{"id":17782,"date":"2014-08-11T18:14:39","date_gmt":"2014-08-11T18:14:39","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=118574"},"modified":"2014-08-11T18:14:39","modified_gmt":"2014-08-11T18:14:39","slug":"guido-o-neto-por-dna-de-todos-os-argentinos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/08\/ultimas-noticias\/guido-o-neto-por-dna-de-todos-os-argentinos\/","title":{"rendered":"Guido, o neto por DNA de todos os argentinos"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 11\/8\/2014 \u2013 A recupera\u00e7\u00e3o do \u201cneto 114\u201d, de filhos de desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina, causou uma como\u00e7\u00e3o coletiva que muitos compararam \u00e0 disputa da final da Copa do Mundo realizada h\u00e1 um m\u00eas. Uma compensa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para a ferida que atravessou 30 anos de democracia e que come\u00e7a a sarar.<\/p>\n<p>\u201cSem palavras\u201d, \u201cemo\u00e7\u00e3o\u201d, \u201calegria\u201d, foram algumas express\u00f5es repetidas nas redes sociais que chegaram a um recorde de compartilhamentos no dia 5 de agosto, quando foi anunciada a recupera\u00e7\u00e3o do neto da presidente e fundadora da organiza\u00e7\u00e3o Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio, Estela de Carlotto.<\/p>\n<p>Um \u201csem palavras\u201d incapaz de definir uma sensa\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria, embora n\u00e3o un\u00e2nime, refletida em todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o, sem distin\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. \u201cA luta incans\u00e1vel pela busca do sangue nunca pode ser discutida, \u00e9 t\u00e3o natural, t\u00e3o l\u00f3gica, t\u00e3o correta que ningu\u00e9m pode permanecer indiferente a isso\u201d, disse \u00e0 IPS a advogada Marta Eugenia Fern\u00e1ndez, da Universidade de Buenos Aires.<\/p>\n<div id=\"attachment_118575\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Nieto-final-540x472.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-118575\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Nieto-final-540x472.jpg\" alt=\"Nieto final 540x472 Guido, o neto por DNA de todos os argentinos\" width=\"540\" height=\"472\" title=\"Guido, o neto por DNA de todos os argentinos\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">\u201cObrigado, muito obrigado\u201d. Com estas palavras Guido Montoya Carlotto publicou a foto do primeiro encontro com sua av\u00f3 Estela de Carlotto, em sua conta no Twitter @IgnacioHurban. Foto: Twitter de Ignacio Hurban<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio busca, desde 1977, as crian\u00e7as nascidas no cativeiro, ou sequestradas com seus pais, durante o regime militar (1976-1983), que deixou 30 mil mortos e desaparecidos, segundo organiza\u00e7\u00f5es humanit\u00e1rias. A busca de Carlotto por seu neto durou 36 anos, a idade que tem hoje \u201cGuido\u201d, como sua m\u00e3e queria que se chamasse, ou Ignacio Hurban, como foi registrado pelos pais que o criaram em Olavarr\u00eda, a 350 quil\u00f4metros da Buenos Aires, aparentemente desconhecendo sua origem.<\/p>\n<p>Guido, pianista, compositor e arranjador, fez um teste gen\u00e9tico porque tinha d\u00favidas sobre sua identidade e o resultado deu 99,9% positivo. Sua m\u00e3e, Laura Carlotto, militante do desaparecido grupo guerrilheiro Montoneros, deu \u00e0 luz durante sua pris\u00e3o clandestina, no Hospital Militar,em 26 de junho de 1978, e dois meses depois foi assassinada, como milhares, em uma das mais cruentas ditaduras da Am\u00e9rica Latina, regi\u00e3o esteve repleta delas no s\u00e9culo 20 .<\/p>\n<p>O pai, Oscar Walmir Montoya, m\u00fasico como o filho, marido e companheiro de milit\u00e2ncia de Laura, tamb\u00e9m foi executado pouco depois da deten\u00e7\u00e3o de ambos, em novembro de 1977. \u201cLaura Carlotto e Oscar Montoya n\u00e3o voltar\u00e3o \u00e0 vida. O dano \u00e9 infinito e irrepar\u00e1vel. A recupera\u00e7\u00e3o do filho de ambos \u00e9 uma repara\u00e7\u00e3o imensa para esse dano infinito\u201d, opinou o jornalista Luis Bruschtein no jornal <em>P\u00e1gina 12<\/em>.<\/p>\n<div id=\"attachment_118576\" style=\"width: 314px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Nieto-1.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-118576\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Nieto-1.jpg\" alt=\"Nieto 1 Guido, o neto por DNA de todos os argentinos\" width=\"304\" height=\"171\" title=\"Guido, o neto por DNA de todos os argentinos\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Os pais do neto restitu\u00eddo 36 anos depois, Laura Carlotto e Oscar Walmir Montoya. Foto: Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cA not\u00edcia do reencontro do neto de uma av\u00f3 s\u00edmbolo dessa luta \u00e9 t\u00e3o cinematogr\u00e1fica quanto ver Lionel Messi (astro argentino do futebol) marcando um gol aos 44 minutos do segundo tempo\u201d, afirmou Fern\u00e1ndez. Quase um m\u00eas depois do encerramento da Copa do Mundo, quando a Argentina perdeu o t\u00edtulo diante da Alemanha, no dia 13 de julho, outros protagonistas dessa paix\u00e3o nacional recorreram a essa met\u00e1fora.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o futebol que pode nos unir\u201d, disse o ex-jogador Diego Armando Maradona. Por sua vez, Messi pediu que se continue a lutar porque \u201crestam muitos mais\u201d netos a serem recuperados. Segundo as Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio, cerca de outras 400 crian\u00e7as sequestradas durante a ditadura militar ainda est\u00e3o desaparecidas. Antes do Mundial, Messi e outros jogadores da sele\u00e7\u00e3o argentina apoiaram essa causa com um v\u00eddeo que venceu fronteiras.<\/p>\n<p>Mas a sociedade continua dividida, 30 anos depois da restaura\u00e7\u00e3o da democracia e da publica\u00e7\u00e3o, em 1984, do informe <em>Nunca Mais<\/em>, elaborado pela Comiss\u00e3o Nacional sobre Desaparecimento de Pessoas, perpetrada por militares durante a repress\u00e3o ilegal. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ouvir nas ruas argumentos como o que apresentou \u00e0 IPS a aposentada Edith G\u00f3mez, que falou das crian\u00e7as sequestradas como os \u201cfilhos dos subversivos\u201d e, como argumentam outros, considera que foi \u201cmelhor terem sido criados por gente de bem\u201d.<\/p>\n<p>Mas isso est\u00e1 mudando, segundo a psicoanalista Viviana Paraj\u00f3n, gra\u00e7as \u00e0 ado\u00e7\u00e3o, na \u00faltima d\u00e9cada, dos \u201cdireitos humanos como pol\u00edtica de Estado\u201d. Ela considera que as novas gera\u00e7\u00f5es, que nem mesmo foram protagonistas ou v\u00edtimas diretas da ditadura, est\u00e3o incorporando conceitos como o rep\u00fadio aos crimes de lesa humanidade.<\/p>\n<p>A especialista se refere a medidas como a cria\u00e7\u00e3o do Dia Nacional da Mem\u00f3ria pela Verdade e pela Justi\u00e7a, em 24 de mar\u00e7o, quando se produziu o golpe militar, aprovado pelo Congresso em 2002 e que em 2005 foi declarado feriado pelo ent\u00e3o presidente N\u00e9stor Kirchner (2003-2007). Tamb\u00e9m foi incorporada ao curr\u00edculo escolar a quest\u00e3o da mem\u00f3ria da ditadura e de outros genoc\u00eddios.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 h\u00e1 alguns anos, a quest\u00e3o dos desaparecidos era defendida por um setor muito pequeno da sociedade, o resto tinha posturas que iam desde a indiferen\u00e7a at\u00e9 a teoria dos dois dem\u00f4nios\u201d, explicou Paraj\u00f3n \u00e0 IPS. Assim \u00e9 conhecida na Argentina a tese que justifica que os abusos contra os direitos humanos cometidos pelo Estado durante a ditadura foram equipar\u00e1veis \u2013 e responderam \u2013 \u00e0 viol\u00eancia armada das organiza\u00e7\u00f5es guerrilheiras.<\/p>\n<p>\u201cO nefasto e horroroso \u00e9 que o fizeram transcender e aniquilaram n\u00e3o s\u00f3 aquela gera\u00e7\u00e3o mas v\u00e1rias outras\u201d, observou Paraj\u00f3n, para quem, neste sentido, a recupera\u00e7\u00e3o de Guido tem um efeito de \u201ccura\u201d social. \u201c\u00c9 como um neto de todos, uma repara\u00e7\u00e3o desse horror\u201d, destacou.<\/p>\n<p>Para Fern\u00e1ndez, este caso \u201cnos desperta da letargia, nos sacode a fibra mais \u00edntima porque pessoalmente todos somos filhos, pais ou av\u00f3s, e no social compartilhamos uma mesma hist\u00f3ria, e isso, como o sangue ou DNA, n\u00e3o se apaga, permanece ali latente at\u00e9 que um fato surpreendente nos coloca diante dessa identidade comum, que tampouco pode ser discutida ou arrebatada\u201d.<\/p>\n<p>A psic\u00f3loga e jornalista Liliana Helder afirmou na Televis\u00e3o P\u00fablica Argentina que ap\u00f3s outros genoc\u00eddios hist\u00f3ricos, como dos judeus e arm\u00eanios, h\u00e1 estudos mostrando que \u201cduas ou tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es depois vivem as consequ\u00eancias daquilo, que ficou inconcluso. O aparecimento de cada neto \u00e9 um pouco de b\u00e1lsamo na ferida\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Mas uma hist\u00f3ria como a de Carlotto e Guido, que termina como o final feliz de um filme, no qual a av\u00f3 de 83 anos finalmente pode abra\u00e7ar o neto arrebatado antes de morrer, nada melhor do que deixar o protagonista explicar.<\/p>\n<p>\u201cSe apedrejando o poeta acredita-se matar a mem\u00f3ria, que mais resta a esta terra que vai perdendo sua hist\u00f3ria\u201d, diz em sua composi\u00e7\u00e3o <em>Para a Mem\u00f3ria<\/em> o at\u00e9 agora Ignacio Hurban, que em outro roteiro cinematogr\u00e1fico, h\u00e1 dois anos participou do ciclo <em>M\u00fasica Pela Identidade<\/em>, organizado pela Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio.<\/p>\n<p>\u201cO exerc\u00edcio de n\u00e3o esquecer nos dar\u00e1 a possibilidade de n\u00e3o repetir\u201d, diz outra estrofe da can\u00e7\u00e3o do agora Guido Montoya Carlotto, composta quando ainda desconhecia sua verdadeira identidade e antes de passar a simbolizar a recupera\u00e7\u00e3o da identidade de seu pa\u00eds. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, Argentina, 11\/8\/2014 &ndash; A recupera&ccedil;&atilde;o do &ldquo;neto 114&rdquo;, de filhos de desaparecidos durante a ditadura militar na Argentina, causou uma como&ccedil;&atilde;o coletiva que muitos compararam &agrave; disputa da final da Copa do Mundo realizada h&aacute; um m&ecirc;s. 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