{"id":17915,"date":"2014-09-11T15:36:16","date_gmt":"2014-09-11T15:36:16","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=120903"},"modified":"2014-09-11T15:36:16","modified_gmt":"2014-09-11T15:36:16","slug":"maes-e-avos-hondurenhas-buscam-seus-desaparecidos-migrantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/09\/ultimas-noticias\/maes-e-avos-hondurenhas-buscam-seus-desaparecidos-migrantes\/","title":{"rendered":"M\u00e3es e av\u00f3s hondurenhas buscam seus desaparecidos migrantes"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_120905\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Honduras-madres-desaparecidos-pagina-629x470.jpg\"><img class=\"wp-image-120905\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Honduras-madres-desaparecidos-pagina-629x470.jpg\" alt=\"Honduras madres desaparecidos pagina 629x470 M\u00e3es e av\u00f3s hondurenhas buscam seus desaparecidos migrantes\" width=\"529\" height=\"395\" title=\"M\u00e3es e av\u00f3s hondurenhas buscam seus desaparecidos migrantes\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Rosa Nelly Santos arruma, na sede do Comit\u00ea de Familiares Migrantes de El Progresso, o lugar destinado a migrantes hondurenhos desaparecidos, uma esp\u00e9cie de altar para n\u00e3o esquec\u00ea-los. Foto: Thelma Mej\u00eda\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>El Progresso, Honduras, 11\/9\/2014 \u2013 S\u00e3o av\u00f3s, m\u00e3es e familiares dos migrantes que h\u00e1 14 anos, unidas pela dor e pela ang\u00fastia, formaram nesta cidade do norte de Honduras um comit\u00ea destinado \u00e0 busca de seus parentes desaparecidos na rota migrat\u00f3ria para os Estados Unidos. Agora o Comit\u00ea de Familiares Migrantes de El Progresso (Cofamipro) \u00e9 uma das organiza\u00e7\u00f5es defensoras de direitos humanos mais reconhecidas em Honduras.<\/p>\n<p>Desde seu surgimento, em 1999, apresentam nas tardes de domingo o programa <em>Abrindo Fronteiras<\/em>, transmitido pela R\u00e1dio Progresso, da cat\u00f3lica Companhia de Jesus em Honduras. Inicialmente o espa\u00e7o se chamava <em>Sem Fronteiras<\/em>, mas, na medida em que foi crescendo a atividade do comit\u00ea, \u201cdecidimos mudar para <em>Abrindo Fronteiras<\/em>, porque as abrimos e agora nos ouvem mais do que antes, n\u00e3o s\u00f3 os migrantes, como tamb\u00e9m os governos\u201d, disse \u00e0 IPS a sorridente Rose Nelly Santos, integrante do Cofamipro.<\/p>\n<p>No programa, elas fazem um trabalho social orientando os migrantes sobre como est\u00e3o as rotas, tocam m\u00fasica de seu gosto para anim\u00e1-los e fazem servi\u00e7o social para que possam enviar mensagens aos seus parentes em Honduras. Sua fundadora, Emeteria Mart\u00ednez, morreu h\u00e1 um ano, meses depois de conseguir localizar suas duas filhas, desaparecidas h\u00e1 21 anos.<\/p>\n<p>Encontrar seus familiares foi o motor que as uniu, recordou Santos. \u201cNascemos do nada, descobrindo que a dor de uma era a mesma da outra, nos reun\u00edamos na casa de uma companheira e assim fomos nos armando para sair \u00e0 rua em busca de nossos parentes\u201d, detalhou. Eram 20 no come\u00e7o, agora passam de 40.<\/p>\n<p>S\u00e3o mulheres simples e cheias de esperan\u00e7as, apesar da dor de n\u00e3o saber nada de seu familiar ou de enfrentar trag\u00e9dias t\u00e3o impactantes com a matan\u00e7a de Tamaulipas, no M\u00e9xico, h\u00e1 quatro anos, quando o cartel Los Zetas, uma organiza\u00e7\u00e3o criminosa desse pa\u00eds matou a queima-roupa 72 migrantes em uma fazenda na localidade de San Fernando, dos quais 21 eram hondurenhos.<\/p>\n<p>A matan\u00e7a de Tamaulipas mostrou a Honduras o outro lado da migra\u00e7\u00e3o, o lado do sofrimento, que vai al\u00e9m das remessas de dinheiro que chegam dos que conseguem alcan\u00e7ar a meta norte-americana. \u201cIsso foi como uma derrota para n\u00f3s, espera-se que seu filho v\u00e1 bem na rota migrat\u00f3ria, que cruze a fronteira, mas n\u00e3o que o devolvam em um caix\u00e3o massacrado. Isso \u00e9 muito forte\u201d, contou Santos, que, como outras companheiras do Cofamipro, levou assist\u00eancia e consolo aos familiares das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>O comit\u00ea foi formado por mulheres volunt\u00e1rias que perderam o medo do desconhecido e, h\u00e1 mais de uma d\u00e9cada, aderiram \u00e0s caravanas do migrante organizadas pela rede do Movimento de Migrantes Mesoamericanos e que anualmente, em setembro, percorre a rota do migrante em busca de seus parentes desaparecidos. Essa rota come\u00e7a na Guatemala e termina no norte do M\u00e9xico.<\/p>\n<p>\u201cNa primeira vez que fui \u00e0 caravana, h\u00e1 tr\u00eas anos, entendi o trabalho da minha m\u00e3e, aprendi com sua dor e tomei a decis\u00e3o de me dedicar inteiramente ao comit\u00ea\u201d, testemunhou \u00e0 IPS uma das filhas da falecida fundadora, Marcia Mart\u00ednez, de 44 anos. \u201cEu n\u00e3o tinha ideia do n\u00famero de m\u00e3es e parentes que participam dessa caravana, nem da travessia que minha m\u00e3e fazia. Percorrem todos os caminhos que o migrante atravessa, perguntam por eles com cartazes, buscam respostas que \u00e0s vezes nunca chegam ou chegam tarde. Quando encontramos um dos nossos, \u00e9 algo indescrit\u00edvel\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cCada vez que ouvia o La Bestia (o trem mexicano de carga usado pelos migrantes) sentia arrepios, porque ali descobri o quanto \u00e9 perigosa a rota do migrante, para os quais os trilhos do trem s\u00e3o sua almofada, dormem nas vias e quando est\u00e3o no teto dos vag\u00f5es esperam que parta, mas uns dormem de cansa\u00e7o e acabam caindo\u201d, disse Mart\u00ednez.<\/p>\n<p>O Cofamipro tem sua sede em um centro comercial da calorosa cidade de El Progresso, no norte do departamento de Yoro, a 242 quil\u00f4metros de Tegucigalpa. Antes estavam na sede dos jesu\u00edtas, mas, gra\u00e7as a pequenas doa\u00e7\u00f5es, conseguiram alugar um pequeno local onde chegam os que precisam de apoio para localizar familiares.<\/p>\n<p>Desde sua cria\u00e7\u00e3o, conseguiu documentar mais de 600 casos de desaparecimentos. Destes, mais de 150 foram encontrados. Os demais continuam sendo procurados, embora acreditem que muitos morreram no caminho ou ca\u00edram nas redes do tr\u00e1fico de pessoas. Inicialmente, o governo n\u00e3o reconhecia o comit\u00ea, mas seu trabalho nas caravanas mesoamericanas ajudou a serem ouvidas e poderem apresentar casos de migrantes desaparecidos junto \u00e0 Chancelaria. Em junho, finalmente, conseguiram o <em>status<\/em> de pessoa jur\u00eddica.<\/p>\n<p>Sua luta n\u00e3o foi f\u00e1cil. Funcion\u00e1rios hondurenhos as chamavam de \u201cvelhas loucas\u201d, quando h\u00e1 anos elas, sozinhas, marcharam at\u00e9 Tegucigalpa para pedir aten\u00e7\u00e3o por seus desaparecidos. A resposta foi uma can\u00e7\u00e3o que entoavam diante da Chancelaria e que Santos cantou orgulhosa: \u201cOs da Chancelaria nos chamam de mentirosas, somos mulheres decentes e provamos com fatos, o que exigimos aqui, fazemos com todo o direito\u201d.<\/p>\n<p>Seu trabalho firme e silencioso est\u00e1 salpicado de \u00eaxitos. Quando a IPS entrevistou um grupo delas, acabavam de salvar a vida, com seus contatos mexicanos, de um hondurenho, parente de um funcion\u00e1rio local de El Progresso. Um grupo criminoso o sequestrara e conseguiu mais de US$ 3 mil de seus familiares, antes que estes procurassem o Comit\u00ea, onde trataram de sua liberta\u00e7\u00e3o em uma opera\u00e7\u00e3o da Procuradoria mexicana.<\/p>\n<p>O grupo alertou para a atual crise migrat\u00f3ria h\u00e1 cinco anos, mas ningu\u00e9m ouviu. E assegura que os migrantes continuar\u00e3o fugindo do desemprego e da viol\u00eancia. Em El Progresso, uma das cinco principais cidades hondurenhas, s\u00e3o conhecidos casos de m\u00e3es que fugiram quando as gangues as avisaram que seus filhos seriam for\u00e7osamente recrutados quando tivessem idade para entrar na organiza\u00e7\u00e3o criminosa e, enquanto isso, dariam dinheiro para sustento e estudos da crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Estima-se que mais de um milh\u00e3o de hondurenhos emigraram para os Estados Unidos desde a d\u00e9cada de 1970, mas o \u00eaxodo disparou a partir de 1998. Desde abril, Washington intensificou a deporta\u00e7\u00e3o de fam\u00edlias com menores de idade e de pessoas adultas. As autoridades hondurenhas indicam que, nos sete primeiros meses deste ano, retornaram deportadas 56 mil pessoas, das quais 29 mil chegaram dos Estados Unidos por via a\u00e9rea e 27 mil do M\u00e9xico por via terrestre.<\/p>\n<p>Honduras tem 8,4 milh\u00f5es de habitantes e um \u00edndice de homic\u00eddios de 79 em cada cem mil, segundo dados oficiais. Em 2013, os emigrantes contribu\u00edram para a economia hondurenha com US$ 3,225 bilh\u00f5es em remessas, segundo o Banco Central, cerca de 15% do produto interno bruto.<\/p>\n<p>Para o Cofamipro, a crise migrat\u00f3ria deve servir aos governos para revisar suas pol\u00edticas p\u00fablicas e deixar de estigmatizar e criminalizar os migrantes, porque \u201cn\u00e3o s\u00e3o delinquentes, s\u00e3o trabalhadores internacionais\u201d, definiu Santos com firmeza. Ela tem, ao menos, o consolo de ter encontrado h\u00e1 quatro anos o sobrinho que procurava. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; El Progresso, Honduras, 11\/9\/2014 &ndash; S&atilde;o av&oacute;s, m&atilde;es e familiares dos migrantes que h&aacute; 14 anos, unidas pela dor e pela ang&uacute;stia, formaram nesta cidade do norte de Honduras um comit&ecirc; destinado &agrave; busca de seus parentes desaparecidos na rota migrat&oacute;ria para os Estados Unidos. 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