{"id":17956,"date":"2014-09-26T15:17:34","date_gmt":"2014-09-26T15:17:34","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=121822"},"modified":"2014-09-26T15:17:34","modified_gmt":"2014-09-26T15:17:34","slug":"ips-e-seu-meio-seculo-de-luta-contra-o-subdesenvolvimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/09\/ultimas-noticias\/ips-e-seu-meio-seculo-de-luta-contra-o-subdesenvolvimento\/","title":{"rendered":"IPS e seu meio s\u00e9culo de luta contra o subdesenvolvimento"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_121825\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/640px-NAM_Members_svg-629x323.png\"><img class=\"wp-image-121825\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/640px-NAM_Members_svg-629x323.png\" alt=\"640px NAM Members svg 629x323 IPS e seu meio s\u00e9culo de luta contra o subdesenvolvimento\" width=\"529\" height=\"272\" title=\"IPS e seu meio s\u00e9culo de luta contra o subdesenvolvimento\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Membros do Movimento de Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados. Em azul claro se distinguem os pa\u00edses observadores. Foto: Ichwan Palongeng\/Creative Commons<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Roma, It\u00e1lia, setembro\/2014 \u2013 A ideia de criar a IPS nasceu no in\u00edcio dos anos 1960, como consequ\u00eancia da constata\u00e7\u00e3o de um vazio, em duas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>Primeiro, um grande desequil\u00edbrio informativo mundial: um universo noticioso concentrado nos maiores pa\u00edses industrializados e manejado por poucas e grandes ag\u00eancias e servi\u00e7os de difus\u00e3o do Norte industrial.<\/p>\n<p>Do lado oposto, falta de informa\u00e7\u00e3o sobre os pa\u00edses n\u00e3o desenvolvidos do Sul e n\u00e3o s\u00f3 do Sul. Quase nenhuma informa\u00e7\u00e3o sobre suas realidades pol\u00edticas, econ\u00f4micas e sociais, salvo quando ocorria algum desastre natural, e inclusive muitas das poucas informa\u00e7\u00f5es estavam repletas de preconceitos culturais sobre esses pa\u00edses. Resumindo, pouca imagem e m\u00e1 imagem.<\/p>\n<p>Segundo, a escassez em geral, de an\u00e1lises e enfoques sobre os processos por tr\u00e1s das not\u00edcias e a escassez de g\u00eaneros jornal\u00edsticos nas ag\u00eancias, como reportagens especiais, an\u00e1lises, artigos de opini\u00e3o e jornalismo investigativo.<\/p>\n<p>As ag\u00eancias se dedicavam principalmente \u00e0s <em>spot news<\/em> (not\u00edcias imediatas), \u00e0s meras not\u00edcias com escasso contexto. \u00c9 claro que esse g\u00eanero jornal\u00edstico n\u00e3o d\u00e1 lugar para os temas vinculados com o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Se, por exemplo, se fala de uma epidemia, ou mesmo de uma cat\u00e1strofe em um pa\u00eds do Terceiro Mundo, as <em>spot news<\/em> se limitam a descrever os fatos, transmitir as imagens e focar na assist\u00eancia internacional.<\/p>\n<p>Geralmente, n\u00e3o procuram identificar as causas que fazem com que as doen\u00e7as desaparecidas ou completamente controladas no Norte possam gerar terr\u00edveis pandemias em alguns dos pa\u00edses menos desenvolvidos, ou que um terremoto de maior intensidade na cidade norte-americana de Los Angeles ou no Jap\u00e3o cause muito menos mortes e destrui\u00e7\u00e3o do que um de menor intensidade no Haiti.<\/p>\n<p>Esse tipo de tratamento superficial e parcial ainda predomina na informa\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o contextualizada e anal\u00edtica era encontrada em grande parte nos jornais ao estilo anglo-sax\u00f5es, nas chamadas p\u00e1ginas de opini\u00e3o. Mas os artigos de fundo e as an\u00e1lises das p\u00e1ginas de opini\u00e3o se concentravam nos pa\u00edses do Norte, focados nos interesses do Norte.<\/p>\n<p>Com rela\u00e7\u00e3o aos anos 1960, esse tipo de artigo aumentou nitidamente, mas continua prevalecendo o enfoque do Norte.<\/p>\n<p>Este tipo de jornalismo vertical era funcional aos interesses dos pa\u00edses industrializados e, portanto, se orientava a prolongar e estender sua domina\u00e7\u00e3o mundial e a subordina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses n\u00e3o industrializados e exportadores de mat\u00e9rias-primas, sem ou com escasso valor agregado.<\/p>\n<p>Essa estrutura concentrada e desigual da informa\u00e7\u00e3o mundial afeta os pa\u00edses em desenvolvimento. Como exemplo, devido \u00e0 imagem criada pela escassa e distorcida informa\u00e7\u00e3o, era dif\u00edcil um empres\u00e1rio da ind\u00fastria em expans\u00e3o do Norte se decidir a instalar uma f\u00e1brica em pa\u00edses do Sul, sobre os quais pouco ou nada sabia, que presumia pouco civilizados e perigosos, carentes de economias externas, com inseguran\u00e7a jur\u00eddica, etc.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que poucos se arriscavam e os investimentos se concentravam sempre mais na dimens\u00e3o Norte-Norte, refor\u00e7ando o desenvolvimento nos pa\u00edses desenvolvidos e o subdesenvolvimento nos pa\u00edses subdesenvolvidos.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 1960, ao criarmos a IPS, nos propusemos a trabalhar para contribuir para corrigir essa imagem parcial, desigual e distorcida que as ag\u00eancias internacionais davam ao mundo de ent\u00e3o, cuja geografia pol\u00edtica e econ\u00f4mica era, certamente, bem diferente da atual.<\/p>\n<p>Dos pa\u00edses hoje emergentes se podia dizer o mesmo que a ir\u00f4nica e depreciadora frase que circulava sobre o Brasil: \u201c\u00c9 um pa\u00eds do futuro, e sempre ser\u00e1\u201d.<\/p>\n<p>Estava-se em meio ao processo de descoloniza\u00e7\u00e3o na \u00c1frica, \u00c1sia e Caribe. A Am\u00e9rica Latina era politicamente independente, mas economicamente dependente. Em 1961, nasce o Movimento dos Pa\u00edses N\u00e3o Alinhados.<\/p>\n<p>A IPS nunca se prop\u00f4s a apresentar uma imagem \u201cpositiva\u201d dos pa\u00edses do Sul, reduzindo ou ocultando os problemas reais, como a corrup\u00e7\u00e3o, mas a um enfoque objetivo que se integrasse \u00e0 informa\u00e7\u00e3o do Sul no universo informativo, com os pontos de vista e interesses do Sul.<\/p>\n<p>Isso significava um modo diferente de olhar o mundo e de fazer jornalismo, isto \u00e9, olh\u00e1-lo a partir da realidade do Sul e de seus problemas sociais e econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Vejamos um exemplo vinculado diretamente ao desenvolvimento.<\/p>\n<p>Os meios tradicionais de informa\u00e7\u00e3o costumam associar os aumentos dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas a sinais negativos: causadores de infla\u00e7\u00e3o, caros para os consumidores e as fam\u00edlias, respons\u00e1veis por distorcer a economia mundial.<\/p>\n<p>Claramente, esse ponto de vista \u00e9 o dos pa\u00edses industrializados, que importam mat\u00e9rias a baixo custo que transformam em manufaturas e assim podem expandir suas empresas e competir no mercado mundial.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favidas de que alguns aumentos fortes e repentinos de algumas mat\u00e9rias-primas podem causar problemas \u00e0 economia internacional e inclusive afetar as popula\u00e7\u00f5es de alguns pa\u00edses pobres que devem importar essas mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n<p>Mas o enfoque generalizado e constante contra os aumentos de pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas omite uma realidade: a estatisticamente comprovada deteriora\u00e7\u00e3o secular dos pre\u00e7os das mat\u00e9ria-prima em rela\u00e7\u00e3o aos pre\u00e7os das manufaturas, com exce\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo desde 1973.<\/p>\n<p>Portanto, a pol\u00edtica editorial da IPS consiste em fornecer informa\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises que mostrem como, sem pre\u00e7os justos e bem remunerados por suas mat\u00e9rias-primas, e sem um crescente valor agregado aos seus produtos agr\u00edcolas e minerais, os pa\u00edses exportadores de produtos b\u00e1sicos n\u00e3o poder\u00e3o superar o subdesenvolvimento e a pobreza.<\/p>\n<p>Muito mudou desde a d\u00e9cada de 1960 a geografia econ\u00f4mica e a pol\u00edtica mundial, e as novas tecnologias da comunica\u00e7\u00e3o produziram uma revolu\u00e7\u00e3o na m\u00eddia, como \u00e9 not\u00f3rio.<\/p>\n<p>Nesse contexto, muitos pesquisadores da comunica\u00e7\u00e3o reconheceram que a IPS contribui para incorporar um tipo de jornalismo mais anal\u00edtico e mais apropriado para focar e compreender processos econ\u00f4micos, sociais e pol\u00edticos, que simultaneamente contribuem para maior conhecimento da problem\u00e1tica dos pa\u00edses do Sul.<\/p>\n<p>O enfoque dos jornalistas dedicados aos temas de desenvolvimento implica, primeiramente, uma an\u00e1lise cr\u00edtica do conte\u00fado das not\u00edcias que circulam no espectro informativo.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, consiste em analisar os temas econ\u00f4micos e sociais, \u201cde outro ponto de vista\u201d: o dos setores sociais marginalizados ou oprimidos, o dos pa\u00edses pobres que n\u00e3o conseguem sair do subdesenvolvimento devido aos termos desfavor\u00e1veis do interc\u00e2mbio comercial, ao protecionismo agr\u00edcola ou por outras raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse outro olhar serve tamb\u00e9m para compreender como est\u00e3o conseguindo sair do subdesenvolvimento alguns pa\u00edses emergentes, que papel pode ter a coopera\u00e7\u00e3o internacional e se, para prestar ajuda ou fazer acordos bilaterais ou multilaterais, os pa\u00edses do Norte e as institui\u00e7\u00f5es internacionais que controlam exigem condicionamentos que, na realidade, perpetuam a situa\u00e7\u00e3o de desenvolvimento desigual.<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o apenas algumas importantes esferas nas quais se comprova um tratamento informativo desequilibrado e discriminat\u00f3rio.<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o \u00e9 que um jornalista especializado nos temas do desenvolvimento deve poder olhar e analisar a informa\u00e7\u00e3o e a realidade \u201cdo outro lado\u201d, que apesar da globaliza\u00e7\u00e3o e da revolu\u00e7\u00e3o nas comunica\u00e7\u00f5es continua sendo pouco conhecido e ocupa um espa\u00e7o marginal no universo informativo internacional.<\/p>\n<p>Se forem considerados os temas que mencionamos em sua total e verdadeira dimens\u00e3o e se os confrontarmos com as informa\u00e7\u00f5es e an\u00e1lises que diariamente nos oferecem os meios predominantes em quase todo o mundo \u2013 n\u00e3o s\u00f3 no Norte, mas tamb\u00e9m em muitos meios do Sul \u2013, salta \u00e0 vista a necessidade de uma informa\u00e7\u00e3o global e desinteressada que corrija o desequil\u00edbrio entre Norte e Sul. A esta tarefa \u00e1rdua e a esta meta ainda muito distante, a IPS dedica todos seus esfor\u00e7os h\u00e1 meio s\u00e9culo. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Pablo Piacentini <\/strong>\u00e9 cofundador da IPS e atual diretor do Servi\u00e7o de Colunistas da IPS.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Roma, It&aacute;lia, setembro\/2014 &ndash; A ideia de criar a IPS nasceu no in&iacute;cio dos anos 1960, como consequ&ecirc;ncia da constata&ccedil;&atilde;o de um vazio, em duas dimens&otilde;es. Primeiro, um grande desequil&iacute;brio informativo mundial: um universo noticioso concentrado nos maiores pa&iacute;ses industrializados e manejado por poucas e grandes ag&ecirc;ncias e servi&ccedil;os de difus&atilde;o do Norte industrial. 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