{"id":17950,"date":"2014-09-25T16:50:25","date_gmt":"2014-09-25T16:50:25","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=121809"},"modified":"2014-09-25T16:50:25","modified_gmt":"2014-09-25T16:50:25","slug":"o-chile-enfrenta-sua-divida-com-o-direito-das-mulheres-ao-aborto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/09\/ultimas-noticias\/o-chile-enfrenta-sua-divida-com-o-direito-das-mulheres-ao-aborto\/","title":{"rendered":"O Chile enfrenta sua d\u00edvida com o direito das mulheres ao aborto"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_121811\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/chile-chica-629x416.jpg\"><img class=\"wp-image-121811\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/chile-chica-629x416.jpg\" alt=\"chile chica 629x416 O Chile enfrenta sua d\u00edvida com o direito das mulheres ao aborto\" width=\"529\" height=\"350\" title=\"O Chile enfrenta sua d\u00edvida com o direito das mulheres ao aborto\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Alicia \u00e9 uma das milh\u00f5es de mulheres chilenas for\u00e7adas a abortar de forma clandestina e insegura, porque em seu pa\u00eds pune-se a mulher que interrompe a gravidez em qualquer caso com at\u00e9 cinco anos de pris\u00e3o. Agora, o pa\u00eds avan\u00e7a para a legaliza\u00e7\u00e3o do aborto terap\u00eautico. Foto: Marianela Jarroud\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Santiago, Chile, 25\/9\/2014 \u2013 O Chile, um dos pa\u00edses mais conservadores da Am\u00e9rica Latina, se prepara para uma discuss\u00e3o sem precedentes sobre a despenaliza\u00e7\u00e3o do aborto terap\u00eautico, que deve ser aprovado este ano. Nesse pa\u00eds s\u00e3o praticados anualmente mais de 300 mil interrup\u00e7\u00f5es clandestinas da gravidez, em um flagelo que \u00e9 filho e pai de muitos outros dramas.<\/p>\n<p>\u201cO aborto no Chile \u00e9 como um neg\u00f3cio de drogas, cercado de ilegalidade e precariedade\u201d, disse \u00e0 IPS Alicia, de 27 anos, que h\u00e1 cinco fez um aborto. \u201cUma amiga me indicou um ginecologista. Eu o procurei e ele marcou dia, hora e o lugar para nos encontrarmos\u201d, explicou. \u201cMinha m\u00e3e me acompanhou. Em uma esquina qualquer da cidade, entrei em uma caminhonete que me levou sem rumo conhecido. Ainda recordo o rosto da minha m\u00e3e, a ang\u00fastia de n\u00e3o saber se eu voltaria e em que condi\u00e7\u00f5es\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cEm uma casa me esperava o m\u00e9dico e uma mulher, n\u00e3o sei se era uma parteira ou enfermeira. Me anestesiaram. Quando acordei tudo estava feito. Me colocaram na caminhonete e me devolveram \u00e0 minha m\u00e3e. Nunca mais falamos do assunto\u201d, contou Alicia com uma sombra de tristeza no rosto.<\/p>\n<p>A legaliza\u00e7\u00e3o do aborto \u00e9 uma das grandes d\u00edvidas que o Estado chileno tem com as mulheres, disse \u00e0 IPS a presidente da Corporaci\u00f3n Humanas, Carolina Carrera. A legisla\u00e7\u00e3o chilena \u201caltamente punitiva\u201d constitui uma \u201cviola\u00e7\u00e3o aos direitos humanos das mulheres porque esse n\u00edvel de penaliza\u00e7\u00e3o faz com que as que abortam o fa\u00e7am em condi\u00e7\u00f5es insalubres, correndo riscos f\u00edsico e ps\u00edquico\u201d, afirmou, acrescentando que essa situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m potencializa o tr\u00e1fico de Misoprostol, medicamento utilizado para interromper a gravidez e que \u00e9 vendido muito caro sem receita m\u00e9dica.<\/p>\n<p>Claudia, de 24 anos, teve que ir a uma casa em um dos morros do porto de Valpara\u00edso, 140 quil\u00f4metros a noroeste de Santiago, para comprar esse medicamento e interromper uma gravidez indesejada. \u201cO lugar era perigoso. Tive que pagar US$ 600. Olhava em volta e pensava: e se algo acontecer comigo, chamo uma ambul\u00e2ncia ou a pol\u00edcia? N\u00e3o, vou embora rapidamente\u201d, recordou.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, uma regi\u00e3o onde o poder da Igreja Cat\u00f3lica segue muito alto, o aborto geralmente \u00e9 ilegal, embora os pa\u00edses, em sua maioria, o permitam em todos ou alguns casos sugeridos pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU): viola\u00e7\u00e3o, risco para a vida da m\u00e3e ou inviabilidade do feto.<\/p>\n<p>O Chile \u00e9 um dos sete pa\u00edses do mundo que pro\u00edbem o aborto em qualquer circunst\u00e2ncia. H\u00e1 outros quatro latino-americanos: El Salvador, Honduras, Nicar\u00e1gua e Rep\u00fablica Dominicana; e mais Malta e Vaticano no resto do mundo. O aborto terap\u00eautico foi legal no Chile por mais de 50 anos, at\u00e9 que a penaliza\u00e7\u00e3o absoluta foi imposta em 1989, no ocaso da ditadura militar (1973-1990). Os sucessivos governos democr\u00e1ticos n\u00e3o tocaram no assunto at\u00e9 agora. Desde ent\u00e3o, as penas para quem aborta chegam a cinco anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA frequ\u00eancia do aborto se manteve nos \u00faltimos dez anos no Chile. N\u00e3o diminu\u00edram os casos e tampouco houve grande varia\u00e7\u00e3o por idade: continuam sendo as mulheres entre 25 e 34 anos as que apresentam taxas maiores de aborto\u201d, detalhou \u00e0 IPS Ramiro Molina, do Centro de Medicina Reprodutiva e Desenvolvimento Integral do Adolescente, da Universidade do Chile.<\/p>\n<p>Segundo Molina, existem registros de apenas aproximadamente 33.500 entradas anuais de mulheres com complica\u00e7\u00f5es por um aborto, um n\u00famero \u201cmuito enganoso\u201d, pois contempla somente as que procuraram um centro de sa\u00fade p\u00fablico por uma emerg\u00eancia posterior. O m\u00e9dico explicou que a estimativa \u00e9 que o n\u00famero seja dez vezes maior, se forem somados os n\u00e3o registrados e que o n\u00famero real chegaria a 335 mil por ano.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina onde a legisla\u00e7\u00e3o \u00e9 restritiva, os abortos s\u00e3o praticados em condi\u00e7\u00f5es de alto risco para as mulheres, o que constitui um problema de sa\u00fade p\u00fablica e uma forma de desigualdade. \u201cO aborto \u00e9 um indicador socioecon\u00f4mico da pobreza\u201d, afirmou Molina.<\/p>\n<p>De acordo com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade, a cada ano s\u00e3o realizados no mundo 21,6 milh\u00f5es de abortos induzidos, feitos em condi\u00e7\u00f5es inseguras. Na Am\u00e9rica Latina, s\u00e3o 4,4 milh\u00f5es, dos quais 95% de forma clandestina, o que ocasionou 12% dos casos de mortalidade materna na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Molina, uma das principais refer\u00eancias da regi\u00e3o em sua \u00e1rea, assegurou que houve avan\u00e7os nas duas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u201cmas, muito lentos\u201d. Isso porque ainda prevalece a vis\u00e3o \u201cfilos\u00f3fica de cunho religioso\u201d que impede maiores avan\u00e7os. O m\u00e9dico destacou que Cuba, o Distrito Federal do M\u00e9xico e, desde 2012, o Uruguai, s\u00e3o os \u00fanicos lugares da Am\u00e9rica Latina em que se permite \u00e0 mulher exercer o direito de decidir sobre a interrup\u00e7\u00e3o da gravidez.<\/p>\n<p>No Chile, o governo de Michelle Bachelet, no poder desde mar\u00e7o, se prepara para iniciar a discuss\u00e3o do aborto terap\u00eautico para os tr\u00eas motivos sugeridos pela ONU. \u201cO aborto ser\u00e1 despenalizado este ano no Chile\u201d, reiterou. Em seu primeiro governo (2006-2010) Bachelet autorizou a distribui\u00e7\u00e3o gratuita do Levonogestrel, a p\u00edlula do dia seguinte, mas sua entrega segue subordinada \u00e0 ideologia dos prefeitos, respons\u00e1veis pelos centros prim\u00e1rios de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>Essa p\u00edlula chegou tarde para Francisco e Daniela. Quando ela entrava na universidade, \u201cficamos gr\u00e1vidos\u201d, contou ele \u00e0 IPS. Tiveram muitas d\u00favidas, viviam com seus pais e s\u00f3 ele trabalhava meio per\u00edodo. \u201cSentia que cortava a vida dela, seus sonhos, suas perspectivas\u201d, afirmou o jovem, que como p\u00f4de reuniu os US$ 600 para o aborto. Agora, aos 35 anos, s\u00e3o pais de uma menina, mas recordam do ocorrido como um trauma, \u201cpor ter sido clandestino, inseguro e injusto\u201d.<\/p>\n<p>Embora fa\u00e7a parte de seu programa de governo, o aborto ainda \u00e9 um tema tabu no Chile. Muitos temem as consequ\u00eancias pol\u00edticas nesse pa\u00eds de 17,8 milh\u00f5es de habitantes, onde mais de 65% da popula\u00e7\u00e3o se declara cat\u00f3lica.<\/p>\n<p><strong>Am\u00e9rica Latina, feudo do aborto ilegal<\/strong><\/p>\n<p>Quase 95% das latino-americanas vivem em pa\u00edses onde o aborto \u00e9 proibido ou muito restringido. Sua pr\u00e1tica \u00e9 punida de forma absoluta no Chile, El Salvador, Honduras, Nicar\u00e1gua e Rep\u00fablica Dominicana.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o impede que a taxa de abortos na regi\u00e3o ultrapasse a m\u00e9dia mundial, e os converte em procedimentos inseguros e clandestinos, como exemplifica a Rep\u00fablica Dominicana, onde em 2010 a vida passou a ser um direito constitucional desde a concep\u00e7\u00e3o. Mas ali s\u00e3o praticados 90 mil abortos por ano e se interrompe uma gravidez em cada quatro.<\/p>\n<p>No Brasil, Guatemala, Panam\u00e1, Paraguai e Venezuela o aborto \u00e9 permitido em caso de risco de vida da m\u00e3e, enquanto na Argentina, Bol\u00edvia, Costa Rica, Equador e Peru se soma a preserva\u00e7\u00e3o da sa\u00fade f\u00edsica da m\u00e3e e na Col\u00f4mbia tamb\u00e9m incorpora a sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>A viola\u00e7\u00e3o como motivo para o aborto s\u00f3 \u00e9 legal na Bol\u00edvia, Brasil, Equador, Col\u00f4mbia e Panam\u00e1. Nestes dois \u00faltimos tamb\u00e9m se somam a m\u00e1 forma\u00e7\u00e3o do feto, enquanto no Brasil o aborto pode ser feito quando o feto carece de parte do c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>A Guatemala \u00e9 exemplo dos efeitos da pr\u00e1tica clandestina. Das 65 mil mulheres que anualmente realizam um aborto nesse pa\u00eds, 21.500 precisam ser hospitalizadas por maus procedimentos. Na Argentina, onde um tribunal deve avaliar o aborto terap\u00eautico, h\u00e1 uma hospitaliza\u00e7\u00e3o para cada duas gravidezes interrompidas.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica s\u00f3 \u00e9 legal em Cuba e no Uruguai, onde o n\u00famero de abortos caiu notavelmente desde a legaliza\u00e7\u00e3o, em 2012. No M\u00e9xico tamb\u00e9m \u00e9 legal desde 2007 no Distrito Federal. Mas isso provocou uma contra-reforma interna e 17 de seus 31 Estados passaram a proibi-lo totalmente. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Santiago, Chile, 25\/9\/2014 &ndash; O Chile, um dos pa&iacute;ses mais conservadores da Am&eacute;rica Latina, se prepara para uma discuss&atilde;o sem precedentes sobre a despenaliza&ccedil;&atilde;o do aborto terap&ecirc;utico, que deve ser aprovado este ano. 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