{"id":17960,"date":"2014-09-29T13:35:17","date_gmt":"2014-09-29T13:35:17","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=121906"},"modified":"2014-09-29T13:35:17","modified_gmt":"2014-09-29T13:35:17","slug":"por-que-e-para-que-o-estado-islamico-combate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/09\/ultimas-noticias\/por-que-e-para-que-o-estado-islamico-combate\/","title":{"rendered":"Por que e para que o Estado Isl\u00e2mico combate"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_121908\" style=\"width: 560px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Farhang-Jahanpour.jpg\"><img class=\"wp-image-121908\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/Farhang-Jahanpour.jpg\" alt=\"Farhang Jahanpour Por que e para que o Estado Isl\u00e2mico combate\" width=\"550\" height=\"366\" title=\"Por que e para que o Estado Isl\u00e2mico combate\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Farhang Jahanpour. Foto: IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Oxford, Gr\u00e3-Bretanha, setembro\/2014 \u2013 Quando surpreendentemente o Estado Isl\u00e2mico (EI) emergiu no cen\u00e1rio em 2013, e em poucos dias seus combatentes ocuparam extensos territ\u00f3rios habitados por sunitas no Iraque e na S\u00edria, at\u00e9 os servi\u00e7os de intelig\u00eancia ativos na regi\u00e3o tiveram que admitir seu desconhecimento sobre esse novo protagonista.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do Ocidente, no Oriente M\u00e9dio a religi\u00e3o ainda tem papel predominante na vida dos povos.<\/p>\n<p>Quando se fala de sunitas e xiitas, as diferen\u00e7as n\u00e3o s\u00e3o compar\u00e1veis \u00e0s que existem entre cat\u00f3licos e protestantes no Ocidente contempor\u00e2neo, sendo necess\u00e1rio retroceder \\ \u00e0s guerras de religi\u00e3o europeias (1524-1649), que est\u00e3o entre as mais brutais e sangrentas da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>Assim como a europeia Guerra dos 30 Anos (1618-1648) n\u00e3o teve somente origens religiosas, os conflitos entre sunitas e xiitas tamb\u00e9m obedecem a diversas motiva\u00e7\u00f5es, frequentemente exacerbadas pelas diferen\u00e7as religiosas.<\/p>\n<p>Desde que os Estados Unidos pressionaram os governos da Ar\u00e1bia Saudita e do Paquist\u00e3o para que, ap\u00f3s a invas\u00e3o sovi\u00e9tica do Afeganist\u00e3o em 1979, organizassem a contra-ofensiva dos jihadistas, passando pela emerg\u00eancia da Al Qaeda e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, seguindo\u00a0 pela invas\u00e3o do Afeganist\u00e3o em 2001 e do Iraque em 2003, e as a\u00e7\u00f5es militares no Paquist\u00e3o, I\u00eamen, Som\u00e1lia, L\u00edbia e S\u00edria, parece que Washington tem o efeito contr\u00e1rio do rei Midas: em cada crise que interv\u00eam com sua m\u00e3o tudo se converte em ru\u00ednas.<\/p>\n<p>Agora, com o levantamento do EI, antes conhecido como Isis, e outras organiza\u00e7\u00f5es terroristas, todo o Oriente M\u00e9dio est\u00e1 em chamas. Ningu\u00e9m deve cometer o erro garrafal de supor que se trata de um movimento local destinado a desaparecer, ou ignorar sua influ\u00eancia sobre multid\u00f5es de militantes sunitas marginalizados e desiludidos.<\/p>\n<p>Em raz\u00e3o de sua ideologia, seu fanatismo e sua crueldade, dos territ\u00f3rios que j\u00e1 ocupou, e de suas ambi\u00e7\u00f5es regionais e talvez globais, o EI configura a maior amea\u00e7a desde a Segunda Guerra Mundial. Tem o potencial de mudar o mapa do Oriente M\u00e9dio e desafiar os interesses ocidentais no golfo P\u00e9rsico ou Ar\u00e1bico, e mais al\u00e9m.<\/p>\n<p>Desde que o Isl\u00e3 apareceu nos desertos da Ar\u00e1bia, no s\u00e9culo 7, com sua mensagem monote\u00edsta e o lema \u201cN\u00e3o h\u00e1 outro Deus que n\u00e3o seja Al\u00e1 e Maom\u00e9 \u00e9 seu profeta\u201d, a condi\u00e7\u00e3o dos \u00e1rabes mudou e surgiu uma religi\u00e3o e uma civiliza\u00e7\u00e3o que hoje em dia tem cerca de 1,5 bilh\u00e3o de fi\u00e9is em todo o mundo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de outros profetas que n\u00e3o chegaram a ver em vida o \u00eaxito de sua miss\u00e3o, Maom\u00e9 n\u00e3o s\u00f3 conseguiu unir os \u00e1rabes na pen\u00ednsula ar\u00e1bica em nome do Isl\u00e3, como tamb\u00e9m criou um Estado e reinou sobre os convertidos ao Isl\u00e3 como governante e como profeta. Foi, assim, um caso \u00fanico na hist\u00f3ria das religi\u00f5es.<\/p>\n<p>Em consequ\u00eancia, enquanto as demais religi\u00f5es t\u00eam em mente um Estado ideal, o \u201creino de Deus\u201d, como uma aspira\u00e7\u00e3o futura, para os mu\u00e7ulmanos o Estado ideal est\u00e1 no passado, no governo de Maom\u00e9 na Ar\u00e1bia, na vida e nos ensinamentos do profeta.<\/p>\n<p>Quando, no bi\u00eanio 1516-1517, o ex\u00e9rcito do sult\u00e3o otomano Selim I conquistou S\u00edria, Palestina, Egito e Ar\u00e1bia com seus santu\u00e1rios, o sult\u00e3o assumiu o t\u00edtulo religioso de califa. Portanto, o imp\u00e9rio otomano foi por sua vez o califado sunita.<\/p>\n<p>A queda do imp\u00e9rio turco otomano e a aboli\u00e7\u00e3o do califado em 1922 n\u00e3o foram traum\u00e1ticas apenas no sentido pol\u00edtico e militar, j\u00e1 que ao mesmo tempo os sunitas perderam a m\u00e1xima autoridade religiosa com sua fun\u00e7\u00e3o unificadora.<\/p>\n<p>Para muitos ocidentais, \u00e9 dif\u00edcil compreender o sentimento de derrota e humilha\u00e7\u00e3o dos sunitas, como consequ\u00eancia das perdas sofridas no s\u00e9culo passado. Para se ter uma ideia, \u00e9 preciso imaginar a queda de um poderoso imp\u00e9rio crist\u00e3o multissecular junto com a aboli\u00e7\u00e3o do papado.<\/p>\n<p>Com o fim do califado, os pa\u00edses sunitas foram divididos e controlados por pot\u00eancias estrangeiras, que impuseram sua denomina\u00e7\u00e3o nos planos econ\u00f4mico, militar e cultural.<\/p>\n<p>Antes do colapso do imp\u00e9rio otomano, as pot\u00eancias ocidentais, e a Gr\u00e3-Bretanha em particular, haviam prometido aos \u00e1rabes que, em troca de pegarem em armas contra os turcos, lhes concederia a forma\u00e7\u00e3o de um califado isl\u00e2mico nas terras \u00e1rabes sujeitas ao imp\u00e9rio otomano.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tra\u00edrem essa promessa, Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha secretamente minaram o acordo Sykes-Picot (1916) para dividir as terras \u00e1rabes.<\/p>\n<p>E, em virtude da Declara\u00e7\u00e3o Balfour (1917), Londres ofereceu ao movimento sionista um territ\u00f3rio na Palestina que n\u00e3o era seu, para \u201cdar um lugar ao povo judeu\u201d.<\/p>\n<p>Quando terminou a era da coloniza\u00e7\u00e3o, em todo o Oriente M\u00e9dio ascenderam ao governo, mediante golpes de Estado, regimes de militares que haviam lutado contra a domina\u00e7\u00e3o estrangeira: o general Kemal Ataturk, na Turquia, o general Reza Khan, no Ir\u00e3, o coronel Gamal Abdel Naser, no Egito, e o coronel Muammar Gaddafi, na L\u00edbia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os golpes militares na S\u00edria e no Iraque, que sucessivamente levaram ao poder o partido Bath, com o general Hafez Al Asad, na S\u00edria, e o brigadeiro Abd al-Karim Qasim, o coronel Abdul Salam Arif e Saddam Hussein, no Iraque.<\/p>\n<p>Praticamente, todos os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio alcan\u00e7aram a independ\u00eancia mediante golpes de militares que ignoravam a bagagem hist\u00f3rica, cultural e religiosa de seus pr\u00f3prios pa\u00edses e eram completamente alheios ao conceito de democracia e de direitos humanos.<\/p>\n<p>Os governos castrenses conseguiram estabelecer certa ordem, \u00e0 ponta de baionetas.<\/p>\n<p>Diante da aus\u00eancia de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, de tradi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e de liberdades sociais, o \u00fanico caminho aberto para as massas desejosas de sacudir as ditaduras militares foi o de voltar \u00e0 religi\u00e3o e utilizar as mesquitas como seus quart\u00e9is.<\/p>\n<p>A apari\u00e7\u00e3o de movimentos religiosos como a Irmandade Mu\u00e7ulmana no Egito, a Ennahda na Tun\u00edsia, a Frente Isl\u00e2mica de Salva\u00e7\u00e3o na Arg\u00e9lia, Al Da\u2019wah no Iraque e outros, representou a maior amea\u00e7a para os regimes militares, que os reprimiram e proscreveram.<\/p>\n<p>A trag\u00e9dia dos modernos regimes do Oriente M\u00e9dio est\u00e1 em sua incapacidade de coexistirem com os movimentos isl\u00e2micos e, portanto, com os amplos estratos sociais que aqueles representavam.<\/p>\n<p>\u00c9 dessa forma que, ap\u00f3s repetidas derrotas e humilha\u00e7\u00f5es entre os militantes sunitas, especialmente entre os \u00e1rabes cujos pa\u00edses foram divididos e submetidos ao colonialismo ocidental e depois a ditaduras militares, foi crescendo a saudade do califado.<\/p>\n<p>Quando se pronuncia a palavra califado isl\u00e2mico, os sunitas comprometidos experimentam uma sacudida de adrenalina.<\/p>\n<p>O fracasso dos regimes militares e a marginaliza\u00e7\u00e3o e elimina\u00e7\u00e3o das agrupa\u00e7\u00f5es de inspira\u00e7\u00e3o religiosa desencadearam, agora, na irrup\u00e7\u00e3o de um movimento extremista.<\/p>\n<p>O grupo terrorista Estado Isl\u00e2mico se vale dessa situa\u00e7\u00e3o e baseia sua atra\u00e7\u00e3o na convoca\u00e7\u00e3o para o ressurgimento do califado. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p>* <strong><em>Farhang Jahanpour <\/em><\/strong><em>\u00e9 ex-professor e ex-decano da Faculdade de L\u00ednguas da Universidade de Isfahan, e h\u00e1 28 anos d\u00e1 aulas no Departamento de Educa\u00e7\u00e3o Permanente da Universidade de Oxford. <\/em><em>Editado por Pablo Piacentini<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Oxford, Gr&atilde;-Bretanha, setembro\/2014 &ndash; Quando surpreendentemente o Estado Isl&acirc;mico (EI) emergiu no cen&aacute;rio em 2013, e em poucos dias seus combatentes ocuparam extensos territ&oacute;rios habitados por sunitas no Iraque e na S&iacute;ria, at&eacute; os servi&ccedil;os de intelig&ecirc;ncia ativos na regi&atilde;o tiveram que admitir seu desconhecimento sobre esse novo protagonista. 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