{"id":180,"date":"2005-01-23T00:00:00","date_gmt":"2005-01-23T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=180"},"modified":"2005-01-23T00:00:00","modified_gmt":"2005-01-23T00:00:00","slug":"desafios-20042005-a-argentina-longe-do-paraso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/01\/mundo\/desafios-20042005-a-argentina-longe-do-paraso\/","title":{"rendered":"Desafios 2004\/2005: A Argentina longe do para&iacute;so"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 23\/01\/2005 &ndash; No final de 2001, alguns argentinos sentiam-se suicidas por permanecerem em um pa&iacute;s que se assemelhava a um barco prestes a naufragar. Tr&ecirc;s anos depois, com a economia em recupera&ccedil;&atilde;o, poucos pensam em abandonar a embarca&ccedil;&atilde;o, mas a costa salvadora ainda n&atilde;o &eacute; avistada. O p&uacute;blico amontoado em grandes centros comerciais se empenha em contradizer a pobreza, o alto desemprego e a distribui&ccedil;&atilde;o regressiva da renda que continuam sendo obst&aacute;culos enormes e dif&iacute;ceis de remover. E est&aacute; pendente desde o final de 2001 o rein&iacute;cio de pagamentos de uma milion&aacute;ria d&iacute;vida externa.<br \/> <!--more--> <br \/> As melhorias registradas pelas estat&iacute;sticas s&atilde;o corretas, mas seu efeito &eacute; t&atilde;o sutil como uma gota no mar. Mais ainda, esse pequeno progresso prejudica os mais pobres, porque cria um clima de &quot;fim de crise&quot; que reduz o fluxo de doa&ccedil;&otilde;es e acentua as condi&ccedil;&otilde;es da pobreza. &quot;Sabemos que a economia come&ccedil;ou a andar, mas aqui tudo continua igual&quot;, disse &agrave; IPS Julio Esquivel, morador do bairro La Cava. No distrito de San Isidro, na prov&iacute;ncia de Buenos Aires. &quot;Os que est&atilde;o melhor s&atilde;o os que vivem em Las Lomas&quot;, afirma indicando a &aacute;rea vizinha de resid&ecirc;ncias de fam&iacute;lias ricas. Esquivel nasceu h&aacute; 38 anos em La Cava, onde vivem cerca de 12 mil pessoas pobres. Ali, altas e baixas s&atilde;o marcadas pela vari&aacute;vel do emprego.<\/p>\n<p> H&aacute; 30 anos, se ganhava mal, mas havia pleno emprego. Vinte anos atr&aacute;s, as f&aacute;bricas do bairro n&atilde;o eram, como hoje, galp&otilde;es vazios, e a madrugada parecia um formigueiro de gente saindo para trabalhar. &quot;Agora, nesse hor&aacute;rio s&oacute; se v&ecirc; os &quot;chorros&quot; (ladr&otilde;es), lamenta Esquivel. H&aacute; 10 anos, ele se alimenta em um restaurante comunit&aacute;rio, juntamente com 350 crian&ccedil;as e uma dezena de idosos e doentes. O centro se chama &quot;La casita de la Virgem&quot;( A casinha da Virgem) e &eacute; mantido com doa&ccedil;&otilde;es, que este ano diminu&iacute;ram, &agrave; medida em que come&ccedil;ava a se registrar uma recupera&ccedil;&atilde;o da economia. &quot;Em outubro, estivemos a ponto de fechar, mas o governo federal enviou 2,5 toneladas de alimentos e aqui estamos&quot;, conta Esquivel.<\/p>\n<p> O problema principal &eacute; a falta de trabalho e a corrup&ccedil;&atilde;o com que se maneja os subs&iacute;dios para os desempregados, entregues em troca de apoio pol&iacute;tico em manifesta&ccedil;&otilde;es de rua, denuncia. Esquivel fica &quot;doente&quot; vendo como s&atilde;o usados os subs&iacute;dios do Plano Chefes de Lar sem Emprego, criado em 2002 para enfrentar do fracasso social. &quot;Isso cabe &agrave;s pessoas por direito, mas eles (os dirigentes pol&iacute;ticos locais) os entregam a quem os ap&oacute;ia, e muitos tem de aceitar&quot;, afirma. Os &uacute;nicos empregos espor&aacute;dicos dos &uacute;ltimos meses obedecem a uma demanda sazonal. &quot;Um estabelecimento comercial trabalhou mais e contratou um funcion&aacute;rio extra, ou mais gente para limpeza ou vigil&acirc;ncia. Mas, se n&atilde;o h&aacute; trabalho de verdade, as pessoas n&atilde;o t&ecirc;m dignidade, e nisso as mudan&ccedil;as s&atilde;o muito isoladas&quot;, afirma. <\/p>\n<p> A economia da Argentina come&ccedil;ou a sair do po&ccedil;o em que se encontrava no segundo semestre de 2002 depois de uma contra&ccedil;&atilde;o de quase 20% no produto interno bruto desde 1999. Em 2003, a atividade havia crescido 8,7%, e para este ano se prev&ecirc; crescimento do PIB na mesma propor&ccedil;&atilde;o. O governo do presidente Nestor Kirchner, que assumiu em maio de 2003, aumentou os sal&aacute;rios e as aposentadorias e leva adiante uma pol&iacute;tica austera, mais do que de ajuste do gasto p&uacute;blico. O desemprego, que chegou a 24,1% no segundo trimestre de 2002, ficou em 13,2% na &uacute;ltima medi&ccedil;&atilde;o deste ano, embora se considere empregado quem recebe subs&iacute;dios estatais por n&atilde;o ter trabalho.<\/p>\n<p> A propor&ccedil;&atilde;o de pobres caiu de 57,5% em plena crise para 44,3% na metade deste ano. A baixa &eacute; sens&iacute;vel, mas o alcance da pobreza &eacute; enorme neste pa&iacute;s de 37 milh&otilde;es de habitantes. Os dados gerais indicam que tamb&eacute;m houve uma franca recupera&ccedil;&atilde;o do com&eacute;rcio e da ind&uacute;stria, do consumo, dos investimentos e da arrecada&ccedil;&atilde;o fiscal, fatores que contribu&iacute;ram para o aumento das reservas monet&aacute;rias. Entretanto, &quot;o paciente&quot; apenas saiu do estado cr&iacute;tico. Segundo pesquisa da consultora Graciela Romer, nos meses anteriores &agrave; crise, 43% dos entrevistados afirmavam sua vontade de deixar o pa&iacute;s, e 53% dizia que permaneceriam, apesar das m&aacute;s perspectivas.<\/p>\n<p> Em janeiro de 2002, ap&oacute;s o pior colapso econ&ocirc;mico, social e pol&iacute;tico do pa&iacute;s, a porcentagem dos que pensavam sair do pa&iacute;s era de 56%. E essa propor&ccedil;&atilde;o caiu para 19% este m&ecirc;s. Muitos, inclusive, est&atilde;o voltando de um ex&iacute;lio for&ccedil;ado, afirma a consultora. Mas, tampouco esse dado reflete uma reconcilia&ccedil;&atilde;o plena dos argentinos com seu pa&iacute;s, porque os problemas persistem. M&ocirc;nica Wolowelsky, psic&oacute;loga e dona de um restaurante para pessoas com alergias alimentares (&quot;o &uacute;nico na Am&eacute;rica Latina&quot;, disse orgulhosa &agrave; IPS), pode fechar nos pr&oacute;ximos meses, porque n&atilde;o consegue uma clientela est&aacute;vel e solvente. Seu marido fabrica roupas e tem dois filhos estudantes.<\/p>\n<p> &quot;Essa melhora &eacute; um pouco fict&iacute;cia, pois h&aacute; um setor que consome, mas &eacute; uma faixa muito estreita, e o restante continua imerso na recess&atilde;o, tem problemas com os cart&otilde;es de cr&eacute;dito, n&atilde;o consegue pagar&quot;, descreve Wolowelsky. Ela e sua fam&iacute;lia sentiram-se inclinados a emigrar por causa da crise. &quot;T&iacute;nhamos conhecidos em Miami e fomos em uma viagem explorat&oacute;ria, mas nada do que vimos nos agradou, por isso desistimos&quot;, conta. Desde ent&atilde;o, est&atilde;o &quot;recome&ccedil;ando&quot;. A id&eacute;ia de buscar outro destino os ronda, porque a Argentina &quot;&eacute; um pa&iacute;s muito expulsivo&quot;. Analistas afirmam que a sensa&ccedil;&atilde;o de caos social e pol&iacute;tico que sobreveio no pior momento da crise vai dando lugar a uma sustentada recupera&ccedil;&atilde;o da confian&ccedil;a nas institui&ccedil;&otilde;es, processo que muitos atribuem &agrave; gest&atilde;o de Kirchner.<\/p>\n<p> &quot;Com este governo temos mais esperan&ccedil;as e maior acesso&quot;, garante Esquivel, acostumado a interagir com diferentes administra&ccedil;&otilde;es. &quot;Por exemplo, quando &iacute;amos fechar o restaurante enviamos uma carta (&agrave;s autoridades) e nos responderam em 24 horas com alimentos suficientes para oito meses. Isso n&atilde;o acontecia antes&quot;, afirma. Com uma pol&iacute;tica decidida contra a impunidade e as viola&ccedil;&otilde;es dos direitos humanos cometidas durante a &uacute;ltima ditadura (1976-1983) e a favor do saneamento da desprestigiada Suprema Corte de Justi&ccedil;a, Kirchner conseguiu recuperar autoridade para o papel presidencial e esfriou um clima francamente contr&aacute;rio aos pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p> Os acertos mat&eacute;ria econ&ocirc;mica e a desorienta&ccedil;&atilde;o de diversos setores da oposi&ccedil;&atilde;o contribu&iacute;ram para consolidar a confian&ccedil;a em seu governo. Por&eacute;m, os problemas estruturais persistem e para 2005 espera-se um dos maiores desafios de sua administra&ccedil;&atilde;o. O governo deve concretizar em janeiro a demorada reestrutura&ccedil;&atilde;o de sua d&iacute;vida externa com credores privados, de mais de US$ 800 bilh&otilde;es e n&atilde;o paga desde dezembro de 2001. S&oacute; ent&atilde;o se medir&atilde;o os limites da recupera&ccedil;&atilde;o, quando o governo enfrentar os compromissos de um novo plano de pagamento para possuidores de b&ocirc;nus. Esse momento ser&aacute; chave para por &agrave; prova a solidez da reativa&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p> O economista Cl&aacute;udio Lozano, da independente Central de Trabalhadores Argentinos, disse &agrave; IPS que a rela&ccedil;&atilde;o entre o crescimento previsto e o que se pensa destinar ao pagamento da d&iacute;vida &quot;sup&otilde;es uma deteriora&ccedil;&atilde;o da renda per capita&quot; que repercutir&aacute; nos mais pobres. &quot;A margem para resolver os problemas de pobreza e indig&ecirc;ncia se reduzir&aacute;&quot;, advertiu. Por isso, com o fim de 2004, os argentinos celebram o fato de a tormenta ter ficado bem para tr&aacute;s, embora a grande maioria saiba que falta muito para pisar terra firme. (IPS\/Envolverde) <\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 23\/01\/2005 &ndash; No final de 2001, alguns argentinos sentiam-se suicidas por permanecerem em um pa&iacute;s que se assemelhava a um barco prestes a naufragar. Tr&ecirc;s anos depois, com a economia em recupera&ccedil;&atilde;o, poucos pensam em abandonar a embarca&ccedil;&atilde;o, mas a costa salvadora ainda n&atilde;o &eacute; avistada. O p&uacute;blico amontoado em grandes centros comerciais se empenha em contradizer a pobreza, o alto desemprego e a distribui&ccedil;&atilde;o regressiva da renda que continuam sendo obst&aacute;culos enormes e dif&iacute;ceis de remover. 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