{"id":17762,"date":"2014-08-05T13:38:25","date_gmt":"2014-08-05T13:38:25","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=118195"},"modified":"2014-08-05T13:38:25","modified_gmt":"2014-08-05T13:38:25","slug":"agricultura-devolve-dignidade-a-presos-na-costa-do-marfim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/08\/ultimas-noticias\/agricultura-devolve-dignidade-a-presos-na-costa-do-marfim\/","title":{"rendered":"Agricultura devolve dignidade a presos na Costa do Marfim"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_118197\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/costamarfil.jpg\"><img class=\"wp-image-118197\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/costamarfil.jpg\" alt=\"costamarfil Agricultura devolve dignidade a presos na Costa do Marfim\" width=\"529\" height=\"352\" title=\"Agricultura devolve dignidade a presos na Costa do Marfim\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Os presos da penitenci\u00e1ria agr\u00edcola de Saliakro, na Costa do Marfim, condenados a menos de tr\u00eas anos por crime n\u00e3o violento, t\u00eam liberdade de locomo\u00e7\u00e3o dentro do recinto. Foto: Marc-Andre Bosivert\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Saliakro\/Abidj\u00e3, Costa do Marfim, 5\/8\/2014 \u2013 Fran\u00e7ois Kouam\u00e9, preso n\u00famero 67 na penitenci\u00e1ria agr\u00edcola da Costa do Marfim, mostra com orgulho sua porca e seus quatro filhotes. Usando botas de borracha, caminha \u00e0 frente dos novos tratores e se dirige feliz para um campo onde logo come\u00e7ar\u00e3o a crescer mandioca e milho. \u201cVeja esses brotos, \u00e9 muito trabalho\u201d, apontou.<\/p>\n<p>Estar preso em um dos pa\u00edses mais pobres da \u00c1frica n\u00e3o \u00e9 algo f\u00e1cil. Mas as autoridades da Costa do Marfim buscam alternativas para aliviar a lota\u00e7\u00e3o nas pris\u00f5es e a m\u00e1 alimenta\u00e7\u00e3o dos presos. Parece que encontraram a resposta em uma granja. A penitenci\u00e1ria agr\u00edcola de Saliakro, onde Kouam\u00e9 cumpre o \u00faltimo ano de sua condena\u00e7\u00e3o, \u00e9 a primeira no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Kouam\u00e9 foi um dos primeiros detentos a chegar, em dezembro de 2013. As 21 edifica\u00e7\u00f5es do lugar, constru\u00eddas onde antes funcionou um acampamento de ver\u00e3o, t\u00eam capacidade para abrigar 150 presos, cujas condena\u00e7\u00f5es devem ser inferiores a tr\u00eas anos e por crimes n\u00e3o violentos. \u00c9 um espa\u00e7o para que aprendam t\u00e9cnicas agr\u00edcolas.<\/p>\n<p>Para Kouam\u00e9 a granja \u00e9 um al\u00edvio, depois de ter permanecido seis meses na pris\u00e3o estatal de Soubr\u00e9 por cortar \u00e1rvores na planta\u00e7\u00e3o vizinha de cacau. \u201cDorm\u00edamos quatro pessoas onde cabia apenas uma. E nos davam apenas uma tigela de arroz por dia\u201d, contou o jovem. Agora ele come tr\u00eas vezes ao dia e dorme em um quarto limpo para 16 pessoas. Cada homem tem sua pr\u00f3pria cama em beliches, um arm\u00e1rio e muito espa\u00e7o para se movimentar.<\/p>\n<p>Mamadou Doumbia, de 32 anos, cumpre condena\u00e7\u00e3o de dois anos por roubar computadores. Este tranquilo e eloquente homem est\u00e1 contente por cumprir a pena na granja. Antes esteve 11 meses na pris\u00e3o de Agboville, na regi\u00e3o de Agn\u00e9by, perto de Abdij\u00e3, a capital econ\u00f4mica do pa\u00eds. Doumbia exp\u00f4s \u00e0 IPS um l\u00fagubre panorama da pris\u00e3o de Agboville. Viola\u00e7\u00f5es, m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o e pestes s\u00e3o muitas das coisas que confessou ter presenciado. \u201cMe sinto humano novamente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O ritmo de trabalho n\u00e3o \u00e9 de f\u00e9rias. Os presos t\u00eam de acordar \u00e0s 5h30 e se preparar para come\u00e7ar a trabalhar no m\u00e1ximo at\u00e9 7h00, em uma jornada que se prolonga at\u00e9 15h00, com breve intervalo para almo\u00e7o. Com o projeto de Saliakro as autoridades e seus colaboradores esperam melhorar as condi\u00e7\u00f5es dos presos, reduzir custos e ajudar sua reintegra\u00e7\u00e3o na sociedade.<\/p>\n<p>A Costa do Marfim tem pris\u00f5es relativamente modernas em compara\u00e7\u00e3o com outros pa\u00edses da \u00c1frica ocidental, onde a maioria n\u00e3o investe em novos centros de deten\u00e7\u00e3o desde a d\u00e9cada de 1970. Na vizinha Gana, o forte colonial Jamestown deixou de funcionar em 2008. Na Guin\u00e9-Bissau foi preciso esperar que a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) constru\u00edsse uma pris\u00e3o para enfrentar a superlota\u00e7\u00e3o de presos no que agora \u00e9 uma bela casa colonial rebatizada como Casa dos Direitos. Mali, Guin\u00e9, Serra Leoa e Lib\u00e9ria t\u00eam pris\u00f5es lotadas constru\u00eddas na d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p>Na Casa de Deten\u00e7\u00e3o e Corre\u00e7\u00e3o de Abdij\u00e3 (Maca, em franc\u00eas), falar de superlota\u00e7\u00e3o \u00e9 chover no molhado. O local, constru\u00eddo nos anos 1980 para receber 1.500 detentos, tem uma popula\u00e7\u00e3o de cinco mil. \u201cA higiene \u00e9 muito dif\u00edcil. H\u00e1 frequentes cortes de \u00e1gua\u201d, contou \u00e0 IPS por telefone um preso da Maca que pediu para n\u00e3o ter o nome revelado, pois os presos n\u00e3o t\u00eam permiss\u00e3o para falar com a imprensa.<\/p>\n<p>Apesar de o governo e doadores internacionais come\u00e7arem a abrir centros de deten\u00e7\u00e3o no norte, fechados ap\u00f3s uma d\u00e9cada de separa\u00e7\u00e3o, de fato, do sul, a situa\u00e7\u00e3o de lota\u00e7\u00e3o nos c\u00e1rceres \u00e9 grave. Na pris\u00e3o de Man, um povoado no oeste da Costa do Marfim, est\u00e3o detidos v\u00e1rios respons\u00e1veis pela crise p\u00f3s-eleitoral de 2010 a 2011 e que deixou mais de tr\u00eas mil mortos.<\/p>\n<p>No ano passado, foi feita uma reforma, mas novo n\u00e3o significa menos lotado. A pris\u00e3o foi constru\u00edda para abrigar 300 presos, atualmente tem o dobro. Didier, que espera pelo julgamento na pris\u00e3o de Man, contou que arroz o deixa com fome. \u201cN\u00e3o podemos ter tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias. A maioria das vezes comemos apenas uma vez por dia\u201d, detalhou por telefone \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Em maio, cinco detentos de Man morreram e v\u00e1rios foram hospitalizados. A m\u00e9dica da pris\u00e3o, Viviane Lawson Kiniffo, declarou \u00e0 imprensa do pa\u00eds que a promiscuidade, a m\u00e1 nutri\u00e7\u00e3o e a higiene eram grandes problemas. Quando o ministro da Justi\u00e7a, Gnenema Coulibaly, inaugurou a primeira penitenci\u00e1ria agr\u00edcola da Costa do Marfim, em Saliakro, afirmou: \u201cLogo outras ser\u00e3o inauguradas\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida dos presos, esta penitenci\u00e1ria alivia o or\u00e7amento carcer\u00e1rio porque, al\u00e9m de dar alimento aos presos, pode-se vender o excedente de produ\u00e7\u00e3o nos mercados locais. Por\u00e9m, os 450 hectares fazem mais do que aliviar o or\u00e7amento do Estado.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se trata apenas de aliment\u00e1-los, mas que os detentos voltem a ter uma vida normal. Trata-se de aprender novas ferramentas e poder se reintegrar e participar plenamente na sociedade\u201d, ressaltou \u00e0 IPS o superintendente da Saliakro, Pinguissie Ouattara. \u201cTrata-se de oferecer uma alternativa ao crime e diminuir a delinqu\u00eancia\u201d, acrescentou. Saliakro n\u00e3o consta em nenhum mapa. Este povoado n\u00e3o existe. O nome \u00e9 a contra\u00e7\u00e3o de Kro (aldeia, em baoule, uma l\u00edngua local) e Salia (primeiro nome do superintendente anterior, Salia Ouattara, morto em 2007).<\/p>\n<p>\u201cNosso objetivo \u00e9 que a condena\u00e7\u00e3o seja uma oportunidade para que aconte\u00e7a uma mudan\u00e7a de vida sustent\u00e1vel\u201d, explicou \u00e0 IPS Bernard Aurenche, o representante na Costa do Marfim da ONG francesa Presos Sem Fronteiras. Os 150 detentos contam com apoio de agr\u00f4nomos. Os participantes do projeto aprofundam seus conhecimentos agr\u00edcolas e recebem 300 francos CFA (cerca de US$ 0,70) por dia.<\/p>\n<p>\u201cCom isso poder\u00e3o economizar para terem sua pr\u00f3pria horta quando sa\u00edrem. Mas tamb\u00e9m se trata de sua reinser\u00e7\u00e3o na vida e de ganhar confian\u00e7a\u201d, destacou Aurenche. Kouam\u00e9 \u00e9 mais realista. J\u00e1 se dedicava \u00e0 agricultura, mas disse \u00e0 IPS que aprendeu muito com os agr\u00f4nomos da pris\u00e3o. \u201cAprendi muitas coisas que permitir\u00e3o que eu torne minha horta mais rent\u00e1vel, em especial diversificar a produ\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>No entanto, o caminho ainda \u00e9 de pedras. O or\u00e7amento inicial foi dado pela Uni\u00e3o Europeia e falta garantir a iniciativa no longo prazo. Tamb\u00e9m deve ser melhorada a escolha dos detentos, pois at\u00e9 agora n\u00e3o seguiu nenhum crit\u00e9rio claro. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Saliakro\/Abidj&atilde;, Costa do Marfim, 5\/8\/2014 &ndash; Fran&ccedil;ois Kouam&eacute;, preso n&uacute;mero 67 na penitenci&aacute;ria agr&iacute;cola da Costa do Marfim, mostra com orgulho sua porca e seus quatro filhotes. 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