{"id":17957,"date":"2014-09-29T13:53:00","date_gmt":"2014-09-29T13:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=121918"},"modified":"2014-09-29T13:53:00","modified_gmt":"2014-09-29T13:53:00","slug":"viver-da-pena-no-afeganistao-e-escrever-o-que-outros-nao-sabem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/09\/ultimas-noticias\/viver-da-pena-no-afeganistao-e-escrever-o-que-outros-nao-sabem\/","title":{"rendered":"Viver da pena no Afeganist\u00e3o e escrever o que outros n\u00e3o sabem"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_121920\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/ballpoint_pen-629x419.jpg\"><img class=\"wp-image-121920\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/ballpoint_pen-629x419.jpg\" alt=\"ballpoint pen 629x419 Viver da pena no Afeganist\u00e3o e escrever o que outros n\u00e3o sabem\" width=\"529\" height=\"352\" title=\"Viver da pena no Afeganist\u00e3o e escrever o que outros n\u00e3o sabem\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Mohamad Arif (direita), enquanto prepara um escrito em seu posto diante do pr\u00e9dio do Governo Provincial, na capital do Afeganist\u00e3o. Aos 70 anos, este coronel da reserva ganha a vida redigindo documentos e cartas para quem n\u00e3o sabe escrever. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Cabul, Afeganist\u00e3o, 29\/9\/2014 \u2013 Aos 70 anos, Mohamad Arif ganha a vida nas ruas de Cabul, redigindo todo tipo de documento para aqueles n\u00e3o sabem ler nem escrever, que s\u00e3o a grande maioria no Afeganist\u00e3o. \u201cFui coronel da For\u00e7a A\u00e9rea afeg\u00e3, mas a pens\u00e3o que recebo n\u00e3o d\u00e1 para sobreviver. S\u00f3 me resta continuar trabalhando, assim comecei a escrever h\u00e1 dez anos\u201d, disse \u00e0 IPS, em uma pausa entre dois clientes.<\/p>\n<p>Arif contou que tem dois filhos universit\u00e1rios e que sai de seu posto somente na sexta-feira, dia festivo para os mu\u00e7ulmanos. O resto da semana passa diante do pr\u00e9dio do Governo Provincial, no centro de Cabul. Ali tem seu guarda-sol e a bancada sobre a qual trabalha, material tamb\u00e9m imprescind\u00edvel para os demais escribas alinhados diante do muro de concreto que protege o edif\u00edcio governamental.<\/p>\n<p>\u201cTem quem pe\u00e7a para escrever uma carta para um parente, geralmente algu\u00e9m preso. Mas a maioria pede que ajudemos a preencher formul\u00e1rios para a administra\u00e7\u00e3o\u201d, explicou Arif, o mais antigo redator da rua, t\u00e3o logo termina seu \u00faltimo servi\u00e7o, referente a uma reclama\u00e7\u00e3o sobre uma heran\u00e7a familiar nunca recebida, pelo qual cobrou 50 afganis (US$ 0,80).<\/p>\n<p>Em seu Plano de A\u00e7\u00e3o para a Alfabetiza\u00e7\u00e3o Nacional do Afeganist\u00e3o, o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o apresenta dados t\u00e3o preocupantes como os 66% de afeg\u00e3os analfabetos, porcentagem que sobe para 82% no caso das mulheres.<\/p>\n<p>Aos 32 anos, Gul Karim tamb\u00e9m \u00e9 analfabeto, por isso a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 se aproximar dos escribas cada vez que precisa realizar algum tr\u00e2mite administrativo. Vendeu um autom\u00f3vel, mas n\u00e3o recebeu o dinheiro. \u201cMeus pais chegaram a Cabul vindos de Badakhshan (a nordeste da capital) quando eu era crian\u00e7a e n\u00e3o me mandaram \u00e0 escola por medo de as crian\u00e7as rirem de mim\u201d, disse \u00e0 IPS este jovem tayiko que se sente \u201cmuito velho\u201d para aprender a ler e escrever.<\/p>\n<div id=\"attachment_121922\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/ballpoint_pen2.jpg\"><img class=\"wp-image-121922\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/ballpoint_pen2.jpg\" alt=\"ballpoint pen2 Viver da pena no Afeganist\u00e3o e escrever o que outros n\u00e3o sabem\" width=\"540\" height=\"360\" title=\"Viver da pena no Afeganist\u00e3o e escrever o que outros n\u00e3o sabem\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Os redatores podem ganhar mais de um d\u00f3lar por documento que escrevem para os muitos afeg\u00e3os que n\u00e3o sabem ler nem escrever, em um pa\u00eds onde 66% da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 analfabeta, 82% no caso das mulheres. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os clientes como ele esperam apenas alguns minutos at\u00e9 serem atendidos. Os 15 escribas do lugar conhecem bem seu trabalho, mas, provavelmente, nenhum deles melhor do que Gulam Haydar. N\u00e3o em v\u00e3o, este homem de 65 anos trabalhou do outro lado do muro durante d\u00e9cadas. \u201cFui funcion\u00e1rio neste mesmo pr\u00e9dio at\u00e9 me aposentar, h\u00e1 oito anos, mas n\u00e3o podia ficar parado\u201d, contou \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Sua idade, acrescentou Haydar, n\u00e3o lhe permite fazer trabalho f\u00edsico, por isso essa alternativa constitui \u201cuma aut\u00eantica salva\u00e7\u00e3o\u201d. Os pre\u00e7os oscilam entre os que est\u00e3o aqui. Cobramos de 20 a 100 afganis (US$ 0,30 a US$ 1,70), dependendo do servi\u00e7o, afirmou. A renda mensal varia segundo o m\u00eas, mas que, em todo caso, a quantia \u00e9 \u201cbem superior\u201d aos US$ 203 mensais que recebe, em m\u00e9dia, um funcion\u00e1rio do governo afeg\u00e3o, pontuou.<\/p>\n<p>Ao seu lado, Shahab Shams, tamb\u00e9m escriba, concordou. \u201cIsso d\u00e1 exatamente para sobreviver e mandar meus filhos \u00e0 escola\u201d, disse este homem de 42 anos, que h\u00e1 13 trabalha nesse lugar. \u201cNo Afeganist\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 trabalho para ningu\u00e9m, mas muita corrup\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou. \u201cAqui se paga suborno por tudo: para obter passaporte ou qualquer outro documento, para matricular os filhos no col\u00e9gio, nos hospitais, nos pr\u00e9dios governamentais\u201d, denuncia esse diplomado em engenharia pela Universidade de Cabul, que nunca conseguiu exercer sua profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo um estudo do Alto Escrit\u00f3rio para Supervis\u00e3o e Anticorrup\u00e7\u00e3o, realizado em colabora\u00e7\u00e3o com as Na\u00e7\u00f5es Unidas, metade dos cidad\u00e3os afeg\u00e3os pagaram suborno em 2012. O informe estabelece que a corrup\u00e7\u00e3o se situa, junto com a falta de seguran\u00e7a e de trabalho, entre as tr\u00eas maiores preocupa\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Curiosamente, o estudo revela dados t\u00e3o surpreendentes como o que indica que 68% da popula\u00e7\u00e3o (contra 42% em 2009) v\u00ea com bons olhos um funcion\u00e1rio aceitar subornos para melhorar um sal\u00e1rio ex\u00edguo, ou que seja aceit\u00e1vel se contratar com base em la\u00e7os tribais ou familiares.<\/p>\n<p>Seja como for, Leyla Mohamad jamais poderia no passado optar por um posto na administra\u00e7\u00e3o. Mas hoje em dia n\u00e3o \u00e9 estranho encontrar mulheres atendendo o p\u00fablico, embora saber ler e escrever continue sendo um requisito b\u00e1sico. Debaixo de sua burka, ela explica \u00e0 IPS que quer escrever uma den\u00fancia ap\u00f3s uma agress\u00e3o de roubo sofrida em plena luz do dia e diante de seus tr\u00eas filhos, o maior de dez anos.<\/p>\n<p>\u201cCada dia registramos mais casos como esse\u201d, apontou Abdurrahman Sherzai \u00e0 IPS, ap\u00f3s preencher o formul\u00e1rio. Passamos muito tempo com o processo eleitoral e a economia ficou bloqueada porque muitas empresas dependiam de subven\u00e7\u00f5es governamentais. No final, o desespero leva alguns a assaltar as v\u00edtimas mais vulner\u00e1veis da sociedade\u201d, pontuou, antes de cobrar pelo \u00faltimo servi\u00e7o.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, com segundo turno realizado em 14 de junho, uma den\u00fancia de fraude for\u00e7ou uma recontagem dos votos. Mas, no dia 21 deste m\u00eas, foi anunciado que o pastun Ashraf Ghani ser\u00e1 o novo presidente do Afeganist\u00e3o e que seu advers\u00e1rio, o tayiko Abdullah Abdullah, ser\u00e1 o primeiro-ministro. Um acordo alcan\u00e7ado sem o conhecimento do resultado final das elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Ghulam Farooq Wardak, garantiu \u00e0 IPS que \u201cnada disso teria ocorrido se o Afeganist\u00e3o fosse um pa\u00eds completamente alfabetizado\u201d. Mas, acrescentou, \u201cconsidere que come\u00e7amos quase do zero, ou melhor, de 95% de analfabetismo h\u00e1 apenas 12 anos\u201d, se desculpou, em seu escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p>Os dados convidam ao otimismo. \u201cPassamos de apenas um milh\u00e3o de crian\u00e7as escolarizadas h\u00e1 12 anos para quase 13 milh\u00f5es; de 20 mil professores para mais de 200 mil\u201d, detalhou o ministro, convencido de que no pr\u00f3ximo ano a escolariza\u00e7\u00e3o ser\u00e1 completa para toda crian\u00e7a afeg\u00e3 em idade escolar. \u201cA alfabetiza\u00e7\u00e3o total do pa\u00eds ser\u00e1 uma realidade em 2020\u201d, ressaltou. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Cabul, Afeganist&atilde;o, 29\/9\/2014 &ndash; Aos 70 anos, Mohamad Arif ganha a vida nas ruas de Cabul, redigindo todo tipo de documento para aqueles n&atilde;o sabem ler nem escrever, que s&atilde;o a grande maioria no Afeganist&atilde;o. &ldquo;Fui coronel da For&ccedil;a A&eacute;rea afeg&atilde;, mas a pens&atilde;o que recebo n&atilde;o d&aacute; para sobreviver. 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