{"id":18052,"date":"2014-10-28T12:25:39","date_gmt":"2014-10-28T12:25:39","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=123843"},"modified":"2014-10-28T12:25:39","modified_gmt":"2014-10-28T12:25:39","slug":"a-realidade-invisivel-dos-espanhois-sem-teto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/10\/ultimas-noticias\/a-realidade-invisivel-dos-espanhois-sem-teto\/","title":{"rendered":"A realidade invis\u00edvel dos espanh\u00f3is sem teto"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_123845\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Chica-espa%C3%B1a-629x419.jpg\"><img class=\"wp-image-123845\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/Chica-espa%C3%B1a-629x419.jpg\" alt=\"Chica espa\u00f1a 629x419 A realidade invis\u00edvel dos espanh\u00f3is sem teto\" width=\"529\" height=\"352\" title=\"A realidade invis\u00edvel dos espanh\u00f3is sem teto\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Pessoas em exclus\u00e3o social em uma barraca da associa\u00e7\u00e3o \u00c1ngeles Malague\u00f1os de La Noche, cujos volunt\u00e1rios distribuem as tr\u00eas refei\u00e7\u00f5es di\u00e1rias no centro de M\u00e1laga, na Espanha. Foto: In\u00e9s Ben\u00edtez\/IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>M\u00e1laga, Espanha, 28\/10\/2014 \u2013 \u201cSe ver dormindo na\u00a0 rua \u00e9 um passo muito f\u00e1cil. N\u00e3o significa que a pessoa teve uma vida ruim, mas que perdeu seu trabalho e n\u00e3o tem como pagar o aluguel\u201d, conta David Cerezo, enquanto espera pelo almo\u00e7o distribu\u00eddo por uma organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria desta cidade do sul da Espanha.<\/p>\n<p>Cerezo de 39 anos, ocupa uma casa imunda no centro de M\u00e1laga, junto com outras duas pessoas. Trabalhou como padeiro e confeiteiro, mas a droga truncou sua vida \u201cinteira\u201d, o separou de sua mulher e lhe arrebatou para sempre seus irm\u00e3os de 36 e 39 anos. Agora est\u00e1 decidido a se desintoxicar em uma comunidade terap\u00eautica, disse \u00e0 IPS junto \u00e0 barraca da associa\u00e7\u00e3o \u00c1ngeles Malague\u00f1os de La Noche.<\/p>\n<p>\u201cA maioria dos que comem aqui acabou nas ruas por causa das drogas e do \u00e1lcool, mas tamb\u00e9m v\u00eam pais em busca de alimentos para seus filhos e muitos jovens\u201d, disse Cerezo, apontando\u00a0 para a fila sob o sol do meio-dia onde dezenas de pessoas esperam por uma por\u00e7\u00e3o de arroz que solta fuma\u00e7a dentro de uma grande panela niquelada.<\/p>\n<p>A longa e profunda recess\u00e3o econ\u00f4mica e o alto n\u00edvel de desemprego que afeta 24,4% da popula\u00e7\u00e3o ativa, segundo o Instituto Nacional de Estat\u00edsticas (INE), empobreceram a popula\u00e7\u00e3o espanhola, enquanto ca\u00edram os recursos governamentais destinados aos servi\u00e7os sociais para os mais desfavorecidos. Dados de meados do ano mostram que, neste pa\u00eds de 47,2 milh\u00f5es de habitantes, entre 20,4% e 27,3% da popula\u00e7\u00e3o vive abaixo da linha da pobreza, segundo a medi\u00e7\u00e3o por par\u00e2metros oficiais espanh\u00f3is ou europeus.<\/p>\n<p>Tampouco ter um emprego livra os espanh\u00f3is de situa\u00e7\u00f5es de pobreza. A crise aumentou o \u00edndice de \u201cpobreza trabalhista\u201d de 10,8% para 12,3% entre 2007 e 2010, segundo o Dossi\u00ea de Pobreza EAPN Espanha 2014. E, o que \u00e9 pior, 27% da popula\u00e7\u00e3o infantil, mais de 2,3 milh\u00f5es de meninos e meninas, vive na pobreza ou em risco de pobreza, segundo o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef).<\/p>\n<p>Nesse contexto, o gasto p\u00fablico destinado a ajudar os mais necessitados foi de US$ 18,982 bilh\u00f5es, um corte de US$ 2,782 bilh\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o a dois anos antes, segundo um estudo divulgado em setembro pela Associa\u00e7\u00e3o de Diretoras e Gerentes de Servi\u00e7os Sociais.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea se v\u00ea na rua porque n\u00e3o tem a quem recorrer. E, uma vez que se est\u00e1 por a\u00ed, \u00e9 muito dif\u00edcil reiniciar o voo\u201d, afirmou Miguel Arregui, de 40 anos. Alto e de cabelo negro, contou \u00e0 IPS que passou 15 dias \u201ceternos\u201d dormindo no ch\u00e3o, que lhe roubaram duas sacolas com roupas. Separado e com um filho de 11 anos, vive h\u00e1 algumas semanas em um abrigo onde est\u00e1 superando seu v\u00edcio pela droga.<\/p>\n<p>Cerezo e Arregui s\u00e3o duas das milhares de pessoas sem teto na Espanha, cerca de 23 mil segundo a \u00faltima pesquisa do INE, de 2012, dado que organiza\u00e7\u00f5es sociais que os assistem elevam para 40 mil. O informe 2014 sobre exclus\u00e3o e desenvolvimento social na Espanha, da Funda\u00e7\u00e3o Foessa, alerta que h\u00e1 cinco milh\u00f5es de pessoas afetadas por situa\u00e7\u00f5es de exclus\u00e3o severa, 82,6% mais do que em 2007, ano anterior \u00e0 eclos\u00e3o da crise financeira que ainda persiste.<\/p>\n<p>As pessoas sem teto est\u00e3o muito perto, mas sua realidade \u00e9 muito desconhecida pela popula\u00e7\u00e3o. Vivem e dormem nas ruas ou em diferentes recursos dispon\u00edveis para eles devido a m\u00faltiplos fatores sociais, estruturais e pessoais, segundo o informe.<\/p>\n<p>Em M\u00e1laga dezenas de fam\u00edlias sem recursos, muitas desalojadas de suas casas por falta de pagamento do aluguel ou da hipoteca, buscam um teto ocupando de forma coletiva pr\u00e9dios vazios de propriedade de bancos ou de construtoras quebradas, formando as chamadas \u201ccorralas\u201d, termo que se refere \u00e0s antigas casas de vila.<\/p>\n<p>Durante o primeiro semestre de 2014, houve 37.214 despejos de moradias, segundo dados do Conselho Geral do Poder Judicial. De 2007 at\u00e9 hoje, s\u00e3o 569.144 procedimentos de execu\u00e7\u00e3o hipotec\u00e1ria, alerta a Plataforma de Afetados pela Hipoteca (PAH). Por outro lado, h\u00e1 3,5 milh\u00f5es de moradias vazias, quantia equivalente a 14% do parque imobili\u00e1rio, segundo o INE.<\/p>\n<p>V\u00e1rias pessoas amanhecem nos bancos de pedra perto da barraca que come\u00e7a a servir o caf\u00e9 da manh\u00e3 \u00e0s nove horas. \u201cOutro dia fui para o albergue. Me disseram que estava lotado e me deram uma manta\u201d, contou Jos\u00e9, de 47 anos, que passou 15 dias preso e confessa que tem de roubar para poder pagar uma pens\u00e3o onde passar a noite.<\/p>\n<p>\u201cPode-se mudar o sistema fornecendo, em primeiro lugar, uma moradia de forma permanente e incondicional\u201d, disse \u00e0 IPS o diretor da Rais Funda\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Manuel Caballol. Esta organiza\u00e7\u00e3o defende na Espanha o modelo Housing First, dirigido a pessoas que estejam h\u00e1 pelo menos tr\u00eas anos nas ruas e \u00e0quelas com doen\u00e7as mentais, viciadas em drogas ou \u00e1lcool e deficientes.<\/p>\n<p>Caballol explicou que a realidade \u00e9 que as pessoas sem teto com problemas graves dificilmente poder\u00e3o ter acesso a dispositivos especializados de alojamento como abrigos, ou pens\u00f5es, e se n\u00e3o o fizerem n\u00e3o conseguir\u00e3o avan\u00e7ar em sua reabilita\u00e7\u00e3o ou acabam expulsas do sistema. \u201cOs resultados s\u00e3o espetaculares. As pessoas est\u00e3o encantadas, cuidam da sua casa e delas mesmas porque querem conservar o que t\u00eam\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O ativista est\u00e1 convencido de que esta metodologia, surgida nos Estados Unidos na d\u00e9cada de 1990, \u201capresenta uma solu\u00e7\u00e3o definitiva para o problema das pessoas na rua e representa uma economia significativa dos custos do Estado, por exemplo, com atendimento hospitalar. Desde julho, 28 pessoas sem teto vivem em oito moradias em M\u00e1laga, dez em Barcelona e mais dez em Madri, algumas cedidas \u00e0 Rais e outras alugadas pela ONG mediante acordos com prefeituras, funda\u00e7\u00f5es e com apoio econ\u00f4mico governamental.<\/p>\n<p>\u201cAs mudan\u00e7as produzidas nas pessoas s\u00e3o muito r\u00e1pidas\u201d, ressaltou Caballol, destacando o papel dos trabalhadores sociais, psic\u00f3logos e t\u00e9cnicos de integra\u00e7\u00e3o social que escutam, acompanham e ajudam conforme o pr\u00f3prio benefici\u00e1rio vai decidindo, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. \u201cNa rua me sinto indefeso, muito inferior. Perde-se a dignidade e \u00e9 dif\u00edcil recuper\u00e1-la. Quero sair disto\u201d, disse Miguel Arregui pouco antes de entrar em um abrigo no centro de M\u00e1laga.<\/p>\n<p>A ONG Ajuda em A\u00e7\u00e3o alerta que uma em cada cinco pessoas est\u00e1 em risco de exclus\u00e3o na Espanha. Cerezo acredita que a rede de aten\u00e7\u00e3o para as pessoas sem teto n\u00e3o condiz com as necessidades existentes e defende outros modelos, como \u201ccasas de acolhida\u201d para os mais vulner\u00e1veis com \u201cquartos e orienta\u00e7\u00e3o de profissionais\u201d.<\/p>\n<p>O n\u00famero de pessoas atendidas no pa\u00eds pela organiza\u00e7\u00e3o assistencial cat\u00f3lica C\u00e1ritas aumentou 30% em 2013 com rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior, segundo informe divulgado no dia 29 de setembro. Envolverde\/IPS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; M&aacute;laga, Espanha, 28\/10\/2014 &ndash; &ldquo;Se ver dormindo na&nbsp; rua &eacute; um passo muito f&aacute;cil. N&atilde;o significa que a pessoa teve uma vida ruim, mas que perdeu seu trabalho e n&atilde;o tem como pagar o aluguel&rdquo;, conta David Cerezo, enquanto espera pelo almo&ccedil;o distribu&iacute;do por uma organiza&ccedil;&atilde;o humanit&aacute;ria desta cidade do sul da Espanha. 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