{"id":17806,"date":"2014-08-14T13:21:43","date_gmt":"2014-08-14T13:21:43","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=118859"},"modified":"2014-08-14T13:21:43","modified_gmt":"2014-08-14T13:21:43","slug":"as-tarefas-do-cuidado-aumentam-a-carga-das-cubanas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/08\/ultimas-noticias\/as-tarefas-do-cuidado-aumentam-a-carga-das-cubanas\/","title":{"rendered":"As tarefas do cuidado aumentam a carga das cubanas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_118861\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Cuba-chica-629x449.jpg\"><img class=\"wp-image-118861\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/08\/Cuba-chica-629x449.jpg\" alt=\"Cuba chica 629x449 As tarefas do cuidado aumentam a carga das cubanas\" width=\"529\" height=\"378\" title=\"As tarefas do cuidado aumentam a carga das cubanas\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Mulheres compram alimentos em uma feira agropecu\u00e1ria no bairro Playa, em Havana. Sobre elas recaem mais de 98% do trabalho dom\u00e9stico e o cuidado familiar n\u00e3o remunerado nas fam\u00edlias cubanas. Foto: Jorge Luis Ba\u00f1os\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Havana, Cuba, 14\/8\/2014 \u2013 A cubana Hortensia Ram\u00edrez sente que suas m\u00e3os devem se multiplicar quando divide a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sua m\u00e3e de 78 anos, que sofre de arteriosclerose, com os afazeres do lar e a confec\u00e7\u00e3o de doces caseiros para o sustento familiar. Seu dia come\u00e7a \u00e0s seis da manh\u00e3, lavando a roupa molhada durante a noite por sua m\u00e3e, ao mesmo tempo em que prepara a massa dos doces e o almo\u00e7o dos dois filhos, um estudante do segundo grau e outro de inform\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 dois anos deixei meu trabalho como enfermeira porque minha m\u00e3e n\u00e3o podia ficar sozinha e, apesar de ter um irm\u00e3o que ajuda nas despesas, a aten\u00e7\u00e3o di\u00e1ria \u00e9 minha responsabilidade\u201d, contou \u00e0 IPS Hortensia, de 57 anos, que se separou de seu segundo marido pouco antes de sua m\u00e3e come\u00e7ar a precisar de cuidado cont\u00ednuo. \u201cDesde ent\u00e3o minha vida se resume em atend\u00ea-la, mas cada vez \u00e9 mais complicado conseguir comida, rem\u00e9dios e nem pensar em fraldas descart\u00e1veis por causa da minha renda limitada. Enfim, acabo muito esgotada\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Como a maioria das cubanas de idade m\u00e9dia, Hortensia carrega nos ombros as responsabilidades dom\u00e9sticas e de cuidado familiar, intensificadas por car\u00eancias econ\u00f4micas ap\u00f3s mais de 20 anos de crise neste pa\u00eds caribenho de governo socialista. Esta fun\u00e7\u00e3o tradicional do cuidado apresenta iniquidades de g\u00eanero e as deixa vulner\u00e1veis diante das reformas empreendidas pelo governo de Ra\u00fal Castro desde 2008 para buscar efici\u00eancia econ\u00f4mica e produtividade, sem acompanhamento de reajustes salariais.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o do n\u00famero de escolas onde estudantes combinam aprendizado e trabalho em regime interno e na \u00e1rea rural, o fechamento de restaurantes para trabalhadores e os cortes no or\u00e7amento da assist\u00eancia social deixam sozinhas as fam\u00edlias diante de tarefas que antes eram compartilhadas com o Estado e afetam, sobretudo, a metade feminina dos 11,2 milh\u00f5es de habitantes do pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u201cO Estado est\u00e1 passando uma parte da carga do cuidado e da aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o para as fam\u00edlias, mas o desenvolvimento econ\u00f4mico obrigatoriamente deve olhar a contribui\u00e7\u00e3o de entornos familiares\u201d, apontou \u00e0 IPS a economista Teresa Lara. Se ningu\u00e9m cozinha, garante a higiene coletiva, apoia o ensino ou atende os idosos e enfermos, a for\u00e7a de trabalho n\u00e3o se reproduz, disse a especialista.<\/p>\n<p>Entretanto, essas tarefas, quase sempre a cargo das mulheres, permanecem invis\u00edveis e sem remunera\u00e7\u00e3o. Quando contam suas atividades cotidianas no lar, as cubanas dedicam 71% de suas horas de trabalho aos afazeres dom\u00e9sticos n\u00e3o remunerados, segundo demonstrou a \u00fanica Pesquisa do Uso do Tempo j\u00e1 divulgada, que em 2002 realizou a Oficina Nacional de Estat\u00edsticas.<\/p>\n<p>A pesquisa, com resultados que continuam vigentes atualmente segundo especialistas, mostra que, para cada cem horas de trabalho masculino, as mulheres ocupavam 120, muitas delas realizando atividades simult\u00e2neas, como cozinhar, limpar, lavar e cuidar das crian\u00e7as.<\/p>\n<p>Estimativas de Lara a partir dessas tend\u00eancias estabelecem que a contribui\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os dom\u00e9sticos e de cuidado n\u00e3o remunerados ao Produto Interno Bruto (PIB) nacional foi de quase 20%, superior \u00e0 ind\u00fastria manufatureira. Na atualidade, esses valores podem ser mais elevados devido \u00e0 complexidade da vida cotidiana, pontuou a economista.<\/p>\n<p>Sem lavanderias, tinturarias, ind\u00fastrias ou outros servi\u00e7os de apoio \u00e0 fam\u00edlia a pre\u00e7os acess\u00edveis, as fam\u00edlias cubanas devem redobrar os esfor\u00e7os para cobrir a necessidades dom\u00e9sticas sem grandes gastos. A isto se soma a deteriora\u00e7\u00e3o dos asilos para idosos, das creches estatais e a redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento para a assist\u00eancia social, que passou de US$ 656,2 milh\u00f5es em 2008 para US$ 262,9 milh\u00f5es em 2013, segundo o Escrit\u00f3rio Nacional de Estat\u00edsticas e Informa\u00e7\u00e3o (Onei).<\/p>\n<p>Prescindir de cargos com maior hierarquia ou abandonar o emprego remunerado s\u00e3o algumas das consequ\u00eancias desse panorama para as cuidadoras. Muitas est\u00e3o diante do conflito de conciliar cuidado e subsist\u00eancia, em um pa\u00eds onde o sal\u00e1rio m\u00e9dio mensal pouco supera os US$ 20, e o gasto m\u00ednimo cotidiano em uma fam\u00edlia pode triplicar esse valor, mesmo com subs\u00eddios estatais de alguns alimentos e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>Segundo a Onei, a taxa de desocupa\u00e7\u00e3o feminina aumentou de 2% em 2008 para 3,5% no ano passado, em paralelo \u00e0s demiss\u00f5es projetadas pelo governo, que proximamente poder\u00e3o somar um milh\u00e3o de desempregados. O incentivo do trabalho por conta pr\u00f3pria ou as atividades econ\u00f4micas informais dentro do lar s\u00e3o uma alternativa, mas nem sempre garantem a seguran\u00e7a social. Tampouco aproveitam a experi\u00eancia feminina acumulada por ser mais de 66% da for\u00e7a profissional e t\u00e9cnica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A soci\u00f3loga Magela Romero acredita que o papel social de cuidadoras \u00e9 violento para as mulheres, porque expressa rela\u00e7\u00f5es de poder desiguais entre os g\u00eaneros, com sequelas econ\u00f4micas, emocionais, sexuais e psicol\u00f3gicas para elas.<\/p>\n<p>Uma pesquisa qualitativa com 80 moradoras de Havana, realizada pela professora universit\u00e1ria em 2010, \u00e0 qual a IPS teve acesso, conclui que v\u00e1rias das entrevistadas viviam \u201co ciclo do cuidado sem fim\u201d: uma vez terminada a fase estudantil passam toda a vida atendendo filhos, pais, sogros, netos e maridos, entre outros familiares. Esta situa\u00e7\u00e3o se agrava em um pa\u00eds com tend\u00eancia ao envelhecimento, onde 18% das pessoas t\u00eam mais de 60 anos e vivem em 40% das fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A contadora Adriana D\u00edaz sabe bem disso, ela que s\u00f3 p\u00f4de exercer sua profiss\u00e3o por menos de uma d\u00e9cada. \u201cPrimeiro chegaram os filhos e me dediquei a eles. Depois me divorciei e entrei no mercado de trabalho por quatro anos, os melhores anos da minha vida. Mas, quando minha m\u00e3e ficou gravemente doente, voltei a deixar o trabalho\u201d, contou \u00e0 IPS esta mulher de 54 anos. Quase nove anos entregue inteiramente a esta tarefa deixaram D\u00edaz com sequelas lombares e uma insufici\u00eancia card\u00edaca. E, para se sustentar, depende inteiramente de seus filhos, que partiram para o exterior.<\/p>\n<p>A pesquisadora social Mar\u00eda del Carmen Zabala considera que as brechas de g\u00eanero do cuidado familiar exigem pol\u00edticas que tratem de maneira particular as mulheres, de acordo com as atuais mudan\u00e7as do pa\u00eds. O aumento das fam\u00edlias chefiadas por mulheres chega a 45%, segundo o Censo de Popula\u00e7\u00e3o e Habita\u00e7\u00e3o de 2012, leva esta especialista a solicitar pol\u00edticas espec\u00edficas para as fam\u00edlias monoparentais femininas por serem as mais vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p><strong>Cubanas e emprego<\/strong><\/p>\n<p>- Em Cuba h\u00e1 6.976.100 pessoas em idade de trabalhar, entre elas 5.086.000 constituem a popula\u00e7\u00e3o ativa. As mulheres em idade profissional s\u00e3o 3.326.200, das quais 1.906.200 est\u00e3o empregadas.<\/p>\n<p>- As mulheres que trabalham no setor estatal se concentram fundamentalmente nos servi\u00e7os, onde somam 1.071.400.<\/p>\n<p>- Mais de 31 mil cubanas s\u00e3o cooperativistas, 175.500 trabalham no setor privado e, destas, 73.300 s\u00e3o trabalhadoras por conta pr\u00f3pria.<\/p>\n<p>- Existem 1.854.753 pessoas dedicadas aos afazeres do lar, das quais 92% s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>- Das 67.664 desempregadas, 19.360 eram chefes de fam\u00edlia. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* Fontes: Anu\u00e1rio Estat\u00edstico 2013 do Escrit\u00f3rio Nacional de Estat\u00edsticas e Informa\u00e7\u00e3o e Censo de Popula\u00e7\u00e3o e Habita\u00e7\u00e3o 2012.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Havana, Cuba, 14\/8\/2014 &ndash; A cubana Hortensia Ram&iacute;rez sente que suas m&atilde;os devem se multiplicar quando divide a aten&ccedil;&atilde;o &agrave; sua m&atilde;e de 78 anos, que sofre de arteriosclerose, com os afazeres do lar e a confec&ccedil;&atilde;o de doces caseiros para o sustento familiar. 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