{"id":18046,"date":"2014-10-27T13:47:13","date_gmt":"2014-10-27T13:47:13","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=123746"},"modified":"2014-10-27T13:47:13","modified_gmt":"2014-10-27T13:47:13","slug":"al-bagdadi-e-a-guerra-sem-quartel-em-nome-do-califato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/10\/ultimas-noticias\/al-bagdadi-e-a-guerra-sem-quartel-em-nome-do-califato\/","title":{"rendered":"Al Bagdadi e a guerra sem quartel em nome do califato"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_123748\" style=\"width: 410px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Farhang-Jahanpour11.jpg\"><img class=\"wp-image-123748\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Farhang-Jahanpour11.jpg\" alt=\"Farhang Jahanpour11 Al Bagdadi e a guerra sem quartel em nome do califato\" width=\"400\" height=\"266\" title=\"Al Bagdadi e a guerra sem quartel em nome do califato\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Farhang Jahanpour. Foto: Cortesia do autor<\/p><\/div>\n<p>Oxford, Gr\u00e3-Bretanha, outubro\/2014 \u2013 Quando Ibrahim al Badri al Samarrai adotou o nome de Abu Bakr al Bagdadi al Huseini al Quraishi e se manifestou como o Amir al Muminin (comandante dos fi\u00e9is) Califa Ibrahim do autroproclamado Estado Isl\u00e2mico, chamou a aten\u00e7\u00e3o do mundo inteiro.<\/p>\n<p>A escolha destes nomes \u00e9 interessante e simb\u00f3lica. O t\u00edtulo Abu Bakr se refere ao califa que sucedeu o profeta Maom\u00e9 ap\u00f3s sua morte no ano 632.<\/p>\n<p>O termo Huseini evoca o im\u00e3 Husein, neto do profeta e m\u00e1rtir. Seu mart\u00edrio, na agora cidade iraquiana de Karbala, em outubro do ano 680, \u00e9 considerado um momento crucial na hist\u00f3ria do Isl\u00e3 e \u00e9 celebrado pelos xiitas com elaboradas cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>Tanto sunitas quanto xiitas consideram o im\u00e3 Husein um grande m\u00e1rtir que deu sua vida em defesa do Isl\u00e3 e contra a tirania.<\/p>\n<p>Por fim, Al Quraishi prov\u00e9m do gent\u00edlico Quraish, a tribo do profeta Maom\u00e9.<\/p>\n<p>Segundo a biografia que se encontra nos sites jihadistas na internet, Al Bagdadi \u00e9 um descendente direto do profeta, mas, curiosamente, seus ascendentes pertencem ao ramo xiita dos im\u00e3s que descendem de F\u00e1tima, filha de Maom\u00e9.<\/p>\n<p>Apesar da intransigente hostilidade de Al Bagdadi em rela\u00e7\u00e3o aos xiitas, esta suposta genealogia poderia responder \u00e0 inten\u00e7\u00e3o de se apresentar como leg\u00edtimo filho dos descendentes do profeta que s\u00e3o venerados tanto por xiitas como por sunitas.<\/p>\n<p>A mesma biografia diz que Al Bagdadi nasceu em 1971, perto de Samarra, no Iraque, e que obteve doutorado em estudos isl\u00e2micos na Universidade de Bagd\u00e1.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m afirma que era um cl\u00e9rigo na mesquita do im\u00e3 Ahmad ibn Hanbal, em Samarra quando, em 2003, os Estados Unidos invadiram o Iraque.<\/p>\n<p>Um alto funcion\u00e1rio da seguran\u00e7a oficial no Afeganist\u00e3o afirma que Al Bagdadi se estabeleceu em seu pa\u00eds na d\u00e9cada de 1990 e ali recebeu treinamento como jihadista entre 1996 e 2000, sob comando de Abu Musab al Zarqawi, dirigente da Al Qaeda.<\/p>\n<p>\u00c9 prov\u00e1vel que Al Bagdadi tenha abandonado o Afeganist\u00e3o junto com l\u00edderes talib\u00e3s ap\u00f3s a invas\u00e3o norte-americana em outubro de 2001, com destino ao Iraque, onde Al Zarkawi e outros militantes, talvez Al Bagdadi entre eles, organizaram a filial da Al Qaeda nesse pa\u00eds.<\/p>\n<p>Em setembro de 2005, Al Zarqawi declarou a guerra total aos xiitas no Iraque, depois da ofensiva conjunta do governo xiita iraquiano e dos Estados Unidos contra os insurgentes na cidade sunita de Tal Afar. Mas foi eliminado em junho do ano seguinte por militares norte-americanos.<\/p>\n<p>Segundo o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, Al Bagdadi esteve detido em Camp Bucca entre fevereiro e dezembro de 2004, mas outras fontes afirmam que esteve internado entre 2005 e 2009. Em todo caso, se registra uma longa milit\u00e2ncia no Afeganist\u00e3o e Iraque.<\/p>\n<p>Em 2011, ap\u00f3s a eclos\u00e3o da Primavera \u00c1rabe e do surgimento de protestos contra o governo de Damasco, alguns governos ocidentais, junto com Ar\u00e1bia Saudita e Turquia, decidiram derrubar o regime do presidente s\u00edrio Bashar al Assad mediante treinamento e financiamento de for\u00e7as insurgentes.<\/p>\n<p>Isso deu a Al Bagdadi a oportunidade de atrair numerosos militantes armados at\u00e9 reunir v\u00e1rios milhares e se lan\u00e7ar novamente ao ataque contra o Iraque xiita a partir da S\u00edria.<\/p>\n<p>Como \u00e9 sabido, suas for\u00e7as conquistaram v\u00e1rios territ\u00f3rios da S\u00edria e do Iraque sob a bandeira do grupo extremista autodenominado Estado Isl\u00e2mico do Iraque e da Grande S\u00edria (Sham, em \u00e1rabe) e conhecido pela sigla Isis.<\/p>\n<p>Em 4 de julho de 2014, dia do Ramad\u00e3 para os mu\u00e7ulmanos e tamb\u00e9m, sugestivamente, anivers\u00e1rio da independ\u00eancia dos Estados Unidos, Al Bagdadi surpreendentemente emergiu das sombras e pronunciou um serm\u00e3o na grande mesquita de Mosul, rec\u00e9m-conquistada pelo Isis. Suas palavras demonstraram seu dom\u00ednio do Cor\u00e3o, sua clareza e sua eloqu\u00eancia.<\/p>\n<p>\u00c9, certamente, o mais versado em teologia radical sunita em rela\u00e7\u00e3o a qualquer outro l\u00edder da Al Qaeda, no passado ou no presente.<\/p>\n<p>O serm\u00e3o de Al Bagdadi tocou temas centrais da doutrina militante sunita e de seus expoentes hist\u00f3ricos. Seus apologistas proclamaram que ele \u201cpurgou vastas \u00e1reas no Iraque e na S\u00edria da sujeira dos saf\u00e1vidas (refer\u00eancia a uma dinastia xiita no Ir\u00e3 no s\u00e9culo 16), dos nizar\u00edes (termo depreciativo para os alau\u00edes-xiitas da S\u00edria) e dos ap\u00f3statas Conselhos do Despertar (sunitas)\u201d. E acrescentam que \u201cele estabeleceu o imp\u00e9rio da lei isl\u00e2mica\u201d.<\/p>\n<p>Em seu breve serm\u00e3o Al Bagdadi acusou de heresia os que n\u00e3o acatam sua r\u00edgida interpreta\u00e7\u00e3o do Isl\u00e3. Citou numerosos vers\u00edculos do Cor\u00e3o para instigar a luta contra os n\u00e3o crentes e a fidelidade ao mandato divino. Tamb\u00e9m ressaltou alguns aspectos essenciais, como piedade, observ\u00e2ncia dos ritos religiosos e dos mandamentos, e a liberta\u00e7\u00e3o dos oprimidos.<\/p>\n<p>Por fim, defendeu a restaura\u00e7\u00e3o do califado.<\/p>\n<p>No contexto do Cor\u00e3o, esses termos t\u00eam ampla resson\u00e2ncia., mas esses mesmos termos na boca de Al Bagdadi e outros jihadistas ganham um significado completamente diferente, amea\u00e7ador, incitando a insurrei\u00e7\u00e3o armada e a submiss\u00e3o dos n\u00e3o crentes.<\/p>\n<p>As palavras e os fatos de Al Bagdadi e seus seguidores parecem copiados do movimento fundamentalista wahabi, criado por volta de 1745 na Ar\u00e1bia central pelo pregador Muhamad Ibn Abd al Wahab (1703-1792).<\/p>\n<p>O que hoje vemos no Iraque \u00e9 quase a repeti\u00e7\u00e3o exata da violenta insurg\u00eancia sunita nos desertos da Ar\u00e1bia que levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o do Estado wahabi, fundado h\u00e1 200 anos pelo cl\u00e3 Al Saud.<\/p>\n<p>Em 1802, ap\u00f3s ter assumido o controle de grande parte da pen\u00ednsula \u00e1rabe, o caudilho saudita Abdulaziz atacou Karbala no Iraque, matou a maioria de seus habitantes, destruiu o santu\u00e1rio do im\u00e3 Husein e saqueou a cidade.<\/p>\n<p>O estabelecimento da dinastia saudita teve como resultado a propaga\u00e7\u00e3o da vers\u00e3o mais fundamentalista na longa hist\u00f3ria do Isl\u00e3. Dela prov\u00eam Osama Bin Laden e a Al Qaeda, e agora Al Bagdadi e o Isis, que desde meados deste ano passou a se autodenominar Estado Isl\u00e2mico (EI).<\/p>\n<p>O jihadismo reduziu as ricas e variadas express\u00f5es de civiliza\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica \u2013 sua filosofia, literatura, seu misticismo e sua jurisprud\u00eancia \u2013 \u00e0 \u201cshari\u00e1\u201d, a interpreta\u00e7\u00e3o religiosa do Cor\u00e3o e de outras fontes do Isl\u00e3 convertidas em lei.<\/p>\n<p>As melhores mentes do Isl\u00e3 recha\u00e7am a estreita e dogm\u00e1tica vers\u00e3o da shari\u00e1 do EI e dos jihadistas e n\u00e3o aceitam que seja elevada a um absolutismo, acima inclusive da racionalidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o que pretendam justificar em nome do Isl\u00e3 este pensamento enfermo e estes atos de barb\u00e1rie. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Farhang Jahanpour<\/strong> \u00e9 ex-decano da Faculdade de L\u00ednguas da Universidade de Isfahan, no Ir\u00e3, e h\u00e1 28 anos professor na brit\u00e2nica Universidade de Oxford.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Oxford, Gr&atilde;-Bretanha, outubro\/2014 &ndash; Quando Ibrahim al Badri al Samarrai adotou o nome de Abu Bakr al Bagdadi al Huseini al Quraishi e se manifestou como o Amir al Muminin (comandante dos fi&eacute;is) Califa Ibrahim do autroproclamado Estado Isl&acirc;mico, chamou a aten&ccedil;&atilde;o do mundo inteiro. A escolha destes nomes &eacute; interessante e simb&oacute;lica. 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