{"id":17777,"date":"2014-08-08T14:22:19","date_gmt":"2014-08-08T14:22:19","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=118509"},"modified":"2014-08-08T14:22:19","modified_gmt":"2014-08-08T14:22:19","slug":"nao-e-o-clima-e-a-desigualdade-o-estopim-dos-conflitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/08\/ultimas-noticias\/nao-e-o-clima-e-a-desigualdade-o-estopim-dos-conflitos\/","title":{"rendered":"N\u00e3o \u00e9 o clima, \u00e9 a desigualdade o estopim dos conflitos"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_118511\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/desigualdad.jpg\"><img class=\"wp-image-118511\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/desigualdad.jpg\" alt=\"desigualdad N\u00e3o \u00e9 o clima, \u00e9 a desigualdade o estopim dos conflitos\" width=\"529\" height=\"352\" title=\"N\u00e3o \u00e9 o clima, \u00e9 a desigualdade o estopim dos conflitos\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Nas zonas de conflito, a viol\u00eancia costuma ser atribu\u00edda \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Foto: UN Photo\/Albert Gonz\u00e1lez Farran<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na\u00e7\u00f5es Unidas, 8\/8\/2014 \u2013 As discuss\u00f5es dos \u00faltimos anos sobre os conflitos derivados de problemas clim\u00e1ticos variam desde informes sensacionalistas que garantem que o mundo sucumbir\u00e1 \u00e0s guerras pela \u00e1gua at\u00e9 os que acreditam que o assunto n\u00e3o tem nenhum interesse. O t\u00edtulo de cada artigo que trata da rela\u00e7\u00e3o entre mudan\u00e7a clim\u00e1tica e conflito deveria ser: \u201c\u00c9 complicado\u201d, segundo Clionadh Raleigh, diretora do Projeto de Base de Dados sobre a Localiza\u00e7\u00e3o e os Eventos dos Conflitos Armados (Acled).<\/p>\n<p>Cientistas especialistas da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) se interessam cada vez mais por este assunto, uma tend\u00eancia que se consolidou nos \u00faltimos anos, segundo David Jensen, diretor do Programa de Coopera\u00e7\u00e3o Ambiental para a Constru\u00e7\u00e3o da Paz, do Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). \u201cO debate sobre este assunto come\u00e7ou entre 2006 e 2007, mas ainda h\u00e1 uma grande dist\u00e2ncia entre o que se discute em escala global e no Conselho de Seguran\u00e7a e o que realmente ocorre no terreno\u201d, pontuou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>\u201cNumerosos estudos encontram um v\u00ednculo estat\u00edstico entre mudan\u00e7a clim\u00e1tica e conflito, mas costumam se concentrar em uma \u00e1rea espec\u00edfica e cobrir um curto espa\u00e7o de tempo\u201d, afirmou Halvard Buhaug, diretor do departamento de Condi\u00e7\u00f5es de Viol\u00eancia e Paz, do Instituto de Pesquisas de Paz de Oslo (Prio), ao ser consultado pela IPS. \u201cO desafio \u00e9 definir se esses estudos s\u00e3o indicativos de uma tend\u00eancia global, mais geral, e que ainda n\u00e3o foi documentada\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Buhaug explicou \u00e0 IPS que \u201cparte do debate p\u00fablico sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica e viol\u00eancia \u00e9 correto, mas existe uma tend\u00eancia lament\u00e1vel, seja dos pesquisadores ou da m\u00eddia, em exagerar a contund\u00eancia da investiga\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e expressar mal a incerteza cient\u00edfica. Em alguns meios de comunica\u00e7\u00e3o, palavras como \u2018pode ocorrer\u2019 se transformam em certezas e o futuro se torna l\u00fagubre\u201d.<\/p>\n<p>Cullen Hendrix, professor adjunto da Faculdade de Estudos Internacionais Josef Korbel, disse \u00e0 IPS que a rela\u00e7\u00e3o entre clima e conflito est\u00e1 mediada pelos n\u00edveis de desenvolvimento econ\u00f4mico. \u00c9 mais prov\u00e1vel que um conflito por quest\u00f5es clim\u00e1ticas surja em regi\u00f5es rurais n\u00e3o industrializadas, \u201conde grande parte da popula\u00e7\u00e3o ainda depende do ambiente natural\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Na maioria dos pa\u00edses da \u00c1frica subsaariana, mais de dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o trabalham na agricultura. Uma mudan\u00e7a nas condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas ter\u00e1 consequ\u00eancias negativas na estabilidade. Mas os pesquisadores destacam que \u00e9 importante n\u00e3o tirar conclus\u00f5es precipitadas e assumir que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica derivar\u00e1 necessariamente em um conflito.<\/p>\n<p>\u201cQuase todos reconhecemos que h\u00e1 outros fatores como a exclus\u00e3o pol\u00edtica das minorias perseguidas, desigualdades econ\u00f4micas ou a debilidade das institui\u00e7\u00f5es do governo central que s\u00e3o mais importantes do que o clima. Isso n\u00e3o \u00e9 o mesmo que dizer que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica n\u00e3o incida\u201d, ressaltou Hendrix.<\/p>\n<p>\u201cQuanto se trata de reconstruir comunidades e qualidade de vida, n\u00e3o se pode concentrar-se em um s\u00f3 fator de estresse como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica. \u00c9 preciso observar a multiplicidade de fatores e construir resili\u00eancia para todo tipo de traumatismo, inclusive a mudan\u00e7a clim\u00e1tica, mas n\u00e3o exclusivamente\u201d, concordou Jensen, ao comentar as li\u00e7\u00f5es aprendidas em seu trabalho no Pnuma.<\/p>\n<p>Hendrix espera que a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o de trabalhos cient\u00edficos analise como a seca, as inunda\u00e7\u00f5es, a desertifica\u00e7\u00e3o e outros fen\u00f4menos clim\u00e1ticos t\u00eam impacto nos conflitos \u201cpor meio de canais indiretos, como perda de crescimento econ\u00f4mico ou causando migra\u00e7\u00f5es em grande escala de um pa\u00eds a outro\u201d.<\/p>\n<p>Raleigh, tamb\u00e9m professora de geografia humana na Universidade de Sussex, acredita que as pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de terras costumam ser a fonte de conflito, mas seu impacto se dilui por um debate sobre mudan\u00e7a clim\u00e1tica. \u201cSe perguntarmos a algu\u00e9m na \u00c1frica \u2018quais s\u00e3o os conflitos aqui?\u2019, \u00e9 poss\u00edvel que responda algo como acesso \u00e0 terra e \u00e0 \u00e1gua. Mas isto depende quase totalmente de pol\u00edticas nacionais e locais, por isso quase nada t\u00eam a ver com o clima\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Alguns governantes tentam atribuir \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica as consequ\u00eancias de suas pr\u00f3prias pol\u00edticas desastrosas, disse Raleigh. Robert Mugabe culpou a mudan\u00e7a clim\u00e1tica pela fome no Zimb\u00e1bue, em lugar de criticar sua pr\u00f3pria corrup\u00e7\u00e3o e suas pol\u00edticas de reassentamento. No Sud\u00e3o, Omar al-Bashir atribuiu o conflito na prov\u00edncia de Darfur \u00e0 seca, em lugar da terr\u00edvel viol\u00eancia do governo contra uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Raleigh atribui essas explica\u00e7\u00f5es ao chamado determinismo ambiental, uma escola de pensamento que afirma que os fatores clim\u00e1ticos definem o comportamento humano e a cultura. Por exemplo, assume que uma sociedade se comportar\u00e1 de uma ou outra forma segundo sua localiza\u00e7\u00e3o em um ambiente tropical ou temperado. Essa teoria se consolidou no final do s\u00e9culo 20, mas perdeu popularidade devido \u00e0s cr\u00edticas de que fomentava o racismo e o imperialismo.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o de Buhaug \u00e9 a \u201ctend\u00eancia nas investiga\u00e7\u00f5es, em especial na difus\u00e3o delas, para ignorar a import\u00e2ncia de condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e socioecon\u00f4micas e o motivo e a a\u00e7\u00e3o dos atores\u201d.<\/p>\n<p>Raleigh diretamente desejaria que desaparecesse todo o debate. \u201cAs pessoas costumam interpretar mal o que ocorre em escala local e nacional nos pa\u00edses africanos e em desenvolvimento. Simplesmente sup\u00f5em que a viol\u00eancia \u00e9 uma das primeiras rea\u00e7\u00f5es \u00e0 mudan\u00e7a social, quando o mais prov\u00e1vel \u00e9 que seja a coopera\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A coopera\u00e7\u00e3o ambiental ocorre dentro e entre os pa\u00edses, segundo Jensen. No \u00e2mbito local, \u201cem Darfur, vemos diferentes grupos que se unem para gerir os recursos h\u00eddricos\u201d. Em escala global, \u201cfala-se muito das guerras pela \u00e1gua entre pa\u00edses, mas costuma ser o contr\u00e1rio, pois h\u00e1 muita coopera\u00e7\u00e3o entre os Estados pelos recursos de \u00e1gua compartilhados\u201d, ressaltou Raleigh.<\/p>\n<p>Nessa linha, a ONU lan\u00e7ou em novembro de 2013 um novo site na internet dedicado \u00e0s solu\u00e7\u00f5es mais do que aos problemas e destinado a especialistas e trabalhadores de campo, com a inten\u00e7\u00e3o de compartilhar as melhores pr\u00e1ticas para atender conflitos ambientais e o uso de recursos naturais para ajudar na constru\u00e7\u00e3o da paz, afirmou a especialista.<\/p>\n<p><strong>Resumo do debate na comunidade cient\u00edfica<\/strong><\/p>\n<p>Um estudo de Burke <em>et al<\/em> (2009) conclui que o aumento da temperatura acarretaria maior n\u00famero de mortes na \u00c1frica. Afirma que, se for mantida a tend\u00eancia atual, morrer\u00e3o cerca de 393 mil pessoas em enfrentamentos na \u00c1frica at\u00e9 2030.<\/p>\n<p>Segundo Buhaung (2010), a preval\u00eancia e a severidade das guerras civis na \u00c1frica diminu\u00edram desde 2002, apesar do maior aquecimento do clima, desafiando a hip\u00f3tese de Burke. Em seu estudo n\u00e3o encontrou nenhuma evid\u00eancia sobre uma correla\u00e7\u00e3o entre aumento de temperatura e conflitos.<\/p>\n<p>Hendrix e Salehyan (2012) conclu\u00edram que as varia\u00e7\u00f5es nas precipita\u00e7\u00f5es, abaixo ou acima do habitual, se associavam com todo tipo de conflitos pol\u00edticos na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Benjaminsen <em>et al<\/em> (2012) n\u00e3o encontrou evid\u00eancia para dizer que a variabilidade das chuvas \u00e9 um fator substancial do conflito de Mali.<\/p>\n<p>Em 2013, Hsiang, Burke e Miguel publicaram uma metan\u00e1lise de 60 estudos sobre o tema na revista <em>Science<\/em>. Encontraram que a maioria deles, de diferentes regi\u00f5es, apoiavam a conclus\u00e3o de que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica gera e gerar\u00e1 maiores n\u00edveis de conflitos armados.<\/p>\n<p>Em uma resposta na <em>Nature Climage Change<\/em>, Raleigh, Linke e O\u2019Loughlin (2014) criticaram essa an\u00e1lise por utilizar estat\u00edsticas inadequadas que ignoram fatores pol\u00edticos e hist\u00f3ricos dos conflitos e insistiram na mudan\u00e7a clim\u00e1tica como um fator causal. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Na&ccedil;&otilde;es Unidas, 8\/8\/2014 &ndash; As discuss&otilde;es dos &uacute;ltimos anos sobre os conflitos derivados de problemas clim&aacute;ticos variam desde informes sensacionalistas que garantem que o mundo sucumbir&aacute; &agrave;s guerras pela &aacute;gua at&eacute; os que acreditam que o assunto n&atilde;o tem nenhum interesse. 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