{"id":18050,"date":"2014-10-28T12:13:12","date_gmt":"2014-10-28T12:13:12","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=123838"},"modified":"2014-10-28T12:13:12","modified_gmt":"2014-10-28T12:13:12","slug":"a-infancia-se-perde-entre-cadaveres-na-siria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/10\/ultimas-noticias\/a-infancia-se-perde-entre-cadaveres-na-siria\/","title":{"rendered":"A inf\u00e2ncia se perde entre cad\u00e1veres na S\u00edria"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_123840\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/siria-1-chica-629x419.jpg\"><img class=\"wp-image-123840\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/siria-1-chica-629x419.jpg\" alt=\"siria 1 chica 629x419 A inf\u00e2ncia se perde entre cad\u00e1veres na S\u00edria\" width=\"529\" height=\"352\" title=\"A inf\u00e2ncia se perde entre cad\u00e1veres na S\u00edria\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Ali Jalil e seu filho Diar, na Associa\u00e7\u00e3o para os M\u00e1rtires de Serekaniye, na zona curda da S\u00edria, junto a dois caix\u00f5es que acabam de ser preparados para mortos em combates com os extremistas jihadistas do Estado Isl\u00e2mico. Foto: Karlos Zurutuza\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Serekaniye, S\u00edria, 28\/10\/2014 \u2013 As paredes da Associa\u00e7\u00e3o para os M\u00e1rtires de Serekaniye est\u00e3o repletas de fotos dos mortos pela guerra desta localidade no norte da S\u00edria. Ali Jalil os conhece bem, pois enterrou todos com a ajuda de Diar, seu filho de 13 anos. Neste pr\u00e9dio a oeste da cidade de Serekaniye, 680 quil\u00f4metros a nordeste de Damasco, Jalil convida a IPS a conhecer algumas das hist\u00f3rias dos retratos.<\/p>\n<p>Ele come\u00e7a pela de seu irm\u00e3o Abid. \u201cSonhava ser jornalista, at\u00e9 que matou um franco-atirador, em novembro de 2012. Foi o primeiro que enterrei e assim o fiz com os demais desde ent\u00e3o\u201d, recorda este antigo comerciante, de 39 anos. \u201cEstes tr\u00eas chegaram completamente carbonizados; este teve a cabe\u00e7a cortada, como esses dois&#8230;\u201d, continua Jalil em seu relato enquanto aponta um a um com o dedo os protagonistas de cada hist\u00f3ria, entre mais de uma centena de fotos que se perdem de vista.<\/p>\n<p>Foi precisamente a morte de seu irm\u00e3o que levou Jalil a criar uma associa\u00e7\u00e3o de apoio \u00e0s fam\u00edlias dos mortos em combate, que gerencia junto com outros dez volunt\u00e1rios. \u201cAl\u00e9m de preparar os funerais, tentamos ajudar as fam\u00edlias com dinheiro, cestas de alimentos ou mantas para o inverno\u201d, detalhou, acrescentando que a ajuda chega do governo provis\u00f3rio curdo da S\u00edria.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o come\u00e7o da guerra civil na S\u00edria, em mar\u00e7o de 2011, os curdos optaram por uma neutralidade que os levava a combater tanto com o governo de Bashar al Assad quanto com a oposi\u00e7\u00e3o. Atualmente, controlam tr\u00eas enclaves ao norte do pa\u00eds: Afrin, Yazira e Kobani, este \u00faltimo mais conhecido, devido ao brutal cerco a que se v\u00ea submetido h\u00e1 mais de um m\u00eas por parte do extremista Estado Isl\u00e2mico (EI).<\/p>\n<p>Redur Xelil, porta-voz das Unidades de Prote\u00e7\u00e3o Popular (YPG), a mil\u00edcia que defende o territ\u00f3rio, disse \u00e0 IPS que a frente de Serekaniye (nome curdo da cidade tamb\u00e9m conhecida como Ras al Ayn) \u00e9 a mais sangrenta para os curdos da S\u00edria, depois da de Kobani.<\/p>\n<p>Mahmud Rashid \u00e9 outro volunt\u00e1rio da associa\u00e7\u00e3o. Tem duas irm\u00e3s e nove irm\u00e3os, \u201ctodos combatendo, inclusive um de 60 anos\u201d, contou, acrescentando que um deles, Brahim, caiu em m\u00e3os do EI h\u00e1 cinco meses e desde ent\u00e3o n\u00e3o se tem not\u00edcia dele. \u201cSua mulher se aproximou da associa\u00e7\u00e3o h\u00e1 quatro dias para receber ajuda: roupa para as crian\u00e7as, cobertas e dez mil libras s\u00edrias (US$ 61)\u201d, disse Rashid, de 37 anos.<\/p>\n<p>A conversa \u00e9 interrompida pela chegada de um caminh\u00e3o com os dois \u00faltimos caix\u00f5es adquiridos. Ap\u00f3s descarreg\u00e1-los, Jalil e seu filho se apressam em envolv\u00ea-los no tecido vermelho habitual, ao qual acrescentam a ins\u00edgnia amarela das YPG junto com uma coroa de flores de pl\u00e1stico. Trabalham com a precis\u00e3o ganha em uma rotina tantas vezes repetida h\u00e1 dois anos. Demoram apenas dez minutos. Envolver os cad\u00e1veres nas mortalhas \u00e9 muito mais trabalhoso, disse Jalil.<\/p>\n<p>\u201cDiar me ajuda em tudo e faz o que \u00e9 preciso sem protestar\u201d, explicou o volunt\u00e1rio, enquanto posa orgulhoso sua m\u00e3o sobre os ombros de seu filho. Jalil tem outro menino, Rojdar, de 11 anos, mas que n\u00e3o pode acompanh\u00e1-los porque sofre de hepatite cr\u00f4nica e n\u00e3o sai de casa.<\/p>\n<div id=\"attachment_123841\" style=\"width: 550px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/siria-chica-2.jpg\"><img class=\"wp-image-123841\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/siria-chica-2.jpg\" alt=\"siria chica 2 A inf\u00e2ncia se perde entre cad\u00e1veres na S\u00edria\" width=\"540\" height=\"360\" title=\"A inf\u00e2ncia se perde entre cad\u00e1veres na S\u00edria\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Funeral na localidade s\u00edria de Serekaniye, por v\u00e1rios dos mortos curdos em combate contra o grupo extremista Estado Isl\u00e2mico. Foto: Qadir Agid\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em um informe deste ano, a organiza\u00e7\u00e3o Save the Children alerta para a grave deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias na S\u00edria. E afirma que 60% das instala\u00e7\u00f5es hospitalares do pa\u00eds est\u00e3o destru\u00eddas, enquanto a produ\u00e7\u00e3o de medicamentos caiu 70%. A isso acrescente-se a fuga de metade de seus profissionais de medicina. Dos 2.500 que havia em uma cidade como Alepo, por exemplo, restam apenas 36, afirma a organiza\u00e7\u00e3o, com representa\u00e7\u00e3o em 120 pa\u00edses. Esta organiza\u00e7\u00e3o pediu uma \u201ca\u00e7\u00e3o urgente\u201d para que a popula\u00e7\u00e3o infantil receba as vacinas b\u00e1sicas.<\/p>\n<p>Segundo dados divulgados no dia 16 deste m\u00eas pelo alto comiss\u00e1rio para os Direitos Humanos das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Zeid Ra\u2019ad Al Husein, os mortos pela guerra s\u00edria j\u00e1 passam de 200 mil. Do total de v\u00edtimas documentadas, cerca de nove mil s\u00e3o crian\u00e7as, e 2.200 de menos de dez anos.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil arrancar uma palavra de Diar. \u201cPor que n\u00e3o quer falar agora? Diga o quanto gostava de seu tio; conte que passavam o dia juntos no cibercaf\u00e9\u201d, insistiu o pai. Sem levantar o olhar do ch\u00e3o, Diar admite n\u00e3o que tem muito mais a fazer do que ajudar seu pai. \u201cA maioria das outras crian\u00e7as foi embora da cidade e os que ficaram n\u00e3o se atrevem a sair de casa para brincar, por causa dos combates\u201d, disse o garoto.<\/p>\n<p>Para os que partiram a realidade tampouco \u00e9 muito mais leve. Segundo o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef), em um informe de mar\u00e7o sobre o impacto da guerra s\u00edria sobre meninos e meninas, 5,5 milh\u00f5es deles foram diretamente afetados pelo conflito. Um em cada dez menores se converteu em refugiado em um dos pa\u00edses vizinhos desde o come\u00e7o da guerra, e cerca de oito mil deles cruzaram a fronteira sem seus pais.<\/p>\n<p>A isso se soma o impacto psicol\u00f3gico. \u201cMuitas crian\u00e7as na S\u00edria permanecem em um estado an\u00edmico de pura sobreviv\u00eancia. Viram as coisas mais terr\u00edveis e se esqueceram das respostas emocionais mais b\u00e1sicas\u201d, afirma no documento a especialista em prote\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia Jane Mc Phail.<\/p>\n<p>\u201cConte ao jornalista o que voc\u00ea dizia nos dias em que ca\u00edam mais bombas: que jogue todas as que quiserem que n\u00e3o partiremos\u201d, insistiu Jalil com seu filho, sem \u00eaxito, enquanto o menino se concentrava em colocar as flores sobre o segundo caix\u00e3o. Diar assegurou que se unir\u00e1 \u00e0s fileiras das YPG quando completar 18 anos. Ainda tem cinco anos pela frente e pode ser que a guerra na S\u00edria j\u00e1 tenha acabado ent\u00e3o. Mas para ele n\u00e3o importa. \u201cSerei igualmente soldado\u201d, afirmou, sem levantar o olhar do ch\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o, ajudar\u00e1 seu pai, disse com determina\u00e7\u00e3o. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Serekaniye, S&iacute;ria, 28\/10\/2014 &ndash; As paredes da Associa&ccedil;&atilde;o para os M&aacute;rtires de Serekaniye est&atilde;o repletas de fotos dos mortos pela guerra desta localidade no norte da S&iacute;ria. Ali Jalil os conhece bem, pois enterrou todos com a ajuda de Diar, seu filho de 13 anos. 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