{"id":17968,"date":"2014-10-03T12:58:08","date_gmt":"2014-10-03T12:58:08","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=122283"},"modified":"2014-10-03T12:58:08","modified_gmt":"2014-10-03T12:58:08","slug":"a-proxima-despensa-global-na-corda-bamba","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/10\/ultimas-noticias\/a-proxima-despensa-global-na-corda-bamba\/","title":{"rendered":"A pr\u00f3xima despensa global na corda bamba"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_122285\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/CampesinasIII_Regina_y_Natividad-629x472.jpg\"><img class=\"wp-image-122285\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/CampesinasIII_Regina_y_Natividad-629x472.jpg\" alt=\"CampesinasIII Regina y Natividad 629x472 A pr\u00f3xima despensa global na corda bamba\" width=\"529\" height=\"397\" title=\"A pr\u00f3xima despensa global na corda bamba\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Regina Illamarca e Natividad Pilco, duas ind\u00edgenas dos Andes do Peru, que, como muitas, s\u00e3o preservadoras das sementes nativas de sua regi\u00e3o. Foto: Milagros Salazar\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Montevid\u00e9u, Uruguai, 2\/10\/2014 \u2013 \u201cPodemos ser a \u00faltima gera\u00e7\u00e3o de latino-americanos e caribenhos a conviver com a fome\u201d, afirmou Ra\u00fal Ben\u00edtez, representante regional da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Alimenta\u00e7\u00e3o e a Agricultura (FAO). A afirma\u00e7\u00e3o mostra um lado da moeda: somente 4,6% da popula\u00e7\u00e3o regional est\u00e1 desnutrida, segundo dados fornecidos por esta ag\u00eancia da ONU no estudo O Estado da Inseguran\u00e7a Alimentar no Mundo 2014, divulgado em setembro.<\/p>\n<p>Com quase 600 milh\u00f5es de habitantes, Am\u00e9rica Latina e Caribe possuem um ter\u00e7o da \u00e1gua doce do planeta e mais de um quarto de suas terras agr\u00edcolas de m\u00e9dia e alta produtividade, diz um livro publicado este ano pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), em associa\u00e7\u00e3o com o Global Harvest Initiative, um centro de pensamento financiado pelo setor privado.<\/p>\n<p>\u00c9 a terceira maior regi\u00e3o em exporta\u00e7\u00e3o de alimentos, embora empregue apenas uma pequena parte de seu potencial agr\u00edcola, tanto para consumo interno como para o mercado exterior. Mas quase um quarto da popula\u00e7\u00e3o rural latino-americana ainda sobrevive com menos de US$ 2 por dia, e sua geografia \u00e9 determinante para os desastres (terremotos, furac\u00f5es, inunda\u00e7\u00f5es e secas), alguns exacerbados pela mudan\u00e7a clim\u00e1tica.<\/p>\n<p>O aquecimento global traz s\u00e9rios desafios para que a comunidade internacional alcance a meta de erradicar a pobreza e a fome. As mudan\u00e7as nos regimes de chuvas, nos solos e nas temperaturas j\u00e1 est\u00e3o afetando os sistemas agr\u00edcolas. Mais de 800 milh\u00f5es de pessoas de todo o mundo sofrem hoje o risco da fome. Por seus efeitos nas colheitas e nos meios de vida, a mudan\u00e7a clim\u00e1tica pode ampliar esse flagelo em 20% at\u00e9 2050, afirma um documento da ONU.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es de temperaturas e precipita\u00e7\u00f5es poderiam encarecer os pre\u00e7os dos alimentos entre 3% e 84% at\u00e9 2050. A organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria Oxfam afirma que nos cen\u00e1rios mais extremos o calor e a falta de \u00e1gua poderiam reduzir as colheitas em 25% entre 2030 e 2049. \u00c9 prov\u00e1vel que a mudan\u00e7a clim\u00e1tica seja mais nociva para os pequenos produtores e familiares que, nessa regi\u00e3o, produzem mais da metade dos alimentos e n\u00e3o t\u00eam recursos suficientes para se adaptarem a um clima alterado.<\/p>\n<p>Apesar dessa amea\u00e7a latente, as estrat\u00e9gias de sustentabilidade na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o est\u00e3o claras. Os motores do crescimento s\u00e3o as mat\u00e9rias-primas de exporta\u00e7\u00e3o. E, embora alguns setores tenham avan\u00e7ado em valor agregado, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o de recursos naturais continua sendo a chave do <em>boom<\/em> regional. As mat\u00e9rias-primas e os produtos b\u00e1sicos representaram 60% das exporta\u00e7\u00f5es regionais em 2011, enquanto em 2000 constitu\u00edam 40%, segundo o documento <em>Perspectivas Econ\u00f4micas 2014<\/em>, da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (Cepal).<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, o estudo diz que esse crescimento das vendas externas de produtos b\u00e1sicos causou uma substitui\u00e7\u00e3o das manufaturas dom\u00e9sticas por bens importados, afetando as ind\u00fastrias manufatureiras regionais. No campo, os modelos de pequena agricultura e extensas monoculturas de esp\u00e9cies geneticamente modificadas travam uma luta de Davi contra Golias.<\/p>\n<p>No Paraguai, quarto maior exportador de soja do mundo, 1,6% dos propriet\u00e1rios concentram 80% das terras agr\u00edcolas, segundo afirma a Oxfam no documento <em>A Pequena Agricultura em Perigo<\/em>. J\u00e1 na Guatemala, acrescenta o estudo, 8% dos produtores possuem 82% das terras, enquanto 80% das \u00e1reas produtivas da Col\u00f4mbia est\u00e3o em m\u00e3os de 14% dos propriet\u00e1rios. A produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria e o desmatamento vinculado a ela s\u00e3o grandes fontes de gases-estufa na Am\u00e9rica Latina, embora outros fatores estejam crescendo aceleradamente.<\/p>\n<p>O Brasil, por exemplo, est\u00e1 ingressando no clube dos grandes contaminadores, pois nos \u00faltimos cinco anos a queima de combust\u00edveis f\u00f3sseis passou a ser respons\u00e1vel pela maior parte das emiss\u00f5es de gases-estufa do pa\u00eds. Na medida que crescem, as ind\u00fastrias extrativistas demandam mais estradas, ferrovias e portos, e suas empresas pressionam os governos para evitar o chamado \u201capag\u00e3o log\u00edstico\u201d.<\/p>\n<p>O mercado de energia tamb\u00e9m est\u00e1 crescendo, e n\u00e3o s\u00f3 o das ind\u00fastrias, mas o de milh\u00f5es de pessoas que sa\u00edram da pobreza e t\u00eam, portanto, maiores necessidades de consumo. Estima-se que no per\u00edodo 2010-2017 a demanda energ\u00e9tica regional crescer\u00e1 a uma taxa anual de 5%.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a Am\u00e9rica Latina cruzar\u00e1 uma nova fronteira em mat\u00e9ria de combust\u00edveis f\u00f3sseis, quando Argentina, Brasil e M\u00e9xico superarem diferentes desafios pol\u00edticos, financeiros e t\u00e9cnicos para explorar grandes reservas de hidrocarbonos n\u00e3o convencionais, como a forma\u00e7\u00e3o austral argentina de Vaca Muerta e as jazidas do pr\u00e9-sal na plataforma continental brasileira.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 simples argumentar que uma regi\u00e3o com tanta riqueza natural n\u00e3o tenha direito \u00e0 explor\u00e1-la ativamente e aproveitar a demanda por mat\u00e9rias-primas, especialmente quando a renda fiscal resultante permitiu \u00e0 Bol\u00edvia, por exemplo, reduzir a extrema pobreza de 38% em 2005 para 20% no ano passado. Mas os especialistas alertam que esse rumo econ\u00f4mico \u00e9 insustent\u00e1vel e que os impactos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, j\u00e1 sentidos em toda a regi\u00e3o, podem minar qualquer avan\u00e7o social.<\/p>\n<p>Na Guatemala, para citar um caso, a pior seca dos \u00faltimos 40 anos indica que 1,2 milh\u00e3o de pessoas possam sofrer fome nos pr\u00f3ximos meses. Ao que parece, os que sofrem o pior impacto do desenvolvimento econ\u00f4mico insustent\u00e1vel s\u00e3o, paradoxalmente, aqueles que menos contribu\u00edram para o aquecimento global.<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio da ONU descrevendo a\u00e7\u00f5es para o acompanhamento do programa adotado em 1994 pela Confer\u00eancia Internacional sobre Popula\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento, afirma que apenas \u201cum ter\u00e7o da popula\u00e7\u00e3o mundial tem padr\u00f5es de consumo que poderiam ser considerados contribuintes de emiss\u00f5es\u201d vinculadas \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica. Menos de um bilh\u00e3o de pessoas desse ter\u00e7o causam um impacto significativo, enquanto \u201cuma minoria ainda menor responde por uma por\u00e7\u00e3o exageradamente grande do dano\u201d, acrescenta o documento.<\/p>\n<p>No entanto, ser\u00e3o os mais pobres aqueles que suportar\u00e3o as consequ\u00eancias. E os da Am\u00e9rica Latina \u2013 \u201ca pr\u00f3xima despensa global\u201d, segundo defini\u00e7\u00e3o do BID e de diferentes especialistas \u2013 precisam de respostas locais e mundiais firmes se querem alcan\u00e7ar o desenvolvimento sustent\u00e1vel na pr\u00f3xima d\u00e9cada. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Montevid&eacute;u, Uruguai, 2\/10\/2014 &ndash; &ldquo;Podemos ser a &uacute;ltima gera&ccedil;&atilde;o de latino-americanos e caribenhos a conviver com a fome&rdquo;, afirmou Ra&uacute;l Ben&iacute;tez, representante regional da Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Alimenta&ccedil;&atilde;o e a Agricultura (FAO). 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