{"id":17925,"date":"2014-09-16T17:53:54","date_gmt":"2014-09-16T17:53:54","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=121133"},"modified":"2014-09-16T17:53:54","modified_gmt":"2014-09-16T17:53:54","slug":"o-eterno-retorno-para-o-nada-dos-migrantes-afegaos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/09\/ultimas-noticias\/o-eterno-retorno-para-o-nada-dos-migrantes-afegaos\/","title":{"rendered":"O eterno retorno para o nada dos migrantes afeg\u00e3os"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_121135\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/afganistan-chica-629x419.jpg\"><img class=\"wp-image-121135\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/afganistan-chica-629x419.jpg\" alt=\"afganistan chica 629x419 O eterno retorno para o nada dos migrantes afeg\u00e3os\" width=\"529\" height=\"352\" title=\"O eterno retorno para o nada dos migrantes afeg\u00e3os\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Migrantes afeg\u00e3os caminham pelo acostamento, ap\u00f3s voltarem deportados do Ir\u00e3, no posto fronteiri\u00e7o de Zaranj, na remota prov\u00edncia de Nimroz. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Zaranj, Afeganist\u00e3o, 16\/9\/2014 \u2013 \u201cClaro que estou assustado, mas que outra coisa posso fazer?\u201d, disse Ahmed em um pequeno hotel nos confins do Afeganist\u00e3o. Disseram para que esperasse ali. Ele se dirige ao Ir\u00e3, mas n\u00e3o sabe como nem quando cruzar\u00e1 a fronteira. Ahmed tem 40 anos mas aparenta ter 15 a mais. Diz que n\u00e3o encontra forma de alimentar seus sete filhos em sua Bamiyan natal, 130 quil\u00f4metros a noroeste de Cabul. Ser analfabeto em nada ajuda para encontrar um trabalho.<\/p>\n<p>\u201cMorremos de fome, literalmente\u201d, afirmou esse campon\u00eas sentado sobre o tapete em que descansar\u00e1 at\u00e9 que os contrabandistas venham busc\u00e1-lo. N\u00e3o demorar\u00e3o muito. \u201cNunca se passa mais de dois dias aqui\u201d, disse \u00e0 IPS o propriet\u00e1rio da hospedagem, Hassan, que preferiu n\u00e3o dar seu nome completo. \u201cS\u00e3o colocados na ca\u00e7amba de uma caminhonete e levados at\u00e9 o Paquist\u00e3o. Depois t\u00eam de caminhar atrav\u00e9s do deserto durante um dia at\u00e9 chegar ao Ir\u00e3. Muitos ficam pelo caminho\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>E Hassan fala com conhecimento de causa, pois \u00e9 ele quem faz a media\u00e7\u00e3o entre seus h\u00f3spedes e os contrabandistas. Ahmed n\u00e3o passa de outro cliente, em um hotel a mais entre a mir\u00edade de estabelecimentos semelhantes concentrados ao redor da central pra\u00e7a de Naqsha (mapa, no idioma dari), em Zaranj, 800 quil\u00f4metros a sudoeste de Cabul. A cidade \u00e9 a capital da remota prov\u00edncia de Nimroz, a \u00fanica do Afeganist\u00e3o que faz fronteira com Ir\u00e3 e Paquist\u00e3o.<\/p>\n<p>A pra\u00e7a de Naqsha \u2013 assim chamada por um mapa gigante do Afeganist\u00e3o pendurado sobre um pedestal \u2013 \u00e9 a \u00faltima parada antes de uma viagem que, no melhor dos casos, ser\u00e1 lembrada como um pesadelo. A cada dia milhares de afeg\u00e3os colocam suas vidas nas m\u00e3os de m\u00e1fias que se oferecem para ajud\u00e1-los a cruzar a fronteira e deixar para tr\u00e1s um pa\u00eds que continua afundado no caos, 13 anos depois da invas\u00e3o de 2001.<\/p>\n<p>Segundo o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados (Acnur), o Afeganist\u00e3o, depois de S\u00edria e R\u00fassia, \u00e9 o pa\u00eds do mundo com mais solicita\u00e7\u00f5es de asilo.<\/p>\n<p><strong>Ponto zero<\/strong><\/p>\n<p>A pra\u00e7a fica a apenas dois quil\u00f4metros da passagem oficial da fronteira com o Ir\u00e3. Naturalmente, n\u00e3o \u00e9 a rota de ida para Ahmed, mas pode ser a de volta. Bem ao lado da ponte sobre o rio Helmand, a \u201cterra de ningu\u00e9m\u201d entre os dois pa\u00edses, fica o \u201cponto zero\u201d, o lugar onde s\u00e3o registrados todos os afeg\u00e3os que retornam deportados ou por vontade pr\u00f3pria do outro lado da fronteira.<\/p>\n<p>Ainda n\u00e3o eram cinco horas da tarde e o n\u00famero j\u00e1 estava perto dos 500. \u201cHoje registramos 259 deportados e outros 211 que voltaram por vontade pr\u00f3pria\u201d, explicou \u00e0 IPS o chefe da equipe do Diret\u00f3rio para Refugiados e Retornados no \u201cponto zero\u201d, Mirwais Arab. \u201cDentre eles s\u00f3 podemos atender as necessidades mais imediatas de 65; basicamente dar-lhes comida e abrigo na primeira noite e uma quantia em dinheiro para que possam voltar para casa\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>Devido ao baixo n\u00famero de atendimento, a maioria se limita a seguir seu caminho de volta depois que seus nomes s\u00e3o registrados. Caminham em fila, exaustos e cabisbaixos. E n\u00e3o \u00e9 algo ocasional, mas um fluxo constante de homens que arrastam uma profunda sensa\u00e7\u00e3o de derrota.<\/p>\n<p>Grande parte deles \u00e9 muito jovem, como os irm\u00e3os Jalil, de 21 e 22 anos. Eles contaram \u00e0 IPS que a viagem de ida, \u201ch\u00e1 seis dias\u201d, foi pelo Paquist\u00e3o e por uma travessia pelo deserto, e que tiveram de pagar metade de seu dinheiro a um grupo de talib\u00e3s. A volta n\u00e3o foi muito melhor. \u201c\u00cdamos para Teer\u00e3, mas nos pegaram em Iranshar (a 1.500 quil\u00f4metros da capital iraniana). A pol\u00edcia nos bateu com cassetete e fios por todo o corpo, antes de nos colocar em um \u00f4nibus e nos devolver na fronteira\u201d, contou Abdul, o mais velho dos dois irm\u00e3os, no acostamento da estrada, bem na entrada sul de Zaranj.<\/p>\n<p>O caso dos Arifi \u00e9 ainda mais dram\u00e1tico. Ap\u00f3s chegarem a Zaranj, vindos de Kunduz, no extremo norte do Afeganist\u00e3o, cruzaram a fronteira de forma ilegal pelas vias habituais. Eram cinco, mas apenas quatro voltaram, contou Ziaud. \u201cQuando nos encontraram, colocaram eu e meu irm\u00e3o Mohammed em um ve\u00edculo e meus pais em outro, mas ainda nada sabemos de nosso irm\u00e3o mais novo\u201d, contou esse adolescente que perdeu o irm\u00e3o de sete anos. \u201cMeu pai vai tentar voltar hoje mesmo para busc\u00e1-lo\u201d, acrescentou, em vis\u00edvel estado de choque.<\/p>\n<p>Najibullah Haideri, respons\u00e1vel pela Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (OIM) em Nimroz, detalhou \u00e0 IPS que o Ir\u00e3 deporta por m\u00eas uma m\u00e9dia de 600 homens e cerca de 200 fam\u00edlias. Por sua vez, Ahmadullah Noorzai, respons\u00e1vel pelo escrit\u00f3rio do Acnur em Zaranj, explicou que as deporta\u00e7\u00f5es est\u00e3o acontecendo h\u00e1 seis anos.<\/p>\n<p>Em um informe de 2013, a organiza\u00e7\u00e3o Human Rights Watch (HRW) denunciou abusos supostamente cometidos contra os imigrantes. Entre eles, a organiza\u00e7\u00e3o citou que os afeg\u00e3os s\u00e3o frequentemente detidos sob acusa\u00e7\u00f5es de furto ou tr\u00e1fico de drogas, ap\u00f3s terem negado seu direito a um advogado. Segundo a HRW, centenas deles teriam sido executados nos \u00faltimos anos sem que as autoridades em Cabul tivessem sido notificadas disso.<\/p>\n<p>\u201cObter um visto para o Ir\u00e3 custa 85 mil afganis (US$ 1,93 mil)\u201d, disse o encarregado de outro pequeno hotel em Zaranj que preferiu n\u00e3o se identificar. \u201cOs pre\u00e7os para fazer de forma ilegal come\u00e7am em torno de 25 mil afganis (US$ 533), mas sempre de acordo com o destino\u201d, acrescentou. Segundo esse hoteleiro, \u201cos mais caros s\u00e3o Teer\u00e3, Mashad e Esfahan (as maiores cidades afeg\u00e3s onde a oferta de emprego \u00e9 maior). Paga-se somente quando se chega ao destino escolhido, por isso os migrantes tentam mais de uma vez at\u00e9 conseguir, ou at\u00e9 serem mortos\u201d.<\/p>\n<p>Atr\u00e1s do hoteleiro, Hamidullah, de 43 anos, e seu filho Sameem, de 17, esperam a vez para conseguir uma vida melhor. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Zaranj, Afeganist&atilde;o, 16\/9\/2014 &ndash; &ldquo;Claro que estou assustado, mas que outra coisa posso fazer?&rdquo;, disse Ahmed em um pequeno hotel nos confins do Afeganist&atilde;o. Disseram para que esperasse ali. Ele se dirige ao Ir&atilde;, mas n&atilde;o sabe como nem quando cruzar&aacute; a fronteira. Ahmed tem 40 anos mas aparenta ter 15 a mais. Diz [&hellip;] <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/09\/ultimas-noticias\/o-eterno-retorno-para-o-nada-dos-migrantes-afegaos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":514,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[989,3178,1168],"class_list":["post-17925","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ultimas-noticias","tag-inter-press-service-reportagens","tag-ips","tag-migracao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17925","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/514"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17925"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17925\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17925"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17925"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17925"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}