{"id":17764,"date":"2014-08-05T13:31:28","date_gmt":"2014-08-05T13:31:28","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=118186"},"modified":"2014-08-05T13:31:28","modified_gmt":"2014-08-05T13:31:28","slug":"os-balseiros-seguem-como-ferida-aberta-em-cuba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/08\/ultimas-noticias\/os-balseiros-seguem-como-ferida-aberta-em-cuba\/","title":{"rendered":"Os balseiros seguem como ferida aberta em Cuba"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_118188\" style=\"width: 522px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/1aaa137.jpg\"><img class=\"wp-image-118188 size-full\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/1aaa137.jpg\" alt=\"1aaa137 Os balseiros seguem como ferida aberta em Cuba\" width=\"512\" height=\"333\" title=\"Os balseiros seguem como ferida aberta em Cuba\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Qualquer material serviu aos cubanos que queriam sair da ilha para se lan\u00e7ar ao mar em todo tipo de balsa e tentar chegar aos Estados Unidos, em agosto de 1994. Foto: Creative Commons<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Havana, Cuba, 5\/8\/2014 \u2013 L\u00e1grimas, sil\u00eancios e evasivas s\u00e3o as rea\u00e7\u00f5es dos cubanos diante da pergunta sobre a crise dos balseiros, depois de duas d\u00e9cadas de um \u00eaxodo que n\u00e3o tem igual no continente americano e que ainda \u00e9 tabu nesta na\u00e7\u00e3o caribenha. Balseiros foi o nome dado na \u00e9poca para quem deixava Cuba em embarca\u00e7\u00f5es mais do que prec\u00e1rias rumo aos Estados Unidos, uma via temer\u00e1ria detectada desde 1961, que foi usada de forma maci\u00e7a em agosto de 1994 e persiste atualmente, embora a lei migrat\u00f3ria local tenha passado por uma abertura em 2013.<\/p>\n<p>\u201cAqui n\u00e3o se fala dos balseiros na imprensa (toda estatal). As pessoas ficam sabendo de alguma coisa \u00e9 pela antena\u201d (acesso clandestino a emissoras de televis\u00e3o estrangeiras), contou \u00e0 IPS Frank L\u00f3pez, morador de Havana, de 66 anos, testemunha da \u00faltima grande di\u00e1spora desta na\u00e7\u00e3o insular caribenha.<\/p>\n<p>Segundo a guarda costeira dos Estados Unidos, o fluxo migrat\u00f3rio de Cuba por mar agora \u00e9 est\u00e1vel. Os dois pa\u00edses s\u00e3o separados por apenas 90 milhas (167 quil\u00f4metros) entre os dois pontos mais pr\u00f3ximos, mas agora s\u00e3o inclu\u00eddas rotas mais complexas com destinos intermedi\u00e1rios como M\u00e9xico, Ilhas Caim\u00e3 e Porto Rico.<\/p>\n<p>Cerca de 1.271 balseiros foram interceptados em alto mar entre outubro de 2012 e setembro de 2013, contra os 1.275 que voltaram para Cuba no per\u00edodo anterior, em cumprimento dos acordos bilaterais vigentes. Segundo a Lei de Ajuste Cubano, em vigor nos Estados Unidos desde 1966, todo cubano que toca o solo desse pa\u00eds tem direito a resid\u00eancia permanente, em um ponto sens\u00edvel do conflito.<\/p>\n<p>Havana diz que essa lei incentiva a imigra\u00e7\u00e3o ilegal e Washington diz que responde ao descontentamento em Cuba pelas pol\u00edticas do governo socialista, no poder desde 1959. Mas a situa\u00e7\u00e3o pouco tem a ver com o convulso ver\u00e3o boreal de 1994, quando mais de 36 mil cubanos se lan\u00e7aram ao mar rumo ao norte em botes de pescadores, balsas r\u00fasticas feitas com madeira e pneus de caminh\u00e3o, a remos ou com motores.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o daquele ano, aumentou o n\u00famero de cubanos que tentavam cruzar o estreito da Fl\u00f3rida, enquanto se encrespavam as posi\u00e7\u00f5es dos dois governos, que n\u00e3o t\u00eam rela\u00e7\u00e3o diplom\u00e1ticas formais, ao que se soma, desde 1962, o embargo a Cuba pelas sucessivas administra\u00e7\u00f5es norte-americanas.<\/p>\n<p>Entre julho e os primeiros dias de agosto, grupos cubanos sequestraram pelo menos quatro embarca\u00e7\u00f5es estatais, em tentativas, de sucesso ou falidas, de chegar aos Estados Unidos. Al\u00e9m disso, a situa\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria foi o cen\u00e1rio de graves dist\u00farbios em Havana no dia 5 de agosto, conhecidos como \u201cmaleconazo\u201d, os primeiros em tr\u00eas d\u00e9cadas no pa\u00eds.<\/p>\n<p>O ent\u00e3o presidente Fidel Castro (1959-200) pressionou o governo de Bill Clinton (1993-2001) a desestimular a onda de sa\u00eddas ilegais ou Cuba deixaria de se opor elas. Castro considerava que era incentivada pela acolhida e ajuda aos balseiros, enquanto n\u00e3o se completavam os 20 mil vistos anuais pactados pelos dois governos em 1984. Apenas 11.122 pessoas receberam visto norte-americano por essa via entre 1987 e 1994, das 160 mil poss\u00edveis.<\/p>\n<p>O in\u00edcio da crise dos balseiros tem uma marca no dia 12 de agosto, quando Castro ordenou \u00e0 guarda costeira deixar de impedir e vigiar a sa\u00edda de migrantes, ap\u00f3s um novo incidente com uma embarca\u00e7\u00e3o. Os controles foram retomados em 13 de setembro, ap\u00f3s abrir-se um di\u00e1logo entre os dois governos.<\/p>\n<p>Muitos dos que viveram aqueles dias dizem ter ficado marcados para sempre. \u201cUma multid\u00e3o se reunia na costa para se despedir dos que partiam\u201d, recordou L\u00f3pez. \u201cFui ao molhe de Coj\u00edmar (sub\u00farbio de Havana) para ver tudo\u201d, contou. Entre as muitas coisas que o impressionaram, citou os cartazes de \u201cVende-se balsas\u201d pendurados nas casas e a chegada constante de ve\u00edculos com embarca\u00e7\u00f5es, algumas inconceb\u00edveis, e grupos prontos a navegar as 90 milhas que separam os dois pa\u00edses.<\/p>\n<div id=\"attachment_118189\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/DSCN1105.jpg\"><img class=\"wp-image-118189\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/DSCN1105.jpg\" alt=\"DSCN1105 Os balseiros seguem como ferida aberta em Cuba\" width=\"540\" height=\"405\" title=\"Os balseiros seguem como ferida aberta em Cuba\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Clara Dom\u00ednguez, uma balseira que saiu de Cuba em 21 de agosto de 1994, junto com seu marido e o filho, na rua da cidade norte-americana onde vive agora. Foto: Ivet Gonz\u00e1lez\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Clara Dom\u00ednguez afirmou \u00e0 IPS na cidade de Miami que \u201cnunca\u201d se arrependeu de ter partido, no dia 21 de agosto de 1994, junto com o marido e seu filho pela costa de Havana, mesmo sabendo que todos os balseiros ficariam concentrados na base aeronaval norte-americana de Guant\u00e2namo, no oeste cubano. Nessa base, e em instala\u00e7\u00f5es semelhantes no Panam\u00e1 e no acampamento de refugiados de Krome, no Estado da Fl\u00f3rida, o governo de Clinton reteve milhares de migrantes para decidir seus destinos, em uma esp\u00e9cie de limbo que durou dois anos.<\/p>\n<p>Cuba aceitou a repatria\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria ap\u00f3s um primeiro acordo bilateral no dia 9 de setembro, realizada por alguns balseiros. A maioria apostou no futuro incerto das conversa\u00e7\u00f5es entre os dois governos, que se cristalizaram em maio de 1995, quando Washington passou a paulatinamente conceder-lhes vistos humanit\u00e1rios. A crise terminou formalmente em janeiro de 1996, quando o \u00faltimo refugiado saiu de Guant\u00e2namo.<\/p>\n<p>Sem poder conter as l\u00e1grimas, Dom\u00ednguez disse que \u201c\u00e9 um anivers\u00e1rio infeliz\u201d o do \u00eaxodo. \u201cTivemos de sair de Cuba pela falta de liberdade e de oportunidades\u201d, disse esta mulher de 68 anos. Cuba entrou em uma depress\u00e3o econ\u00f4mica que se prolonga at\u00e9 agora, devido \u00e0 extin\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, em 1991. Para ela, o mais positivo dos fatos foram os acordos de 1994 e 1995, pelos quais os Estados Unidos concedem um m\u00ednimo de 20 mil vistos anuais e se prioriza a emigra\u00e7\u00e3o ordenada e segura.<\/p>\n<p>O lado mais triste da migra\u00e7\u00e3o balseira, na qual tamb\u00e9m se arriscam anualmente milhares de dominicanos e jamaicanos, s\u00e3o as mortes e os desaparecimentos nas \u00e1guas turbulentas e infectadas de tubar\u00f5es do estreito da Fl\u00f3rida, onde tamb\u00e9m agem redes de tr\u00e1fico de drogas e pessoas.<\/p>\n<p>Nancy Reyes, de 74 anos, n\u00e3o tem not\u00edcias de seu \u00fanico filho desde 1992. \u201cSoube apenas que iria embora. Vivo com essa incerteza\u201d, contou \u00e0 IPS esta moradora da cidade de Matanzas, 87 quil\u00f4metros a leste de Havana. A luta contra a emigra\u00e7\u00e3o ilegal e o tr\u00e1fico de pessoas \u00e9 permanente na agenda de di\u00e1logo que, com seus altos e baixos, \u00e9 mantida desde ent\u00e3o por Havana e Washington.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 muito dif\u00edcil que uma crise semelhante volte a ocorrer\u201d, opinou \u00e0 IPS o pesquisador Antonio Aja. As migra\u00e7\u00f5es por via mar\u00edtima se comportam em fun\u00e7\u00e3o de dois fatores fundamentais: a situa\u00e7\u00e3o interna de Cuba e o cumprimento do conv\u00eanio migrat\u00f3rio pela parte norte-americana, segundo estudos citados por Aja.<\/p>\n<p>Em 2013, foi decretado um ajuste nas normas migrat\u00f3rias, que flexibilizaram os tr\u00e2mites para sair e voltar a Cuba. Por sua vez, o Escrit\u00f3rio de Interesses dos Estados Unidos em Havana come\u00e7ou a conceder vistos de entrada m\u00faltiplos por cinco anos aos visitantes cubanos. Um ano antes, segundo dados oficiais, neste pa\u00eds de 11,2 milh\u00f5es de habitantes, 46.662 pessoas emigraram. Mas agora o fazem majoritariamente por avi\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Havana, Cuba, 5\/8\/2014 &ndash; L&aacute;grimas, sil&ecirc;ncios e evasivas s&atilde;o as rea&ccedil;&otilde;es dos cubanos diante da pergunta sobre a crise dos balseiros, depois de duas d&eacute;cadas de um &ecirc;xodo que n&atilde;o tem igual no continente americano e que ainda &eacute; tabu nesta na&ccedil;&atilde;o caribenha. 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