{"id":17966,"date":"2014-10-01T13:49:27","date_gmt":"2014-10-01T13:49:27","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=122119"},"modified":"2014-10-01T13:49:27","modified_gmt":"2014-10-01T13:49:27","slug":"a-militarizacao-da-epidemia-de-ebola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/10\/ultimas-noticias\/a-militarizacao-da-epidemia-de-ebola\/","title":{"rendered":"A militariza\u00e7\u00e3o da epidemia de ebola"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_122121\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/usarmy.jpg\"><img class=\"wp-image-122121\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/usarmy.jpg\" alt=\"usarmy A militariza\u00e7\u00e3o da epidemia de ebola\" width=\"529\" height=\"325\" title=\"A militariza\u00e7\u00e3o da epidemia de ebola\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Os primeiros militares dos Estados Unidos em miss\u00e3o contra o ebola chegam \u00e0 Lib\u00e9ria. Foto: Ex\u00e9rcito dos Estados Unidos na \u00c1frica\/CC-BY-2.0<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Washington, Estados Unidos, 1\/10\/2014 \u2013 Seis meses depois do surgimento da atual epidemia de ebola na \u00c1frica ocidental, a comunidade internacional finalmente come\u00e7a a responder e a intervir na regi\u00e3o. No dia 16 do m\u00eas passado, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou uma multimilion\u00e1ria interven\u00e7\u00e3o de seu pa\u00eds para conter a expans\u00e3o da crise, que come\u00e7ou em mar\u00e7o de 2014 e j\u00e1 matou mais de tr\u00eas mil pessoas, principalmente na Guin\u00e9, Lib\u00e9ria e Serra Leoa.<\/p>\n<p>Os especialistas afirmam que esse n\u00famero aumentar\u00e1 rapidamente se a enfermidade n\u00e3o for contida. O an\u00fancio de Obama segue a crescente impaci\u00eancia internacional pelo que seus cr\u00edticos denominam a \u201cexasperante\u201d lentid\u00e3o da resposta de Washington ao foco. A assist\u00eancia m\u00e9dica avivou a controv\u00e9rsia, j\u00e1 que o pessoal sanit\u00e1rio estrangeiro recebeu uma aten\u00e7\u00e3o privilegiada em rela\u00e7\u00e3o aos africanos.<\/p>\n<p>Os mission\u00e1rios norte-americanos Kent Brantly e Nancy Writebol, infectados com o v\u00edrus, foram curados ap\u00f3s receberem Zmapp, um medicamento experimental. A controv\u00e9rsia surgiu quando se soube que a organiza\u00e7\u00e3o M\u00e9dicos Sem Fronteiras havia decidido n\u00e3o dar o rem\u00e9dio ao m\u00e9dico de Serra Leoa, Sheik Omar Khan, que morreu de ebola ap\u00f3s lutar contra a doen\u00e7a em seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade tamb\u00e9m se negou a evacuar o m\u00e9dico de Serra Leoa, Olivet Buck, que mais tarde morreu da doen\u00e7a. O Departamento de Defesa dos Estados Unidos provocou sua pr\u00f3pria controv\u00e9rsia quando anunciou que construiria um hospital de campo com capacidade para 25 leitos ao custo de US$ 22 milh\u00f5es. Supostamente apenas para os trabalhadores da sa\u00fade estrangeiros.<\/p>\n<p>O pacote de assist\u00eancia de Washington promete continuar com a pol\u00eamica, j\u00e1 que inclui o envio de tr\u00eas mil soldados norte-americanos \u00e0 Lib\u00e9ria, onde o Comando na \u00c1frica dos Estados Unidos (Africom) estabelecer\u00e1 uma base de opera\u00e7\u00f5es que funcionar\u00e1 como um centro de log\u00edstica e capacita\u00e7\u00e3o para a resposta m\u00e9dica. O blog pol\u00edtico Think Progress calcula que esse n\u00famero representa \u201cquase dois ter\u00e7os dos 4.800 efetivos do Africom\u201d, que se coordenar\u00e3o com as organiza\u00e7\u00f5es civis para distribuir suprimentos e construir um m\u00e1ximo de 17 centros de tratamento.<\/p>\n<p>N\u00e3o est\u00e1 claro se o pessoal sanit\u00e1rio dos Estados Unidos dar\u00e1 tratamento aos pacientes, mas a Casa Branca indicou que \u201cajudar\u00e1 a recrutar e organizar o pessoal m\u00e9dico\u201d que se encarregar\u00e1 dos centros e \u201cestabelecer\u00e1 um local para treinar um m\u00e1ximo de 500 profissionais por semana\u201d. Esta \u00faltima a\u00e7\u00e3o gera uma pergunta pr\u00e1tica: de onde ser\u00e3o recrutados esses aspirantes a trabalhadores da sa\u00fade?<\/p>\n<p>Segundo o governo de Obama, a interven\u00e7\u00e3o foi solicitada diretamente pela presidente liberiana, Ellen Johnson Sirleaf. Vale destacar que a Lib\u00e9ria foi o \u00fanico pa\u00eds africano que se ofereceu para alojar a sede do Africom em 2008, mas esta finalmente decidiu se instalar na Alemanha. Por\u00e9m, a interven\u00e7\u00e3o n\u00e3o foi bem recebida por todos na Lib\u00e9ria, que ainda est\u00e1 em processo de recupera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s d\u00e9cadas de guerra civil.<\/p>\n<p>Essa interven\u00e7\u00e3o provoca \u201cataques de ansiedade em cada liberiano com o qual falo\u201d, afirmou a escritora Stephanie C. Horton. \u201cSab\u00edamos que aconteceria, mas a sensa\u00e7\u00e3o de fatalidade iminente gera uma devasta\u00e7\u00e3o emocional\u201d, acrescentou. Poucas pessoas se oporiam a uma s\u00f3lida resposta dos Estados Unidos \u00e0 crise de ebola, mas a natureza militarizada do plano da Casa Branca se apresenta no contexto de uma militariza\u00e7\u00e3o mais extensa liderada por Washington na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os soldados na Lib\u00e9ria, no final das contas, n\u00e3o ser\u00e3o as \u00fanicas tropas dos Estados Unidos no continente africano. Nos seis anos de exist\u00eancia do Africom, a presen\u00e7a militar norte-americana se consolidou de maneira constante e em sil\u00eancio no continente, com bases de drones (avi\u00f5es n\u00e3o tripulados) e a colabora\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas locais.<\/p>\n<p>O novo <em>statu quo<\/em> se caracteriza por ataques a\u00e9reos com drones, a colabora\u00e7\u00e3o para treinar e equipar as for\u00e7as africanas, inclu\u00eddas aquelas com antecedentes problem\u00e1ticos em mat\u00e9ria de direitos humanos, miss\u00f5es de reconhecimento e opera\u00e7\u00f5es de treinamento multinacionais. Para consolidar as rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas de seus exerc\u00edcios militares, o Africom recorre a t\u00e1ticas de poder brando, como as p\u00e1ginas em redes sociais, confer\u00eancias acad\u00eamicas e programas humanit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Mas este humanitarismo militarizado, como a constru\u00e7\u00e3o de escolas e hospitais e as interven\u00e7\u00f5es diante do foco de doen\u00e7as, tamb\u00e9m tem um papel objetivo mais estrat\u00e9gico e pr\u00e1tico: permite ao pessoal militar treinar em novos contextos, acumular experi\u00eancia local e dados t\u00e1ticos, e construir rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com os pa\u00edses e as comunidades de acolhida.<\/p>\n<p>Nick Turse, jornalista do TomDispatch, reconhecido por seu trabalho sobre a militariza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica, disse que um informe do Departamento de Defesa dos Estados Unidos \u201cencontrou falhas no planejamento, na execu\u00e7\u00e3o, no acompanhamento e na documenta\u00e7\u00e3o desse tipo de projeto\u201d, o que gera grandes d\u00favidas sobre sua efic\u00e1cia.<\/p>\n<p>Fontes especialistas alertam que a presta\u00e7\u00e3o de assist\u00eancia humanit\u00e1ria por parte de soldados uniformizados pode ter consequ\u00eancias perigosas e desestabilizadoras, sobretudo em pa\u00edses com uma hist\u00f3ria de conflitos civis, como Lib\u00e9ria e Serra Leoa. Por exemplo, no come\u00e7o da epidemia, as for\u00e7as armadas da Lib\u00e9ria tentaram colocar em quarentena os habitantes de West Point, em Monr\u00f3via, o que provocou mortais enfrentamentos. A presen\u00e7a de tropas armadas estrangeiras poderia provocar incidentes semelhantes, temem fontes da sa\u00fade.<\/p>\n<p>A opera\u00e7\u00e3o de Washington na Lib\u00e9ria apresenta algumas interroga\u00e7\u00f5es. Ser\u00e3o utilizadas empresas militares na constru\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es e execu\u00e7\u00e3o dos programas? Os centros de tratamento constru\u00eddos pelos Estados Unidos ser\u00e3o tempor\u00e1rios ou permanentes? Tamb\u00e9m ser\u00e3o usados como laborat\u00f3rios de pesquisa? Qual \u00e9 o prazo para sair do pa\u00eds? A base de opera\u00e7\u00f5es na Lib\u00e9ria ser\u00e1 uma plataforma para atividades militares n\u00e3o relacionadas com o ebola?<\/p>\n<p>O uso de militares dos Estados Unidos nesta miss\u00e3o deve chamar a aten\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica norte-americana. Afinal, as for\u00e7as armadas serem a institui\u00e7\u00e3o estatal melhor equipada para lidar com o foco de ebola diz muito sobre o estado de abandono dos programas civis, nos Estados Unidos e no exterior. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Joeva Rock <\/strong>realiza seu doutorado no Departamento de Antropologia da Universidade Americana, em Washington, Estados Unidos, especializando-se nos legados coloniais na \u00c1frica ocidental. As opini\u00f5es expressas neste artigo s\u00e3o da autora e n\u00e3o representam necessariamente a opini\u00e3o da IPS, nem podem a esta ser atribu\u00eddos.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Washington, Estados Unidos, 1\/10\/2014 &ndash; Seis meses depois do surgimento da atual epidemia de ebola na &Aacute;frica ocidental, a comunidade internacional finalmente come&ccedil;a a responder e a intervir na regi&atilde;o. 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