor\u00e7aram as estrat\u00e9gias para incorporar mais for\u00e7a feminina ao campo, embora o avan\u00e7o nessa dire\u00e7\u00e3o seja reconhecidamente lento. Em abril constava o registro de 65.993 mulheres associadas nas cooperativas agr\u00edcolas do pa\u00eds, contra 64.063 em fevereiro de 2011.<\/p>\n<p>Tanto em cidades como nos povoados, Cuba envelhece de maneira acelerada e irrevers\u00edvel. At\u00e9 2025, se prev\u00ea que as pessoas com 60 anos ou mais representar\u00e3o 25,9% da popula\u00e7\u00e3o total. \u201cLa China foi uma forma de voltar \u00e0s nossas origens\u201d, contou Mart\u00ednez que, como seu marido, descende de uma fam\u00edlia camponesa de Granma, 730 quil\u00f4metros a leste de Havana.<\/p>\n<p>Por d\u00e9cadas, as m\u00e3es e os pais agricultores colocaram orgulhosos nas paredes de suas casas os diplomas universit\u00e1rios de seus filhos, que tinham acesso gratuito e maci\u00e7o \u00e0 educa\u00e7\u00e3o com os planos implantados ap\u00f3s a revolu\u00e7\u00e3o de 1959. Essas gera\u00e7\u00f5es educadas emigraram para as cidades a fim de trabalhar em suas novas profiss\u00f5es.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, na d\u00e9cada de 1980 se pensou que era mais barato importar alimentos do que desenvolver a agricultura, gra\u00e7as ao com\u00e9rcio subsidiado com o bloco da hoje extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. O colapso deste bloco comunista, em 1989, afundou a economia cubana em uma crise que chega at\u00e9 aos dias de hoje. Um dos resultados da crise foi que os profissionais passaram a ganhar menos do que os produtores de bens.<\/p>\n<p>\u201cNos incorporamos ao trabalho agr\u00edcola para sustentar a fam\u00edlia\u201d, afirmou Mart\u00ednez ao explicar que na propriedade tamb\u00e9m trabalham seus sobrinhos e os de seu marido. \u201cAgora temos uma alimenta\u00e7\u00e3o mais sadia e melhor renda\u201d, acrescentou. Eles criam coelhos, carneiros, porcos e 18 esp\u00e9cies de aves. Tamb\u00e9m cultivam verduras, tub\u00e9rculos e frutas.<\/p>\n<p>Em La China h\u00e1 uma longa \u00e1rea para coelhos, v\u00e1rios currais, extensos sulcos e at\u00e9 um ranch\u00f3n, como se chama em Cuba uma fileira de colunas de madeira com teto de palha de onde pendem plantas em vasos, que enfeitam o lugar e serve de descanso. Mas \u201cainda n\u00e3o temos casa aqui. Tomara que a aprovem\u201d, lamentou Mart\u00ednez, que diariamente deve percorrer cinco quil\u00f4metros de ida e volta, de sua casa at\u00e9 La China, onde deixa um guarda durante a noite.<\/p>\n<p>O Decreto Lei 259 de 2008 abriu a possibilidade, \u00e0s pessoas naturais e jur\u00eddicas, de solicitar terras ociosas para usufruto por dez anos prorrog\u00e1veis, mas somente em 2012 outra lei, de n\u00famero 300, permitiu a constru\u00e7\u00e3o de moradias nessas \u00e1reas. \u201c\u00c9 um tr\u00e2mite muito burocr\u00e1tico\u201d, lamentou a produtora. A burocracia \u00e9 um mal cr\u00f4nico do setor, muito controlado pelo Estado, inclusive a parte em m\u00e3os de particulares.<\/p>\n<p>Durante a sess\u00e3o no parlamento do dia 5 de julho, foi informada a redu\u00e7\u00e3o de 41% do pessoal do Minist\u00e9rio da Agricultura e suas delega\u00e7\u00f5es provinciais e municipais, por raz\u00f5es que misturam ajuste econ\u00f4mico e redu\u00e7\u00e3o da burocracia. Das terras cultivadas, 26,6% est\u00e3o em m\u00e3os privadas, 21,7% sob usufruto e o restante \u00e9 de propriedade estatal ou de cooperativas.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito dif\u00edcil voltar ao campo se n\u00e3o se tem conhecimento, capacidade e possibilidades econ\u00f4micas\u201d, opinou Mireya Ram\u00edrez, de 44 anos, que deixou seu trabalho com inform\u00e1tica para dirigir a propriedade familiar quando seu sogro machucou a m\u00e3o. Ram\u00edrez contou que at\u00e9 cinco anos atr\u00e1s ela nada sabia de lavrar a terra embora vivesse desde que se casou na fazenda Los Solos, em Campo Florido, tamb\u00e9m na periferia de Havana.<\/p>\n<div id=\"attachment_117552\" style=\"width: 350px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/TA700_Cuba2.jpg\"><img class=\"wp-image-117552 size-full\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/07\/TA700_Cuba2.jpg\" alt=\"TA700 Cuba2 Terram\u00e9rica   O duro of\u00edcio de voltar ao campo\" width=\"340\" height=\"241\" title=\"Terram\u00e9rica   O duro of\u00edcio de voltar ao campo\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Familiares de Hortensia Mart\u00ednez e Guillermo Garc\u00eda preparam a terra para plantar em sua propriedade de pouco mais de seis hectares, que dirigem desde 2009 em Punta Brava, no munic\u00edpio de La Lisa, nos sub\u00farbios de Havana. Foto: Jorge Luis Ba\u00f1os\/IPS<\/p><\/div>\n<p>\u201cSe as terras est\u00e3o longe \u00e9 preciso transporte para chegar. Produzir seriamente exige forte capital financeiro. Para mim foi muito dif\u00edcil girar o capital para diversificar a produ\u00e7\u00e3o, e isso porque recebi coisas j\u00e1 prontas\u201d, contou a agora agricultura. Mas, finalmente, \u201cagora tenho liquidez como nunca antes\u201d, acrescentou sorridente.<\/p>\n<p>As autoridades tamb\u00e9m abriram microcr\u00e9ditos para agricultores, lojas com alguns implementos e sementes, aumentaram a retribui\u00e7\u00e3o pelos produtos da majorit\u00e1ria cota destinada ao Estado e permitiram que entidades tur\u00edsticas comprem diretamente dos produtores, entre outras mudan\u00e7as. Mas agricultores e especialistas disseram \u00e0 IPS que s\u00e3o medidas insuficientes.<\/p>\n<p>\u201cFalta maior amplitude e generosidade nas pol\u00edticas, desde mais cr\u00e9ditos para comprar sementes e filhotes para cria\u00e7\u00e3o, at\u00e9 facilidades para alugar ou comprar ve\u00edculos e construir casas, armaz\u00e9ns, currais e vias de acesso aos campos\u201d, afirmou o jornalista Roberto Molina em uma conversa interativa digital promovida pelo Terram\u00e9rica em Cuba.<\/p>\n<p>Os rostos dos produtores agropecu\u00e1rios variam segundo a proximidade com os centros urbanos e o desenvolvimento econ\u00f4mico de cada prov\u00edncia. Na periferia da capital e de prov\u00edncias ocidentais como Mayabeque, Artemisa e Matanzas, h\u00e1 fam\u00edlias camponesas pr\u00f3speras que t\u00eam autom\u00f3veis e casas confort\u00e1veis. Nas montanhas e em lugares intrincados, muitos moram em boh\u00edos (casas de pau a pique ou madeira), com ch\u00e3o de terra e latrinas secas, carecendo de luz e \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u201cMinha experi\u00eancia de muitos anos percorrendo o campo cubano me diz que a atividade social \u00e9 pobre, cheia de limita\u00e7\u00f5es e car\u00eancias. Os sal\u00e1rios dos agricultores n\u00e3o bastam para cobrir suas necessidades prim\u00e1rias\u201d, explicou \u00e0 IPS o agroecologista Fernando Funes-Monzote. Este profissional, de 43 anos, tamb\u00e9m est\u00e1 colocando em marcha, junto com sua fam\u00edlia, a Finca Marta, em Artemisa, prov\u00edncia vizinha a Havana. Envolverde\/Terram\u00e9rica<\/p>\n<p><em>* A autora \u00e9 correspondente da IPS.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigos relacionados da IPS<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ambiente\/terramerica-agricultura-prospera-e-possivel\/\" >Agricultura pr\u00f3spera \u00e9 poss\u00edvel<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/ips\/inter-press-service-reportagens\/agricultura-cubana-precisa-de-forca-jovem\/\" >Agricultura cubana precisa de for\u00e7a jovem<\/a><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/2011\/02\/cuba-soberania-alimentaria-al-alcance-de-la-mano\/\" >Soberania alimentar ao alcance das m\u00e3os, em espanhol<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Artigo produzido para o Terram\u00e9rica, projeto de comunica\u00e7\u00e3o apoiado pelo Banco Mundial Latin America and Caribbean, realizado pela Inter Press Service (IPS) e distribu\u00eddo pela Ag\u00eancia Envolverde.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Havana, Cuba, 28 de julho de 2014 (Terram&eacute;rica).- Casas distantes e pequenas planta&ccedil;&otilde;es se misturam no caminho para a propriedade La China, na periferia da capital de Cuba. 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