{"id":18092,"date":"2014-11-13T12:12:50","date_gmt":"2014-11-13T12:12:50","guid":{"rendered":"http:\/\/envolverde.com.br\/?p=124817"},"modified":"2014-11-13T12:12:50","modified_gmt":"2014-11-13T12:12:50","slug":"a-irresistivel-atracao-pelo-radicalismo-islamico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2014\/11\/ultimas-noticias\/a-irresistivel-atracao-pelo-radicalismo-islamico\/","title":{"rendered":"A irresist\u00edvel atra\u00e7\u00e3o pelo radicalismo isl\u00e2mico"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_124819\" style=\"width: 324px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Roberto-Savio.jpg\"><img class=\"size-full wp-image-124819\" src=\"http:\/\/envolverde.com.br\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/Roberto-Savio.jpg\" alt=\"Roberto Savio A irresist\u00edvel atra\u00e7\u00e3o pelo radicalismo isl\u00e2mico\" width=\"314\" height=\"215\" title=\"A irresist\u00edvel atra\u00e7\u00e3o pelo radicalismo isl\u00e2mico\" \/><\/a><p class=\"wp-caption-text\">Roberto Savio. Foto: IPS<\/p><\/div>\n<p>Roma, It\u00e1lia, novembro\/2014 \u2013 O ataque ao parlamento canadense, por um jovem que havia se convertido ao Isl\u00e3 apenas um m\u00eas antes, deveria fomentar algum interesse sobre o motivo de um n\u00famero crescente de jovens estar disposto a dar sua vida por uma vis\u00e3o radical do Isl\u00e3.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, ataques como o ocorrido em Otawa, no dia 22 de outubro, s\u00e3o descritos como fanatismo. Mas, quando os suicidas somam mais de dois mil, \u00e9 momento de olhar para essa realidade em expans\u00e3o para al\u00e9m dos estere\u00f3tipos.<\/p>\n<p>Vale a pena assinalar que numerosas vozes afirmam que o mundo isl\u00e2mico e seus valores s\u00e3o intrinsecamente antiocidentais. Pois bem, os dados b\u00e1sicos n\u00e3o apoiam essa teoria, que agora \u00e9 utilizada pelos partidos xen\u00f3fobos que surgiram por toda parte na Europa.<\/p>\n<p>Deve-se recordar que h\u00e1 1,6 bilh\u00e3o de mu\u00e7ulmanos no mundo. A Indon\u00e9sia \u00e9 o maior pa\u00eds em popula\u00e7\u00e3o mu\u00e7ulmana, seguida da \u00cdndia. Toda a regi\u00e3o do Oriente M\u00e9dio e norte da \u00c1frica conta com 317 milh\u00f5es, contra 344 milh\u00f5es no Paquist\u00e3o e na \u00cdndia. Existem 3,4 milh\u00f5es nos Estados Unidos e 43,4 milh\u00f5es na Europa. Isso significa que um em cada cem mil mu\u00e7ulmanos pode ser jihadista.<\/p>\n<p>Hoje h\u00e1 quatro causas hist\u00f3ricas para entender o jihadismo, que s\u00e3o facilmente esquecidas.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, todos os pa\u00edses \u00e1rabes s\u00e3o artificiais. Em maio de 1916, George Picot e Mark Sykes, representantes da Fran\u00e7a e da Gr\u00e3-Bretanha, acordaram um tratado secreto, com apoio de R\u00fassia e It\u00e1lia, sobre a forma de repartirem o Imp\u00e9rio Otomano ao terminar a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).<\/p>\n<p>Dessa forma nasceram os atuais pa\u00edses \u00e1rabes, com uma divis\u00e3o entre Fran\u00e7a e Gr\u00e3-Bretanha, sem nenhuma considera\u00e7\u00e3o pela hist\u00f3ria e pelas realidades \u00e9tnicas e religiosas. Excepcionalmente, o Egito tinha uma identidade hist\u00f3rica, da qual careciam pa\u00edses como Iraque, Ar\u00e1bia Saudita, Jord\u00e2nia ou Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n<p>O problema curdo, de aproximadamente 30 milh\u00f5es de pessoas divididas entre quatro pa\u00edses, tamb\u00e9m foi criado pelas pot\u00eancias europeias.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, as pot\u00eancias colonialistas instalaram reis e xeques nos pa\u00edses que criaram. Para dirigir esses pa\u00edses artificiais, era necess\u00e1ria m\u00e3o de ferro. Assim, desde o come\u00e7o, houve uma total falta de participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, com um sistema pol\u00edtico que estava totalmente fora de sincronia com o processo democr\u00e1tico que acontecia na Europa.<\/p>\n<p>Com a ben\u00e7\u00e3o europeia, os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio ficaram congelados na \u00e9poca feudal.<\/p>\n<p>Quanto ao terceiro motivo, as pot\u00eancias europeias n\u00e3o fizeram nenhum investimento no desenvolvimento industrial ou em um verdadeiro desenvolvimento. A explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo estava em m\u00e3os de empresas estrangeiras, e s\u00f3 depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e o subsequente processo de descoloniza\u00e7\u00e3o, come\u00e7ou um processo de participa\u00e7\u00e3o local na explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo.<\/p>\n<p>A quarta raz\u00e3o aproxima-se mais dos nossos dias. Nos Estados que n\u00e3o ofereciam educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade aos seus cidad\u00e3os, a piedade mu\u00e7ulmana assumiu a tarefa de proporcionar essas e outras fun\u00e7\u00f5es sociais. Assim foram criadas as grandes redes de escolas religiosas e hospitais. Quando as elei\u00e7\u00f5es finalmente foram autorizadas, essas redes se converteram na base para a atividade pol\u00edtica e o voto nos partidos mu\u00e7ulmanos.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, basta citar os exemplos de Egito e Arg\u00e9lia, dois pa\u00edses importantes, onde os partidos isl\u00e2micos ganharam as elei\u00e7\u00f5es e como, com o consentimento do Ocidente, os golpes militares foram o \u00fanico recurso para det\u00ea-los.<\/p>\n<p>Essa an\u00e1lise sobre tantas d\u00e9cadas em algumas poucas linhas naturalmente deixa de fora muitas outras quest\u00f5es. Mas esse processo hist\u00f3rico abreviado \u00e9 \u00fatil para a compreens\u00e3o de como a ira e a frustra\u00e7\u00e3o se propagam agora em todo o mundo mu\u00e7ulmano e como isso leva \u00e0 atra\u00e7\u00e3o que os setores pobres sentem pelo grupo extremista Estado Isl\u00e2mico (EI).<\/p>\n<p>N\u00e3o se deve esquecer que esses antecedentes hist\u00f3ricos, apesar de remotos para os jovens, se mant\u00eam vivos pelo dom\u00ednio de Israel sobre os palestinos. O apoio cego do Ocidente a Israel, especialmente dos Estados Unidos, \u00e9 visto pelos \u00e1rabes como uma humilha\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>O bombardeio de Gaza, em julho e agosto deste ano, que provocou apenas t\u00edmidos protestos no ocidente e n\u00e3o a\u00e7\u00f5es reais, \u00e9 para o mundo \u00e1rabe a prova clara de que a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 mant\u00ea-los sufocados, favorecendo unicamente alian\u00e7as com governantes corruptos e n\u00e3o legitimados.<\/p>\n<p>H\u00e1 n\u00e3o muitas d\u00e9cadas, um sistema escolar modernizado come\u00e7ou a produzir quadros locais, muitos deles de n\u00edvel universit\u00e1rio. Mas a falta de moderniza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, combinada com a falta de desenvolvimento econ\u00f4mico, deu lugar a uma gera\u00e7\u00e3o de jovens instru\u00eddos descontentes, que fizeram ouvir suas vozes durante o que se chamou de Primavera \u00c1rabe.<\/p>\n<p>Mas esse foi apenas um estalido, que n\u00e3o levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma sociedade civil din\u00e2mica com movimentos de base reais. O \u00fanico movimento de base significativo continua sendo a rede mu\u00e7ulmana de mesquitas, escolas religiosas e estruturas de assist\u00eancia.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, n\u00e3o h\u00e1 partidos pol\u00edticos modernos nos pa\u00edses \u00e1rabes. Essa \u00e9 a diferen\u00e7a com os grandes pa\u00edses mu\u00e7ulmanos da \u00c1sia, como Indon\u00e9sia e Mal\u00e1sia, com o Paquist\u00e3o a meio caminho entre os dois.<\/p>\n<p>O desemprego \u00e9 um grande habitat para a frustra\u00e7\u00e3o pela falta de perspectivas futuras, sobretudo quando n\u00e3o existe participa\u00e7\u00e3o e voz no sistema pol\u00edtico. Os pa\u00edses ricos, como Ar\u00e1bia Saudita, podem comprar a lealdade das pessoas, oferecendo-lhes um sistema de subs\u00eddios generosos, mas outros pa\u00edses n\u00e3o.<\/p>\n<p>O fato de a Primavera \u00c1rabe n\u00e3o ter propiciado nenhuma mudan\u00e7a tang\u00edvel no plano econ\u00f4mico exacerbou a frustra\u00e7\u00e3o, derivando em raiva ou resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 sumamente instrutivo ler David Kirkpatrick, do <em>The New York Times<\/em> em T\u00fanis (de onde prov\u00e9m a maioria dos jihadistas), Steven Erlanger, do mesmo jornal em Londres (sobre o fen\u00f4meno das mulheres que se unem \u00e0s fileiras de combatentes do EI ou como esposas dos combatentes), ou Ana Carbajasa, de Melilla (sobre o Isl\u00e3 nesse enclave espanhol no Marrocos e a radicaliza\u00e7\u00e3o das mulheres).<\/p>\n<p>Poucos jornais d\u00e3o voz aos jovens \u00e1rabes, apesar da necessidade de entend\u00ea-los.<\/p>\n<p>Kirkpatrick, Erlanger e Carbajasa descobriram que para muitos o EI tem a imagem da vingan\u00e7a hist\u00f3rica contra o passado, um lugar livre de corrup\u00e7\u00e3o. Trata-se de um farol para os muitos jovens que n\u00e3o t\u00eam como estudar ou encontrar um trabalho, e que nada t\u00eam a perder.<\/p>\n<p>Os entrevistados disseram que unir-se ao movimento radical \u2013 no Oriente M\u00e9dio, em Paris ou Manchester \u2013 \u00e9 chegar a ser parte de uma elite moral internacional, de um movimento global e magn\u00e9tico. Significa ter um projeto de vida e passar do anonimato frustrante ao reconhecimento glorioso.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 criando essa mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 que o EI \u00e9 um Estado, n\u00e3o uma organiza\u00e7\u00e3o secreta com a Al Qaeda. O uso sem precedentes dos meios sociais est\u00e1 atraindo centenas de novos recrutas a cada semana, que sentem que podem escapar de suas frustra\u00e7\u00f5es di\u00e1rias e entrar em um mundo de dignidade e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Ahmed, um jovem de T\u00fanis partid\u00e1rio do EI, que n\u00e3o quis dar seu sobrenome por medo da pol\u00edcia, disse ao <em>The New York Times<\/em>: \u201cO Estado Isl\u00e2mico \u00e9 um verdadeiro califado, um sistema justo e equitativo, no qual n\u00e3o se deve seguir as ordens de algu\u00e9m porque \u00e9 rico ou poderoso. Trata-se da a\u00e7\u00e3o, n\u00e3o da teoria, para derrubar o jogo inteiro\u201d.<\/p>\n<p>Esse sonho de um mundo mu\u00e7ulmano diferente encontra um eco f\u00e1cil nos guetos da Europa, onde uma grande propor\u00e7\u00e3o dos jovens desempregados \u00e9 \u00e1rabe.<\/p>\n<p>Entretanto, a pol\u00edcia francesa estima que j\u00e1 h\u00e1 pelo menos 1.200 de seus cidad\u00e3os no EI e a pol\u00edcia brit\u00e2nica calcula um n\u00famero semelhante dos seus. Esses n\u00fameros crescer\u00e3o, enquanto o EI puder demonstrar em sua eficaz campanha nas m\u00eddias sociais que se trata de uma realidade.<\/p>\n<p>A isso se une agora o fen\u00f4meno dos ocidentais descontentes, que se marginalizaram ao se sentirem rejeitados pela sociedade e que est\u00e3o se unindo ao Isl\u00e3 e \u00e0 luta armada, como uma forma de ser parte de uma mudan\u00e7a da mar\u00e9.<\/p>\n<p>Em seu tempo, os anarquistas europeus estavam convencidos de que, para ter um novo mundo de justi\u00e7a social e dignidade humana, era necess\u00e1rio destruir o atual.<\/p>\n<p>Se alguns na Europa eram capazes de exaltar a viol\u00eancia como um instrumento necess\u00e1rio, por que o mundo mu\u00e7ulmano n\u00e3o pode ter um sonho semelhante, com muito mais justificativas?<\/p>\n<p>A atra\u00e7\u00e3o para o islamismo radical est\u00e1 destinada a continuar. Sobretudo se o Estado Isl\u00e2mico for destru\u00eddo pelo Ocidente. Envolverde\/IPS<\/p>\n<p><em>* <strong>Roberto Savio <\/strong>\u00e9 fundador da ag\u00eancia IPS e editor da Newsletter Other News.\u00a0 <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roma, It&aacute;lia, novembro\/2014 &ndash; O ataque ao parlamento canadense, por um jovem que havia se convertido ao Isl&atilde; apenas um m&ecirc;s antes, deveria fomentar algum interesse sobre o motivo de um n&uacute;mero crescente de jovens estar disposto a dar sua vida por uma vis&atilde;o radical do Isl&atilde;. 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