{"id":18067,"date":"2014-11-04T14:04:23","date_gmt":"2014-11-04T14:04:23","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=124252"},"modified":"2014-11-04T14:04:23","modified_gmt":"2014-11-04T14:04:23","slug":"europa-paralisada-pela-divisao-entre-norte-e-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/11\/ultimas-noticias\/europa-paralisada-pela-divisao-entre-norte-e-sul\/","title":{"rendered":"Europa paralisada pela divis\u00e3o entre norte e sul"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_124254\" style=\"width: 539px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/RSavioapr1011-629x417.jpg\"><img class=\"wp-image-124254\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/RSavioapr1011-629x417.jpg\" alt=\"RSavioapr1011 629x417 Europa paralisada pela divis\u00e3o entre norte e sul\" width=\"529\" height=\"351\" title=\"Europa paralisada pela divis\u00e3o entre norte e sul\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Roberto Savio. Foto: IPS<\/p><\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Roma, It\u00e1lia, novembro\/2014 \u2013 A nova Comiss\u00e3o Europeia parece mais um experimento para equilibrar for\u00e7as opostas do que uma institui\u00e7\u00e3o que deve ser dirigida com algum tipo de governan\u00e7a. Provavelmente a Europa acabe paralisada pelos conflitos internos, que \u00e9 a \u00faltima coisa de que precisa.<\/p>\n<p>Durante a presid\u00eancia de Jos\u00e9 Manuel Dur\u00e3o Barroso (2004-2014), a Comiss\u00e3o Europeia, \u00f3rg\u00e3o executivo da Uni\u00e3o Europeia (UE), foi se tornando cada vez mais marginal no \u00e2mbito internacional, prisioneira da divis\u00e3o interna entre o norte e o sul do bloco.<\/p>\n<p>Vamos regressar \u00e0 Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), h\u00e1 quase quatro s\u00e9culos, entre cat\u00f3licos e protestantes. Os cat\u00f3licos s\u00e3o considerados despreocupados esbanjadores, enquanto h\u00e1 um enfoque moral da economia pelos protestantes.<\/p>\n<p>A Alemanha, por exemplo, transformou a d\u00edvida em um \u201cpecado\u201d financeiro. A grande maioria de seus cidad\u00e3os apoia a postura irredut\u00edvel de seu governo, de que o sacrif\u00edcio fiscal \u00e9 o \u00fanico caminho para a salva\u00e7\u00e3o e que a desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que se avizinha s\u00f3 fortalecer\u00e1 esse sentimento.<\/p>\n<p>Como resultado, o manejo interno da crise de governabilidade da UE em grande parte empurra a Europa para as linhas marginais do mundo.<\/p>\n<p>N\u00e3o se entende qual interesse pode ter a Europa em empurrar a R\u00fassia para uma alian\u00e7a estrutural com a China e, em um momento t\u00e3o fr\u00e1gil, impor a si mesma perdas em investimentos e no com\u00e9rcio com Moscou que poderiam chegar a US$ 50 bilh\u00f5es no pr\u00f3ximo ano.<\/p>\n<p>A revista <em>Foreign Affairs <\/em>\u2013 a b\u00edblia da elite dos Estados Unidos \u2013 publicou um longo e detalhado artigo do acad\u00eamico John J. Mearsheimer, intitulado <em>Porque a Crise da Ucr\u00e2nia \u00e9 Culpa do Ocidente<\/em>, que documenta como o convite \u00e0 Ucr\u00e2nia para unir-se \u00e0 Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) foi o \u00faltimo de uma s\u00e9rie de passos hostis, que levou o presidente russo, Vladimir Putin, a deter um claro processo de intrus\u00e3o.<\/p>\n<p>Mearsheimer duvida que tudo isso responda aos interesses de longo prazo dos Estados Unidos, al\u00e9m de alguns pequenos c\u00edrculos, e se pergunta por que a Europa os segue. Um bom exemplo \u00e9 como os Estados da Europa (com exce\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses do norte) reduziram seus or\u00e7amentos de coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 Espanha, It\u00e1lia e Portugal \u2013 e, naturalmente, Gr\u00e9cia \u2013 eliminaram praticamente seus or\u00e7amentos de ajuda oficial ao desenvolvimento, como tamb\u00e9m \u00c1ustria, B\u00e9lgica e Fran\u00e7a seguiram esse exemplo. Enquanto isso, a China vem investindo fortemente na \u00c1frica, Am\u00e9rica Latina e, naturalmente, na \u00c1sia, em uma estrat\u00e9gia onde o termo \u201ccoopera\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o seria o mais apropriado.<\/p>\n<p>Mas o melhor exemplo da incapacidade da UE para estar em sintonia com a realidade \u00e9 o \u00faltimo corte no programa Erasmus, que envia dezenas de milhares de estudantes a cada ano para outros pa\u00edses europeus. Ser\u00e1 que foi notado que um milh\u00e3o de crian\u00e7as nasceram de casais que se conheceram gra\u00e7as a essas bolsas e que o programa \u00e9 cortado em um momento em que os partidos antieuropeus est\u00e3o surgindo em todas as partes?<\/p>\n<p>Na realidade, educa\u00e7\u00e3o, cultura e assist\u00eancia m\u00e9dica sofrem uma cont\u00ednua redu\u00e7\u00e3o no gasto p\u00fablico. Como disse em sua famosa frase Giulio Tremonti, que foi ministro das Finan\u00e7as do ex-primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, \u201cvoc\u00ea n\u00e3o come com a cultura\u201d.<\/p>\n<p>O or\u00e7amento por pessoa para a cultura no sul da Europa \u00e9 atualmente um s\u00e9timo do do norte do continente.<\/p>\n<p>Em seu \u00faltimo or\u00e7amento, a It\u00e1lia \u2013 que, segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco), possui 50% do patrim\u00f4nio cultural da Europa \u2013 decidiu abrir cem postos de trabalho no campo arqueol\u00f3gico com sal\u00e1rio bruto mensal de 430 euros. Esse valor \u00e9 metade do sal\u00e1rio mensal de uma empregada dom\u00e9stica por 20 horas de trabalho semanais.<\/p>\n<p>Os pol\u00edticos italianos n\u00e3o dizem explicitamente, mas consideram que, como j\u00e1 existe tal riqueza patrimonial, n\u00e3o h\u00e1 necessidade de maior investimento, porque, de todo modo, os turistas continuar\u00e3o chegando ao pa\u00eds.<\/p>\n<p>Assim, o or\u00e7amento para todos os museus italianos fica pr\u00f3ximo ao or\u00e7amento do Museu Metropolitano de Nova York. Isso \u00e9 como querer viver de expor a m\u00famia de um antepassado por algum dinheiro.<\/p>\n<p>Pode-se afirmar que em momentos de crise o or\u00e7amento para a cultura pode ser congelado porque h\u00e1 necessidades mais urgentes. Mas, para manter a Europa dentro da competi\u00e7\u00e3o internacional, n\u00e3o h\u00e1 necessidade mais urgente do que garantir o futuro de seus cidad\u00e3os. E, ainda assim, o or\u00e7amento para a pesquisa e o desenvolvimento, essencial para isso, tamb\u00e9m est\u00e1 sendo reduzido ano a ano.<\/p>\n<p>Examinemos a situa\u00e7\u00e3o desde 2009. A Espanha reduziu o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D) em 40%, o que se traduziu em um corte em uma porcentagem igual do financiamento de projetos, e de 30% em recursos humanos.<\/p>\n<p>As universidades italianas sofreram um corte global de 20%, o que significou redu\u00e7\u00e3o de 80% na contrata\u00e7\u00e3o e de 100% nos projetos, enquanto 40% dos cursos de doutorado desapareceram.<\/p>\n<p>A Fran\u00e7a reduziu em 25% a contrata\u00e7\u00e3o em centros de pesquisa e em 20% nas universidades. Menos de 10% da demanda de projetos recebe financiamento devido \u00e0 falta de fundos.<\/p>\n<p>Desde 2011, a Gr\u00e9cia diminuiu o or\u00e7amento para os centros de pesquisa e para as universidades em 50%, e congelou a contrata\u00e7\u00e3o de pesquisadores.<\/p>\n<p>Em Portugal, no mesmo per\u00edodo, universidades e centros de pesquisa sofreram redu\u00e7\u00e3o de 50%, a quantidade de bolsas para doutorado caiu 40% e os cursos de p\u00f3s-doutorado, 65%.<\/p>\n<p>\u00c9 importante lembrar que a Estrat\u00e9gia de Lisboa, o programa para o crescimento e o emprego adotado em 2000, aspirava fazer da Uni\u00e3o Europeia, no prazo de dez anos, \u201ca economia mais competitiva e din\u00e2mica do mundo, baseada no conhecimento, capaz de crescer economicamente de maneira sustent\u00e1vel, com mais e melhores empregos e com maior coes\u00e3o social\u201d.<\/p>\n<p>A maioria de seus objetivos n\u00e3o foi alcan\u00e7ada em 2010. Pelo contr\u00e1rio, a Europa continua retrocedendo. A Estrat\u00e9gia de Lisboa fixou, por exemplo, que 3% do produto interno bruto (PIB) seriam destinados a P&amp;D, mas o sul da Europa dedica menos de 1,5%.<\/p>\n<p>Uma not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o \u00e9 a Gr\u00e3-Bretanha. O atual governo brit\u00e2nico, que trabalha em estreita sincronia com a City financeira e as empresas, financiou com US$ 7,6 bilh\u00f5es o projeto <em>Estrat\u00e9gia de Inova\u00e7\u00e3o e Pesquisa para o Crescimento<\/em>, com as b\u00ean\u00e7\u00e3os do setor privado.<\/p>\n<p>A China aumenta constantemente seu or\u00e7amento em P&amp;D, que agora \u00e9 de 3% do PIB, e planeja que chegue a 6% do PIB em 2020. Em apenas sete anos, a China se converteu no maior produtor de pain\u00e9is solares, causando a quebra de v\u00e1rias empresas norte-americanas e europeias.<\/p>\n<p>Estaria a Europa comprometendo seu futuro na competi\u00e7\u00e3o internacional para atender aos interesses da Alemanha? Ou \u00e9 a pol\u00edtica que est\u00e1 perdendo a vista da floresta enquanto se discute a quantidade de \u00e1rvores a serem cortadas para chegar a um compromisso entre cat\u00f3licos e protestantes?<\/p>\n<p>O certo \u00e9 que se est\u00e1 convertendo a economia em uma ci\u00eancia moral, e isto faz da Europa um mundo ins\u00f3lito. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Roberto Savio <\/strong>\u00e9 fundador da ag\u00eancia IPS e editor da newsletter Other News.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Roma, It&aacute;lia, novembro\/2014 &ndash; A nova Comiss&atilde;o Europeia parece mais um experimento para equilibrar for&ccedil;as opostas do que uma institui&ccedil;&atilde;o que deve ser dirigida com algum tipo de governan&ccedil;a. Provavelmente a Europa acabe paralisada pelos conflitos internos, que &eacute; a &uacute;ltima coisa de que precisa. 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